Teorias de Schopenhauer

Publicado por: Milu  :  Categoria: PARA PENSAR, Teorias de Schope...

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Imagem retirada daqui

“Schopenhauer preocupava-se com o que tornava o homem – supostamente a mais racional de todas as criaturas – tudo menos razoável. (…). O filósofo deu um nome à força interior que, na opinião dele, tinha invariavelmente precedência sobre a razão, uma força bem poderosa para distorcer todos os planos e juízos da razão e que ele designou como vontade de viver, definida como o impulso para se manterem vivos e se reproduzirem, inerente aos seres humanos.”

“A vontade de viver chegava a fazer os deprimidos lutar pela sobrevivência quando se viam ameaçados por um naufrágio ou uma doença grave. (…). A vontade de viver conduz-nos para pessoas que prometem aumentar as nossas hipóteses de produzir uma prole bela e inteligente e afasta-nos das que reduzem essas hipóteses. O amor não é mais do que a manifestação consciente da descoberta, por parte da vontade de viver, de um parceiro ideal para completar-mos o binómio pai/mãe”:

Alain De Botton

“No momento em que [duas pessoas] começam a amar-se – ou a gramar-se, para usar uma expressão mais justa – deve na realidade ser considerado como o início da formação de um novo indivíduo.”

Schopenhauer

“Ao conceber o amor como biologicamente inevitável, fundamental para a continuação da espécie, a Teoria da Vontade de Schopenhauer convida-nos a adotar uma atitude mais tolerante em relação ao comportamento excêntrico a que o amor tantas vezes nos sujeita. Nos primeiros encontros, por detrás da conversa fiada, o inconsciente de ambas as partes avaliará se de um futuro ato sexual poderá resultar uma criança saudável.”

Alain De Botton

“Há algo de muito peculiar na seriedade profunda, inconsciente, com que dois jovens de sexos opostos se avaliam quando se encontram pela primeira vez, no olhar curioso e penetrante que lançam um ao outro, na cuidadosa inspeção a que são submetidas todas as partes e caraterísticas das suas respetivas pessoas. Esse escrutínio, esse exame, é o génio da espécie a meditar sobre que tipo de indivíduo poderá resultar desses dois.”

Schopenhauer

(…). “A vontade de viver quer certificar-se de que a geração seguinte vai ser, tanto ao nível físico como psicológico, capaz de sobreviver num mundo perigoso e, portanto, procura que as crianças tenham um corpo bem proporcionado (nem demasiado altas, nem demasiado baixas, nem demasiado magras, nem demasiado gordas) e sejam mentalmente equilibradas (nem demasiado tímidas, nem demasiado imprudentes, nem demasiado frias, nem demasiado emotivas, etc.).

Visto os nossos pais terem cometido erros nos seus namoros, é pouco provável nós próprios sermos idealmente harmoniosos. Em geral saímos muito altos, muito masculinos, muito femininos; com grandes narizes, com queixos pequenos. Se fosse permitido a esses desequilíbrios continuarem, ou agravarem-se, a raça humana em breve se tornaria muito esquisita. A vontade de viver deve, pois, dirigir-nos para pessoas que podem, com as suas imperfeições, cancelar as nossas (um nariz grande com um nariz imperceptível promete um nariz perfeito) e, assim, ajudar-nos a garantir a harmonia física e psicológica da próxima geração”:

Alain De Botton

“Todos procuram eliminar, por meio  do outro indivíduo, os seus próprios pontos fracos e desvios à regra, não vão eles perpetuar-se, ou mesmo dar origem a absolutas anormalidades, na criança que for produzida.” 

Schopenhauer

“A Teoria da Neutralização deu a Schopenhauer a confiança para falar em padrões de atração. As mulheres baixas apaixonam-se por homens altos, mas é raro um homem alto apaixonar-se por uma mulher alta (devido ao receio inconsciente de produzirem gigantes). Os homens efeminados que não gostam de desporto sentem-se muitas vezes atraídos por mulheres de aspecto masculino e cabelo curto (que usam relógios robustos)”:

“A neutralização das duas individualidades… exige que o grau específico da virilidade dele corresponda rigorosamente ao grau de feminilidade dela, por forma a que a unilateralidade de cada um possa cancelar por completo a do outro.”

Schopenhauer

“Infelizmente a Teoria da Atração levou Schopenhauer a uma conclusão tão sombria que talvez seja melhor os leitores que vão casar em breve não lerem os parágrafos que se seguem, para não terem de repensar os seus planos; nomeadamente, que uma pessoa cem por cento ideal para o nosso filho quase nunca é (embora na altura não dêmos por isso, cegos como estamos pela vontade de viver) a ideal para nós. “

Alain De Botton

“O amor… pode recair sobre pessoas que, para além da relação sexual, seriam consideradas detestáveis, desprezíveis e mesmo abomináveis pelo amante. Mas a vontade da espécie é tão mais forte do que a do indivíduo que o amante fecha os olhos a todos os aspetos repugnantes, ignora tudo, troca tudo e une-se para sempre ao objeto da sua paixão. Deixa-se, pois, apaixonar totalmente por essa ilusão, que desaparece mal a vontade da espécie é satisfeita, deixando para trás um parceiro odiado a vida toda. Só assim é possível explicar porque razão tantas vezes vemos homens racionais, eminentes até, amarrados a mulheres desordeiras, suas inimigas por matrimónio, e não percebem como foram capazes de fazer tais escolhas… Um homem apaixonado pode mesmo identificar, com amargura, na sua noiva, defeitos de temperamento e caráter intoleráveis, que anunciam uma vida de infelicidade, sem, no entanto, voltar atrás… pois, em última análise, não é a satisfação dos seus interesses que ele busca, mas sim a dos de um terceiro que ainda nem veio ao mundo, embora esteja convencido de que agiu em seu próprio benefício.”

Schopenhauer

“Assim, um belo dia, uma mulher de aspecto masculino e um homem efeminado avançarão para o altar levados por motivos que nem eles, nem ninguém suspeitam quais sejam. Só mais tarde, quando as exigências da vontade forem satisfeitas  e um miúdo robusto se puser aos pontapés à bola, num jardim suburbano, será descoberto o estratagema. O casal separar-se-á ou passará a jantar num silêncio hostil. Schopenhauer deu-nos a escolher” –

Alain De Botton

“Parece que, no casamento, alguém tem de ficar a perder: ou o indivíduo ou o interesse da espécie.”

Schopenhauer

 

Alain De Botton in ” O Consolo da Filosofia”