Sonhar Excelência

Publicado por: Milu  :  Categoria: PARA PENSAR, Sonhar Excelência

esforço

“Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira.”

Léon Tolstoi

“Quem vai aos grandes centros de investigação dos Estados Unidos, como Harvard ou o MIT, encontra lá hoje muitos estudantes e jovens investigadores asiáticos, chineses ou indianos. Trabalham incansavelmente, até de noite, até nos feriados, enquanto os outros vão de fim de semana. Para comer abrem um embrulho que trouxeram com eles, bebem uma chávena de café,

e nada mais.

Alguns voltam para o seu país onde irão ser chefes. Outros afirmam-se e entram a fazer parte da elite.

Há cinquenta anos eram os europeus que agiam assim. Eram os refugiados, os intelectuais, os estudiosos do velho continente que tornaram grandes e famosas as universidades americanas. Mas hoje são poucos os jovens europeus dispostos a dedicar-se à investigação pura, a fazer estes sacrifícios. Vemos isto também na Itália. Os melhores estudantes não ficam na universidade. Assim que se formam procuram um lugar bem remunerado numa grande empresa. Outros fazem o mestrado e cursos de especialização, mas sempre tendo em vista uma carreira profissional brilhante. E não ficam decerto nos laboratórios e nas bibliotecas durante a noite ou nos fins de semana.

Sempre aconteceu assim. A elite, conquistadas a riqueza e o bem-estar, abranda a corrida, consolida o seu prestígio, ocupa as posições de chefia. Mas a sua energia diminui. E então,

do mais fundo da sociedade, dos condenados da terra, emergem outros jovens impelidos pela necessidade, mais fortes, mais motivados. Como que guiados por um instinto, vão para os centros mais importantes, para junto dos professores mais famosos, para aprender, para se tornarem como eles.

Porque é que nalguns lugares, como na Atenas da Antiguidade e na Florença do Renascimento, floresceram tantos génios? Porque estavam lá concentradas as pessoas mais inteligentes, mais criativas, mais ambiciosas, mais exigentes. Porque tinham afluído para lá as mais motivadas, desejosas de aprender, de afirmar-se, de serem bem sucedidas. O papa Júlio II pediu a Miguel Ângelo uma obra extraordinária e ele deu-lha. Os medíocres pedem coisas medíocres, os grandes pedem coisas grandes. Estando no meio dos grandes todos se tornam maiores.

Entre os seres humanos há enormes diferenças. Uns tornam-se milionários, outros morrem de fome. Uns constroem arranha-céus, outros barracas. Mas estas espantosas desigualdades dependem só em parte de diferenças nos dons naturais. Estes, para se desenvolverem, precisam de um ambiente adequado. Que poderia ter feito um génio da palavra como Dante se tivesse vivido numa tribo de guerreiros iletrados? De certeza que não escreveria a «Divina Comédia». A criança aprende a fazer bem as coisas que lhe são ensinadas e pedidas pelos pais, pelos mestres. O adolescente é estimulado pelos amigos, pelo grupo. Elvis Presley e Jerry Lee Lewis criaram o rock, respondendo aos estímulos da música negra e às necessidades dos seus contemporâneos.

Disto deriva uma consequência. Quem quiser crescer tem de ir à procura do lugar e das pessoas entre as quais as suas qualidades possam ser estimuladas e postas à prova.

Tem de abandonar a sua casa, os seus hábitos e ir para onde se inventa o novo, onde tudo é possível. Mas para fazer isso é preciso uma grande coragem, uma energia incomensurável.

Talvez o factor mais importante do êxito seja esta energia, mais ainda que as qualidades naturais.

Enquanto que aquilo que trava, bloqueia e faz perder a oportunidade é sempre um misto de inércia, de pessimismo e de preguiça.

Bibliografia

ALBERONI, Francesco. (2000). Tenham Coragem. Bertrand Editora. Venda Nova. pp. 55-56.

Silêncio redentor

Publicado por: Milu  :  Categoria: PARA PENSAR, Silêncio redentor

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“Quando um homem tem dentro de si uma verdade que quer ouvidos, até peixes lhe servem para auditório. Santo António que o diga..”

Miguel Torga

 

“O processo criativo é constituído por duas fases opostas. Uma de abertura, na qual nós duvidamos de tudo, absorvemos tudo e assimilamos tudo. Tornamo-nos numa espécie de casa sem portas e sem janelas na qual o vento entra livremente. Na segunda fase, pelo contrário, as portas e janelas estão trancadas e temos de recorrer a uma energia profunda que está dentro de nós.

A aprendizagem é a abertura. Se quisermos compreender um novo país, não devemos manter-nos sempre com os nossos compatriotas. Não devemos criticar e afastar tudo o que é diferente e estranho. Mas sim deixarmo-nos penetrar, impregnar pela diferença. Também quando sentimos a diferença de uma forma quase ofensiva, dolorosa. O mesmo acontece quando começamos a estudar uma língua nova. É inútil procurar comparações com as palavras que já conhecemos, usar só as expressões mais parecidas com as nossas. Devemos abandonar-nos totalmente, mergulhar nela. Com efeito, fala-se de «full immersion».

No exército, o objectivo da instrução militar, com as suas provas duras e humilhantes, é precisamente o de deitar abaixo a personalidade anterior. E as perseguições e partidas a que é sujeito o recruta por parte dos mais velhos têm esse mesmo significado. Deitar fora o passado, fazer um lugar para o novo.

Também quando começamos uma nova investigação científica devemos pôr em dúvida todas as nossas teorias, as nossas convicções anteriores. Partir do pressuposto de que até agora errámos sempre. Não procurar a confirmação das nossas ideias, mas aquilo que as contradiz, que as desmente.

Porém, quando a nossa mente se dispõe a criar o novo, a dada altura começa a fechar-se. Concentra-se num problema, anda continuamente, obcecadamente, à sua volta. Enquanto antes estávamos ávidos de estímulos, agora andamos à procura das informações que nos sejam úteis. É como se nos encontrássemos diante de um puzzle. Observamos os fragmentos apenas para descobrirmos o seu desenho geral e para encontrarmos os que encaixam no lugar certo. Os outros pomo-los de parte.

Até que chega a altura em que temos de fechar as portas exteriores e abrir as interiores, as que dão acesso à misteriosa energia que temos em nós.

O mundo exterior nada nos pode dar.

Nem mesmo os livros. Até na escola há o período dos exames depois do período de estudo.

O estudante está sozinho.

É para todos o momento da solidão, do afastamento do mundo.

Os romancistas, os músicos, os cientistas, os filósofos encerram-se num quarto ou mantém-se levantados de noite quando ninguém os perturba.

Outros procuram um refúgio no campo,

num lugar solitário. (…).

Então, quando já criámos o silêncio e o vazio, o caminho revela-se à nossa mente. Vislumbramo-lo, perdemo-lo, reencontramo-lo.

Só temos de saber ouvir o misterioso guia interno

que nos diz se o passo que temos de dar é o correcto. Nos Antigos esta impressão era tão forte que invocavam a inspiração de um deus ou das musas. Dante faz-se conduzir por Virgílio.

Mas também na nossa época, até a pessoa mais desencantada tem a impressão de não ser ela a procurar, a pensar, a encontrar. Mas sim que os pensamentos lhe vêm sozinhos. E que aquilo que alcança não foi construído por ela, foi-lhe desvendado como uma graça.

O criador é o primeiro a ficar estupefacto com a sua descoberta, com a sua obra.

Bibliografia

ALBERONI, Francesco. (2000). Tenham Coragem. Bertrand Editora. Venda Nova. pp. 32-33.