Arqueologia do Traje

Publicado por: Milu  :  Categoria: Arqueologia do Traje, SOCIEDADE

 

“As pessoas que cometem erros e que se vestem mal são os verdadeiros estilistas (…).”

Jean Paul Gaultier in (Wilson, 1985: 22)

Ainda há poucas horas, o Facebook teve a gentileza de me recordar uma das minhas mais antigas amizades na grande rede. Pelos vistos, há oito anos que sou amiga do Raul. O que o Facebook não sabe é que essa amizade virtual já existia, alguns anos antes,  numa outra rede social, a comunidade da blogosfera, também ela um fenómeno social.

Ter um blog é ter a possibilidade de estar conectado com outros blogs e seus criadores, referir-se a eles na sua própria escrita e postar comentários nos blogs uns dos outros. E assim se cria uma cultura e nascem amizades. Algumas destas amizades poderão perdurar por muitos anos, como foi o caso. Só por isso vale a pena por aqui andar!

Mas para que serve um blog, que interesse poderá haver em ter um blog?

Na minha singela maneira de ver as coisas, um blog serve para nos expressarmos. E, através do seu blog, cada um se manifesta à sua maneira.  No meu caso, é o gosto que nutro pela partilha do saber, o gosto pela partilha das minhas descobertas. Tantas vezes que me espanto com as revelações que me são feitas através da leitura dos livros… É esse espanto, caro leitor, que eu pretendo partilhar consigo 🙂

Pois aqui estou mais uma vez para fazer o gosto ao dedo, desta feita elaborando um post a que dei o nome de Arqueologia do Traje. E, mais uma vez constatei que resgatar a História dos tempos,  gostar de sociologia e de  antropologia,  torna-se imprescindível  no combate dos preconceitos e estereótipos, que só servem para nos agrilhoarem.

O livro, que hoje aqui apresento, intitulado “Enfeitada de Sonhos“, da autoria de Elizabeth Wilson, fala-nos de vestuário e de modas.

Falar de vestuário, ou de modas, poderá parecer um tema supérfluo, mas neste caso o que está em causa  são os  nossos arquétipos, de algo que permanece vivo no inconsciente colectivo.

Por exemplo: quer queiramos, quer não, domina a ideia de que saias ou vestidos são peças de roupa do universo feminino. Quem diz saias ou vestidos, diz produtos de maquilhagem, que são comummente considerados para usufruto das mulheres, exceptuando as estrelas pop, que até por isso consideramos extravagantes. Ao contrário do que se passa no universo feminino, que neste âmbito é diversificado, efémero e multicolor, de certa forma associado a vaidade, o universo masculino pauta-se pela sobriedade e pela estabilidade, qualidades que sugerem confiança, garantia e firmeza.

É por isso que os artigos que instruem sobre como agir numa entrevista de emprego aconselham a que se apresente vestido de uma forma discreta, simples e convencional, não vá parecer aos olhos do entrevistador uma estouvada (o). Repare-se que ainda não há muito tempo, a mulher que acedesse a uma profissão ou a um cargo profissional, historicamente reconhecido como do domínio dos homens, adoptava uma forma de trajar bastante sóbria, um conjunto de calças e casaco, habitualmente numa cor escura,  respeitando um figurino à semelhança dos homens. O masculino como modelo, afinal. Mas tudo tem uma razão de ser. Foi a razão, que se esconde por detrás da austeridade do figurino masculino que me apaixonou, e que o caro leitor poderá ler no excerto que aqui exponho, que propositadamente intitulei [O porquê da sobriedade masculina].

Recordo-me de ter ouvido algumas vezes uma frase, quando eu ainda era criança, que determinava quem era o macho: “Aqui quem veste calças sou eu”. As calças como um símbolo masculino, como um símbolo de poder, claro. Esta frase pretendia reivindicar uma superioridade e autoridade que era reconhecida aos homens, os legítimos chefes da casa, de acordo com a lei e os costumes desse tempo. Mas havia mais: quem nunca ouviu pronunciar as célebres frases “mulher de pêlo na venta”, e “mulher de tomates” quando se pretendia referir uma mulher corajosa, determinada e como não poderia deixar de ser, um tanto agressiva? Aliás, também era comum dizer-se “uma mulher homem”!

Ora, posto isto, era esperado pensar que as calças teriam sido, desde sempre,  uma indumentária  masculina e as saias e vestidos (esqueçamos o Kilt dos escoceses) indumentárias das mulheres.

Foto de um dos actores de minha eleição

 

Mas  não é verdade. Se resgatarmos a História verificamos que os homens também já vestiram saias, vestidos e usaram cosméticos, quando empoavam “a fronha” e o cabelo com rouge e pó de arroz. Também não é correcto associar à mulher  o vestuário menos sóbrio, adornado de rendas e bordados, uma vez que estas e estes já foram adornos masculinos. E até a invenção do wonderbra, pasme-se, já teve o seu equivalente no masculino, a denominada «coquilha». É só constatar aqui.

Tempos virão em que o vestuário já não servirá para diferenciar géneros. Já vamos vendo por aí cada vez mais os estilistas a avançar com modelos de homens com saias, o futuro da moda masculina a passos largos, pode-se dizer. E sim, já há homens a sair à rua trajando saia e bem maquilhados, uma pequena minoria de corajosos, que não se deixam intimidar pelos olhares de soslaio permeados de desconfiança.

 

Particularmente, a forma como vestimos diz muito de nós, embora haja outros aspectos da nossa maneira de estar que nos revelam, como por exemplo, o que comemos,  como e onde gastamos o nosso dinheiro, etc, etc.

Mas vamos dar a palavra a quem estudou esta área da nossa História:

 

 

“O vestuário estabelece de forma ambígua uma fronteira pouco definida, e as fronteiras pouco claras perturbam-nos. Os sistemas simbólicos e os rituais foram criados em muitas culturas diferentes de modo a reforçarem as fronteiras, já que elas salvaguardam a pureza. É nas margens entre uma coisa e outra que a poluição aparece. Muitos dos rituais são tentativas para conter e separar, inventadas para impedir a corrupção que ocorre quando a matéria espirra de um lugar – ou categoria – para outro” (Wilson, 1985: 13).

“As formas mais antigas de «vestuário» parecem ter sido os adornos, tais como as pinturas corporais, os enfeites, as escarificações (cicatrizes), as tatuagens, as máscaras e fitas que apertavam o pescoço ou a cintura. Muitos destes adornos deformavam, reformavam ou modificavam de alguma maneira o corpo. Os corpos de homens e de crianças, e não só os das mulheres, eram alterados – parece existir o desejo muito espalhado de transcender as limitações do corpo” (Wilson, 1985: 14).

“O crescimento da cidade na Europa, na primeira fase do chamado capitalismo de mercado, no final da Idade Média, assistiu ao nascimento do vestuário da moda, ou seja, de qualquer coisa de qualitativamente diferente e novo”  (Wilson, 1985: 14).

 

Bordados e rendas em traje masculino

 

“Constantemente em mudança, a moda só produz conformismo (…). Vestir-se à moda implica uma pessoa destacar-se e, simultaneamente, fundir-se na multidão, reivindicar o exclusivo e seguir o rebanho. (…). Numa dada época, os ricos usam tecidos dourados, bordados a pérolas, noutra poderão usar caxemira beige e fato cinzento. Numa certa época os homens pavoneavam-se de rendas, saltos altos e rouge, noutra uma tal apresentação estaria próxima da marginalidade e causaria uma agressão de ordem física” (Wilson, 1985: 17).

 

Luis XIV com saltos altos vermelhos em retrato de Hyacinthe Rigaud (1701)

“Durante a época clássica o vestuário costurado era o emblema dos povos bárbaros, e tanto os Gregos como os Romanos vestiam vestes largas com pregas. Com efeito, a distinção mais importante, no que diz respeito ao vestuário, não era, como hoje em dia poderíamos supor, a distinção entre os homens e as mulheres mas sim entre as roupas largas e pregueadas e as roupas costuradas” Wilson, 1985: 30).

A roupa interior era desconhecida em Roma até ser copiada das tribos do Norte e não obstante ser desprezada em razão das suas origens, era quente, o que a tornou popular. Uma tentativa antiga para fazer cumprir as leis sumptuárias foi o decreto de 397, que proibia o uso de roupa interior” (Wilson, 1985: 30).

O vestuário distinguia os ricos dos pobres, os dirigentes dos dirigidos, apenas pelo facto de os trabalhadores usarem mais roupas em lã e não usarem roupas de seda; os tecidos com que eram feitas as suas roupas eram mais grosseiros e menos enfeitados do que as roupas dos seus patrões” (Wilson, 1985: 32).

“O século catorze assistiu à proliferação de estilos muito mais elaborados dos que até ao momento tinham existido, tanto no que diz respeito aos homens como no que diz respeito às mulheres. O gibão para os homens era usado muito curto e apertado, a cote hardie, uma túnica comprida abotoada à frente, também era usada apertada tanto pelos homens como pelas mulheres das classes mais altas. Simultaneamente, os vestidos, também usados pelos homens e pelas mulheres, tornaram-se extremamente largos e compridos, com as mangas ou muito apertadas ou muito largas, as bainhas com cortes fantásticos, enquanto os chapéus e toucas passaram a ter as formas mais extravagantes e mudavam rapidamente de formato, com picos, campanários, turbantes e fezes. Os sapatos passaram a ser exageradamente compridos à frente e bicudos” (Wilson, 1985: 33-34).

“Algumas partes do corpo, especialmente a perna feminina, tinham sempre de estar tapadas; outras partes eram, num dado momento, tapadas, noutro, ostensivamente reveladas, e a moda masculina da coquilha, que talvez tenha sido a moda mais exibicionista de todos os tempos, consistia numa «modesta» cobertura para os órgãos genitais, que aparecia debaixo do curto gibão, o que ainda chamava mais a atenção para os órgãos sexuais, que supostamente devia encobrir” (Wilson, 1985: 36).

“As novas modas masculinas puseram o corte à frente do adorno, da cor e da exibição. Abandonaram as pinturas e o estilo efeminado e afectado. Mas as calças apertadas, justas ao corpo, dos  dandies de 1880 eram altamente eróticas.  Tal como a sua nova masculinidade sem pinturas. Durante os séculos dezanove e vinte, uma variedade de modas masculinas como, por exemplo, a barba completa, o dandyismo Eduardino ou os fatos suaves de cocktail de Clark Gable e de Gary Grant, na década de 30, longe de fazerem parte de uma retirada da moda, representavam apenas uma abordagem mais oblíqua, mais subtil, mais complexa, da sedução, do que as sedas e cetins do homem da corte do «ancien régime»” (Wilson, 1985: 43-45).

[O porquê da sobriedade masculina]:

Só no século dezoito, apesar de tudo, é que a homossexualidade começou a ser encarada como uma condição psicológica permanente, como uma «identidade determinante» e uma prática sexual. Antigamente, os actos homossexuais eram vistos como pecado, mas considerados potenciais em todos os indivíduos, dado o carácter pecaminoso da natureza humana «caída». Agora não se tratava mais de uma questão de actos diabólicos, era mais uma questão de se ser homossexual, e isto era uma condição permanente. Tal como a sodomia havia sido abominada, tem-se defendido de que de certa maneira se atribuiu um estigma maior a esta nova identidade sexual do que ao velho comportamento pecaminoso. Portanto, não é de admirar que se tenha tornado tão importante dar um testemunho, por meio de um vestuário masculino, de que não se é efeminado. A crescente padronização do vestuário agiu como reflexo de auto-defesa contra estes novos medos. O domínio da burguesia implicava a vitória dos ideais de trabalho, de esforço e de sobriedade; e o homem de negócios ou com uma profissão, vestido de preto, representava uma ética muito diferente da do cortesão lânguido ou até da do mercador vestido garridamente, na Florença do Renascimento” (Wilson, 1985: 45-46).

“No decurso do desenvolvimento económico, tornou-se o ofício da mulher consumir abundantemente para o chefe da família; e o seu vestuário tinha este objectivo em vista. Aconteceu que o trabalho obviamente produtivo era estranhamente pejorativo para as mulheres respeitáveis e, consequentemente, faziam-se esforços especiais, no que diz respeito ao fabrico do vestuário feminino, para dar a entender que as suas utilizadoras, de facto (ou em ficção), não faziam, nem podiam normalmente fazer, qualquer tipo de trabalho útil. A esfera (feminina) era no lar, que ela tinha obrigação de «embelezar» e do qual devia ser o «adorno principal»… Em virtude da sua descendência de um passado patriarcal, o nosso sistema social atribui à mulher a função, em certa medida, de pôr em evidência o poder de compra do chefe da família…” (Wilson, 1985: 72-73).

[Sobre roupa interior]

“É normalmente a roupa interior que está mais associada ao erotismo e, no entanto, a roupa interior era desconhecida antes do século dezanove” (Wilson, 1985: 138).

“Durante centenas de anos, as mulheres enchiam as saias com saiotes, «rolos metálicos», armações, almofadas e crinolinas, ou simplesmente por meio de combinações. Então, durante as duas primeiras décadas do século dezanove, quando o traje feminino consistia de um estreito colado ao corpo, elas usavam calções justos e, pela primeira vez, cuecas compridas, ou ceroulas, muitas vezes visíveis por debaixo das suas saias diáfanas. (…) as ceroulas asseguravam a preservação da modéstia, no caso de a armação voar com o vento, mas estas ceroulas, indecentes aos nossos olhos modernos, só se uniam na cintura e eram, além disso, abertas entre as pernas. As cuecas «fechadas» só apareceram no século vinte ou pouco antes disso (Wilson, 1985: 139).

É possível que o progresso das calças para as mulheres seja a mudança da moda mais significativa do século vinte. Durante séculos, as pernas das mulheres do Ocidente tinham andado escondidas, as calças e os calções só tinham sido usados pelas actrizes, acrobatas e outras mulheres de moral duvidosa, Paradoxalmente, nas culturas islâmicas, as mulheres usavam calças e os homens saias, mas no mundo ocidental, até por volta de 1900, só as operárias usavam calças, e normalmente só as que faziam os trabalhos grosseiros, e as mulheres de espectáculo, vestiam calças ou mostravam as pernas e, quando o faziam, a sua moral era contestada” (Wilson, 1985: 218).

 

EPÍLOGO

“Não se sabe o que não se sabe, mas quando se sabe deve haver responsabilidade, assim é o verdadeiro sábio responsável para com a verdade. Pois a pergunta é a fechadura, e a resposta a chave, e nela se abrirá o conhecimento da verdade.”

Manuscritos do Tempo por Gerson Machado De Avillez

 

Bibliografia

WILSON, Elizabeth. (1985). Enfeitada de Sonhos. Edições 70. Lisboa.

 

Viver no efémero

Publicado por: Milu  :  Categoria: FEMINISMO, Viver no efémero

 

“Começamos a existir como menino ou menina.”

Alice Marques

 

Com este post, pretendo trazer mais  um contributo para o processo da libertação da mulher, para o qual é necessário compreender a realidade que nos rodeia, com os seus  processos sociológicos e os esquemas mentais que se foram formando ao longo dos séculos da existência da humanidade.

E, mais uma vez, insisto na questão de  género e suas implicações. Por exemplo, aos homens basta-lhes serem bem sucedidos. Pode-se ser velho, careca e pançudo que isso são pormenores que não lhe lascam o mérito. Já uma mulher, por muito mérito que possa ter, dificilmente consegue escapar de ser julgada pelo seu aspecto.

Muitas vezes, as capacidades de uma mulher são obscurecidas pelo julgamentos que insistentemente são feitos ao seu aspecto físico. Cito apenas um exemplo: Manuela Ferreira Leite, uma mulher com um percurso de vida interessante, que soube mover-se muito bem «num mundo de homens», quantas vezes não vimos nós ser apupada com desprezo, de velha e feia? Pois… à mulher não basta ser bem sucedida e inteligente para ser respeitada, para ser tida em consideração, para ser distinguida, tem também de ser bela e jovem toda a vida…

E o que fazer quanto a isso?

Começando por nos respeitar a nós próprias.

Embora eu defenda que toda a mulher (e homens!) deva cuidar de si e da sua imagem, para se sentir bem e em forma, também defendo que não se enverede pelo exagero. Há que saber envelhecer. Saber exigir o respeito, manter-se  bem informada, ter personalidade e orgulho em si mesma.

Para corroborar estas minhas palavras nada como este vídeo de Madona, uma mulher inspiradora.  Porque só as mulheres a sério, que ousaram desafiar o estabelecido, me servem de inspiração.

 

Os excertos que se seguem, que tão bem elucidam o jugo a que as mulheres são submetidas, foram retirados do livro intitulado “Mulheres de Papel”, da autoria de Alice Marques, um trabalho desenvolvido no quadro de uma tese académica, que incidiu sobre duas revistas femininas Máxima e Cosmopolitan. Estas revistas são escritas por mulheres, destinam-se a um público leitor maioritariamente feminino, tratam de assuntos especificamente femininos, como a moda e a beleza, ou temas ditos femininos, como a cozinha e os trabalhos domésticos.

 É ler e reflectir. Só se ganha quando se aprende.

“É seguro que desde o momento em que somos sabidos como um ser com sexo biologicamente definido, começamos a ser socializados/as para nos tornarmos o que se espera que sejamos, de acordo com o sexo que temos inscritos no corpo. À nossa chegada já está tudo preparado para nos receber como um forte rapagão ou uma linda menina” (Marques 2004: 14).

“Muitos estudos sobre revistas femininas publicados na última década dão conta da deslocação, a partir dos anos 60, da temática tradicional família e casa, nas revistas para mulheres adultas, ou relações amorosas e casa, nas revistas para adolescentes, para a temática da cosmética e moda. Se tivermos em conta que a maior percentagem deste conteúdo temático são anúncios, demonstra-se assim que é na adolescência que o mito da beleza começa a transformar as adolescentes em consumidoras dos produtos da aparência” (Marques 2004: 38).

“(…) as revistas femininas apresentam-se saturadas da crença em que o principal valor das mulheres é a preservação dum corpo eternamente jovem (Marques 2004: 39).

“ (…) faz sentido concluir que se as mulheres precisam de se afirmar essencialmente pelo que parecem é porque aquilo que dizem ou fazem não é suficientemente válido. É fácil perceber porque se tornam as revistas femininas alvo da crítica feminista. Produtos únicos da cultura de massas das mulheres esperar-se-ia que transmitissem não as imagens estereotipadas das mulheres e dos seus corpos, mas sim imagens positivas que correspondessem à diversidade e riqueza de acção das mulheres, a partir das quais raparigas e mulheres modernas modelariam os seus comportamentos. Tornar as preocupações com a aparência e as relações amorosas ou familiares no must dos valores femininos é claramente uma distorção” (Marques 2004: 63).

“A participação, então diminuta, das mulheres na produção dos media permitiu concluir que as imagens estereotipadas [das mulheres] reflectiam os valores masculinos, dominantes na sociedade” (Marques 2004: 63).

“(…) qualquer que seja a perspectiva sobre o papel dos media na vida das mulheres, seja o de agentes socializadores ou de mediadores de representações partilhadas, o que deve pôr-se em causa é o constrangimento dos papéis activos das mulheres e a omnipresença do corpo-aparência, porque este reducionismo é um insulto à capacidade das mulheres, que, como pessoas, acedem e agem com competência nos papéis socialmente valorizados, ainda predominantemente desempenhados por homens” (Marques 2004: 64).

“As imagens e textos sobre moda e beleza nos meses de verão confirmam a hipótese do corpo da mulher como corpo para ser visto. Nenhuma delas [revistas] apresenta imagens de corpos que encorajem a exibição dos seios nus, prática muito restringida a certos grupos sociais nalgumas praias portuguesas. Esta ausência de mais nudez feminina pode ser entendida na perspectiva de que não há verdadeira libertação do corpo, porque o corpo exibível é um corpo que raras mulheres têm, assumida designadamente por Le Breton  e Baudrillard. Em sentido oposto, Jean-Claude Kaufmann, num trabalho sociológico sobre exibição dos seios nus em praias francesas, defende claramente que mais nudez deve ser entendida como parte da «epopeia do corpo livre» e que a mulher está na vanguarda deste movimento porque era mais  espartilhada que o homem e porque o movimento geral da libertação do corpo se mistura com o da emancipação enquanto sexo dominado.

Os homens e mulheres que frequentam as praias e observam ou exibem os seios, interrogados pela equipa de kaufmann, são unânimes: os seios nus têm a ver com a emancipação da mulher, com a sua libertação sexual. Contudo, esta liberdade de mostrar uma parte do corpo com valor erótico, que kaufmann interpreta como «instrumento de afirmação de si, tanto ao nível pessoal como das mulheres em conjunto, corporal e socialmente emancipadas», só é tolerável desde que os seios «sejam belos, não demasiado grandes nem flácidos». Isto é, o valor erótico depende do valor estético. A reforçar esta ideia há as «idades do nu» que se prendem com o valor de feminilidade dos seios.

A sua exibição pode terminar aos 30 anos, ou mesmo antes.

Com o fim  da juventude, a beleza perde o brilho.

As mulheres sentem-se envelhecer, a inquietação de parecer mais jovem começa. Ano após ano, em cada Verão, os seios são perscrutados, avaliados: grandes, flácidos, descaídos, sem graça. Há que esconde-los, não exibi-los. Escreve Kaufmann: «A praia é cruel nos seus julgamentos estéticos: a idade em particular é aqui factor de exclusão ainda mais forte do que na sociedade ordinária (…) porque os seios nus dão mais visibilidade à juventude e beleza».

Esta percepção do que pode ser exibido é o  resultado do carácter normativo da beleza. O sociólogo francês sustenta o valor da norma na construção da realidade social, a crueldade dos julgamentos  estéticos, a estigmatização da velhice. No fundo, a posição que o autor torna pública é que, sendo absurdo negar  os progressos já alcançados na liberdade e emancipação,

 

 

a beleza, quando colocada num patamar tão inacessível – não se fica sempre jovem, não  se mantém para sempre um corpo firme -, não liberta as mulheres. Pelo contrário, oprime-as” (Marques 2004: 83-84).

 

 

“(…) como sustenta Kaufmann, «só a elite da elite da juventude e da beleza tem verdadeiramente todos os direitos: todos os outros devem posicionar-se e aprender os seus limites»” (Marques 2004: 112-113).

“Naomi Wolf e Susan Faludi estão entre as feministas da nova geração, que continua a denunciar o complexo industrial da moda-beleza como responsável, pelo impasse na luta das mulheres pela igualdade. Os seus livros estão repletos de dados objetivos que confirmam  como os media, através da saturação de imagens da beleza idealizada, contribuem para que as mulheres vivam cada vez mais ansiosas com a aparência.

Em Portugal, a agenda feminista não tem incluído estes debates. Por sua vez os media celebram alegremente a moda e a beleza das passerelles, orgulham-se das manequins nacionais que desfilam para os costureiros de renome. Qualquer debate sério sobre o que estas imagens podem fazer às mulheres reais causaria por certo uma total estranheza. As mulheres são assim e ponto final! E no entanto, o trabalho das mulheres portuguesas para aparecerem belas e elegantes é igualmente castigador. Porque inclui na receita um ingrediente fundamental: juventude.

Por isso, independentemente de todo o trabalho e dinheiro gastos na aparência, cruzamo-nos diariamente com mulheres que personificam esse sonho falhado. Envelhecemos, irremediavelmente envelhecemos. A moda, sobretudo pelo que esconde, fornece apenas um «alibi» temporário.

Mas não há muitas possibilidades de escolha de atitudes face à moda: podemos odiá-la, porque a vemos como uma forma de escravidão e apesar disso não lhe resistimos; podemos ser-lhe indiferentes, que é seguramente a posição mais difícil, porque o sistema actua contra as que estão fora de moda, fazendo-as parecer obsoletas em cada estação; podemos vivê-la obsessivamente, fanaticamente e sentirmo-nos muito felizes com isso” (Marques 2004: 116-117).

 

Bibliografia

MARQUES, Alice. (2004). Mulheres de Papel. Representações do corpo nas revistas femininas. Livros Horizonte. Lisboa.

 

Tirania consentida

Publicado por: Milu  :  Categoria: FEMINISMO, Tirania consentida

 

“Aquele que percorre os seus próprios caminhos aí não encontra ninguém. Ninguém o vem ajudar na sua tarefa: perigos, surpresas, maldades e tempestades, tem de ultrapassar sozinho tudo o que o assalta. É que ele tem de fazer o seu próprio caminho…”

Nietzsche, Aurora in Carvalho (2012)

O post de hoje é uma subtil abordagem à ditadura da beleza e da juventude, que é inegavelmente imposta às mulheres e que configura, inevitavelmente, uma forma de as oprimir. É um facto, por demais evidente, que reparamos e criticamos muito  os países cuja cultura impõe às mulheres o uso da burca, por outro lado, custa-nos a ver, a nós mulheres ocidentais, que a cultura em que vivemos nos exige que sejamos sempre jovens e belas, sob pena de passarmos a ser alvo do menosprezo, independentemente das qualidades que possamos ter.

No livro “Mulheres de Papel” da autoria de Alice Marques, podemos ler que  Simone Beauvoir notou que «ao longo da história, à mulher coube o papel de corpo, com tudo o que lhe é peculiar. Em contraste os homens classificaram-se a eles próprios como a ideia pura, o uno, o todo, o espírito absoluto» (Marques, 2004: 29).

E ainda que «da experiência das mulheres como cuidadoras do corpo, do seu corpo e dos corpos dos outros, resultou, segundo Dinnerstein, que as limitações da carne tornaram-se domínio das mulheres» (Marques, 2004: 29).

É ainda desta autora o  excerto que foi retirado do já citado livro, que a seguir se apresenta. É esta a triste realidade que nos esforçamos por não ver, mas que é bem real e está reservada para todas nós, a não ser que se morra jovem… algo que presumo ninguém querer…

há uma assimetria simbólica: os homens são mais valorizados por aquilo que fazem e as mulheres por aquilo que parecem.

Alice Marques

 

“À entrada do pavilhão principal da Arco 2000, um painel com oito fotografias de  100 x 80 cm transforma a galeria «Espacio Minimo» num campo de visão máxima. Dezenas de mulheres e homens acotovelam-se e empurram-se, num vaivém de aproximação-afastamento, para captar, em pormenor ou em plano geral, a obra que o fotógrafo Erwin Olaf mostra nesta feira de arte.

São fotografias de oito mulheres, a rondar os 70-80 anos, em cenários e poses de «top-models», às quais o artista deu nomes como Claudia S., Cindy C., Linda E., entre outros.

O painel exerce uma força de atracção e repulsa,

desconcerta pela ambiguidade dos significados, que o título da obra «Mature» acentua.

Espelho da verdade do corpo decadente,

da corruptibilidade da carne, a que a encenação e a pose acrescentam:

como é esplendorosa a decadência!

Mas a coragem de assumir as marcas do tempo, o corpo impiedosamente envelhecido, contra a norma socialmente valorizada e esteticamente correcta do corpo jovem, liso e perfeito, transforma aquelas fotografias em signos perturbadores. Desafiando os olhares, aquelas fotografias dizem a cada mulher:

tu, que és bela porque o tempo ainda não corrompeu a juventude e a lisura do teu corpo, serás irremediavelmente assim.

Queremos desviar o olhar, quebrar o espelho do futuro. Nalguns rostos notam-se os embaraços do desconforto face ao corpo, enquanto vozes sussurram comentários diversos:

que velhas desenvergonhadas! Que lata! É preciso muita coragem!

Da vergonha já sabemos. O que desafia a norma transforma-se em estigma.

É a coragem que importa reter.

Qualquer que tenha sido a intenção com que aquelas mulheres quiseram exibir-se e dos significados com que o artista pretendeu dotar as fotografias, ao aparente despudor daquele existir para o olhar dos outros acresce uma mensagem que pode transformar a visão dos corpos decadentes numa grande lição de vida.

É de vidas que trata aquele painel.

Biografias longas, cujas experiências se lêem naquelas imagens.

Contra a norma e contra o mito, os corpos envelhecem.

Porque o tempo é o grande escultor.

E é essa a história que têm para contar” (MARQUES, (2004: 9).

 

Bibliografia

CARVALHO, D. Alberto. (2012). Antropologia da Exclusão ou o Exílio da Condição Humana. Porto Editora. Porto. p. 7.

MARQUES, Alice. (2004). Mulheres de Papel. Livros Horizonte. Lisboa. p. 9.