Sinais do Futuro

Publicado por: Milu  :  Categoria: Sinais do Futuro, SOCIEDADE

“Lá longe, ao sol, encontram-se as minhas aspirações. Poderei não alcançá-las, mas posso levantar os olhos, ver a sua beleza e acreditar nelas”.

Mark Twain

No dia 3 de Junho, participei num Seminário, subordinado ao tema (trans) Formar o Poder (trans) Formador da Formação, que teve lugar no Hotel Villa Batalha, que fica situado muito pertinho do museu da Batalha, ex-libris desta simpática vila.

Pois no dito Semanário, e tal como sempre procedo, fui retirando alguns apontamentos que no momento considerei mais expressivos e que decidi aqui partilhar. Contudo, estes não representam a totalidade daquilo que fui absorvendo, que fui interiorizando, porque o mais importante, a inspiração, a satisfação sentida pela descoberta, e pela confirmação de muito daquilo que eu mesma já pensava, eu não sou capaz de transmitir. Só aqueles que se encantam com o aprender, serão capazes de  perceber, de  intuir.

Aliás, talvez  até seja capaz de explicar a satisfação sentida quando se aprende, utilizando o seguinte  exemplo apresentado pelo psicólogo João Leite, na sua actuação no Seminário:

ECA – Os  Três Pilares da Aprendizagem

  1. Emoção
  2. Curiosidade
  3. Atenção

A Emoção é o que incendeia, pois não se aprende a seco. Repare-se que aqui estamos a falar de aprender e não de decorar matérias.

A Emoção faz despertar, produz, a Curiosidade, que por sua vez, dá lugar à Atenção. E é nestes momentos, que alguns de nós, perante a descoberta, pronunciamos, ou sentimos interiormente,  um longo «Ahhhhhhhhh».

Outra coisa a saber: Nenhuma competência nova aparece do zero. Seja qual for a competência, já alguma vez, fizemos, ou estivemos em contacto, com algo parecido. Por exemplo, o bisturi mestriamente manuseado pelo cirurgião, se bem repararmos, em muito se assemelha ao “empunhar” de um lápis, gesto que remonta para a infância. Logo, não se aprende sem fazer. Assim, todo o Formador, se quer que os Formandos aprendam, deve pô-los a Fazer.

Cabe agora também referir as Quatro Plataformas da Aprendizagem:

  1. Sensorial
  2. Comportamental
  3. Emocional
  4. Cognitiva

Sobre as Emoções, convém salientar que estas são uma fonte essencial da aprendizagem, já que  as pessoas, quer sejam as crianças, os adolescentes, os adultos e idosos procuram actividades e ocupações que fazem com que elas se sintam bem, e tendem, pelo contrário, a evitar actividades ou situações em que se sintam mal.

O Seminário teve a sua abertura oficial com a intervenção do Presidente do Conselho Directivo do IEFP. A. Valadas da Silva, que dissertou sobre Competências, que é obrigação do Formador desenvolver no Formando competências técnicas, mas também competências sociais e comportamentais. Que deve saber, também,” inspirar sonhos” e  “possibilidades de” no Formando. Que devemos usar de sensibilidade para assim operar a Mudança… começando pelos nossos filhos…

Já Cristina Botas, Directora DRH do CENFIM, professou que “o Formador deve de ser o Facilitador de Aprendizagens – Motivar, Influenciar, Transformar”. As emoções, o afecto, mais uma vez chamadas à colagem, assumindo-se como “uma mulher de afectos” quando proferiu que “cada formando que passa por nós [Formadores] deixa qualquer coisa de si”. Continuando que o “Formador deve ser uma referência”, não só deve formar com competências técnicas mas também incutir valores morais, em suma, deve Formar Pessoas.

Quanto a Jorge Rio Cardoso, Professor Universitário, este iniciou a sua intervenção confessando que nem sempre foi brilhante. Declarou que começou por ser um péssimo aluno. Chumbou duas vezes. Teve imensos problemas de auto-estima, para ele não existiam regras, etc. Contudo, uma mudança se operou nele quando enveredou pelo atletismo, actividade que lhe foi incutindo regras, como por exemplo, a necessidade de cumprir horários. Com o desempenho desta actividade teve também importantes conquistas: perdeu o medo de errar, de falhar.

No fundo, e agora sou eu que o afirmo – a vida é um jogo, e em todo o jogo, há momentos em que se falha, por isso se perde, mas também há momentos em que se ganha, momentos de vitória.

Referiu que qualquer formador tem que ter em linha de conta três princípios, os quais devem ser sempre observados no seu desempenho:

  1. “O que vou ensinar?”
  2. “Como vou ensinar?”
  3. “Como medir o sucesso?”

Para levar a bom termo a formação deve o formador encaminhar a Informação no sentido do Conhecimento e deste para a Sabedoria.

Para exemplificar esta “Trilogia” socorreu-se de um exemplo bastante simples, que irei tentar descrever, sei que não foi bem assim, mas penso que é suficiente para entender:

Num dia de manhã, ao acordar, você vai à janela e vê o céu carregado de nuvens cinzentas. De imediato,  forma-se em si a ideia de que possivelmente irá chover, pelo que ao sair de casa para ir para o emprego, à cautela, mune-se de uma gabardina e de um guarda chuva. Ora, neste gesto tão simples, tão corriqueiro, está implícito um mecanismo:

  1. A informação – sabe que o céu está cinzento, carregado de nuvens;
  2. O conhecimento – sabe que quando assim acontece, o mais provável é que irá chover;
  3. A sabedoria – Prevenção, previne-se para evitar um mal, uma constipação. É isto que é a sabedoria. Agir de forma a evitar um mal. Capacidade de projecção do que pode acontecer.

Assim, todo o Formador deve ter presente que todo o conhecimento a ministrar deve estar na direcção da sabedoria. E é esta competência que tenderá a ser muito valorizada nas empresas do Futuro – a capacidade de antecipar problemas aliada à capacidade de criar soluções.

Ninguém consegue aprender se estiver triste – afirmou Jorge Rio Cardoso. É, por conseguinte, imprescindível imprimir energia positiva.

Referiu também o Triângulo Pedagógico e a relação entre os seus três elementos, que podem ser conjugados de diferentes formas. Se em tempos, a relação privilegiada foi:

Formador ⇒ Saber ⇒ Aluno. Em que o Formador “despejava” o Saber sobre o Aluno, actualmente, a relação privilegiada é Formador ⇒ Aluno ⇒ Conhecimento. Ou seja, da interacção dos dois primeiros elementos, Formador e Aluno resulta o Saber ou Conhecimento. Ambos, Formador e Aluno aprendem. O papel do Formador é aqui o de Facilitador.

 

Legenda – Triângulo Pedagógico

Referiu, também, que actualmente não é mesmo nada fácil ser professor… Explicou como deve ser elaborada uma aula para ser bem sucedida. Primeiramente há que ter em conta que a 1ª aula é fundamental para prevenir a disciplina, ou seja, é o momento próprio para impor regras, para declarar ou negociar aquilo que pode e não pode ser feito na aula, podendo ser estabelecidas as sanções para punir os “delitos” cometidos.

É também importante elaborar o desenho da aula, tendo em conta que deve compreender os momentos de descompressão, mas de tal modo que permita retornar ao fio da meada assim que o queira. De 10 em 10 minutos deve o formador (professor) recapitular, fazer um ponto da situação, para dar oportunidade àqueles que entretanto se perderam no raciocínio ou se distraíram.

Algo que eu, que estou a elaborar este post, autora deste espaço,  considero extremamente importante!

O Formador (Professor) deve, também, ter as melhores expectativas sobre o Formando ou Aluno. Quando estamos perante alguém que consideramos capaz de aprender uma determinada matéria projectamos essa confiança nesse alguém, e então é isso que acontecerá. Ou seja, o que pensamos do Formando ou Aluno influencia os resultados. Por tudo isto impõe-se como importante formar as melhores expectativas sobre todos os Formandos ou Alunos.

Até porque a missão do Formador é tornar a pessoa capaz de aprender. E, por conseguinte, formar as pessoas para fazerem de si  mesmas bons cidadãos.

Deve o Formador ter sempre presente que constitui um modelo de referência pois mesmo sem se aperceber incute valores com o seu comportamento, com o seu desempenho, com a imagem de si que projecta nos outros.

“Mais do que cabeças que sabem muita coisa, precisamos de cabeças que sabem pensar.”

O Formador deve operar a mudança (transformação) nas  pessoas. Torná-las capazes de de dar opiniões, treinadas para soluções e conhecedoras de como buscar a informação que se impuser como pertinente.

O Formador deve criar empatia com os Formando mas de tal modo que não sacrifique as regras, tendo em linha de conta de que se não há educação sem valores, também não há educação sem afectos.

Por outro lado devemos fazer uma grande conquista que consiste em tornarmos-nos emocionalmente aptos, ou seja, identificar as nossas emoções e saber gerir essas emoções.

O Formador ou Professor deve ser capaz de influenciar os Formandos ou Alunos a encantarem-se pela vida, pois encantar-se pela vida, é, por consequência, encantar-se com o Conhecimento. Porque motivar para a vida  é ensinar que a vida engloba muitas coisas e uma delas é a escola.

Jorge Rio Cardoso fechou a sua admirável e brilhante intervenção de uma forma também admiravelmente brilhante – com Almada Negreiros:

“Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade.”

Almada Negreiros

Intervenção do psicólogo João Leite

Nos momentos iniciais da sua intervenção, João Leite chamou a atenção para o facto de andarmos a  utilizar o termo pedagogia mesmo quando estamos no âmbito de ensino dos adultos, mas que neste caso é de andragogia que se trata, uma vez que pedagogia é relativo a crianças. A ciência da Andragogia não é assim tão recente como se possa pensar, já que tem cerca de 60 anos. A primeira referência conhecida que lhe foi feita data do ano 1956.

Segundo João Leite já é tempo de deixar de ensinar e passar a investir na aprendizagem das pessoas. Quanto mais ensino, menos pessoas aprendem. Também de acordo com João Leite deve-se investir na Aprendizagem Significativa, em detrimento do Ensino Tradicional, e  que se traduz pelo seguinte esquema:

Recomenda que não se deve começar as aulas apresentando conceitos ou definições, já que só se aprende quando se consegue ligar as coisas, os assuntos. Só se aprende a partir daquilo que já se sabe, como se fosse uma escada, nunca a partir do zero.

Resumindo, o Formador deve tornar as pessoas capazes e uma vez capazes, livres e  autónomas.

GALERIA DE FOTOS

Jorge Rui Cardoso

João Leite

Cristina Botas

Ana Raimundo

 

O Eldorado

Publicado por: Milu  :  Categoria: O Eldorado, SOCIEDADE

“O espírito que nos anima pode assumir as mais diversas formas: tornar-nos semelhantes a anjos, a demónios ou a bestas. A cada um a sua escolha.”

Henry Miller

De vez em quando sinto necessidade de tornar a ler livros que já li há muito. Alguns, lidos na minha juventude. É como revisitar os lugares onde fui feliz.

Desta feita, calhou ao grande Henry Miller.

Numa altura em que os Estados Unidos da América andam na boca do mundo,  nomeadamente na figura do seu presidente Donald Trump, eis que chego a uma descrição deste país, através de Henry Miller, na sua obra “Pesadelo em ar condicionado“, que é no mínimo curiosa.  Este livro foi escrito na década de 40 do século passado, mais precisamente em 1945. Quando o li na minha juventude, provavelmente a minha atenção não se quedou nesta descrição. Era muito jovem para me perder nestes detalhes. Talvez eu quisesse saber outras coisas. Mas agora que reli à luz dos acontecimentos da actualidade, não pude deixar de ficar pensativa. Por momentos, recordei um ex colega e a sua experiência nos USA, onde trabalhou uma temporada,  que uma vez me disse “aquilo é o puro capitalismo, o capitalismo puro e duro!”. E eu ouvi isto e fiquei absorta, a tentar imaginar, em vão, como teriam sido as suas vivências.

Miller, um americano nascido em New York, fala assim do seu próprio país:

“New Hope é uma das colónias de arte da América. Recordo-me vivamente do meu estado de espírito ao deixá-la, o qual se pode resumir no seguinte: Não há esperança para o artista! Os únicos artistas que não levavam uma vida de cão eram os comerciais; tinham belas casas, belos pincéis, belos modelos. Os outros viviam como condenados a prisão perpétua. Esta impressão foi confirmada e tornou-se mais profunda durante o resto da viagem.

A América não é país para um artista – porque um artista é considerado moralmente um leproso, uma pessoa economicamente desajustada, socialmente passiva. Um suíno alimentado com cereais leva vida melhor que um criador, seja ele escritor, pintor ou músico. Um coelho desfruta ainda de melhores regalias” (Miller, 1971: 14-15).

“A América é povoada, como todos sabemos, por pessoas, ou seus descendentes, que fugiram de situações tão desagradáveis. A América é a terra par excellence dos expatriados, dos fugitivos, dos renegados, para usar uma palavra mais forte. Poderíamos ter construído um mundo maravilhoso neste novo continente, se tivéssemos realmente rejeitado os nossos semelhantes da Europa, da Ásia e da África. A América ter-se-ia tornado um admirável mundo novo, se tivéssemos tido coragem de voltar costas ao antigo para construir a partir do nada, aproveitando apenas o solo, a fim de eliminarmos os venenos que se acumularam através de séculos de amargas rivalidades, invejas e profundos conflitos.

Um mundo novo não se constrói procurando esquecer o antigo.

Um mundo novo alicerça-se num espírito novo, em novos valores. O nosso mundo poderia ter começado daquela maneira, mas hoje é somente uma caricatura.

O nosso mundo é um mundo de coisas.

É todo ele constituído por comodidades e luxos, ou então pelo desejo de os alcançar. O que mais tememos, ao encarar o débâcie iminente, é sermos obrigados a abandonar as nossas futilidades, as nossas engenhocas, todos os pequenos objectos cómodos que nos tornaram tão desconsolados. Não há nada de admirável e de cavalheiresco, de heróico ou de magnânimo, nas nossas atitudes. Não somos almas tranquilas; somos presunçosos, tímidos, demasiado escrupulosos, enfastiados e instáveis” (Miller, 1971: 15-16).

 “Tive de percorrer cerca de quinze mil quilómetros até conseguir a necessária inspiração para escrever a primeira linha do meu livro. Podia contar num máximo de trinta páginas tudo o que se me afigurava digno de ser dito sobre a vida americana. Topograficamente, o país é magnífico… e aterrador. Aterrador porquê? Porque em nenhum outro ponto do mundo é tão absoluto o divórcio entre o homem e a Natureza. Em parte alguma encontrei estrutura de vida tão insípida e monótona como na América. Aqui, o aborrecimento, a sensaboria atingem o seu ponto mais alto.

Estamos habituados a supor-nos um povo emancipado; declaramos que somos democráticos, amantes da liberdade, isentos de preconceitos, que não sentimos ódios. Este é o crisol de uma grande experiência humana. Belas palavras, eivadas de um nobre e idealístico sentimento. Porém, constituímos uma casta vulgar de videirinhos, cujas paixões são facilmente mobilizadas pelos demagogos, pelos jornalistas, pelos charlatães das diversas seitas religiosas, pelos agitadores e por outra gente do mesmo jaez.

Chamar a isto uma sociedade de pessoas livres é blasfémia.

Que temos para oferecer ao mundo além da superabundância de excedentes, daquilo que pilhamos brutalmente à terra, com a ilusão maníaca de que esta actividade insana representa progresso e iluminação? A terra da oportunidade transformou-se na terra da labuta insensata e da luta porfiada. Os objectivos de todos os nossos esforços foram há muito esquecidos. Já não desejamos auxiliar os oprimidos e os indigentes; não há lugar nesta enorme terra vazia para os que, como os nossos avós, procuram agora refúgio. Milhões de homens e mulheres estão, ou estiveram até muito recentemente, a ser socorridos pela assistência pública, condenados como cobaias a uma vida de inacção ou preguiça forçada. O mundo entretanto fixa-nos com um desespero jamais conhecido.  Onde está o espírito democrático? Onde estão os dirigentes?” (Miller, 1971: 18-19).

Bibliografia

MILLER, Henry. (1971). Pesadelo em ar condicionado. Editorial Estampa. Lisboa.

Os males da Mulher

Publicado por: Milu  :  Categoria: Os males da Mulher, SOCIEDADE

“O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles.”

Simone de Beauvoir

 

Desde sempre que a mulher tem vindo a ser associada ao mal. De acordo com o Génesis, o primeiro ser humano a ser tentado e a sucumbir à tentação foi uma mulher. Pois… Tinha de ser…

De então para cá, pobre mulher, saco de porrada, que és culpada de tudo. Mas esta situação pode sofrer uma transformação:

quando as mulheres lograrem perceber o que causa este estado de coisas.

Porque é a causa do mal que tem de ser combatida.

Para tal, aconselho a leitura do excerto que se segue, que foi retirado do livro “Alteridades Feridas”, da autoria de Laura Ferreira dos Santos, doutorada em Filosofia da Educação, pela Universidade do Minho.

“O mal no feminino”

 

“Durante séculos, a reflexão filosófica (e teológica) ocidentais sobre o mal, quando não quis passar à margem do que hoje qualificamos de questões de género – faltaria saber se o conseguiu ou não, mesmo querendo-o -, tendeu muitas vezes a enveredar por discursos que, de um modo mais ou menos explícito, apontavam as mulheres como lugares especiais de existência ou de proliferação do “mal“, ou, pelo menos, de determinado tipo de males (…). Seja como for, por omissão ou não, este contexto teórico, condicionando a vida social mas sendo também, por sua vez, condicionado por ela, não possibilitou a emergência da afirmação da igualdade de direitos e dignidade entre homens e mulheres. Mais, ou pior ainda, este contexto teórico (e “cultural”) impediu que se tomasse consciência da grande manifestação de “mal” existente no interior da própria relação mulher-homem, ao ponto de Ivone Gebara escrever que

“O que constitui a humanidade, a diferença criativa entre os sexos, aparece como um dos lugares privilegiados em que o mal mostra as suas obras” (Santos, 2002: 51-52).

(…)

Através desta narrativa, Gebara pretende assim chamar a atenção para «a particularidade do mal vivido pelas mulheres», o que significa introduzir assumida e conscientemente a mediação da categoria de género na antiga reflexão sobre o mal, utilizando-a de modo a perceber melhor os desequilíbrios ou males existentes no relacionamento entre mulheres e homens.

Na sua perspectiva, é na abertura notória da diferença entre os seres humanos que passa pela diferença de género que o  mal se aloja de uma forma particularmente profunda, embora se possa também acrescentar que de uma forma quase naturalizada, como se o mal estivesse lá mas poucas pessoas o vissem, numa naturalização ou imperceptibilidade que reforçam necessariamente o carácter insidioso desse mal. Pois que é um mal que poucos e poucas vêem, sobretudo aqueles e aquelas que possuem alguma forma de intervenção transformadora do mundo? Obviamente, também um  mal que poucos e poucas combatem, um mal que se traveste nas formas de um destino contra o qual nada há a fazer” Santos, 2002: 52-53).

(…).

“Obviamente, só tomando consciência da amplitude deste mal poderemos depois procurar meios que facilitem uma vivência diferente da alteridade homem-mulher. Nas palabras de Gebara, “Trata-se de um trabalho de cura e de educação das nossas relações“, relações de género, é certo, mas relações que também podemos dizer que as extravasam, pretendendo-se uma relacionalidade diferente entre as pessoas e das pessoas com a natureza e com deus, para quem nele acredita.

Neste contexto, há algumas temáticas desenvolvidas por Ivone Gebara que se revelam a meu ver extremamente elucidativas para situar a questão do mal vivido pelas mulheres. Inicialmente, servindo-se sobretudo de obras literárias escritas por mulheres, em geral pertencentes à América Latina, Gebara focaliza a sua atenção nalguns tipos específicos de mal que as afectam: o mal que experienciam por terem um nulo ou muito reduzido acesso ao ter, ao poder e ao saber, e o mal que também se abate sobre elas por serem encaradas como valendo pouco, sobretudo se não têm a cor da pele considerada mais importante. Muito resumidamente, irei tentar explicitar cada um destes pontos, embora se deve dizer desde já que toda esta enumeração de males só artificialmente pode ser diferenciada, atendendo ao seu entrelaçamento inevitável. Embora a autora faça ainda um esforço por apresentá-los de um modo separado, acaba por ser ela própria a reconhecer que o mal de não-ter arrasta consigo os males de não-poder e de não-valer – a que bem poderia acrescentar o mal de não-saber – todos eles se conjugando para desembocar “no mal antropológico de ser mulher, e, mais ainda, no mistério do mal humano” (Santos, 2002: 54).

Quanto ao mal de não-ter, Gebara assinala sobretudo a situação de grande pobreza económica em que vivem milhões de mulheres, impossibilitando-as de experimentarem um quotidiano alternativo que possa ser fonte de singularização. E embora Gebara tenha por ponto de referência das suas reflexões as sociedades mais pobres, é fácil alargar esse ponto de referência às sociedades economicamente mais desenvolvidas da contemporaneidade, captando que, mesmo aí, as mulheres possuem menos acesso ao ter do que os homens. Algo de semelhante pode ser dito em relação ao poder. Por variadas razões, foi-se instaurando o que Bourdieu designou de «sociodiceia masculina», ou seja, uma legitimação da sociedade e das vivências sociais em termos masculinos. Por isso mesmo, ao longo da história as mulheres foram sendo retiradas do exercício do poder, mesmo naqueles casos em que alguma vez tinham acedido a ele. À semelhança do que foi dito para a questão do ter, também nas sociedades contemporâneas economicamente mais desenvolvidas as mulheres podem menos do que os homens.

Por outro lado, ao mal de não-ter e de não-poder junta-se o mal de não-saber. Neste ponto concreto, Ivone Gebara refere o exemplo da Irmã Juana Inés de la Cruz, mexicana do século XVII, objecto de um estudo de Octavio Paz (Paz, 1987), que a considera a primeira feminista da América Latina. Desejosa de saber mais, Juana entra num convento. Mas as «leis de género» abatem-se sobre ela, tornando-a suspeita de transgredir a natureza ao querer ocupar-se de uma área masculina como era a do conhecimento. Por isso, teve os livros queimados e teve de renunciar ao saber, num movimento que, na perspectiva de Octavio Paz e de Ivone Gebara, nada se assemelhava a um acto de humildade, mas era antes um acto de humilhação «imposto pelas autoridades eclesiásticas responsáveis pela Inquisição na Nova Espanha. Como é sabido, o conhecimento intelectual foi durante séculos um monopólio masculino, julgando-se que as mulheres não tinham capacidade suficiente para aceder a ele, por não estar de acordo com a sua «natureza», ou que deviam limitar-se a adquirir os conhecimentos que ajudariam a governar melhor uma casa. Ainda hoje, como se sabe, a distribuição entre os géneros do conhecimento socialmente prestigiante ou valorizado é algo de bastante desigual.

Finalmente, Ivone Gebara incide a sua atenção no mal de não-valer. Como escreve, em muitas sociedades,

«uma menina não vale por si mesma. Vale quando é submissa ao pai e à mãe, ao seu marido ou simplesmente à sua família. Vale pela sua beleza, pelos serviços domésticos que pode oferecer, pela sua capacidade de ser uma mãe excelente e uma excelente dona de casa. Os homens, sim, os homens valem por si mesmos, pelos seus esforços de autonomia, pelo seu combate para se tornarem pessoas de bem e socialmente reconhecidas».

Pior ainda se a menina ou mulher, para além de não ter o sexo normativo, não tem tão-pouco a cor da pele normativa, que é a branca. Como nos informa Gebara, no nordeste brasileiro era habitual as crianças negras (decerto tanto  meninas como meninos, subentende-se) não serem aceites para irem vestidas de anjo (a) nas festividades religiosas católicas, sobretudo nas que diziam respeito a Maria. Por outro lado, como nos alerta Gebara, sabe-se que há poucas bonecas negras no mercado, que as mulheres negras, em particular as mulatas, ainda mais do que as outras mulheres, são sobretudo vistas como um objecto sexual, e que muitas crianças negras anseiam ter traços de crianças brancas, como aquela menina negra que rezava todos os dias para ter os olhos azuis” (Santos, 2002: 55-56).

(…).

“Por outras palavras, poder-se-ia dizer que, ao longo da história mulheres e homens têm estado colocados em posições excessivas ou extremadas, os homens num excesso de ter, poder, saber e valer, as mulheres num excesso de carência desse mesmo ter, poder, saber e valer” (Santos, 2002: 57).

♦♦♦

“Esconde esse absorvente

Essas espinhas

Arranca esses pêlos

Da um jeito nesse seu cabelo duro

Mal cuidada

Porca

 

Feche esse sorriso

Sua mãe não te ensinou

Sobre o perigo de andar sorrindo na rua?

Abaixa essa cabeça

Para de encarar

Você esta chamando atenção

Assim vão achar que você esta dando mole

 

Delicia

Gostosa

Oh la em casa

Fecha essa boca e não reclama

Saiu de casa de saia curta

Camisa decotada

Maquiagem

Sem um homem

Tem que aguentar

 

Como assim não sabe cozinhar?

Você é mulher

Tem que cuidar do lar

Como assim não quer engravidar?

Você é mulher

Tem que engravidar

 

Faculdade? Viagem?

Mas você é mãe

Tem que cuidar

Abriu as pernas, agora não adianta

Largar na creche

Irresponsável

 

Mãe solteira?

O pai foi embora?

Não sabe quem é o pai?

Transou sem camisinha

Vai ter que aguentar

Vadia

 

Esse roxo ai

Tenho certeza que apanhou

Que teu marido te bateu

Mas você mereceu

Provocou ele

Você sabe que não pode se levantar

Mulher tem que ser submissa

O homem é que comanda o lar

 

Ah, mas que criança linda

É uma menina?

Toma aqui esse vestidinho rosa

Essa coberta de florzinhas

Pinta o quarto de rosa

Um rosa bem bonito

Porquê mulher é monocromática durante a infância

 

Ih, chegou a menarca

Essa vai dar trabalho

Ensina pra ela a se valorizar

Mulher tem que se dar ao respeito

Fala pra ela não deixar ninguém ver esse absorvente

Esse sangue sujo

 

Vai ter que começar a usar sutiã

Os mamilos estão aparecendo pela camisa

Que coisa horrível

Adolescente descuidada

A mãe dessa ai não ensinou nada

 

Foi estuprada?

Morreu no processo?

Devia estar pedindo

Sem sutiã, andava sozinha

Aquele batom vermelho

Aquela bunda enorme

Não sabe que menina tem que ficar em casa?

Deu sorte pro azar

 

Não foi educada

A mãe era solteira

O pai estava é certo de ir embora

Se ela era assim com a filha, imagine com o marido

 

Não foi respeitada

Opressão?

Imagine

 

Olha lá a mãe dela

Na beira do caixão

Olhando pro rosto da filha

Sem cor, sem vida

Um futuro morto antes mesmo do nascimento

Filha de mãe solteira

Sem pai, sem respeito

 

Morreu tão jovem

Aos 17

Uma menina tão linda

Maldita sociedade

Espero que a mãe dela aprenda a lição

E não tenha mais filhos

 

Suicídio?

Mas ela poderia ter começado uma vida nova

Agora que tinha perdido a filha

Poderia terminar a faculdade

Arrumar um emprego

Mas era uma fraca

Era mulher

O destino, a vida, as possibilidades

As pessoas

Cavaram a cova e jogaram ela lá dentro

 

Vitimismo? Preconceito?

Abuso? Agressão?

Cala essa boca e vai lavar uma louça

Você tem uma delegacia só sua

Tem seus direitos

Não luta na vida

(Mas luta na rua)

Não morre na guerra

(Mas morre em casa)

 

Cintia Duarte Montilla

Bibliografia

SANTOS, F. Laura. (2002). Alteridades Feridas. Ensaio Filosofia. Angelus Novus. Coimbra.