Vidas ocultadas

Publicado por: Milu  :  Categoria: SOCIEDADE, Vidas Ocultadas

“Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exacto. E então, pude relaxar. Hoje eu sei que isso tem nome: Auto-estima.”

Kim Mcmillen

 

Ainda há quem se atreva a dizer, por disso estar convencido, que só os homens podem ser bons filósofos, cientistas ou intelectuais. Na verdade, tempos houve em que a mulher era  praticamente excluída da escola, sendo que se considerava que uma mulher deveria antes aprender a cuidar de uma casa, do marido e dos filhos. Deste modo, o estudo para uma mulher não serviria para nada, pois a sua função na sociedade era ser uma boa mãe e uma boa esposa. No entanto, mesmo em tempos remotos, durante toda a Idade Média, houve  mulheres que por terem tido a suprema graça de nascerem  no seio de uma família com posses e esclarecida, puderam não só frequentar a  escola como também aprofundar os seus estudos, não obstante as dificuldades sentidas  em relação à escolha de certas profissões que estavam interditas às mulheres, pois toda a educação era feita na base das desigualdades de género.

Por sua vez, a História não fez jus ao esforço e mérito das mulheres, tendo em conta que é muito parca em relatos seja de que ordem for, quando protagonizados por mulheres. Já em relação aos  homens,  facilmente constatamos que as narrativas sobre as suas obras são extensas, abundantes e… empoladas. A escola também tem muita responsabilidade neste facto, uma vez que conta uma história de homens, é profícua em dar a conhecer às crianças e jovens personagens masculinas.

Mas a mim, o que me suscita curiosidade são as histórias de vida das mulheres que não são faladas porque incómodas,  daquelas que vivendo num tempo de trevas foram visionárias e tiveram a coragem de  ter ideias, de desafiar o estabelecido. Algumas destas mulheres pagaram com a vida a sua ousadia…

Mas quem melhor para nos elucidar sobre estas Grandes Mulheres ocultadas senão Ana Barradas, autora do livro denominado “Dicionário Incompleto de Mulheres Rebeldes“? Fruto de aturadas pesquisas, nele poderemos encontrar cerca de 244 referências a mulheres que se destacaram pela sua rebeldia e inconformismo. Chamo a atenção para um pormenor muito importante: Algumas destas mulheres viveram na Idade Média e já viam mais longe do que a maioria das mulheres do nosso tempo… Como não poderia deixar de ser, aqui transcrevo algumas dessas referências que não sendo as mais perturbadoras, são o bastante para fornecer uma ideia do conteúdo deste livro.

Um livro que nos é apresentado da seguinte forma:

“Na bibliografia portuguesa, este livro constitui uma primeira incursão num domínio, a bem dizer, ocultado: o das mulheres que ao longo da História fizeram história ao insurgirem-se simultaneamente contra o poder político e contra as inaceitáveis e específicas limitações que a lei e os costumes sempre impuseram às mulheres para impedir a sua autonomia como seres pensantes.”

 

 

Introdução do livro “Dicionário Incompleto de Mulheres Rebeldes”

 

Sendo a historiografia essencialmente tecida em volta dos feitos dos dominadores, as obras de referência que circulam limitam-se a consagrar as figuras femininas «politicamente correctas», complementares da acção dos homens. (…). Nesta selecção que agora se apresenta transparece pois como critério fundamental o intuito de celebrar o desejo de revolta, o espírito pioneiro, os feitos inéditos e criativos, a dinâmica subversiva, a fuga à norma, enquadrando-os o mais possível num contexto epocal, para tornar mais transparentes as causas, as motivações e os efeitos dessas atitudes quase sempre assumidas à custa de enormes doses de coragem. (…).

Não se pretende pois enaltecer imperatrizes, cortesãs, sábias ou figuras desde há muito consagradas como «grandes mulheres» ou como «as mais famosas». Não se acharão aqui nomes como os da rainha Vitória, Catarina da Rússia ou Madame Curie, para citar apenas algumas.

(…)

Algumas [das mulheres deste livro] continuam a ocupar posições obscuras na história dos homens e nos registos que chegaram até nós, em resultado da sistemática desvalorização de tudo quanto é feminino e contra a norma vigente. Mas nem por isso me parecem menos dignas de nota, pelo contrário. Esse anonimato cativa-me, faz-me senti-las mais próximas, mais irmãs de todas as mulheres desconhecidas.

A selecção que se segue tem lacunas evidentes, a primeira das quais é que as mulheres portuguesas estão muito mal representadas, por falta de material documental e porque a pesquisa exigível precisaria de mais tempo para se desenvolver de forma coerente. E também porque me parece, é preciso confessá-lo, que ao longo da história elas não se destacaram particularmente em matéria de rebeldia. Muito enfeudadas à religião e aos costumes patriarcais, vivendo numa sociedade atrasada e periférica que nunca prezou as inovações, quase sempre caracterizada por um atavismo arreigado, por uma cultura de repressão e exclusão (não era essa «a apagada e vil tristeza»?) e por um desprezo muito  generalizado pelo segundo sexo, foram raros os casos de inconformismo. Ainda está para se fazer o balanço do efeito que sobre essa passividade terá tido, por exemplo, a caça às bruxas movida pela Inquisição, que foi no fundo, em grande medida, uma guerra contra as mulheres e os seus poderes de cura, de magia, de insubordinação. Curandeiras, feiticeiras, abortadeiras, «mulheres santas» e outras sacerdotisas do saber tradicional popular deviam figurar nesta antologia, mais do que a padeira de Aljubarrota, Maria da Fonte e outras figuras emblemáticas, que apenas viram o seu nome consagrado por a sua acção ter secundado , como pano de fundo, outras acções mais proeminentes, viris, políticas ou de alcance nacional, em defesa deste ou daquele interesse patriótico ou de classe”. (…) (Barradas, 1998: 7-10).

 

Histórias de Mulheres Especiais

 

Alice Walker (1954)

 

“Poetisa, romancista e contista americana, é conhecida por desafiar as tradições e inspirar mudanças. Nascida no seio de uma família de trabalhadores de plantação no Sul dos Estados Unidos, Walker confrontou-se com o  racismo, a ignorância e o ódio e procurou refúgio na escrita. Os seus livros mais famosos, The Color Purple e Possessing the Secret of Joy, tratam da opressão das mulheres e dos negros na sociedade americana. «A base de todas as mudanças tem de ser a autonomia feminina.  A mulher está completamente à altura de definir e construir o seu presente e futuro. Não padece de menoridade. É um ser humano de pleno direito, perfeitamente capaz.»

Trouxe à discussão o tema da mutilação genital. Diz ela: «O assunto surge esporadicamente a lume nos meios de comunicação social, mas para cem milhões de mulheres espalhadas por todo o mundo continuou a ser um problema e assim permanecerá, enquanto os seus filhos correrem perigo. Acho que se quebrou o silêncio. As mulheres desses países sabem que já não constitui segredo. Sabem o que se passa. Conhecem o processo em pormenor. Tem-se a sensação de que podemos manter alertada a consciência mundial.» Por outro lado, «é dever absoluto questionar todas as religiões que se conhecem, porque habitualmente agem contra os interesses das mulheres. Estas têm de tomar consciência de que são seres conscientes e que podem compreender tão bem como qualquer um por que estamos neste mundo, para começar. A partir dessa compreensão, podem elaborar uma espiritualidade e uma religião que se adaptem à sua experiência e as conduzam pela vida fora. Aqueles que tentam dominar tantos outros tornaram a vida na Terra uma infelicidade para as pessoas, durante milhares de anos. Chegou a altura de desaparecerem. Podem levar consigo esse Deus que criaram, ir para o céu e sentar-se a seu lado para se aborrecerem por toda a eternidade. Mas as mulheres têm mais que fazer

As suas ideias acerca da família também causaram celeuma: «É muito curioso as pessoas estarem constantemente a lamentarem o colapso da família; com isto querem significar o colapso da família nuclear, com o homem como chefe de família e as mulheres e crianças como uma espécie de membros subservientes. Mas o que acontece é que estão constantemente a formar-se novos tipos de famílias. (…) A família nuclear está a morrer porque serviu muito mal as pessoas. Foi quase fatal para as mulheres e crianças, porque reforçou o poder e o domínio masculinos. O homem abusou desse domínio e usou-o contra as pessoas que devia proteger: a mulher e os filhos. Por isso, deixem-na desaparecer. Deixem de tentar agarrar-se a uma coisa que realmente nunca funcionou bem.»” (Barradas, 1998: 23-24).

 

Antoinette Fouqué 

 

“Professora e crítica literária, editora e feminista, Antoinette Fouqué fundou o Movimento de Libertação das Mulheres em França nos anos 60, o primeiro do género na Europa. Reuniu logo desde o princípio milhares de apoiantes, numa altura em que as mulheres entravam em força no mercado de trabalho. 

Ao mesmo tempo, fundou um grupo chamado Psychoanalyse et Politique, para estudar as razões da opressão feminina. Organizou conferências internacionais em que estiveram presentes muitos milhares de participantes de todos os continentes.

Publicou várias revistas internacionais e fundou uma editora, Des Femmes, conhecida por editar livros escritos por mulheres” (Barradas, 1998: 36).

 

Cristina de Piza (1365-c. 1430)

 

“Cortesã e escritora francesa, é autora do Livro da Cidade das Damas, em defesa do sexo feminino e registando as vidas de mulheres famosas, desde Eva até à rainha de França, sua patrona. Opôs-se às tradições machistas do seu tempo: a educação medíocre que se dava às mulheres era o que causava a ilusão de inferioridade em relação aos homens; o casamento era mais penoso para as mulheres do que para os homens; os homens usam de crueldade com as mulheres, e estas «não sentem absolutamente prazer nenhum em serem violadas.» Ganhou os favores do duque de Bolonha com as suas poesias e escritos didácticos, históricos e filosóficos com os quais, depois de enviuvar aos 23 anos, sustentou a família (mãe, dois irmãos e os dois filhos). Na autobiografia, “Visão de Christine”, afirmou que a «ajuda» que lhe davam era «relutante e não muito generosa, e às vezes, quando a davam, havia atraso no pagamento e necessidade de assediar as suas fortunas para a receber.»

Foi uma escritora conhecida, apreciada e popular em vida. O “Livro das Três Virtudes, sobre  as actividades e atitudes indicadas para as mulheres de diferentes condições”, teve várias edições em França. Ela própria encomendou uma tradução para inglês do “Livro da Cidade das Damas”. Com grande profissionalismo, dirigiu a produção das suas obras: contratou copistas, orientou-os e deve ter copiado também partes de cerca de 55 manuscritos seus.

Christine de Piza foi a primeira mulher a participar nos debates literários e filosóficos sobre o valor das mulheres: «Não há a mínima dúvida de que as mulheres pertencem ao povo de Deus e à raça humana tanto como os homens e não há outra espécie ou raça dissemelhante, pela qual deveriam ser privadas de ensinamentos morais.»

Depois de morrer, caiu no esquecimento, vindo a ser redescoberta  na segunda metade do século XX” (Barradas, 1998: 46-47).

 

Elizabeth Cady Stanton (1815-1902)

 

“Quando da cerimónia em que se casou em 1840, insistiu em não pronunciar a palavra «obedecer» incluída nos votos do matrimónio. Em 1848 organizou, com Lucrécia Mott, a primeira convenção sobre os direitos das mulheres em Seneca Falls, que deu origem ao movimento sufragista americano. Fundou com Susan B. Anthony o Movimento Nacional pelo Sufrágio das Mulheres em 1869″ (Barradas, 1998: 58-59).

 

Émile Du Châtelet (1706-1749)

 

“Nobre e cortesã, as suas capacidades intelectuais revelaram-se desde muito cedo: aos 10 anos já lia Cícero e estudava matemática e metafísica. Aos 12 anos falava inglês, italiano, espanhol e alemão e traduzia do latim e grego textos dos clássicos.

Mais tarde, este tipo de interesses valeu-lhe ser admitida nas discussões entre matemáticos e cientistas parisienses e passou a ser conhecida como intérprete das teorias de Leibnitz e Newton. Dormia muito pouco, lia muito depressa e aparecia em público com os dedos manchados de tinta de escrever. O pai queixava-se: «Farto-me de discutir com ela. Não compreende que nenhum grande senhor quererá casar com uma mulher que se entrega diariamente à leitura.» A mãe, que lhe ensinou as oito maneiras aceitáveis de comer um ovo quente antes de a apresentarem à corte, aos 16 anos, censurava-a por dar provas de inteligência, coisa que afastaria definitivamente os pretendentes, se os outros seus excessos não os afastassem primeiro. Só o duque de Richelieu, seu amante e amigo de toda a vida, a encorajava a prosseguir os estudos e a formalizá-los com a ajuda de professores da Sorbonne.

Quando os cortesãos de Luís XV começaram a apostar sobre qual deles a seduziria primeiro, Émilie, que era atlética e alta, desafiou o coronel Jacques de Brun, comandante da guarda real, para um duelo à espada. Perdeu, mas jogou tão bem que os outros galãs suspenderam as investidas com medo de terem de ser desafiados a novos combates.

Em 1733, ao entrar no café Gradot, onde se reuniam os seus amigos cientistas e filósofos, foi impedida de se aproximar deles, por ser mulher. Mandou fazer um fato de homem e apresentou-se, para gáudio dos colegas e consternação do dono do estabelecimento.

(…)

Em 1740, Émilie du Châtelet publicou As Instituições da Física, obra em três volumes sobre Leibnitz. Também traduziu Princípios da Matemática de Newton, escreveu um livro sobre álgebra e colaborou com Voltaire no tratado deste sobre Newton” (Barradas, 1998: 61-62).

 

Etta Palm D’Aelders (1743-?)

 

Holandesa activa na Revolução Francesa, que desde 1789 se destacara como oradora, sobretudo pelo seu «Discurso sobre a Injustiça das Leis que favorecem os homens em detrimento das mulheres.» Nele denunciava a escravatura doméstica e deplorava estar o género feminino dependente do domínio de um homem, do nascimento até à morte. Quando o  destino as livrava disso, continuavam a ser vítimas dos preconceitos sociais.

No  Verão de 1791, depois de fundar o clube Sociedade Patriótica e de Beneficência das Amigas da Verdade, dirigiu-se à Assembleia Nacional, pedindo educação igual para  as raparigas e igualdade de direitos para as mulheres. Convencida de que conseguiria os seus intentos, afirmou no seu discurso: «Vós devolvestes ao homem a dignidade como ser, reconhecendo os seus direitos; não permitireis que a mulher continue a sofrer sob o jugo de uma autoridade arbitrária.»

Voltou a pronunciar-se naquela Assembleia por duas vezes: a propósito da igualdade entre herdeiros, sem distinção  de sexo, e da igualdade do homem e da mulher face ao adultério.

Em Outubro de 1793, todas as mulheres foram proibidas de exercer actividade política, a pretexto de que

«uma mulher não deve abandonar a família para se imiscuir nos assuntos do governo».

Depois da morte de Olympe de Gouges na guilhotina, Etta viu-se forçada a fugir de França para escapar à repressão. Depois disso, pouco mais se sabe da sua vida” (Barradas, 1998: 75-76).

 

Louise Otto Peters (1819-1895)

 

Feminista Alemã, escreveu romances, publicou um jornal para mulheres no período revolucionário após 1848 e foi fundadora do movimento feminino alemão. Ao fim de dois anos de publicação foi forçada a fechar o jornal, por causa de uma lei aprovada havia pouco, estipulando que só os homens podiam editar jornais.

Escreveu: «A história de todos os tempos, e a de hoje especialmente, ensina que (…) as mulheres serão esquecidas se se esquecerem de pensar em si próprias.»” (Barradas, 1998: 123).

 

Margarita Nelken (1894-1968)

 

De origem judia alemã, interessou-se por temas sociais e viveu de perto a Revolução Alemã. As suas conferências e cursos de arte levaram-na a França, Holanda, Bélgica e Espanha.

Em 1921 escreveu a Condição Social da Mulher em Espanha, livro que a igreja católica fez questão de condenar. Realçava a exploração da mulher, a sua ignorância e falta de educação sexual e a necessidade de se instituir o divórcio. Analisava problemas como prostituição, filhos ilegítimos e mães trabalhadoras.

Cumpriu três mandatos parlamentares pelo PSOE (1931, 33 e 36), antes de aderir ao Partido Comunista. Discursava nos centros industriais. Quando o governo republicano começa a reprimir aos tiros as manifestações operárias, o director da Guarda Civil, o general Sanjurjo, responsabiliza-a por fazer discursos «incendiários».

Em Janeiro de 1939, no dia em que o exército franquista estava já às portas de Barcelona, Margarita Nelken deu uma conferência sobre «Picasso, artista e cidadão de Espanha». O célebre pintor era odiado pelo regime de Franco e fora forçado a exilar-se” (Barradas, 1998: 130).

 

Olympe de Gouges (1748-1793)

 

Filha de um talhante, casou cedo com um militar de baixa patente de quem teve um filho. Aos 20 anos fugiu de casa, aborrecida com a vida de família e desejosa de se dar a conhecer ao mundo. Apresentou-se em Paris com um nome falso e uma genealogia romanceada – dizia-se filha ilegítima de um marquês. Tornou-se famosa como literata e mulher dada a ligações ocasionais.

Quando se deu a Revolução Francesa e embora  se mantivesse a favor da monarquia, pensou ver no novo ideário a possibilidade de direitos iguais entre os dois sexos e lançou-se apaixonadamente nessa luta. Passou a frequentar as tribunas, os cafés e as sociedades eruditas. Defendia, entre muitas outras coisas, mais e melhor educação para as mulheres e direitos iguais no casamento, pagando do seu bolso a impressão de panfletos que distribuía pessoalmente.

Quando, em Outubro de 1791, a Assembleia Constituinte aprovou uma Constituição que excluía as mulheres dos direitos de cidadania, Olympe de Gouges publicou a sua própria «Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne» (Declaração dos direitos da mulher e da cidadã), inspirada na Declaração dos Direitos do Homem, que dedicou a Maria Antonieta. No preâmbulo, afirma: «Esta revolução só se consumará quando todas as mulheres se compenetrarem da sua deplorável sorte e dos direitos que perderem nesta sociedade. Apoiai, Senhora, esta causa tão bela; defendei este sexo infeliz e em breve tereis para vós metade do reino e pelo menos um terço do outro.» Incluiu na declaração um «contrato social entre marido e mulher», com base numa união «pelo termo da vida e pela duração das inclinações naturais». O artigo 10º declara: «Se uma mulher tem o direito de subir à forca, também deve ter o direito de subir à tribuna.» E o texto termina com um apelo:

«Mulher, acorda! Em todo o universo ouvem-se já as badaladas do sino da razão; descobre os teus direitos. O poderoso império da natureza já não está rodeado de preconceito, fanatismo, superstição e mentira. A chama da verdade dispersou todas as nuvens de loucura e usurpação.»

Na Primavera de 1792, já desiludida, escreveu: «Ó meu pobre sexo, ó mulheres que nada adquiristes nesta revolução!» Cada vez mais mal vista pelos dirigentes do poder, é alvo de insultos e chacota. O jornal Les Révolutions de Paris comenta, referindo-se a declarações suas:

«A honra das mulheres consiste em cultivar, de bico calado, todas as virtudes do seu sexo sob o véu da modéstia e na sombra do recolhimento. Além disso, não é às mulheres que compete indicar o caminho aos homens.»

Presa como girondina, sobe à forca em Novembro de 1793, depois de decretada a proibição de as mulheres se ocuparem de actividades políticas. Antes de morrer, fez votos para que a posteridade não esquecesse que agira em favor das mulheres, cuja causa, estava certa, triunfaria um dia” (Barradas, 1998: 166-167).

 

Conclusão

 

“O estudo da História não é politicamente neutro nem alheio aos conflitos sociais. Isso mesmo o afirmam os responsáveis por esta história da mulher ocidental, ao reconhecerem que sem a luta feminina pela emancipação social e  as interrogações que esses movimentos suscitaram jamais lhes ocorreria a necessidade de tal projecto. Mais do que uma história  das mulheres, esta é uma história das relações entre os sexos, da dominação masculina ao longo do tempo. As implicações de tal dominação são tantas e de tal forma totalitárias que obrigam a uma primeira constatação:

a mulher nunca existiu como ser social.

Os ténues vestígios que dela nos chegam não são de proveniência directa, mas dos homens que governam, escrevem, constroem as memórias. Elas «pouco espaço ocupam nos arquivos públicos. Desapareceram na destruição dos arquivos privados. Quantos diários íntimos, quantas cartas queimadas por herdeiros indiferentes, ou mesmo pelas próprias mulheres que, no crepúsculo  de uma vida magoada, remexem as cinzas das suas recordações, cuja divulgação temem. Das mulheres guardam-se, muitas vezes, objectos: um dedal, um anel, um missal, uma sombrinha, a peça de um enxoval, o vestido de uma avó; ou então imagens».” (Barradas, 1998: 226).

 

Bibliografia

BARRADAS, Ana. (1998). Dicionário Incompleto de Mulheres Rebeldes. Antígona. Lisboa.

 

 

Arqueologia do Traje

Publicado por: Milu  :  Categoria: Arqueologia do Traje, SOCIEDADE

 

“As pessoas que cometem erros e que se vestem mal são os verdadeiros estilistas (…).”

Jean Paul Gaultier in (Wilson, 1985: 22)

Ainda há poucas horas, o Facebook teve a gentileza de me recordar uma das minhas mais antigas amizades na grande rede. Pelos vistos, há oito anos que sou amiga do Raul. O que o Facebook não sabe é que essa amizade virtual já existia, alguns anos antes,  numa outra rede social, a comunidade da blogosfera, também ela um fenómeno social.

Ter um blog é ter a possibilidade de estar conectado com outros blogs e seus criadores, referir-se a eles na sua própria escrita e postar comentários nos blogs uns dos outros. E assim se cria uma cultura e nascem amizades. Algumas destas amizades poderão perdurar por muitos anos, como foi o caso. Só por isso vale a pena por aqui andar!

Mas para que serve um blog, que interesse poderá haver em ter um blog?

Na minha singela maneira de ver as coisas, um blog serve para nos expressarmos. E, através do seu blog, cada um se manifesta à sua maneira.  No meu caso, é o gosto que nutro pela partilha do saber, o gosto pela partilha das minhas descobertas. Tantas vezes que me espanto com as revelações que me são feitas através da leitura dos livros… É esse espanto, caro leitor, que eu pretendo partilhar consigo 🙂

Pois aqui estou mais uma vez para fazer o gosto ao dedo, desta feita elaborando um post a que dei o nome de Arqueologia do Traje. E, mais uma vez constatei que resgatar a História dos tempos,  gostar de sociologia e de  antropologia,  torna-se imprescindível  no combate dos preconceitos e estereótipos, que só servem para nos agrilhoarem.

O livro, que hoje aqui apresento, intitulado “Enfeitada de Sonhos“, da autoria de Elizabeth Wilson, fala-nos de vestuário e de modas.

Falar de vestuário, ou de modas, poderá parecer um tema supérfluo, mas neste caso o que está em causa  são os  nossos arquétipos, de algo que permanece vivo no inconsciente colectivo.

Por exemplo: quer queiramos, quer não, domina a ideia de que saias ou vestidos são peças de roupa do universo feminino. Quem diz saias ou vestidos, diz produtos de maquilhagem, que são comummente considerados para usufruto das mulheres, exceptuando as estrelas pop, que até por isso consideramos extravagantes. Ao contrário do que se passa no universo feminino, que neste âmbito é diversificado, efémero e multicolor, de certa forma associado a vaidade, o universo masculino pauta-se pela sobriedade e pela estabilidade, qualidades que sugerem confiança, garantia e firmeza.

É por isso que os artigos que instruem sobre como agir numa entrevista de emprego aconselham a que se apresente vestido de uma forma discreta, simples e convencional, não vá parecer aos olhos do entrevistador uma estouvada (o). Repare-se que ainda não há muito tempo, a mulher que acedesse a uma profissão ou a um cargo profissional, historicamente reconhecido como do domínio dos homens, adoptava uma forma de trajar bastante sóbria, um conjunto de calças e casaco, habitualmente numa cor escura,  respeitando um figurino à semelhança dos homens. O masculino como modelo, afinal. Mas tudo tem uma razão de ser. Foi a razão, que se esconde por detrás da austeridade do figurino masculino que me apaixonou, e que o caro leitor poderá ler no excerto que aqui exponho, que propositadamente intitulei [O porquê da sobriedade masculina].

Recordo-me de ter ouvido algumas vezes uma frase, quando eu ainda era criança, que determinava quem era o macho: “Aqui quem veste calças sou eu”. As calças como um símbolo masculino, como um símbolo de poder, claro. Esta frase pretendia reivindicar uma superioridade e autoridade que era reconhecida aos homens, os legítimos chefes da casa, de acordo com a lei e os costumes desse tempo. Mas havia mais: quem nunca ouviu pronunciar as célebres frases “mulher de pêlo na venta”, e “mulher de tomates” quando se pretendia referir uma mulher corajosa, determinada e como não poderia deixar de ser, um tanto agressiva? Aliás, também era comum dizer-se “uma mulher homem”!

Ora, posto isto, era esperado pensar que as calças teriam sido, desde sempre,  uma indumentária  masculina e as saias e vestidos (esqueçamos o Kilt dos escoceses) indumentárias das mulheres.

Foto de um dos actores de minha eleição

 

Mas  não é verdade. Se resgatarmos a História verificamos que os homens também já vestiram saias, vestidos e usaram cosméticos, quando empoavam “a fronha” e o cabelo com rouge e pó de arroz. Também não é correcto associar à mulher  o vestuário menos sóbrio, adornado de rendas e bordados, uma vez que estas e estes já foram adornos masculinos. E até a invenção do wonderbra, pasme-se, já teve o seu equivalente no masculino, a denominada «coquilha». É só constatar aqui.

Tempos virão em que o vestuário já não servirá para diferenciar géneros. Já vamos vendo por aí cada vez mais os estilistas a avançar com modelos de homens com saias, o futuro da moda masculina a passos largos, pode-se dizer. E sim, já há homens a sair à rua trajando saia e bem maquilhados, uma pequena minoria de corajosos, que não se deixam intimidar pelos olhares de soslaio permeados de desconfiança.

 

Particularmente, a forma como vestimos diz muito de nós, embora haja outros aspectos da nossa maneira de estar que nos revelam, como por exemplo, o que comemos,  como e onde gastamos o nosso dinheiro, etc, etc.

Mas vamos dar a palavra a quem estudou esta área da nossa História:

 

 

“O vestuário estabelece de forma ambígua uma fronteira pouco definida, e as fronteiras pouco claras perturbam-nos. Os sistemas simbólicos e os rituais foram criados em muitas culturas diferentes de modo a reforçarem as fronteiras, já que elas salvaguardam a pureza. É nas margens entre uma coisa e outra que a poluição aparece. Muitos dos rituais são tentativas para conter e separar, inventadas para impedir a corrupção que ocorre quando a matéria espirra de um lugar – ou categoria – para outro” (Wilson, 1985: 13).

“As formas mais antigas de «vestuário» parecem ter sido os adornos, tais como as pinturas corporais, os enfeites, as escarificações (cicatrizes), as tatuagens, as máscaras e fitas que apertavam o pescoço ou a cintura. Muitos destes adornos deformavam, reformavam ou modificavam de alguma maneira o corpo. Os corpos de homens e de crianças, e não só os das mulheres, eram alterados – parece existir o desejo muito espalhado de transcender as limitações do corpo” (Wilson, 1985: 14).

“O crescimento da cidade na Europa, na primeira fase do chamado capitalismo de mercado, no final da Idade Média, assistiu ao nascimento do vestuário da moda, ou seja, de qualquer coisa de qualitativamente diferente e novo”  (Wilson, 1985: 14).

 

Bordados e rendas em traje masculino

 

“Constantemente em mudança, a moda só produz conformismo (…). Vestir-se à moda implica uma pessoa destacar-se e, simultaneamente, fundir-se na multidão, reivindicar o exclusivo e seguir o rebanho. (…). Numa dada época, os ricos usam tecidos dourados, bordados a pérolas, noutra poderão usar caxemira beige e fato cinzento. Numa certa época os homens pavoneavam-se de rendas, saltos altos e rouge, noutra uma tal apresentação estaria próxima da marginalidade e causaria uma agressão de ordem física” (Wilson, 1985: 17).

 

Luis XIV com saltos altos vermelhos em retrato de Hyacinthe Rigaud (1701)

“Durante a época clássica o vestuário costurado era o emblema dos povos bárbaros, e tanto os Gregos como os Romanos vestiam vestes largas com pregas. Com efeito, a distinção mais importante, no que diz respeito ao vestuário, não era, como hoje em dia poderíamos supor, a distinção entre os homens e as mulheres mas sim entre as roupas largas e pregueadas e as roupas costuradas” Wilson, 1985: 30).

A roupa interior era desconhecida em Roma até ser copiada das tribos do Norte e não obstante ser desprezada em razão das suas origens, era quente, o que a tornou popular. Uma tentativa antiga para fazer cumprir as leis sumptuárias foi o decreto de 397, que proibia o uso de roupa interior” (Wilson, 1985: 30).

O vestuário distinguia os ricos dos pobres, os dirigentes dos dirigidos, apenas pelo facto de os trabalhadores usarem mais roupas em lã e não usarem roupas de seda; os tecidos com que eram feitas as suas roupas eram mais grosseiros e menos enfeitados do que as roupas dos seus patrões” (Wilson, 1985: 32).

“O século catorze assistiu à proliferação de estilos muito mais elaborados dos que até ao momento tinham existido, tanto no que diz respeito aos homens como no que diz respeito às mulheres. O gibão para os homens era usado muito curto e apertado, a cote hardie, uma túnica comprida abotoada à frente, também era usada apertada tanto pelos homens como pelas mulheres das classes mais altas. Simultaneamente, os vestidos, também usados pelos homens e pelas mulheres, tornaram-se extremamente largos e compridos, com as mangas ou muito apertadas ou muito largas, as bainhas com cortes fantásticos, enquanto os chapéus e toucas passaram a ter as formas mais extravagantes e mudavam rapidamente de formato, com picos, campanários, turbantes e fezes. Os sapatos passaram a ser exageradamente compridos à frente e bicudos” (Wilson, 1985: 33-34).

“Algumas partes do corpo, especialmente a perna feminina, tinham sempre de estar tapadas; outras partes eram, num dado momento, tapadas, noutro, ostensivamente reveladas, e a moda masculina da coquilha, que talvez tenha sido a moda mais exibicionista de todos os tempos, consistia numa «modesta» cobertura para os órgãos genitais, que aparecia debaixo do curto gibão, o que ainda chamava mais a atenção para os órgãos sexuais, que supostamente devia encobrir” (Wilson, 1985: 36).

“As novas modas masculinas puseram o corte à frente do adorno, da cor e da exibição. Abandonaram as pinturas e o estilo efeminado e afectado. Mas as calças apertadas, justas ao corpo, dos  dandies de 1880 eram altamente eróticas.  Tal como a sua nova masculinidade sem pinturas. Durante os séculos dezanove e vinte, uma variedade de modas masculinas como, por exemplo, a barba completa, o dandyismo Eduardino ou os fatos suaves de cocktail de Clark Gable e de Gary Grant, na década de 30, longe de fazerem parte de uma retirada da moda, representavam apenas uma abordagem mais oblíqua, mais subtil, mais complexa, da sedução, do que as sedas e cetins do homem da corte do «ancien régime»” (Wilson, 1985: 43-45).

[O porquê da sobriedade masculina]:

Só no século dezoito, apesar de tudo, é que a homossexualidade começou a ser encarada como uma condição psicológica permanente, como uma «identidade determinante» e uma prática sexual. Antigamente, os actos homossexuais eram vistos como pecado, mas considerados potenciais em todos os indivíduos, dado o carácter pecaminoso da natureza humana «caída». Agora não se tratava mais de uma questão de actos diabólicos, era mais uma questão de se ser homossexual, e isto era uma condição permanente. Tal como a sodomia havia sido abominada, tem-se defendido de que de certa maneira se atribuiu um estigma maior a esta nova identidade sexual do que ao velho comportamento pecaminoso. Portanto, não é de admirar que se tenha tornado tão importante dar um testemunho, por meio de um vestuário masculino, de que não se é efeminado. A crescente padronização do vestuário agiu como reflexo de auto-defesa contra estes novos medos. O domínio da burguesia implicava a vitória dos ideais de trabalho, de esforço e de sobriedade; e o homem de negócios ou com uma profissão, vestido de preto, representava uma ética muito diferente da do cortesão lânguido ou até da do mercador vestido garridamente, na Florença do Renascimento” (Wilson, 1985: 45-46).

“No decurso do desenvolvimento económico, tornou-se o ofício da mulher consumir abundantemente para o chefe da família; e o seu vestuário tinha este objectivo em vista. Aconteceu que o trabalho obviamente produtivo era estranhamente pejorativo para as mulheres respeitáveis e, consequentemente, faziam-se esforços especiais, no que diz respeito ao fabrico do vestuário feminino, para dar a entender que as suas utilizadoras, de facto (ou em ficção), não faziam, nem podiam normalmente fazer, qualquer tipo de trabalho útil. A esfera (feminina) era no lar, que ela tinha obrigação de «embelezar» e do qual devia ser o «adorno principal»… Em virtude da sua descendência de um passado patriarcal, o nosso sistema social atribui à mulher a função, em certa medida, de pôr em evidência o poder de compra do chefe da família…” (Wilson, 1985: 72-73).

[Sobre roupa interior]

“É normalmente a roupa interior que está mais associada ao erotismo e, no entanto, a roupa interior era desconhecida antes do século dezanove” (Wilson, 1985: 138).

“Durante centenas de anos, as mulheres enchiam as saias com saiotes, «rolos metálicos», armações, almofadas e crinolinas, ou simplesmente por meio de combinações. Então, durante as duas primeiras décadas do século dezanove, quando o traje feminino consistia de um estreito colado ao corpo, elas usavam calções justos e, pela primeira vez, cuecas compridas, ou ceroulas, muitas vezes visíveis por debaixo das suas saias diáfanas. (…) as ceroulas asseguravam a preservação da modéstia, no caso de a armação voar com o vento, mas estas ceroulas, indecentes aos nossos olhos modernos, só se uniam na cintura e eram, além disso, abertas entre as pernas. As cuecas «fechadas» só apareceram no século vinte ou pouco antes disso (Wilson, 1985: 139).

É possível que o progresso das calças para as mulheres seja a mudança da moda mais significativa do século vinte. Durante séculos, as pernas das mulheres do Ocidente tinham andado escondidas, as calças e os calções só tinham sido usados pelas actrizes, acrobatas e outras mulheres de moral duvidosa, Paradoxalmente, nas culturas islâmicas, as mulheres usavam calças e os homens saias, mas no mundo ocidental, até por volta de 1900, só as operárias usavam calças, e normalmente só as que faziam os trabalhos grosseiros, e as mulheres de espectáculo, vestiam calças ou mostravam as pernas e, quando o faziam, a sua moral era contestada” (Wilson, 1985: 218).

 

EPÍLOGO

“Não se sabe o que não se sabe, mas quando se sabe deve haver responsabilidade, assim é o verdadeiro sábio responsável para com a verdade. Pois a pergunta é a fechadura, e a resposta a chave, e nela se abrirá o conhecimento da verdade.”

Manuscritos do Tempo por Gerson Machado De Avillez

 

Bibliografia

WILSON, Elizabeth. (1985). Enfeitada de Sonhos. Edições 70. Lisboa.

 

Viver no efémero

Publicado por: Milu  :  Categoria: FEMINISMO, Viver no efémero

 

“Começamos a existir como menino ou menina.”

Alice Marques

 

Com este post, pretendo trazer mais  um contributo para o processo da libertação da mulher, para o qual é necessário compreender a realidade que nos rodeia, com os seus  processos sociológicos e os esquemas mentais que se foram formando ao longo dos séculos da existência da humanidade.

E, mais uma vez, insisto na questão de  género e suas implicações. Por exemplo, aos homens basta-lhes serem bem sucedidos. Pode-se ser velho, careca e pançudo que isso são pormenores que não lhe lascam o mérito. Já uma mulher, por muito mérito que possa ter, dificilmente consegue escapar de ser julgada pelo seu aspecto.

Muitas vezes, as capacidades de uma mulher são obscurecidas pelo julgamentos que insistentemente são feitos ao seu aspecto físico. Cito apenas um exemplo: Manuela Ferreira Leite, uma mulher com um percurso de vida interessante, que soube mover-se muito bem «num mundo de homens», quantas vezes não vimos nós ser apupada com desprezo, de velha e feia? Pois… à mulher não basta ser bem sucedida e inteligente para ser respeitada, para ser tida em consideração, para ser distinguida, tem também de ser bela e jovem toda a vida…

E o que fazer quanto a isso?

Começando por nos respeitar a nós próprias.

Embora eu defenda que toda a mulher (e homens!) deva cuidar de si e da sua imagem, para se sentir bem e em forma, também defendo que não se enverede pelo exagero. Há que saber envelhecer. Saber exigir o respeito, manter-se  bem informada, ter personalidade e orgulho em si mesma.

Para corroborar estas minhas palavras nada como este vídeo de Madona, uma mulher inspiradora.  Porque só as mulheres a sério, que ousaram desafiar o estabelecido, me servem de inspiração.

 

Os excertos que se seguem, que tão bem elucidam o jugo a que as mulheres são submetidas, foram retirados do livro intitulado “Mulheres de Papel”, da autoria de Alice Marques, um trabalho desenvolvido no quadro de uma tese académica, que incidiu sobre duas revistas femininas Máxima e Cosmopolitan. Estas revistas são escritas por mulheres, destinam-se a um público leitor maioritariamente feminino, tratam de assuntos especificamente femininos, como a moda e a beleza, ou temas ditos femininos, como a cozinha e os trabalhos domésticos.

 É ler e reflectir. Só se ganha quando se aprende.

“É seguro que desde o momento em que somos sabidos como um ser com sexo biologicamente definido, começamos a ser socializados/as para nos tornarmos o que se espera que sejamos, de acordo com o sexo que temos inscritos no corpo. À nossa chegada já está tudo preparado para nos receber como um forte rapagão ou uma linda menina” (Marques 2004: 14).

“Muitos estudos sobre revistas femininas publicados na última década dão conta da deslocação, a partir dos anos 60, da temática tradicional família e casa, nas revistas para mulheres adultas, ou relações amorosas e casa, nas revistas para adolescentes, para a temática da cosmética e moda. Se tivermos em conta que a maior percentagem deste conteúdo temático são anúncios, demonstra-se assim que é na adolescência que o mito da beleza começa a transformar as adolescentes em consumidoras dos produtos da aparência” (Marques 2004: 38).

“(…) as revistas femininas apresentam-se saturadas da crença em que o principal valor das mulheres é a preservação dum corpo eternamente jovem (Marques 2004: 39).

“ (…) faz sentido concluir que se as mulheres precisam de se afirmar essencialmente pelo que parecem é porque aquilo que dizem ou fazem não é suficientemente válido. É fácil perceber porque se tornam as revistas femininas alvo da crítica feminista. Produtos únicos da cultura de massas das mulheres esperar-se-ia que transmitissem não as imagens estereotipadas das mulheres e dos seus corpos, mas sim imagens positivas que correspondessem à diversidade e riqueza de acção das mulheres, a partir das quais raparigas e mulheres modernas modelariam os seus comportamentos. Tornar as preocupações com a aparência e as relações amorosas ou familiares no must dos valores femininos é claramente uma distorção” (Marques 2004: 63).

“A participação, então diminuta, das mulheres na produção dos media permitiu concluir que as imagens estereotipadas [das mulheres] reflectiam os valores masculinos, dominantes na sociedade” (Marques 2004: 63).

“(…) qualquer que seja a perspectiva sobre o papel dos media na vida das mulheres, seja o de agentes socializadores ou de mediadores de representações partilhadas, o que deve pôr-se em causa é o constrangimento dos papéis activos das mulheres e a omnipresença do corpo-aparência, porque este reducionismo é um insulto à capacidade das mulheres, que, como pessoas, acedem e agem com competência nos papéis socialmente valorizados, ainda predominantemente desempenhados por homens” (Marques 2004: 64).

“As imagens e textos sobre moda e beleza nos meses de verão confirmam a hipótese do corpo da mulher como corpo para ser visto. Nenhuma delas [revistas] apresenta imagens de corpos que encorajem a exibição dos seios nus, prática muito restringida a certos grupos sociais nalgumas praias portuguesas. Esta ausência de mais nudez feminina pode ser entendida na perspectiva de que não há verdadeira libertação do corpo, porque o corpo exibível é um corpo que raras mulheres têm, assumida designadamente por Le Breton  e Baudrillard. Em sentido oposto, Jean-Claude Kaufmann, num trabalho sociológico sobre exibição dos seios nus em praias francesas, defende claramente que mais nudez deve ser entendida como parte da «epopeia do corpo livre» e que a mulher está na vanguarda deste movimento porque era mais  espartilhada que o homem e porque o movimento geral da libertação do corpo se mistura com o da emancipação enquanto sexo dominado.

Os homens e mulheres que frequentam as praias e observam ou exibem os seios, interrogados pela equipa de kaufmann, são unânimes: os seios nus têm a ver com a emancipação da mulher, com a sua libertação sexual. Contudo, esta liberdade de mostrar uma parte do corpo com valor erótico, que kaufmann interpreta como «instrumento de afirmação de si, tanto ao nível pessoal como das mulheres em conjunto, corporal e socialmente emancipadas», só é tolerável desde que os seios «sejam belos, não demasiado grandes nem flácidos». Isto é, o valor erótico depende do valor estético. A reforçar esta ideia há as «idades do nu» que se prendem com o valor de feminilidade dos seios.

A sua exibição pode terminar aos 30 anos, ou mesmo antes.

Com o fim  da juventude, a beleza perde o brilho.

As mulheres sentem-se envelhecer, a inquietação de parecer mais jovem começa. Ano após ano, em cada Verão, os seios são perscrutados, avaliados: grandes, flácidos, descaídos, sem graça. Há que esconde-los, não exibi-los. Escreve Kaufmann: «A praia é cruel nos seus julgamentos estéticos: a idade em particular é aqui factor de exclusão ainda mais forte do que na sociedade ordinária (…) porque os seios nus dão mais visibilidade à juventude e beleza».

Esta percepção do que pode ser exibido é o  resultado do carácter normativo da beleza. O sociólogo francês sustenta o valor da norma na construção da realidade social, a crueldade dos julgamentos  estéticos, a estigmatização da velhice. No fundo, a posição que o autor torna pública é que, sendo absurdo negar  os progressos já alcançados na liberdade e emancipação,

 

 

a beleza, quando colocada num patamar tão inacessível – não se fica sempre jovem, não  se mantém para sempre um corpo firme -, não liberta as mulheres. Pelo contrário, oprime-as” (Marques 2004: 83-84).

 

 

“(…) como sustenta Kaufmann, «só a elite da elite da juventude e da beleza tem verdadeiramente todos os direitos: todos os outros devem posicionar-se e aprender os seus limites»” (Marques 2004: 112-113).

“Naomi Wolf e Susan Faludi estão entre as feministas da nova geração, que continua a denunciar o complexo industrial da moda-beleza como responsável, pelo impasse na luta das mulheres pela igualdade. Os seus livros estão repletos de dados objetivos que confirmam  como os media, através da saturação de imagens da beleza idealizada, contribuem para que as mulheres vivam cada vez mais ansiosas com a aparência.

Em Portugal, a agenda feminista não tem incluído estes debates. Por sua vez os media celebram alegremente a moda e a beleza das passerelles, orgulham-se das manequins nacionais que desfilam para os costureiros de renome. Qualquer debate sério sobre o que estas imagens podem fazer às mulheres reais causaria por certo uma total estranheza. As mulheres são assim e ponto final! E no entanto, o trabalho das mulheres portuguesas para aparecerem belas e elegantes é igualmente castigador. Porque inclui na receita um ingrediente fundamental: juventude.

Por isso, independentemente de todo o trabalho e dinheiro gastos na aparência, cruzamo-nos diariamente com mulheres que personificam esse sonho falhado. Envelhecemos, irremediavelmente envelhecemos. A moda, sobretudo pelo que esconde, fornece apenas um «alibi» temporário.

Mas não há muitas possibilidades de escolha de atitudes face à moda: podemos odiá-la, porque a vemos como uma forma de escravidão e apesar disso não lhe resistimos; podemos ser-lhe indiferentes, que é seguramente a posição mais difícil, porque o sistema actua contra as que estão fora de moda, fazendo-as parecer obsoletas em cada estação; podemos vivê-la obsessivamente, fanaticamente e sentirmo-nos muito felizes com isso” (Marques 2004: 116-117).

 

Bibliografia

MARQUES, Alice. (2004). Mulheres de Papel. Representações do corpo nas revistas femininas. Livros Horizonte. Lisboa.