O pós-modernismo

Publicado por: Milu  :  Categoria: O pós-modernismo, SOCIEDADE

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Quanto àqueles para quem esforçar-se, começar e recomeçar, experimentar, enganar-se, retomar tudo de cima a baixo e ainda encontrar meio de hesitar a cada passo, àqueles para quem, em suma, trabalhar mantendo-se em reserva e inquietação equivale à demissão, pois bem, é evidente que não somos do mesmo planeta.“

Michel Foucault

Vem este post com o propósito de prestar alguns esclarecimentos, que considero indispensáveis para melhor almejar compreender e interpretar os acontecimentos da actualidade, uma vez que, já todos, refiro-me aos mais velhos, se aperceberam que os tempos são outros, que as pessoas já não cultivam os mesmos valores de antigamente, que vivemos num mundo onde tudo parece descartável, onde impera o efémero e a descontinuidade.

Para uma melhor exemplificação dos fenómenos da pós-modernidade, a nossa actualidade, procedi a uma breve caracterização do que foi a época Tradicional, a época da Modernidade, e de como essa realidade se tem vindo a alterar até aos nossos dias. Este post apresenta-se dividido em duas partes, sendo a primeira constituída por excertos de um anterior trabalho académico da minha autoria, que poderá ser consultado aqui e a  segunda parte  constituída por excertos que incidem sobre o Pós-modernismo, retirados da obra “Um Novo Olhar Sobre as Relações Sociais de Género”, da autoria de Conceição Nogueira.

1ª Parte

Caracterização das sociedades tradicionais: a lógica local

“A sociedade sustentada pela ideia de Deus e do diabo. Do paraíso e do inferno”

Nos lares da família tradicional em que o trabalho produtivo e o quotidiano familiar estavam associados, a casa era ao mesmo tempo oficina e habitação. Os agregados domésticos incluíam frequentemente, não só a família nuclear, pais e filhos, bem como outras crianças e adultos, assim como os criados que viviam com a família e trabalhavam a troco de comida e de alojamento. A família não tinha uma função afectiva tal como a concebemos hoje, e tinha uma concepção de criança muito diferente da que hoje temos. A infância reduzia-se ao período de maior fragilidade, enquanto a criança não se bastasse a si própria, mas mal começasse a desenvolver-se fisicamente logo se misturava com os adultos, partilhando os seus trabalhos e divertimentos (Ariès, 1988: 10) in (Silva, 2008). Fazia-se muito a vida de rua, nas festas comunitárias, no lavadouro, etc. As redes sociais existentes nas comunidades tradicionais eram assim extensas, na medida em que incluíam não só os familiares como os vizinhos que se faziam sentir de forma imperiosa (Silva, 2008).

As casas só a muito custo escondiam o que se passava no interior, a intimidade era uma noção demasiado nova. Os níveis sócio económicos rapidamente eram percebidos pela aparência exterior, surpreendiam-se gestos, impulsos, laços, rupturas, hábitos e recusas.
“A vida fabrica-se na rua a golpes de ternura ou de violência” (Farge, 1979: 18-20) in (Silva 2008). A família era uma unidade produtiva, pois todos os membros da família, inclusive as crianças, davam a sua contribuição para a actividade produtiva. Dominava a multifuncionalidade, que tão bem se expressa na ideia do bricolage, como construção de novos arranjos, com pedaços de saberes. Dominava, também, a alquimia, uma prática antiga que precedeu a química e que envolvia várias práticas, de entre elas o misticismo. Nestas sociedades comunitárias, onde todos eram iguais ou quase iguais, onde todos se assemelhavam porque comungavam dos mesmos sentimentos, dos mesmos valores e do mesmo sagrado vivia-se a solidariedade mecânica.

As sociedades modernas: Sociedades industriais – a lógica nacional.

A sociedade sustentada pela ideia da emancipação da sociedade em relação a Deus, que foi substituída pela Ciência.

A modernidade firma-se na convicção da capacidade humana para emancipar a sociedade pela via do progresso contínuo do conhecimento e da sua aplicação racional.
A modernidade implicou mudanças sociais profundas que dissolveram as formas de organização social que a humanidade conhecera até então. Com a Revolução Industrial houve lugar para o aparecimento de um conjunto de inovações técnicas, como por exemplo, a utilização do vapor para manufacturar a produção e a introdução de novas formas de maquinaria accionadas por tais fontes de energia. Estas invenções técnicas foram apenas parte de um conjunto mais amplo de mudanças sociais e económicas. A transformação mais importante foi a migração em massa da força de trabalho proveniente do campo para os sectores de trabalho industrial em franca expansão, o que por sua vez, levou à expansão das cidades (Giddens,1984: 12-13) in (Silva, 2008). Com o maquinismo surge uma nova classe – o proletariado.

O trabalho concentrou-se em fábricas e os países começaram a transformar-se no sentido de uma rápida urbanização e industrialização, que revolucionou as relações de trabalho, as relações familiares e a relações entre os sexos. A industrialização e a urbanização reforçaram as tendências de individualização e de nuclearização da família com diferenciação de papéis sexuais. A figura da mãe era valorizada pela responsabilidade que lhe foi atribuída na educação da criança, na gestão da economia doméstica e na moralização dos hábitos. Surge o estatuto de profissão, que se define essencialmente pelo reconhecimento oficial das actividades, com base na especialização do saber. A divisão social do trabalho proporciona as situações em que as pessoas apenas desempenham uma tarefa, o taylorismo, de que é exemplo a figura de apertar parafusos caricaturada no cinema pela mão de Charlie Chaplin. A modernidade assoma assim como a era do uniformismo.

Na classe operária desenvolvem-se sentimentos como a indignação, a tendência para a vingança, os instintos de revolta contra as classes superiores, o desrespeito crescente pelas ordens dos seus superiores e o declínio da fé nos ensinamentos dos seus superiores espirituais. Como a saúde é uma necessidade da indústria que precisa de mão de obra, nasce a assistência pública que traz como novidade medidas contra os riscos sociais, nas quais se incluem seguros contra os acidentes de trabalho e a doença e, em alguns países, sistemas de reforma. Esta protecção social virá a estar na base do Estado providência. O estado assume-se como responsável pela assistência pública que antes incutia à caridade. O Estado tem um papel cada vez mais interventivo na vida social e económica, é chamado à responsabilidade pelas desigualdades sociais (Silva, 2008). “Nos Estados) nação, os governos têm amplos poderes sobre muitos aspectos da vida dos cidadãos, promulgando leis que se aplicam a todos os que vivam no interior das suas fronteiras” (Giggens, 2004: 36) in (Silva, 2008: 61).

A nação é a forma política da modernidade, na medida em que substitui as tradições, os costumes, e os privilégios por um espaço nacional integrado, reconstruído pela lei, que se inspira nos princípios da razão.

Existe uma correspondência entre uma unidade política e a cultura, as sociedades modernas têm necessidade de uma cultura, construída pela e para a nação, ultrapassando as culturas tradicionais e locais que resistem às mudanças.

É o Estado nacional que produz através da escola uma cultura nacional.

O estado difunde e impõe uma cultura já elaborada, uma língua, que se torna língua nacional.

O nacionalismo é a mobilização do passado e da tradição ao serviço do futuro e da modernidade. Faz despertar as culturas do seu território numa tentativa de resistir ao imperialismo estrangeiro e à imposição de modelos culturais estranhos (Touraine, 1992).

As sociedades Pós-modernas: a lógica transnacional.

Nas sociedades pós-modernas, os nacionalismos modernizadores estão ultrapassados, já que a economia e a cultura são cada vez mais transnacionais. Se a modernidade associava progresso e cultura, alimentando uma oposição entre culturas ou sociedades tradicionais e culturas ou sociedades modernas, a pós-modernidade dissocia o que tinha sido associado.

“Se o sucesso económico já não depende da racionalidade do engenheiro, mas sim do realismo do estratega, se já não é um efeito da ética protestante ou do serviço da nação, mas sim do talento de um economista ou da audácia de um jogador (…) é necessário definir a cultura sem nunca se referir ao progresso da racionalização, saindo, portanto, do domínio da acção histórica” (Touraine, 1992: 221).

Gianni Vattimo (nd) in (Touraine, 1992: 221) aponta duas transformações como fundamentais para definir a pós-modernidade: o fim do domínio europeu sobre o conjunto do mundo e o desenvolvimento dos media que deram voz às culturas locais e minoritárias.

A sociedade deixou de ter unidade, nenhuma personagem, nenhuma categoria social, detém o monopólio do sentido, o que levou ao multiculturalismo (Touraine, 1992). O Pós-modernismo caracteriza-se pela sua total aceitação do efémero, da fragmentação, da descontinuidade, do caótico. O pós-modernismo não tenta sequer transcender ou neutralizar esse facto, pelo contrário, abraça-se às correntes caóticas e fragmentárias de mudança como se elas fossem tudo o que existe (Silva, 2008).

Tudo é temporário.

As instituições, os quadros de referência, os estilos de vida e as crenças, que mudam ainda antes de terem tempo de se padronizarem em rotinas (Bauman, 2001: 14) in ( Silva, 2008).

Assiste-se ao enfraquecimento do papel do Estado nacional-social, que garantia um conjunto de protecções na medida em que funcionava como controlador dos principais parâmetros económicos, capaz de garantir o desenvolvimento económico e social com vista à manutenção da coesão social.

O Estado torna-se cada vez mais incapaz de exercer o papel de timoneiro da economia ao serviço do equilíbrio social.

Assiste-se à erosão das grandes organizações colectivas da defesa dos trabalhadores.

O desemprego massivo e a precarização das relações de trabalho provocam consideráveis disparidades intracategorias. A solidariedade dos estatutos profissionais tende a tornar-se na concorrência entre iguais (Silva, 2008).

Falência do modelo baseado em situações estáveis de trabalho, o importante agora é ter um trabalho, seja ele o que for – o retorno da multifuncionalidade categorizada pela figura da polivalência, que torna a pessoa mais instruída do que especializada, na medida em que a precariedade no emprego, leva a que na sua vida activa tome contacto com actividades variadas, isto é, várias profissões. No pós-modernismo acentua-se a dramática diferença entre a rapidez do avanço das técnicas e a lentidão com que avançam as instituições. O capitalismo global é dono e senhor do mundo.

A ausência de instrumentos de regulação da economia global agrava a polarização mundial entre ricos e pobres.

Segundo Bauman (2001), a modernidade do século XXI caminha para o colapso gradual, o rápido declínio da ilusão do modernismo de que há um caminho que nos leva a uma sociedade boa e justa, a um Estado perfeito.

2ªParte

“Os discursos pós-modernos são todos desconstrutivos, já que procuram distanciar-nos de e tornar-nos cépticos acerca das crenças relativamente à verdade, ao conhecimento, ao poder, ao self e à linguagem que é utilizada e serve para a legitimação da cultura ocidental contemporânea” (Flax, 1990) in Nogueira (2001: 48).

“O período pós-moderno é um período não só de metáforas de mudança e esperanças; é também um período de mudanças nas estruturas da família, nas relações de trabalho e nas distinções de classes (Haraway 1990). Os pós-modernistas criticam tudo o que a modernidade acarretou: a acumulação da experiência do mundo ocidental, a industrialização, a urbanização, a tecnologia avançada, o Estado-Nação. Desafiam as prioridades da modernidade: carreira, responsabilidade individual, burocracia, democracia liberal, tolerância, humanismo, critérios avaliativos, procedimentos neutros, regras impessoais e racionalidade” (Bordo, 1990; Rosenau, 1992) in Nogueira (2001:48).

“Argumentam que a modernidade já não é mais uma força para a libertação e sim uma fonte de subjugação, opressão e repressão” (Nogueira, 2001: 48).

“O pós-modernismo tomou conta e aparece frequentemente nas ciências sociais de hoje. As mudanças que coloca parecem não ter fim, rejeita suposições epistemológicas, refuta convenções metodológicas, resiste às pretensões do conhecimento, obscurece todas as formas de verdade” (Rosenau, 1992) in Nogueira (2001: 50).

“Tem versões mais radicais e outras mais moderadas, mas quer umas quer outras, representam um grande desafio para o conhecimento estabelecido no século XX. Independentemente dessas versões dentro do pós-modernismo, pode dizer-se que de uma forma muito geral os pós-modernistas nas ciências sociais recusam visões globais do mundo, sejam elas políticas, religiosas ou sociais.

Os pós-modernistas questionam qualquer possibilidade de fronteiras rígidas entre as ciências naturais e as humanidades e as ciências sociais, arte e literatura, cultura e vida, ficção e teoria, imagem e realidade.

A ênfase pós-modernista refocaliza-se naquilo que a ciência moderna nunca quis compreender (em qualquer domínio) como o irracional, o tradicional, o marginal, o rejeitado, o silencioso, o não essencial, o periférico, etc. O seu interesse não é «descobrir» algo, mas sim «localizar». Evitam o julgamento, oferecendo «leituras» e não «observações», «interpretações» e não «resultados». Desta forma rearranjam toda a ciência social, já que enquanto a ciência moderna isola elementos, especifica relações e formula sínteses, os pós-modernistas fazem precisamente o oposto. Oferecem o indeterminismo em oposição ao determinismo, a diversidade em oposição à unidade, a diferença mais que a síntese, a complexidade em oposição à simplificação (Rosenau, 1992) in Nogueira (2001: 50-51).

“Em todas as disciplinas os pós-modernistas rejeitam os estilos de discurso convencional e académico, preferindo formas mais audaciosas e provocadoras. Enquanto o discurso moderno é mais exacto, preciso e rigoroso, o discurso pós-modernista é mais literário (Rosenau, 1992) in Nogueira (2001: 51).

Como diz Jane Flax, «algo se está a passar» já que um conjunto de alterações culturais têm mudado significativamente as nossas condições de vida, mudanças que necessitam ser nomeadas, descritas e compreendidas” (Nogueira, 2001. 52).

É mesmo: Algo se está a passar. Temos o privilégio de viver num horizonte no qual impera a mudança, a diversidade, a pluralidade 😀

Bibliografia

MÉDICI, Angéla. (2002). A Educação nova. Rés-Editora. Biblioteca da Educação. 2ª Edição. Porto.NOGUEIRA, Conceição. (2001). Um novo olhar sobre as relações sociais de género. Fundação Calouste Gulbenkian.SANTOS, B. S. (2002). Globalização. Fatalidade ou utopia? Edições Afrontamento. 2ª Edição. Coleção A Sociedade Portuguesa Perante os Desafios da Globalização. Porto.
SILVA, L. F. (2008). Modernidade e Desigualdades Sociais.Universidade Aberta. Lisboa.       TOURAINE, A. (1992). Crítica da Modernidade. Instituto Piaget. Lisboa

Aprender a ver

Publicado por: Milu  :  Categoria: Aprender a ver, SOCIEDADE

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“Pensei o quanto desconfortável é ser trancado do lado de fora; e pensei o quanto é pior, talvez, ser trancado no lado de dentro.”

Virginia Woolf

Felizmente que já não há fogueiras, e nós mulheres, podemos livremente, prosseguir na luta para a  libertação, através da compreensão de como se foi operando ao longo do tempo a submissão da mulher. É conhecendo a história da mulher, que a mulher toma consciência de todas as afrontas que foram, e continuam a ser, cometidas contra si.

Este post foi elaborado com excertos do capítulo IV, sob o título “Feminismo e Discurso do Género na Psicologia Social”, que integra a obra denominada “Um Novo Olhar sobre as Relações Sociais de Género” (“Feminismo e Perspectivas Críticas na Psicologia Social”), classificada como Textos Universitários de Ciências Sociais e Humanas, da autoria de Conceição Nogueira.

 

“O Objecto mulher nos discursos de legitimação”

“Todas as sociedades parecem reconhecer a existência de sexos diferentes e por isso agrupam as pessoas pelo seu sexo devido a diferentes motivos (Reskin & Padavic, 1994), sendo que cada ser humano quando nasce, na cultura ocidental pertence imediatamente a uma categoria sexual específica” (Denzin, 1995).

“Houve sempre ao longo dos tempos grande quantidade de discursos, teorias, visões acerca do corpo da mulher, principalmente devido à sua capacidade de reprodução. Esta razão terá estado na base de todas as tentativas de compreensão  e descrição da «natureza» feminina. No entanto o feminino é desvalorizado, e já em Platão como em Aristóteles a mulher, em relação ao homem, é vista como «um desvio, como uma relação imperfeita»” (Joaquim, 1994, p. 79).

“No pensamento grego, que condicionou a cultura ocidental, o homem é o criador da ordem e da lei, enquanto a mulher está associada ao desejo e à desordem, um ser inferior pela sua natureza. «É sobre estas clivagens simbólicas que se vai fundamentar a própria sociedade» (idem, p. 80), desigual, mas cuja desigualdade está baseada numa presumível diferença de naturezas, atribuindo-se à mulher qualidades negativas que a impossibilitam de participar activamente de forma igual, na sociedade onde vive” (Foucault, 1979).

“A mulher com o estatuto de objecto, produção do discurso masculino, pensado e modelado pelos homens, fez-se sentir a nível da filosofia, da medicina ou da ciência” (Farge & Davis, 1991) in (Nogueira, 2001: 171-172).

(…).

“O discurso filosófico parece concordar com a ideia que a completa igualdade seria o fim da união conjugal e sendo assim só a atribuição de papéis bem definidos resolveria a questão da igualdade dos sexos (Crampe-Casbanet, 1991). No século XVIII, o iluminismo apresenta-se como um discurso da filosofia que aparentemente acaba com as diferenças de raça e sexo, mas de forma algo perversa acaba por justificar a inferioridade da mulher, já que «o discurso iluminista é um discurso do homem, quer dizer do género humano (…) racional: as distinções de raça e de sexo esbateram-se, ainda que tenham conservado algumas especificidades» (idem, p. 369). Mas se o discurso Iluminista se dirige a todos os homens, ele é universal, o que coloca a difícil questão de se saber quem tem direito ao universal. Se no século das Luzes se estava de acordo quanto ao facto das mulheres representarem metade do género humano, o mesmo não se dizia do género masculino, isto é, que constituía metade do género humano” (Nogueira, 2001: 172-173).

(…)

“Destas duas metades diferentes de género humano parte-se para uma dupla  maneira de dizer, de escrever e de definir, sendo o sujeito desse discurso o homem e o objecto a mulher com uma interioridade no discurso, mas um estatuto de exterioridade” (Nogueira, 2011: 173).

(…).

“Salvo algumas excepções, como Condorcet, o pensamento do iluminismo mantém a inferioridade das mulheres e justifica o seu papel numa suposta necessidade feminina. Mas, para resolver o problema teórico que provinha da diferença dos sexos, o espírito iluminista resolve o problema atribuindo à mulher uma dualidade de estatuto. Trata-se de dar às mulheres papéis sociais como esposas e mães, funções que por natureza as mulheres querem desempenhar e, por causa delas, as mulheres podem então ser cidadãs, nunca lhes sendo reconhecido um estatuto político.

O discurso médico acaba por confirmar superstições mesmo perante factos científicos (Berriot-Salvadores, 1991), e por isso se parte da descrição do corpo feminino como uma cópia defeituosa do corpo do homem, para a crença de uma natureza frágil sujeita às desordens provenientes dos seus órgãos reprodutivos. Desde os textos medievais, passando pelo renascimento, até ao discurso na época da revolução, o discurso médico é sempre utilizado para permitir justificar a colocação da mulher na esfera familiar, conferindo-lhe um estatuto particular na sociedade. O discurso científico legitima o lugar dado à mulher: a maternidade define-a, é  este o discurso científico do século das Luzes. «Em nome de um determinismo natural, o pensamento médico confina então a feminilidade ideal na esfera estreita que a ordem social lhe destina: a mulher, sã e feliz, é a mãe de família, guardiã das virtudes e dos valores eternos»” (idem, p. 444) in (Nogueira, 2001: 174-175).

(…).

“A legitimação proveniente deste discurso científico permitiu que persistisse durante toda a modernidade «um discurso sobre os sexos que, nas suas vertentes dualistas, biologizante da condição das mulheres,  e essencialista, pouco difere do discurso religioso da pré-modernidade» (Nogueira, 2001: 175).

 

Bibliografia

 

NOGUEIRA, Conceição. (2001). Um Novo Olhar Sobre as Relações Sociais de Género. Fundação Calouste Gulbenkian.

 

“O que quer a mulher?”

Publicado por: Milu  :  Categoria: "O que quer a mulher?", SOCIEDADE

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“Não há barreira, fechadura ou ferrolho que possas impor à liberdade da minha mente.”

Virgínia Woolf

O post de hoje, intitulado “O que quer a mulher”, foi por mim elaborado com base em duas obras constantes na bibliografia que se encontra no final do mesmo. É especialmente dirigido a todas aquelas mulheres que se sentem como ovelhas fora do rebanho, que sentem não se enquadrar nos modelos pré definidos ou que têm dificuldade em obedecer a ditames.

Apetece-me dizer que, o que a mulher quer, talvez não seja assim tão difícil de se revelar, desde que não lhe tracem o destino logo à nascença… educando-a como se educam as meninas, como a sociedade determina que as meninas devem de ser educadas… para se tornar a mulher que se deve ser, a mulher que convém ser, de forma a perfilar o ideal de feminilidade tão valorizado por esta sociedade regida por uma ordem masculina. Mas nem todos terão chegado a esta conclusão, nem todos se apercebem que têm o destino mais ou menos ditado desde que nasceram, e que o seu destino depende em muito do tipo de família em que nasceram. Mas, para aprender a ver mais longe, existem, felizmente, os livros. Sacudir preconceitos e abrir a mente é a palavra de ordem neste blog. O conhecimento é para ser partilhado.

Assim, no primeiro excerto apresentado temos Freud, num Ensaio de Filosofia, obra intitulada “Alteridades Feridas”, da autoria de Laura Ferreira dos Santos, professora e doutorada em Filosofia da Educação pela  Universidade do Minho. Consta nesta obra como Freud percebia o calvário que era a vida das mulheres, que o destino destas era mais ingrato do que o dos homens. No entanto,  Freud, mesmo assim, ignorou o rigor próprio de um cientista, e numa carta que escreveu à namorada, foi capaz de defender a teoria de que o lugar da mulher era em casa a cuidar dos filhos.

No segundo excerto apresentado neste post, temos uma outra obra magnífica, que muito tem contribuído para a minha compreensão da “realidade” que me rodeia. Contribuiu, também, para apaziguar o meu estado de espírito, ajudou-me  muito a fazer as pazes principalmente comigo. É muito difícil lutar contra a nossa natureza, e a minha natureza não me fez obediente. Por isso, todos os dias pago o preço da independência. Todos. Foi um pouco neste aspecto que este livro ajudou à reconciliação comigo mesma. Nesta obra, da autoria de Carmen Alborch, intitulada “Mulheres Contra Mulheres”, aborda-se, entre outras, a teoria dos desejos da mulher, se estes são verdadeiramente os desejos intrínsecos da mulher, ou se, pelo contrário, os desejos da mulher são sugeridos e moldados, fruto da imposição e dos constrangimentos da sociedade. Ou seja, é a sociedade que faz a mulher como ela é, por isso Simone de Beauvoir proferiu a célebre frase: “Não se nasce mulher, torna-se”.  Se assim não fosse, se a mulher não tivesse de corresponder a um figurino determinado, quais seriam os seus desejos, o que ela quereria para si? É esta a interrogação que fica no ar.

E, já  que aqui chegamos, arrisco a dizer o que a mulher quer:

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AS OBRAS

 

 

Original Caption: Sigmund Freud, 1856-1939, Austrian psychiatrist, in the office of his Vienna home looking at a manuscript. B/w photo ca.1930.

O título deste post, “O que quer a mulher?” tem direitos de autor, foi proferida por Freud, “quando confessou à sua amiga princesa Maria Bonaparte que, depois de trinta anos de estudo da alma feminina, havia ainda uma pergunta a que não sabia responder: o que quer a mulher?” (Santos, 2002: 141).

Provavelmente Freud sabia o que quer a mulher, uma vez que:

“Freud teve a consciência que sobre as mulheres pesa um destino mais duro que sobre os homens. Por isso mesmo, Freud dirá nas «Novas Lições» que a impressão que lhe causa um homem com aproximadamente trinta anos é muito distinta da impressão que lhe causa uma mulher da mesma idade. No homem, vê ainda muitas possibilidades em aberto, um jovem inacabado pronto a aproveitar ao máximo as hipóteses que a análise lhe proporcione; na mulher da mesma idade, pelo contrário, o que assusta frequentemente, escreve Freud, é a inflexibilidade (“Starrheit”) e a imutabilidade (“Unveränderlichkeit”, SA, I: 564) psíquicas de que dá mostras. Como se, acrescenta, «a difícil evolução para a feminilidade tivesse esgotado as possibilidades da pessoa. (…) Dir-se-ia, portanto, que as mulheres sofrem de um qualquer «encurtamento». Neste aspecto, Deleuze, não obstante todo o seu anti-edipianismo, dar-lhe-ia razão: é claro que há, afirma, uma dissimetria entre os sexos, mas isto resulta apenas de a menina ser a primeira a quem roubam os seus «n sexos», as múltiplas conexões que poderia estabelecer noutras circunstâncias (Santos, 2002: 138).

(…).

“Ainda acerca de restrições impostas ao desenvolvimento infantil, recorde-se como Freud, em «A questão da análise por não-médicos», afirmava que as crianças de quatro a cinco anos são de um modo geral intelectualmente muito vivas, enquanto fica com a impressão de que a sua entrada no período de latência redunda na sua inibição intelectual, tornando-as mesmo estúpidas. Encurtadas, diríamos nós. Mesmo ao nível físico, acrescenta Freud, muitas crianças perdem então o seu encanto (cf, SA, 305). Ora se isto acontece às crianças em geral, quanto não acontecerá às meninas em particular? Aliás, já na obra «Moral sexual cultural e nervosismo moderno», de 1908, Freud explicava a indubitável inferioridade intelectual de tantas mulheres dizendo que, para vencer, a repressão sexual que sobre elas se abatia tinha primeiro, e forçosamente, que as inibir intelectualmente, que as «encurtar», diríamos (cf. SA, IX: 28)” (Santos, 2002: 138-139).

(…).

“Perante as mulheres, Freud teve algumas vezes uma atitude de notável compreensão dos seus problemas ou do seu sofrimento. Por exemplo, não pode deixar de ser interessante ressaltar que, perante as condições em que os casamentos geralmente funcionavam, tenha dito que as mulheres precisavam de ter muita resistência psíquica para os suportar, e que a incapacidade dos médicos as ajudarem fazia remeter as supostas soluções para a natureza ou a passagem do tempo: a cura viria, primeiro, da menstruação, depois do casamento, e a seguir da menopausa. No fim, escreve com ironia Freud, só a morte ajudava verdadeiramente a resolver o assunto (cf. SA, EB: 323)” (Santos, 2002:140).

Mas, então, percebendo tudo isto, porque Freud teimava em remeter as mulheres para o lar, porque teimava em «encurtar» as potencialidades das mulheres, ao invés de «encurtar» o seu – dele, Freud –  «ideal de feminilidade»? Contradições de um cientista…

Freud numa carta que escreveu à sua futura mulher, Marta Bernays, “discute algumas ideias de Stuart Mill sobre a emancipação das mulheres, pois Marta andava a ler alguns dos seus textos e era preciso não haver equívocos. O lugar da mulher era em casa, tratando das crianças, escreve Freud. Mesmo que o seu trabalho fosse simplificado, isso absorvia suficientemente um ser humano para poder ter hipótese de ganhar dinheiro no exterior. Além do mais, seria impensável querer lançar as mulheres no mundo do trabalho como os homens. Deveria ele, Freud, passar a encarar a sua querida namorada como um concorrente? Impossível. Podia ser, concedia, que um outro tipo de educação conseguisse abafar as qualidades delicadas da mulher e a sua necessidade de protecção, tornando-a capaz de ganhar a vida como um homem. Mas, nessa altura, perder-se-ia «a coisa mais preciosa que a vida nos pode oferecer: o nosso ideal de feminilidade» (Freud, 1991:87)” (Santos, 2002:141).

 

“Novos Desejos”

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“Segundo Lerner, um dos desafios mais importantes do feminismo consiste, precisamente, em criar um contexto em que possamos definir os nossos desejos com maior autenticidade, e estar mais em contacto com o nosso corpo e com a maneira como queremos usá-lo. Não vou repetir a ideia de que querer é poder, só me interessa assinalar aqui que deveríamos interrogar-nos com mais frequência sobre o que realmente desejamos. E não porque ao tornar explícitos os desejos estes se tornem realidade, mas para contrabalançar o facto de tantas vezes os mascararmos, os ocultarmos, os negarmos e, até, de nos envergonharmos deles. A verdade é que nem sempre é fácil averiguar quais são os nossos desejos. Com efeito, não é simples detectar os próprios desejos, porque o imaginário social é que propõe o que é desejável para uma mulher. Em primeiro lugar, é preciso ousar fazer perguntas; depois, como num exercício de responsabilidade e liberdade, ousar dar a resposta” (Alborch, 2004:111).

(…).

“Marcel Burin pergunta-se se as mulheres podem, realmente, ter outros desejos que não os propostos pela cultura dominante; interroga-se também sobre o custo emocional a pagar pelas mulheres que alimentam outros desejos que não os socialmente prescritos. No desejo de viver para o outro e em cumprimento do seu papel (ou para representar o seu papel), foram treinadas na abnegação, na entrega e no sacrifício, em detrimento de atitudes de iniciativa. O que as mulheres «devem desejar» é esboçado insistentemente nos mitos, na literatura, na publicidade, nas mensagens televisivas e no cinema. Mas, significativamente, nessa nómina de desejos, que inclui os já consabidos, não figuram – ou não figuravam até há pouco tempo – a autonomia económica, os espaços sociais para a mulher na esfera pública ou as possibilidades de desenvolvimento pessoal.

Não é fácil encontrar na história mulheres que definam estes desejos. No início da revolução romântica, Olympe de Gouges declarava:

«Mulher, desperta: o toque a rebate da razão faz-se ouvir em todo o universo. Reconhece os teus direitos».

À sua «Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã» seguiu-se a «Defesa dos Direitos da Mulher», de Mary Wollstonecraft.

A Revolução Francesa está ligada aos nomes de Théroigne de Méricourt, Manon Philipon, Claire Lacombe e Pauline Léon. A seu lado encontram-se Mme. de Staël, George Sand, Mary Shelley, as irmãs Brontë, Jane Austen, Dorothea Schlegel, Rahel Varnhagen. As palavras de Mme. de Staël exprimem fielmente as aspirações femininas para além das petições igualitárias: «Tudo quanto tende a comprimir as nossas faculdades é sempre uma doutrina aviltante; há que dirigi-las para o objectivo sublime da existência, o aperfeiçoamento moral; mas não é através do suicídio deste ou daquele poder da nossa era que nos tornaremos capazes de nos elevar a essa meta: sobram-nos meios para nos aproximarmos dela» (Alborch, 2004:112).

(…).

“O conflito ocorre quando os desejos da mulher são impostos e, por conseguinte, fictícios” (Alborch, 2004:114).

(…).

“A incapacidade ou proibição de dar vazão aos desejos pode desembocar em violência. As mulheres têm o hábito de virar uma boa parte dessa violência contra si (é o caso do conhecido recurso moderno aos fármacos, à automedicação; os modelos antigos convidavam ao suicídio). À possível ou temida sanção social junta-se a sanção interna, feita de intensos sentimentos de culpa com que costuma punir-se quando tentam romper com os padrões convencionais que regem suas vidas. Na opinião de algumas terapeutas, o reconhecimento e expressão da hostilidade para consigo, além de porem em causa a sua realidade, expunham-nas a uma forma de sanção social, o serem consideradas nervosas ou histéricas, com a carga de zombaria que, por vezes, acompanha esses qualificativos” (Alborch, 2004:114).

“Segundo Burin, a hostilidade pode ser um recurso vital se, em vez de a usarmos para nos molestarmos, fizermos dela um desejo de transformação” (Alborch, 2004:114).

TRANSFORMAÇÃO!

 

Bibliografia:

 

ALBORCH, Carmen. (2004). Mulheres Contra Mulheres. Rivalidades e Cumplicidades. Editorial Presença. Barcarena.

SANTOS, F. Laura. (2002). Alteridades Feridas. Algumas Leituras Feministas do Cristianismo e da Filosofia. Editora Angelus Novus, Lda. Coimbra.