Arqueologia do Traje

Publicado por: Milu  :  Categoria: Arqueologia do Traje, SOCIEDADE

 

“As pessoas que cometem erros e que se vestem mal são os verdadeiros estilistas (…).”

Jean Paul Gaultier in (Wilson, 1985: 22)

Ainda há poucas horas, o Facebook teve a gentileza de me recordar uma das minhas mais antigas amizades na grande rede. Pelos vistos, há oito anos que sou amiga do Raul. O que o Facebook não sabe é que essa amizade virtual já existia, alguns anos antes,  numa outra rede social, a comunidade da blogosfera, também ela um fenómeno social.

Ter um blog é ter a possibilidade de estar conectado com outros blogs e seus criadores, referir-se a eles na sua própria escrita e postar comentários nos blogs uns dos outros. E assim se cria uma cultura e nascem amizades. Algumas destas amizades poderão perdurar por muitos anos, como foi o caso. Só por isso vale a pena por aqui andar!

Mas para que serve um blog, que interesse poderá haver em ter um blog?

Na minha singela maneira de ver as coisas, um blog serve para nos expressarmos. E, através do seu blog, cada um se manifesta à sua maneira.  No meu caso, é o gosto que nutro pela partilha do saber, o gosto pela partilha das minhas descobertas. Tantas vezes que me espanto com as revelações que me são feitas através da leitura dos livros… É esse espanto, caro leitor, que eu pretendo partilhar consigo 🙂

Pois aqui estou mais uma vez para fazer o gosto ao dedo, desta feita elaborando um post a que dei o nome de Arqueologia do Traje. E, mais uma vez constatei que resgatar a História dos tempos,  gostar de sociologia e de  antropologia,  torna-se imprescindível  no combate dos preconceitos e estereótipos, que só servem para nos agrilhoarem.

O livro, que hoje aqui apresento, intitulado “Enfeitada de Sonhos“, da autoria de Elizabeth Wilson, fala-nos de vestuário e de modas.

Falar de vestuário, ou de modas, poderá parecer um tema supérfluo, mas neste caso o que está em causa  são os  nossos arquétipos, de algo que permanece vivo no inconsciente colectivo.

Por exemplo: quer queiramos, quer não, domina a ideia de que saias ou vestidos são peças de roupa do universo feminino. Quem diz saias ou vestidos, diz produtos de maquilhagem, que são comummente considerados para usufruto das mulheres, exceptuando as estrelas pop, que até por isso consideramos extravagantes. Ao contrário do que se passa no universo feminino, que neste âmbito é diversificado, efémero e multicolor, de certa forma associado a vaidade, o universo masculino pauta-se pela sobriedade e pela estabilidade, qualidades que sugerem confiança, garantia e firmeza.

É por isso que os artigos que instruem sobre como agir numa entrevista de emprego aconselham a que se apresente vestido de uma forma discreta, simples e convencional, não vá parecer aos olhos do entrevistador uma estouvada (o). Repare-se que ainda não há muito tempo, a mulher que acedesse a uma profissão ou a um cargo profissional, historicamente reconhecido como do domínio dos homens, adoptava uma forma de trajar bastante sóbria, um conjunto de calças e casaco, habitualmente numa cor escura,  respeitando um figurino à semelhança dos homens. O masculino como modelo, afinal. Mas tudo tem uma razão de ser. Foi a razão, que se esconde por detrás da austeridade do figurino masculino que me apaixonou, e que o caro leitor poderá ler no excerto que aqui exponho, que propositadamente intitulei [O porquê da sobriedade masculina].

Recordo-me de ter ouvido algumas vezes uma frase, quando eu ainda era criança, que determinava quem era o macho: “Aqui quem veste calças sou eu”. As calças como um símbolo masculino, como um símbolo de poder, claro. Esta frase pretendia reivindicar uma superioridade e autoridade que era reconhecida aos homens, os legítimos chefes da casa, de acordo com a lei e os costumes desse tempo. Mas havia mais: quem nunca ouviu pronunciar as célebres frases “mulher de pêlo na venta”, e “mulher de tomates” quando se pretendia referir uma mulher corajosa, determinada e como não poderia deixar de ser, um tanto agressiva? Aliás, também era comum dizer-se “uma mulher homem”!

Ora, posto isto, era esperado pensar que as calças teriam sido, desde sempre,  uma indumentária  masculina e as saias e vestidos (esqueçamos o Kilt dos escoceses) indumentárias das mulheres.

Foto de um dos actores de minha eleição

 

Mas  não é verdade. Se resgatarmos a História verificamos que os homens também já vestiram saias, vestidos e usaram cosméticos, quando empoavam “a fronha” e o cabelo com rouge e pó de arroz. Também não é correcto associar à mulher  o vestuário menos sóbrio, adornado de rendas e bordados, uma vez que estas e estes já foram adornos masculinos. E até a invenção do wonderbra, pasme-se, já teve o seu equivalente no masculino, a denominada «coquilha». É só constatar aqui.

Tempos virão em que o vestuário já não servirá para diferenciar géneros. Já vamos vendo por aí cada vez mais os estilistas a avançar com modelos de homens com saias, o futuro da moda masculina a passos largos, pode-se dizer. E sim, já há homens a sair à rua trajando saia e bem maquilhados, uma pequena minoria de corajosos, que não se deixam intimidar pelos olhares de soslaio permeados de desconfiança.

 

Particularmente, a forma como vestimos diz muito de nós, embora haja outros aspectos da nossa maneira de estar que nos revelam, como por exemplo, o que comemos,  como e onde gastamos o nosso dinheiro, etc, etc.

Mas vamos dar a palavra a quem estudou esta área da nossa História:

 

 

“O vestuário estabelece de forma ambígua uma fronteira pouco definida, e as fronteiras pouco claras perturbam-nos. Os sistemas simbólicos e os rituais foram criados em muitas culturas diferentes de modo a reforçarem as fronteiras, já que elas salvaguardam a pureza. É nas margens entre uma coisa e outra que a poluição aparece. Muitos dos rituais são tentativas para conter e separar, inventadas para impedir a corrupção que ocorre quando a matéria espirra de um lugar – ou categoria – para outro” (Wilson, 1985: 13).

“As formas mais antigas de «vestuário» parecem ter sido os adornos, tais como as pinturas corporais, os enfeites, as escarificações (cicatrizes), as tatuagens, as máscaras e fitas que apertavam o pescoço ou a cintura. Muitos destes adornos deformavam, reformavam ou modificavam de alguma maneira o corpo. Os corpos de homens e de crianças, e não só os das mulheres, eram alterados – parece existir o desejo muito espalhado de transcender as limitações do corpo” (Wilson, 1985: 14).

“O crescimento da cidade na Europa, na primeira fase do chamado capitalismo de mercado, no final da Idade Média, assistiu ao nascimento do vestuário da moda, ou seja, de qualquer coisa de qualitativamente diferente e novo”  (Wilson, 1985: 14).

 

Bordados e rendas em traje masculino

 

“Constantemente em mudança, a moda só produz conformismo (…). Vestir-se à moda implica uma pessoa destacar-se e, simultaneamente, fundir-se na multidão, reivindicar o exclusivo e seguir o rebanho. (…). Numa dada época, os ricos usam tecidos dourados, bordados a pérolas, noutra poderão usar caxemira beige e fato cinzento. Numa certa época os homens pavoneavam-se de rendas, saltos altos e rouge, noutra uma tal apresentação estaria próxima da marginalidade e causaria uma agressão de ordem física” (Wilson, 1985: 17).

 

Luis XIV com saltos altos vermelhos em retrato de Hyacinthe Rigaud (1701)

“Durante a época clássica o vestuário costurado era o emblema dos povos bárbaros, e tanto os Gregos como os Romanos vestiam vestes largas com pregas. Com efeito, a distinção mais importante, no que diz respeito ao vestuário, não era, como hoje em dia poderíamos supor, a distinção entre os homens e as mulheres mas sim entre as roupas largas e pregueadas e as roupas costuradas” Wilson, 1985: 30).

A roupa interior era desconhecida em Roma até ser copiada das tribos do Norte e não obstante ser desprezada em razão das suas origens, era quente, o que a tornou popular. Uma tentativa antiga para fazer cumprir as leis sumptuárias foi o decreto de 397, que proibia o uso de roupa interior” (Wilson, 1985: 30).

O vestuário distinguia os ricos dos pobres, os dirigentes dos dirigidos, apenas pelo facto de os trabalhadores usarem mais roupas em lã e não usarem roupas de seda; os tecidos com que eram feitas as suas roupas eram mais grosseiros e menos enfeitados do que as roupas dos seus patrões” (Wilson, 1985: 32).

“O século catorze assistiu à proliferação de estilos muito mais elaborados dos que até ao momento tinham existido, tanto no que diz respeito aos homens como no que diz respeito às mulheres. O gibão para os homens era usado muito curto e apertado, a cote hardie, uma túnica comprida abotoada à frente, também era usada apertada tanto pelos homens como pelas mulheres das classes mais altas. Simultaneamente, os vestidos, também usados pelos homens e pelas mulheres, tornaram-se extremamente largos e compridos, com as mangas ou muito apertadas ou muito largas, as bainhas com cortes fantásticos, enquanto os chapéus e toucas passaram a ter as formas mais extravagantes e mudavam rapidamente de formato, com picos, campanários, turbantes e fezes. Os sapatos passaram a ser exageradamente compridos à frente e bicudos” (Wilson, 1985: 33-34).

“Algumas partes do corpo, especialmente a perna feminina, tinham sempre de estar tapadas; outras partes eram, num dado momento, tapadas, noutro, ostensivamente reveladas, e a moda masculina da coquilha, que talvez tenha sido a moda mais exibicionista de todos os tempos, consistia numa «modesta» cobertura para os órgãos genitais, que aparecia debaixo do curto gibão, o que ainda chamava mais a atenção para os órgãos sexuais, que supostamente devia encobrir” (Wilson, 1985: 36).

“As novas modas masculinas puseram o corte à frente do adorno, da cor e da exibição. Abandonaram as pinturas e o estilo efeminado e afectado. Mas as calças apertadas, justas ao corpo, dos  dandies de 1880 eram altamente eróticas.  Tal como a sua nova masculinidade sem pinturas. Durante os séculos dezanove e vinte, uma variedade de modas masculinas como, por exemplo, a barba completa, o dandyismo Eduardino ou os fatos suaves de cocktail de Clark Gable e de Gary Grant, na década de 30, longe de fazerem parte de uma retirada da moda, representavam apenas uma abordagem mais oblíqua, mais subtil, mais complexa, da sedução, do que as sedas e cetins do homem da corte do «ancien régime»” (Wilson, 1985: 43-45).

[O porquê da sobriedade masculina]:

Só no século dezoito, apesar de tudo, é que a homossexualidade começou a ser encarada como uma condição psicológica permanente, como uma «identidade determinante» e uma prática sexual. Antigamente, os actos homossexuais eram vistos como pecado, mas considerados potenciais em todos os indivíduos, dado o carácter pecaminoso da natureza humana «caída». Agora não se tratava mais de uma questão de actos diabólicos, era mais uma questão de se ser homossexual, e isto era uma condição permanente. Tal como a sodomia havia sido abominada, tem-se defendido de que de certa maneira se atribuiu um estigma maior a esta nova identidade sexual do que ao velho comportamento pecaminoso. Portanto, não é de admirar que se tenha tornado tão importante dar um testemunho, por meio de um vestuário masculino, de que não se é efeminado. A crescente padronização do vestuário agiu como reflexo de auto-defesa contra estes novos medos. O domínio da burguesia implicava a vitória dos ideais de trabalho, de esforço e de sobriedade; e o homem de negócios ou com uma profissão, vestido de preto, representava uma ética muito diferente da do cortesão lânguido ou até da do mercador vestido garridamente, na Florença do Renascimento” (Wilson, 1985: 45-46).

“No decurso do desenvolvimento económico, tornou-se o ofício da mulher consumir abundantemente para o chefe da família; e o seu vestuário tinha este objectivo em vista. Aconteceu que o trabalho obviamente produtivo era estranhamente pejorativo para as mulheres respeitáveis e, consequentemente, faziam-se esforços especiais, no que diz respeito ao fabrico do vestuário feminino, para dar a entender que as suas utilizadoras, de facto (ou em ficção), não faziam, nem podiam normalmente fazer, qualquer tipo de trabalho útil. A esfera (feminina) era no lar, que ela tinha obrigação de «embelezar» e do qual devia ser o «adorno principal»… Em virtude da sua descendência de um passado patriarcal, o nosso sistema social atribui à mulher a função, em certa medida, de pôr em evidência o poder de compra do chefe da família…” (Wilson, 1985: 72-73).

[Sobre roupa interior]

“É normalmente a roupa interior que está mais associada ao erotismo e, no entanto, a roupa interior era desconhecida antes do século dezanove” (Wilson, 1985: 138).

“Durante centenas de anos, as mulheres enchiam as saias com saiotes, «rolos metálicos», armações, almofadas e crinolinas, ou simplesmente por meio de combinações. Então, durante as duas primeiras décadas do século dezanove, quando o traje feminino consistia de um estreito colado ao corpo, elas usavam calções justos e, pela primeira vez, cuecas compridas, ou ceroulas, muitas vezes visíveis por debaixo das suas saias diáfanas. (…) as ceroulas asseguravam a preservação da modéstia, no caso de a armação voar com o vento, mas estas ceroulas, indecentes aos nossos olhos modernos, só se uniam na cintura e eram, além disso, abertas entre as pernas. As cuecas «fechadas» só apareceram no século vinte ou pouco antes disso (Wilson, 1985: 139).

É possível que o progresso das calças para as mulheres seja a mudança da moda mais significativa do século vinte. Durante séculos, as pernas das mulheres do Ocidente tinham andado escondidas, as calças e os calções só tinham sido usados pelas actrizes, acrobatas e outras mulheres de moral duvidosa, Paradoxalmente, nas culturas islâmicas, as mulheres usavam calças e os homens saias, mas no mundo ocidental, até por volta de 1900, só as operárias usavam calças, e normalmente só as que faziam os trabalhos grosseiros, e as mulheres de espectáculo, vestiam calças ou mostravam as pernas e, quando o faziam, a sua moral era contestada” (Wilson, 1985: 218).

 

EPÍLOGO

“Não se sabe o que não se sabe, mas quando se sabe deve haver responsabilidade, assim é o verdadeiro sábio responsável para com a verdade. Pois a pergunta é a fechadura, e a resposta a chave, e nela se abrirá o conhecimento da verdade.”

Manuscritos do Tempo por Gerson Machado De Avillez

 

Bibliografia

WILSON, Elizabeth. (1985). Enfeitada de Sonhos. Edições 70. Lisboa.

 

Carunchos pios

Publicado por: Milu  :  Categoria: Carunchos pios, SOCIEDADE

 

“Esta é decididamente uma Idade Média macho. Pois que todos os conceitos que até mim chegam e me elucidam são sustentados por homens, convencidos da superioridade do seu sexo. Só os oiço a eles”.

  (Duby, 1988:5) .

 

Recentemente, o país acordou à gargalhada com as declarações do cardeal-patriarca Manuel Clemente (ler aqui), quando aconselhava a abstinência sexual aos recasados. Não faltou quem, apesar do muito que se riu, se sentisse indignado com esta intromissão na vida privada das pessoas. E na verdade há razão para tal.

Afinal, já não vivemos na Idade Média, quando as pessoas não sabiam ler e, por conseguinte, devido à profunda ignorância, engoliam com gosto todas as patranhas. Actualmente, só conseguirão enganar, que ainda enganam, todos aqueles a quem falta a capacidade de discernimento suficiente para perceber que, tanta obsessão por tudo quanto esteja ligado ao sexo, não pode ser coisa boa. Depois, os casos de pederastia, por sinal bastante abundantes, no seio da Igreja, retiram-lhe a última réstia de autoridade moral para se pronunciarem nestes domínios.

Mas, se bem visto, e tendo em conta tanta moralidade, poderá parecer aos mais desprevenidos, que  o casamento é obra da Igreja, que foi esta que terá criado a instituição do casamento, já que tão preocupada com as coisas do sexo, teria que as regular.

Mas é bom saber a verdade e, neste caso, saber a verdade é estar cada vez mais perto da libertação e não ceder a chantagens.

A verdade, então, é que nos primórdios da humanidade, os homens e as mulheres viviam um comércio sexual livre. Ou seja, não havia maridos e esposas, mas antes homens e mulheres e os seus instintos. Quando  a humanidade deixou de ser nómada e se sedentarizou, fundando as sociedades e a consequente  propriedade privada, o homem sentiu necessidade de ter descendência para lhe transmitir o seu património. Mas como saber quais eram os seus filhos se não tinha uma mulher apenas sua? Convém salientar que, os casamentos tinham como móbil primordial a herança,  feitos por interesse económico, sistema de organização social que perdurou por longos séculos.

Primeiramente, as sociedades foram regidas por sistemas matrilineares (organização de família; linhagem na qual só a descendência pela linha materna é levada em conta).  Ou seja, uma família podia ter a certeza que os filhos das filhas eram do seu sangue. Quanto aos filhos dos filhos, sê-lo-iam ou não. Para contornar esta dificuldade da consanguinidade, e o homem se tornar senhor da situação, houve então necessidade de garantir um casamento monogâmico.

Para atestar as minhas afirmações basta atentar nos excertos que se seguem que foram retirados do livro «A Idade Média, uma Idade do Homem”, da autoria de Georges Duby, uma obra publicada com o apoio do Ministério Francês da Cultura e da Comunicação.

“O período sobre o qual nos debruçamos assiste por outro lado ao desenvolvimento no Ocidente das fases mais ou menos acerbas de um conflito entre dois poderes, de um confronto de que as fórmulas gelasianas fornecem melhor expressão. Poder profano, escorado pelas «leis», a força daqueles cuja missão é ditar essas leis e fazê-las respeitar, pelos modos de comportamento tradicionais, mas assentando igualmente sobre a disposição das relações de produção, o que faz com que, conforme tudo leva a crer, a história do casamento não seja a mesma nos diversos graus da hierarquia das condições sociais, ao nível dos senhores, por um lado, ao nível dos explorados, por outro. 

Poder sacro cuja autoridade anima e sustenta a infatigável acção dos padres para inserir o casamento na totalidade de um projecto de dominação dos costumes e para, neste conjunto, situá-lo no seu justo lugar” (Duby, 1988:11).

“Ao longo desta secular competição, o religioso tende a sobrepor-se ao civil. A época é de uma progressiva cristianização da instituição matrimonial” (Duby, 1988:12).

“Comecemos então por colocar face a face os dois sistemas de enquadramento, que, pelos seus desígnios, são quase inteiramente estranhos um ao outro: um modelo laico, encarregado, nesta sociedade ruralizada em que cada célula se radica num património fundiário, de preservar, ao longo das gerações, a permanência de um modo de produção; um modelo eclesiástico cujo propósito, intemporal, é refrear as pulsões da carne, ou seja, rechaçar o mal, contendo em apertados diques os extravasamentos da sexualidade” (Duby, 1988:12).

“Conservar ao longo das eras o «estado» de uma casa: tal o imperativo que comanda toda a estrutura do primeiro dos modelos. Em proporção variável consoante as regiões e as etnias, as tradições romanas e as tradições bárbaras combinam-se nos materiais de que ele é construído; em qualquer dos casos, porém, ele assenta na noção de herança. O seu papel é assegurar sem perdas a transmissão de um capital de bens (…) (Duby, 1988:12).

“Toda a vertente ascética, monástica, da Igreja cristã, tudo o que a leva a desprezar e a recusar o século, mas também tudo o que, na bagagem cultural que herdou de Roma, liga o seu pensamento às filosofias da Antiguidade inclina-a a condenar o casamento, cujo mal é ser ao mesmo tempo mácula, turbação da alma e obstáculo à contemplação, em virtude de argumentos e de referências das Sagradas Escrituras a maior parte das quais  se acham já reunidos no Adversus Jovinianum de S. Jerónimo” (Duby, 1988:16).

“Todavia, posto que os humanos, infelizmente, não  se reproduzem como as abelhas, precisando para tal de copular, e, porque entre as ciladas armadas pelo demónio não existe pior do que o uso imoderado dos órgãos sexuais, a Igreja admite o casamento como um mal menor. Ela adopta-o, institui-o  e com tanto mais desembaraço quanto o vê admitido, adoptado e instituído por Jesus – mas sob a condição de servir para disciplinar a sexualidade, para lutar eficazmente contra a fornicação” (Duby, 1988:16).

“Para este fim, a Igreja começa por propor uma moral de boa conjugalidade, O seu projecto: tratar de evacuar da união matrimonial essas duas corrupções maiores, a sujidade inerente ao prazer carnal, as demências da alma apaixonada, desse amor selvagem à  Tristão que os Penitenciais procuram abafar dando caça aos filtros e a outras beberagens ardilosas. No momento da sua união, não poderiam pois os conjugues ter outra ideia em mente que não a procriação. Deleitem-se nalgum prazer e logo ficam «manchados», «transgridem, diz Gregório o Grande a lei do casamento». E mesmo que tenham permanecido de mármore, devem purificar-se se quiserem depois receber os sacramentos. Que se abstenham de todo o comércio carnal durante os dias santificados, senão Deus vingar-se-á; Gregório de Tours adverte os seus auditores: os monstros, os estropiados, todas as crianças macilentas são, sabemo-lo bem, concebidas na noite de domingo”(Duby, 1988:16-17).

“(…) os padres imiscuem-se pouco a pouco no cerimonial do casamento para lhe sacralizarem os ritos, e especialmente os das núpcias, acumulando em torno do leito nupcial as fórmulas e os gestos destinados a repelir o satânico e a encerrar os conjugues na castidade” (Duby, 1988:17).

 

Bibliografia

 

DUBY, Georges. (1988). A Idade Média uma Idade do Homem. Teorema. Lisboa.

A morte do selvagem de moca

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“A divisão por sexos é uma divisão fundamental que lesou as sociedades a um ponto  insuspeitado. Apenas se fez a sociologia dos homens, e não a sociologia das mulheres ou dos dois sexos.”

Marcel Mauss in d’Eaubonne (1977:7)

Vem este post com o propósito de contribuir para reposição da verdade na História das Mulheres e, de alguma forma, contribuir também para reparar esta colossal injustiça que foi o branqueamento  da verdade histórica, ademais  perpetrada ao longo de milénios. Porque manter a mulher na ignorância do seu passado histórico é um grave crime contra a humanidade no seu todo.

E que verdade é esta que aqui me apresto a defender? Pois bem, desde sempre, que me lembro de ouvir dizer, e de ler um pouco por todo o lado, que nos primórdios da humanidade, os homens eram caçadores, uma actividade que exigia força, agilidade, bravura, etc, enquanto as mulheres se dedicavam à sua condição natural de mães e a actividades “menos exigentes” – a recoleção de frutos e raízes.

Esta narrativa, que não passa da mais pura mentira, tem sido bem acolhida porque ela se insere numa realidade por nós reconhecida. Os cuidados para com a família continuam, apesar de tudo, a ser considerados mais dados às mulheres, assim como as actividades menores… Esta patranha colossal só foi possível manter-se até aos nossos dias, porque o que a maioria de nós habitualmente faz, inconscientemente,  é a transposição da realidade actual para o passado.

d’Eaubonne (1977) diz e muito bem que “Nada mais prejudicial para a investigação histórica do que projectar no passado mais recuado estruturas mentais ou sociais da época em que se vive, com o pretexto de que são as de contemporâneos subdesenvolvidos em que se mantiveram as formas de vida dos antepassados. (…). No entanto, esta mania persiste em muitos autores, mais historiadores do que antropólogos, para sermos verdadeiros. Na seriíssima colecção «D’un monde à l’autre» (Plon), ainda em 1963, saído da pena de um Professor da Universidade de Cambridge, bibliotecário-chefe em Queen´s College a propósito do alto paleolítico podia ler-se o seguinte:

«As mulheres, numa sociedade assim dedicada à caça, deviam ocupar-se de outra maneira. Viviam na caverna, cultivando algumas ervas comestíveis, alguns legumes, rebuscando alguns frutos, nozes ou raízes… A sua actividade não estava organizada nem regulada como a dos homens no decurso da sua expedição… Esta diferença irritava os homens, ontem como hoje, contra a falta de pontualidade das mulheres… Podemos afirmar que no tempo das cavernas o homem era o combatente, a mulher a protectora da prole e a esposa» (d’Eaubonne (1977:29-30).

“Aqui está o perigo de substituir a observação antropológica pelo romance histórico. Nada, absolutamente nada, prova o bom fundamento duma tal hipótese, a não ser a necessidade – tão largamente partilhada – de projectar em todo o passado como alguns o fazem no futuro, a repetição obrigatória de uma situação existente e tranquilizadora, por exemplo a perenidade, «o natural» do patriarcado como facto original. Pelo contrário, não faltam argumentos para invalidar esta tese reconfortante. Antes de tudo, as ossadas pré-históricas mais completas, assim como as silhuetas murais humanas assinaladas a esta luz, não nos mostram nenhuma diferença marcante de estatura ou de força física entre os dois sexos, e mais de um investigador reconhece que, verosimilmente, foi a divisão das tarefas segundo o sexo que conduziu, embora lentamente, a esta diferença hoje observada por toda a parte” (d’Eaubonne (1977:29-30-31).

Ora, como foi possível arrastar a mentira sobre as mulheres ao longo de tanto tempo? Interrogamos-nos perplexos… Mas a resposta até que nem é difícil… Acontece que a vasta maioria das pessoas não sabe elaborar raciocínios… Pensar bem é ser capaz de elaborar raciocínios e estabelecer correlações e esta competência é  um saber que se aprende. Só uns poucos o conseguem fazer autonomamente… Como as escolas não ensinam a pensar bem, a ter um pensamento divergente, resulta que a vasta maioria das pessoas é incapaz de se atrever a pôr em causa as  «pequenas» mentiras quanto mais as mentiras universais, por mais deslavadas que estas se apresentem.  E, o passado histórico das mulheres, que nos é ensinado desde que nascemos, é uma dessas mentiras deslavadas.

Senão vejamos: como podemos nós aceitar que as mulheres nos primórdios da humanidade ficavam nas cavernas a  cuidar dos filhos e se apenas se entregavam às actividades de recoleção de frutos e plantas, se ainda não há muitos anos, as crianças eram criadas um pouco ao «deus dará»? Basta fazer um pequeno exercício de recuar no tempo para nos lembrarmos que não tivemos as mordomias que hoje as crianças têm. Os nossos pais ainda tiveram menos. Os nossos avós idem. Muitas crianças dos tempos de antanho não chegaram a ir à escola nem uma vez! Desde pequeninos que trabalhavam para ajudar a família, nem que fosse apenas a cuidar dos irmãos. E só não ficavam completamente sozinhos porque havia sempre uma tia velha, a avó, etc, que ia olhando pelas crianças, mas muito longe dos cuidados que hoje são a norma. Recuemos cerca de dois séculos e o cenário é este: «A família não tinha uma função afectiva tal como a concebemos hoje, e tinha uma concepção de criança muito diferente da que hoje temos. A infância reduzia-se ao período de maior fragilidade, enquanto a criança não se bastasse a si própria, mas mal começasse a desenvolver-se fisicamente, logo se misturava com os adultos, partilhando os seus trabalhos e divertimentos” (Ariès, 1988:10) in (Silva, 2008).

Perante estas imagens da criança considerada como um adulto em miniatura, tente-se então recuar aos tempos do Paleolítico e o que vos assoma à mente?? Todos os cenários são possíveis menos os das mães ficarem «em casa».

Posto isto, cabe agora fazer a pergunta: O que faziam os nossos antepassados na luta pela sobrevivência?

E vêm agora os factos: Os homens eram caçadores. Quanto às mulheres, por muito que a verdade doa, estas eram também caçadoras. Todos tinham de dar o corpo ao manifesto. Em «casa» ficariam os inválidos e as crianças. Uma mulher ainda que grávida, não é propriamente uma pessoa inválida. Muito menos naqueles tempos… No livro de Maria Lamas, denominado «As Mulheres do meu País» conta-se que as mulheres do Norte iam trabalhar para os campos, partiam de madrugada  ao nascer do sol grávidas. Ao pôr do sol, no regresso a casa, já não vinham sozinhas… traziam aninhado nos braços esforçados do duro trabalho o filho que lhes tinha nascido por lá… Mas há mais! Foram as mulheres e não os homens que inventaram a agricultura. Foram elas que começaram de enxada nas mãos. Mais tarde, é que os homens se apropriaram  do fruto da genialidade das mulheres.

Só agora percebo, na perfeição, as consequências do uso do termo o Homem quando utilizado para designar a Humanidade!! É que ajuda a formar uma ideia perniciosa no espírito até dos mais perspicazes…

A partir de agora vou dar voz a quem sabe, a quem estudou o tema profundamente, e por isso tem muito para dizer. O livro de onde retirei os excertos que se seguem é da autoria de Françoise d’Eauborne (1977) intitulado « As mulheres antes do patriarcado».

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“A Sociedade actual […]assenta numa gigantesca fraude que timidamente começa a ser denunciada. Esta fraude esconde-se por detrás de todos os problemas políticos, religiosos, sociais, económicos e culturais que lhe servem de álibi; trata-se estritamente da relação entre homem e a mulher.” Jean Markale (La femme celte, introdução) in d’Eaubonne (1977:6).

“O erro de Bachofen foi ter confundido as sociedades matrilineares (sistema de filiação e de organização social em que somente a ascendência materna é levada em linha de conta), com o matriarcado (tipo de organização social em que a autoridade é exercida pelas mulheres), erro que pesa ainda consideravelmente na concepção histórica da evolução humana. Permaneceu-se amarrado a uma oposição simples e dualista: ou patriarcado, ou matriarcado. O homem teria sido sempre chefe de família, senhor da ou das mulheres, com todas as estruturas secundárias que este eixo familiar e social implica, ou teria existido antes esta forma de comunidade humana ou cultura centrada na mulher e na sua fecundidade. Neste caso, a mulher teria então reinado incontestavelmente, divinizada com o nome de Grande Mãe, possuidora da terra e dos homens, até ao aparecimento do patriarcado” (d’Eaubonne (1977:7).

“Porque razão estas duas formas extremas de relação entre os sexos haveriam de esgotar toda a imaginação humana? Como é possível que à luz dos trabalhos de Margaret Mead, para não citar outros, não se tenha procurado descobrir no nosso passado formas intermediárias que a observação dos indígenas do Pacífico demonstram poder existir? E na antiguidade – a época mais conhecida e mais estudada – não existem provas abundantes de que as culturas humanas, mesmo quando passaram para uma direcção masculina, se podem dificilmente chamar «integralmente patriarcais» e são antes transições entre o patriarcado propriamente dito – o dos tempos modernos – e outra coisa?

Por nossa parte, temos hoje como certo que este patriarcado que é o esquema universal da sociedade planetária – com algumas excepções de permeio, as subculturas analisadas por M. Mead e H. Schelsky, por exemplo – se fundamenta em duas descobertas essenciais da antiguidade: a sucessão da agricultura masculina à feminina, sucessão de certo modo recente, e mais tarde ainda o conhecimento perturbador (que alguns povos como os Trobriandeses não adquiriram ainda) do processo de fecundação e da parte que o pai nele desempenha – o que quer dizer que é de data relativamente tardia” (d’Eaubonne (1977:8).

“A lei patriarcal apaga a da Mãe, com a ajuda das mesmas metáforas agrícolas: por toda a parte no Ocidente, a partir da época helénica, no Médio-Oriente com o código mosaico, a mesma argumentação será retomada até à escritura do Corão, o mais novo dos livros sagrados; de Apolo a Maomé será reafirmado que a Grande Mãe, o antigo princípio da Vida que, como símbolo duplo do Seio, e do Túmulo, originava uma adoração e um terror sagrados, mas não é mais do que um simples húmus que se lavra, o sulco que se semeia, o campo que se possui e calca com o pé” (d’Eaubonne (1977:8-9).

“Esta degradação da antiga soberana só começa com a descoberta da paternidade. Antes dessa certeza biológica, até a posse das técnicas agrícolas, depois da terra, não ocasionou a queda total do poder e da sacralização do sexo feminino” (d’Eaubonne (1977:9).

“É interessante lembrar aqui como é recente o total conhecimento científico da procriação na ciência ocidental. Depois da antiga crença na total responsabilidade do macho, o problema será revisto, sujeito a polémicas, e permanecerá por longo tempo numa grande incerteza. (…). A condição universalmente subordinada do sexo feminino estava muito arreigada numa tradição secular apoiada ao mesmo tempo nas religiões e nos sistemas de moral, e simultaneamente no desenvolvimento das técnicas de produção provindas da idade do bronze, depois da indústria, para que estas doutas e tardias discussões pudessem tornar a pôr em questão o lugar da mulher na sociedade, ainda que chamada «civilizada». A opressão do sexo feminino era muitíssimo necessária a este sistema. No entanto, pode pensar-se que, se a ciência oficial reconheceu em 1906 a participação dos dois sexos na procriação, tal aquisição corresponde a uma época em que, com grandes personalidades femininas de primeiro plano, a agitação nascente das sufragistas, e também o ímpeto revolucionário, desponta no horizonte cultural uma possibilidade: a da igualdade dos sexos” (d’Eaubonne (1977:9).

“A descoberta da agricultura pelas mulheres é de tão grande importância para a evolução histórica que temos o direito de nos surpreender ao vermos a investigação antropológica ignorar a sua dimensão ((d’Eaubonne (1977:11).

Como é que até agora ninguém viu ainda as consequências que traria uma simples mudança de formulação em conformidade com a verdade histórica, e que poria no feminino o que continua escrito no masculino por esses etnólogos, antropólogos, historiadores, que reconhecem e escrevem que a agricultura foi uma descoberta das mulheres, permaneceu muito tempo um trabalho exclusivo de mulheres, fundou talvez mesmo um poder feminino (tanto mais que o culto da Grande Deusa, ligado à fecundidade e à renovação vegetal, é anterior à descoberta da agricultura), e depois redigem calmamente frases que não surpreendem ninguém, como: «Os agricultores subiram até à bacia do Elba…». «Os camponeses europeus começaram então a controlar os cereais espontâneos…»? Se lêssemos nestas mesmas frases, escolhidas ao acaso entre milhares de outras, «agricultoras» e «camponesas» não é verdade que a orientação da história humana tomaria uma dimensão completamente diferente?” (d’Eaubonne (1977:12).

“O que parece simples pormenor é por vezes o essencial. Valery dizia: «O que temos de mais profundo é a nossa pele». A gramática e a linguística são a pele do pensamento, a epiderme da consciência. Os autores que utilizam o masculino, tratando-se de uma descoberta feminina, conformam-se, logo que se passa à relação de historicidade, com a regra gramatical do sujeito colectivo no masculino: 300 000 mulheres e um rapazinho concordam no masculino plural dizia Alphonse Allais. Mas a interiorização desta regra convencional aproxima-se da fraude” (d’Eaubonne (1977:12-13).

No estado actual da nossa cultura, é impossível ler: «as agricultoras subiram até à bacia do Elba». Ou «as camponesas europeias começaram a controlar os cereais espontâneos» (…)” (d’Eaubonne (1977:13).

“Mas o que aconteceria se investigadores tentassem, hoje, desenvolver as consequências de um facto cultural que ninguém contesta, procurar as formas do que não foi em nada uma simples prática pronta e serenamente utilizada pelos homens, o único patronato da História a despojar sem violência uma categoria humana do fruto do seu trabalho? De algum audacioso se debruçasse as etapas desta luta de classes pré-existentes às classes? Se, à luz deste facto adquirido – e logo esquecido -, alguém se pusesse a desvendar outras trevas: o «mito» do amazonato, por exemplo (…) (d’Eaubonne (1977:13).

“ O «mito» do amazonato pode ter sido destruído enquanto mito pelas descobertas brasileiras em 1973 de Von Puttmaker que provou a realidade histórica no seu relatório à Academia de Berlim; ou por Yves Véquaud, que expôs em Junho de 1975 no «Petit Palais» as obras de arte de um matriarcado existente desde há 3500 anos no norte do Nepal, na região de Mitila. Onde está a autocrítica dos universitários, fiéis adeptos desta afirmação peremptória: «O mundo sempre pertenceu ao homem, e o patriarcado aparece a partir da saída das idades tenebrosas da caverna?» (d’Eaubonne (1977:14).

“Com efeito, o homem descobre que é ele e não qualquer divindade que fecunda a mulher, à semelhança do macho do seu gado que fecunda a fêmea; e atribui a si próprio imediatamente o papel primordial, o de semeador de grão num terreno inerte” (d’Eaubonne (1977:27).

“As mais recentes descobertas arqueológicas trouxeram uma revelação perturbadora: a exumação, na Anatólia, de um primeiro conjunto de aldeias de cultura feminina, datando de 7000 a 6500 anos antes da nossa era; confirmação de um texto já velho de Malraux, em Noyers de l’Altenburg:«Quanto mais remexemos no nosso passado, menos encontramos o selvagem de moca; para além destas trevas, já havia reis, cidades». Dizemos mais: rainhas. Esta espécie de cidade, talvez a primeira de todas, revela uma arte figurativa, frescos, uma agricultura, uma administração já forte, e fixamos sobretudo uma magnífica representação esculpida da Deusa-Mãe entre dois leões. Tais eram os antigos habitantes do território que o Indo-Europeu fundador do Império hitita devia invadir, cinco mil anos mais tarde” (d’Eaubonne (1977:38).

“Virginia Woolf, no seu notável ensaio «Une chambre à soi», sugere que a história da resistência masculina à emancipação das mulheres é talvez mais interessante ainda do que a própria emancipação. Nesta história nunca escrita entraria certamente a da eufemização dos textos, até da sua falsificação. Tudo o que diz respeito a proezas femininas de tipo «viril», individuais ou colectivas, é imediatamente oculto pela transmissão escrita, ou adulterado, ou ainda francamente disfarçado. Haveria um longo estudo a consagrar a estas pequenas fraudes dos tradutores ou historiadores que se sentiram assim «ameaçados« na sua virilidade” (d’Eaubonne (1977:70).

“Impressionado pela universalidade dos tabus antifemininos que dizem respeito às menstruações, à gravidez, ao parto, ao período posterior, à menopausa e às simples relações conjugais, pensou numa segregação sexual que teria surgido com a necessidade de desembaraçar a vida tribal de um perpétuo problema e dos ritos de conjuração e de exorcismo incessantemente acumulados como no mundo do delírio. (…).

Nota de rodapé: «Citemos rapidamente alguns entre centenas de outro: na ilha de Kiwai, o marido de uma mulher grávida não pode ir nem à caça, nem à pesca, nem à guerra; nos Tami (Nova Guiné), ela espantaria o peixe; na Costa Rica, desde a sua primeira gravidez, julga-se que a mulher envenena a vizinhança, e como represálias depõem-se corpos em decomposição à sua porta; em numerosas culturas, é tão impura que até o marido deve ser evitado; se assiste ao parto morrerá (Ernest Crawley, The Mystic Rose). Após o parto, a Judia fica tão manchada que deve purificar-se no Templo, e a Esquimó é posta longe do campo, sem fogo nem alimento, muitas vezes destinada à morte; a Indiana é intocável por 60 dias, a Africana da tribo Nadi durante seis meses. Muitas vezes, a mulher é punida por ser mulher, na Nova Irlanda, a púbere é fechada por cinco anos; nos Ot-Danon, em Bornéu, aplica-se a prisão preventiva: a rapariguinha de oito anos é antecipadamente fechada, durante muitos anos; os Índios de Hudson e os Polinésios e os Judeus de Talmud crêem que o homem pode morrer só por ter visto uma mulher em estado de fluxo menstrual; para o Corão, quem olha para o interior da vagina fica cego” (d’Eaubonne (1977:71-72).

A multiplicidade de exemplos desta ordem, espalhados pelo mundo inteiro, demonstra a verdade expressa por S. de Beauvoir (Le deuxième Sexe) quando fala do «verdadeiro horror» que o homem sente pela mulher. Mas este horror – que, evidentemente, não exclui de modo nenhum atracção e fascinação – é historicamente datado; aparece durante o nomadismo e as grandes caçadas, e depois de ter sido reprimido e oculto no período agrário (com esta válvula de segurança: a identificação da grande Deusa da Vida com a Rainha dos Infernos e da Morte), reaparece com toda a segurança, com o patriarcado, para se prolongar até aos nossos dias” (d’Eaubonne (1977:72).

 

Biografia

D’EAUBONNE, Françoise. (1977). As Mulheres antes do Patriarcado. Editorial Vega. Lisboa.