O Eldorado

Publicado por: Milu  :  Categoria: O Eldorado, SOCIEDADE

“O espírito que nos anima pode assumir as mais diversas formas: tornar-nos semelhantes a anjos, a demónios ou a bestas. A cada um a sua escolha.”

Henry Miller

De vez em quando sinto necessidade de tornar a ler livros que já li há muito. Alguns, lidos na minha juventude. É como revisitar os lugares onde fui feliz.

Desta feita, calhou ao grande Henry Miller.

Numa altura em que os Estados Unidos da América andam na boca do mundo,  nomeadamente na figura do seu presidente Donald Trump, eis que chego a uma descrição deste país, através de Henry Miller, na sua obra “Pesadelo em ar condicionado“, que é no mínimo curiosa.  Este livro foi escrito na década de 40 do século passado, mais precisamente em 1945. Quando o li na minha juventude, provavelmente a minha atenção não se quedou nesta descrição. Era muito jovem para me perder nestes detalhes. Talvez eu quisesse saber outras coisas. Mas agora que reli à luz dos acontecimentos da actualidade, não pude deixar de ficar pensativa. Por momentos, recordei um ex colega e a sua experiência nos USA, onde trabalhou uma temporada,  que uma vez me disse “aquilo é o puro capitalismo, o capitalismo puro e duro!”. E eu ouvi isto e fiquei absorta, a tentar imaginar, em vão, como teriam sido as suas vivências.

Miller, um americano nascido em New York, fala assim do seu próprio país:

“New Hope é uma das colónias de arte da América. Recordo-me vivamente do meu estado de espírito ao deixá-la, o qual se pode resumir no seguinte: Não há esperança para o artista! Os únicos artistas que não levavam uma vida de cão eram os comerciais; tinham belas casas, belos pincéis, belos modelos. Os outros viviam como condenados a prisão perpétua. Esta impressão foi confirmada e tornou-se mais profunda durante o resto da viagem.

A América não é país para um artista – porque um artista é considerado moralmente um leproso, uma pessoa economicamente desajustada, socialmente passiva. Um suíno alimentado com cereais leva vida melhor que um criador, seja ele escritor, pintor ou músico. Um coelho desfruta ainda de melhores regalias” (Miller, 1971: 14-15).

“A América é povoada, como todos sabemos, por pessoas, ou seus descendentes, que fugiram de situações tão desagradáveis. A América é a terra par excellence dos expatriados, dos fugitivos, dos renegados, para usar uma palavra mais forte. Poderíamos ter construído um mundo maravilhoso neste novo continente, se tivéssemos realmente rejeitado os nossos semelhantes da Europa, da Ásia e da África. A América ter-se-ia tornado um admirável mundo novo, se tivéssemos tido coragem de voltar costas ao antigo para construir a partir do nada, aproveitando apenas o solo, a fim de eliminarmos os venenos que se acumularam através de séculos de amargas rivalidades, invejas e profundos conflitos.

Um mundo novo não se constrói procurando esquecer o antigo.

Um mundo novo alicerça-se num espírito novo, em novos valores. O nosso mundo poderia ter começado daquela maneira, mas hoje é somente uma caricatura.

O nosso mundo é um mundo de coisas.

É todo ele constituído por comodidades e luxos, ou então pelo desejo de os alcançar. O que mais tememos, ao encarar o débâcie iminente, é sermos obrigados a abandonar as nossas futilidades, as nossas engenhocas, todos os pequenos objectos cómodos que nos tornaram tão desconsolados. Não há nada de admirável e de cavalheiresco, de heróico ou de magnânimo, nas nossas atitudes. Não somos almas tranquilas; somos presunçosos, tímidos, demasiado escrupulosos, enfastiados e instáveis” (Miller, 1971: 15-16).

 “Tive de percorrer cerca de quinze mil quilómetros até conseguir a necessária inspiração para escrever a primeira linha do meu livro. Podia contar num máximo de trinta páginas tudo o que se me afigurava digno de ser dito sobre a vida americana. Topograficamente, o país é magnífico… e aterrador. Aterrador porquê? Porque em nenhum outro ponto do mundo é tão absoluto o divórcio entre o homem e a Natureza. Em parte alguma encontrei estrutura de vida tão insípida e monótona como na América. Aqui, o aborrecimento, a sensaboria atingem o seu ponto mais alto.

Estamos habituados a supor-nos um povo emancipado; declaramos que somos democráticos, amantes da liberdade, isentos de preconceitos, que não sentimos ódios. Este é o crisol de uma grande experiência humana. Belas palavras, eivadas de um nobre e idealístico sentimento. Porém, constituímos uma casta vulgar de videirinhos, cujas paixões são facilmente mobilizadas pelos demagogos, pelos jornalistas, pelos charlatães das diversas seitas religiosas, pelos agitadores e por outra gente do mesmo jaez.

Chamar a isto uma sociedade de pessoas livres é blasfémia.

Que temos para oferecer ao mundo além da superabundância de excedentes, daquilo que pilhamos brutalmente à terra, com a ilusão maníaca de que esta actividade insana representa progresso e iluminação? A terra da oportunidade transformou-se na terra da labuta insensata e da luta porfiada. Os objectivos de todos os nossos esforços foram há muito esquecidos. Já não desejamos auxiliar os oprimidos e os indigentes; não há lugar nesta enorme terra vazia para os que, como os nossos avós, procuram agora refúgio. Milhões de homens e mulheres estão, ou estiveram até muito recentemente, a ser socorridos pela assistência pública, condenados como cobaias a uma vida de inacção ou preguiça forçada. O mundo entretanto fixa-nos com um desespero jamais conhecido.  Onde está o espírito democrático? Onde estão os dirigentes?” (Miller, 1971: 18-19).

Bibliografia

MILLER, Henry. (1971). Pesadelo em ar condicionado. Editorial Estampa. Lisboa.

Os males da Mulher

Publicado por: Milu  :  Categoria: Os males da Mulher, SOCIEDADE

“O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles.”

Simone de Beauvoir

 

Desde sempre que a mulher tem vindo a ser associada ao mal. De acordo com o Génesis, o primeiro ser humano a ser tentado e a sucumbir à tentação foi uma mulher. Pois… Tinha de ser…

De então para cá, pobre mulher, saco de porrada, que és culpada de tudo. Mas esta situação pode sofrer uma transformação:

quando as mulheres lograrem perceber o que causa este estado de coisas.

Porque é a causa do mal que tem de ser combatida.

Para tal, aconselho a leitura do excerto que se segue, que foi retirado do livro “Alteridades Feridas”, da autoria de Laura Ferreira dos Santos, doutorada em Filosofia da Educação, pela Universidade do Minho.

“O mal no feminino”

 

“Durante séculos, a reflexão filosófica (e teológica) ocidentais sobre o mal, quando não quis passar à margem do que hoje qualificamos de questões de género – faltaria saber se o conseguiu ou não, mesmo querendo-o -, tendeu muitas vezes a enveredar por discursos que, de um modo mais ou menos explícito, apontavam as mulheres como lugares especiais de existência ou de proliferação do “mal“, ou, pelo menos, de determinado tipo de males (…). Seja como for, por omissão ou não, este contexto teórico, condicionando a vida social mas sendo também, por sua vez, condicionado por ela, não possibilitou a emergência da afirmação da igualdade de direitos e dignidade entre homens e mulheres. Mais, ou pior ainda, este contexto teórico (e “cultural”) impediu que se tomasse consciência da grande manifestação de “mal” existente no interior da própria relação mulher-homem, ao ponto de Ivone Gebara escrever que

“O que constitui a humanidade, a diferença criativa entre os sexos, aparece como um dos lugares privilegiados em que o mal mostra as suas obras” (Santos, 2002: 51-52).

(…)

Através desta narrativa, Gebara pretende assim chamar a atenção para «a particularidade do mal vivido pelas mulheres», o que significa introduzir assumida e conscientemente a mediação da categoria de género na antiga reflexão sobre o mal, utilizando-a de modo a perceber melhor os desequilíbrios ou males existentes no relacionamento entre mulheres e homens.

Na sua perspectiva, é na abertura notória da diferença entre os seres humanos que passa pela diferença de género que o  mal se aloja de uma forma particularmente profunda, embora se possa também acrescentar que de uma forma quase naturalizada, como se o mal estivesse lá mas poucas pessoas o vissem, numa naturalização ou imperceptibilidade que reforçam necessariamente o carácter insidioso desse mal. Pois que é um mal que poucos e poucas vêem, sobretudo aqueles e aquelas que possuem alguma forma de intervenção transformadora do mundo? Obviamente, também um  mal que poucos e poucas combatem, um mal que se traveste nas formas de um destino contra o qual nada há a fazer” Santos, 2002: 52-53).

(…).

“Obviamente, só tomando consciência da amplitude deste mal poderemos depois procurar meios que facilitem uma vivência diferente da alteridade homem-mulher. Nas palabras de Gebara, “Trata-se de um trabalho de cura e de educação das nossas relações“, relações de género, é certo, mas relações que também podemos dizer que as extravasam, pretendendo-se uma relacionalidade diferente entre as pessoas e das pessoas com a natureza e com deus, para quem nele acredita.

Neste contexto, há algumas temáticas desenvolvidas por Ivone Gebara que se revelam a meu ver extremamente elucidativas para situar a questão do mal vivido pelas mulheres. Inicialmente, servindo-se sobretudo de obras literárias escritas por mulheres, em geral pertencentes à América Latina, Gebara focaliza a sua atenção nalguns tipos específicos de mal que as afectam: o mal que experienciam por terem um nulo ou muito reduzido acesso ao ter, ao poder e ao saber, e o mal que também se abate sobre elas por serem encaradas como valendo pouco, sobretudo se não têm a cor da pele considerada mais importante. Muito resumidamente, irei tentar explicitar cada um destes pontos, embora se deve dizer desde já que toda esta enumeração de males só artificialmente pode ser diferenciada, atendendo ao seu entrelaçamento inevitável. Embora a autora faça ainda um esforço por apresentá-los de um modo separado, acaba por ser ela própria a reconhecer que o mal de não-ter arrasta consigo os males de não-poder e de não-valer – a que bem poderia acrescentar o mal de não-saber – todos eles se conjugando para desembocar “no mal antropológico de ser mulher, e, mais ainda, no mistério do mal humano” (Santos, 2002: 54).

Quanto ao mal de não-ter, Gebara assinala sobretudo a situação de grande pobreza económica em que vivem milhões de mulheres, impossibilitando-as de experimentarem um quotidiano alternativo que possa ser fonte de singularização. E embora Gebara tenha por ponto de referência das suas reflexões as sociedades mais pobres, é fácil alargar esse ponto de referência às sociedades economicamente mais desenvolvidas da contemporaneidade, captando que, mesmo aí, as mulheres possuem menos acesso ao ter do que os homens. Algo de semelhante pode ser dito em relação ao poder. Por variadas razões, foi-se instaurando o que Bourdieu designou de «sociodiceia masculina», ou seja, uma legitimação da sociedade e das vivências sociais em termos masculinos. Por isso mesmo, ao longo da história as mulheres foram sendo retiradas do exercício do poder, mesmo naqueles casos em que alguma vez tinham acedido a ele. À semelhança do que foi dito para a questão do ter, também nas sociedades contemporâneas economicamente mais desenvolvidas as mulheres podem menos do que os homens.

Por outro lado, ao mal de não-ter e de não-poder junta-se o mal de não-saber. Neste ponto concreto, Ivone Gebara refere o exemplo da Irmã Juana Inés de la Cruz, mexicana do século XVII, objecto de um estudo de Octavio Paz (Paz, 1987), que a considera a primeira feminista da América Latina. Desejosa de saber mais, Juana entra num convento. Mas as «leis de género» abatem-se sobre ela, tornando-a suspeita de transgredir a natureza ao querer ocupar-se de uma área masculina como era a do conhecimento. Por isso, teve os livros queimados e teve de renunciar ao saber, num movimento que, na perspectiva de Octavio Paz e de Ivone Gebara, nada se assemelhava a um acto de humildade, mas era antes um acto de humilhação «imposto pelas autoridades eclesiásticas responsáveis pela Inquisição na Nova Espanha. Como é sabido, o conhecimento intelectual foi durante séculos um monopólio masculino, julgando-se que as mulheres não tinham capacidade suficiente para aceder a ele, por não estar de acordo com a sua «natureza», ou que deviam limitar-se a adquirir os conhecimentos que ajudariam a governar melhor uma casa. Ainda hoje, como se sabe, a distribuição entre os géneros do conhecimento socialmente prestigiante ou valorizado é algo de bastante desigual.

Finalmente, Ivone Gebara incide a sua atenção no mal de não-valer. Como escreve, em muitas sociedades,

«uma menina não vale por si mesma. Vale quando é submissa ao pai e à mãe, ao seu marido ou simplesmente à sua família. Vale pela sua beleza, pelos serviços domésticos que pode oferecer, pela sua capacidade de ser uma mãe excelente e uma excelente dona de casa. Os homens, sim, os homens valem por si mesmos, pelos seus esforços de autonomia, pelo seu combate para se tornarem pessoas de bem e socialmente reconhecidas».

Pior ainda se a menina ou mulher, para além de não ter o sexo normativo, não tem tão-pouco a cor da pele normativa, que é a branca. Como nos informa Gebara, no nordeste brasileiro era habitual as crianças negras (decerto tanto  meninas como meninos, subentende-se) não serem aceites para irem vestidas de anjo (a) nas festividades religiosas católicas, sobretudo nas que diziam respeito a Maria. Por outro lado, como nos alerta Gebara, sabe-se que há poucas bonecas negras no mercado, que as mulheres negras, em particular as mulatas, ainda mais do que as outras mulheres, são sobretudo vistas como um objecto sexual, e que muitas crianças negras anseiam ter traços de crianças brancas, como aquela menina negra que rezava todos os dias para ter os olhos azuis” (Santos, 2002: 55-56).

(…).

“Por outras palavras, poder-se-ia dizer que, ao longo da história mulheres e homens têm estado colocados em posições excessivas ou extremadas, os homens num excesso de ter, poder, saber e valer, as mulheres num excesso de carência desse mesmo ter, poder, saber e valer” (Santos, 2002: 57).

♦♦♦

“Esconde esse absorvente

Essas espinhas

Arranca esses pêlos

Da um jeito nesse seu cabelo duro

Mal cuidada

Porca

 

Feche esse sorriso

Sua mãe não te ensinou

Sobre o perigo de andar sorrindo na rua?

Abaixa essa cabeça

Para de encarar

Você esta chamando atenção

Assim vão achar que você esta dando mole

 

Delicia

Gostosa

Oh la em casa

Fecha essa boca e não reclama

Saiu de casa de saia curta

Camisa decotada

Maquiagem

Sem um homem

Tem que aguentar

 

Como assim não sabe cozinhar?

Você é mulher

Tem que cuidar do lar

Como assim não quer engravidar?

Você é mulher

Tem que engravidar

 

Faculdade? Viagem?

Mas você é mãe

Tem que cuidar

Abriu as pernas, agora não adianta

Largar na creche

Irresponsável

 

Mãe solteira?

O pai foi embora?

Não sabe quem é o pai?

Transou sem camisinha

Vai ter que aguentar

Vadia

 

Esse roxo ai

Tenho certeza que apanhou

Que teu marido te bateu

Mas você mereceu

Provocou ele

Você sabe que não pode se levantar

Mulher tem que ser submissa

O homem é que comanda o lar

 

Ah, mas que criança linda

É uma menina?

Toma aqui esse vestidinho rosa

Essa coberta de florzinhas

Pinta o quarto de rosa

Um rosa bem bonito

Porquê mulher é monocromática durante a infância

 

Ih, chegou a menarca

Essa vai dar trabalho

Ensina pra ela a se valorizar

Mulher tem que se dar ao respeito

Fala pra ela não deixar ninguém ver esse absorvente

Esse sangue sujo

 

Vai ter que começar a usar sutiã

Os mamilos estão aparecendo pela camisa

Que coisa horrível

Adolescente descuidada

A mãe dessa ai não ensinou nada

 

Foi estuprada?

Morreu no processo?

Devia estar pedindo

Sem sutiã, andava sozinha

Aquele batom vermelho

Aquela bunda enorme

Não sabe que menina tem que ficar em casa?

Deu sorte pro azar

 

Não foi educada

A mãe era solteira

O pai estava é certo de ir embora

Se ela era assim com a filha, imagine com o marido

 

Não foi respeitada

Opressão?

Imagine

 

Olha lá a mãe dela

Na beira do caixão

Olhando pro rosto da filha

Sem cor, sem vida

Um futuro morto antes mesmo do nascimento

Filha de mãe solteira

Sem pai, sem respeito

 

Morreu tão jovem

Aos 17

Uma menina tão linda

Maldita sociedade

Espero que a mãe dela aprenda a lição

E não tenha mais filhos

 

Suicídio?

Mas ela poderia ter começado uma vida nova

Agora que tinha perdido a filha

Poderia terminar a faculdade

Arrumar um emprego

Mas era uma fraca

Era mulher

O destino, a vida, as possibilidades

As pessoas

Cavaram a cova e jogaram ela lá dentro

 

Vitimismo? Preconceito?

Abuso? Agressão?

Cala essa boca e vai lavar uma louça

Você tem uma delegacia só sua

Tem seus direitos

Não luta na vida

(Mas luta na rua)

Não morre na guerra

(Mas morre em casa)

 

Cintia Duarte Montilla

Bibliografia

SANTOS, F. Laura. (2002). Alteridades Feridas. Ensaio Filosofia. Angelus Novus. Coimbra.

 

Mentes estreitas

Publicado por: Milu  :  Categoria: Mentes estreitas, SOCIEDADE

 

“Tudo aquilo que não podemos incluir dentro da moldura estreita de nossa compreensão, nós rejeitamos.”

Henry Miller

  1. “Vou disparar relâmpagos quentes para dentro de ti, incandescer os teus ovários. O teu Sylvester já está com ciúmes? Sente algo, é? Sente os vestígios da minha piça grande? Afastei um pouco as margens. Passei os refegos a ferro. Depois de mim, podes foder garanhões, touros, carneiros, patos, são-bernardos. Podes enfiar sapos, morcegos, lagartos no recto. Podes cagar arquejos, se quiseres, ou dedilhar uma cítara pelo umbigo. Estou a foder-te, Tania, para que fiques fodida de vez.”
  2. “e a tua tia sabes de que tem cara de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu” ou “fazem amor pelo cu porque não têm racha, enfiam coisas no cu percebes… maricas é meter coisas no cu… nem querem saber de terem uma pila.”

“Nem tudo o que parece é”. Foi este adágio popular que me ocorreu, conforme fui seguindo as postagens e comentários feitos no Facebook a propósito do Pano Nacional de Leitura.

Ambos estes excertos, que eventualmente terão sido chocantes para algumas pessoas, foram retirados de obras de autores diferentes. O segundo excerto foi retirado da obra “O nosso reino” da autoria de Valter Hugo Mãe e consta  do Plano Nacional de Leitura, que foi recomendado para alunos do 7º, 8º e 9º ano.

Caíu “o carmo e a trindade” no burgo, porque ai os ouvidos virgens das criancinhas. Criancinhas já com idades, seguramente, entre os 12 e 15 anos, com todo o acesso à rede da Internet, onde poderão ver e ler de tudo, caso a sua liberdade não esteja travada, mas se estiver,  podem  ver e ler através do telemóvel de algum colega, quanto mais não seja.

O que aconteceu foi  que este excerto de Valter Hugo Mãe foi retirado de um contexto onde tinha uma determinada significância. Lido no livro, em fluxo, tem um certo cabimento, lido assim, fora de um contexto, assume o aspecto de uma brutalidade gratuita. Fica-se com a impressão de que o livro é pouco recomendável e o seu autor também não deverá ser grande coisa, porque quem escreve deste jeito não tem nada de mais interessante para dizer.

Esta mesma impressão terá sido causada aos leitores (as) que leram o primeiro excerto neste post. No entanto, o excerto apresentado foi retirado do livro “Trópico de Câncer” da autoria de Henry Miller. Um autor que dispensa apresentações.

Ler Miller é mergulhar no que é a vida.

A vida não é nenhuma ladainha. Tem  momentos de beleza, se tem, mas também tem momentos em que é bruta e porca. Neste livro, “Trópico de Câncer“, podemos ver, por exemplo, o que é a vida de alguém sem dinheiro a viver numa grande cidade. O que é deambular por sítios baratos. Como pensa, e o que pensa,  um homem esganado com fome. Podemos ver o que é a verdade. Aquela verdade que todos vêem mas que ninguém quer ver.

Curioso foi verificar que os mais acintosos na crítica a esta escolha para o Plano Nacional de Leitura, que desdenharam o livro em causa e seu autor, sem conhecer nem um, nem outro, quando confrontados com o facto de haver obras célebres, com conteúdo sexual explícito, de autores notabilizados, tiveram o desplante de considerar que essas obras, sim, são literatura!   É por isto, por esta forma de pensar, que em Portugal se homenageiam  os mortos, já que enquanto vivos estão mais a jeito para serem abatidos.

Também me apercebi que houve pais, quando lhes foi dito que crianças desta idade já não são assim tão pueris, que já não terão nem os olhos nem os ouvidos assim tão virgens, que foram capazes de afirmar a pés juntos, que sabem tudo o que os filhos fazem.

Recomendo-lhes eu que tenham mais tento. Que se reportem ao tempo em que foram crianças. Foram assim, tão panhonhas? É que ter uma educação com regras e bons princípios, não implica que se tenha de ser um, ou uma, panhonha. Pelo contrário: uma criança bem saudável é aquela que arde em curiosidade e parte para a descoberta.

Ao contrário de muita gente,  considero até que este excerto de Valter Hugo Mãe, assim, brutal, e mesmo desprendido de contexto, pode contribuir para  educar os adolescentes.  Para lhes mostrar o que é a misoginia. Para lhes mostrar como é que o homem foi ensinado a pensar a mulher. Para tal, basta fazer um cruzamento entre a leitura destes excertos, obscenos e brutais, com excertos de obras sobre a História das Mulheres. Como farei neste post, por exemplo.

A misoginia é a repulsa, desprezo ou ódio contra as mulheres. Esta forma de aversão mórbida e patológica ao sexo feminino está directamente relacionada com a violência que é praticada contra a mulher. A misoginia é a principal responsável por grande parte dos assassinatos de mulheres, também conhecido por feminicídio. Configura-se através de agressões físicas e psicológicas, mutilações, abusos sexuais, torturas, perseguições, entre outras violências relacionadas directa ou indirectamente com o género feminino.

O menosprezo pelas mulheres está de tal forma interiorizado, naturalizado, que muitas das mulheres nem reparam, nem dão por ele. Mas esse menosprezo, essa desconsideração, está presente nos nossos dias revestido das mais diversas roupagens.

Vejamos o que nos conta a obra Mulheres Portuguesas, para perceber o desprezo com que se tratava a mulher. O que era a vida das mulheres. O  ambiente em que viviam. O jugo a que eram submetidas. E os resquícios que ainda resistem nos nossos dias.

Os excertos que se seguem, cuja leitura recomendo vivamente, foram retirados da obra “Mulheres Portuguesas” da autoria de Irene Flunser Pimentel e Helena Pereira de Melo. Consultar a bibliografia no final do post.

“A mulher no Código Penal de 1886”

Ou seja, a mulher sob a batuta da lei

“A punição do crime de infanticídio (causar intencionalmente a morte de uma criança no acto do seu nascimento ou nos oito dias subsequentes) é menor se tiver sido «cometido pela mãe para ocultar a sua desonra, ou pelos avós maternos para ocultar a desonra da mãe». O crime do aborto, quer tenha sido ou não consentido pela mulher grávida, é em regra severamente punido (com pena de prisão até oito anos), podendo, no entanto, a pena ser muito atenuada se a mulher tiver cometido o crime «para ocultar a sua desonra»” (Pimentel & Melo, 2015: 113).

“A honra da mulher, que se não for respeitada leva à desonra de toda a família, em particular do marido, é o bem jurídico fundamental protegido por todas as normas penais em matéria de crimes sexuais. Como salienta Lopes Praça:

«A mulher que perde a sua honra fica para sempre maculada. O mundo não conhece reabilitação para esta falta. Para a desonra passar em julgado na opinião pública é desnecessária a evidência. A verosimilhança faz a prova plena. Perdesse, muito embora, a mulher a sua honra em virtude de violências nada importa; a sua mancha subsistiria, e o véu da vergonha nunca se lhe levantaria das faces (…) Para tornar a desgraça da mulher mais profunda, a sua queda, como a da nossa mãe Eva, é solidária e comunicativa para pais, maridos, e filhos, para a família toda»” (Pimentel & Melo, 2015: 113).

“Para, por exemplo, ocultar a desonra da filha que tenha engravidado a mãe pode fazer crer que a criança que nascer é sua filha e não sua neta (…)” (Pimentel & Melo, 2015: 113).

(…).

“O Código regula também, com pormenor, o crime de adultério, estabelecendo, como referimos, um regime muito diferente consoante o criminoso seja o marido ou a mulher. A prática do crime de adultério pela mulher é, como referimos, severamente punida pelo legislador penal: com pena de prisão de dois a oito anos ou, em alternativa, com degredo temporário. Pelo contrário, a prática do mesmo crime pelo marido só é punido no caso extremo de este ter »manceba teúda e manteúda na casa conjugal» e, mesmo assim, como também dissemos, com uma pena incomparavelmente mais leve (Pimentel & Melo, 2015: 114).

(…).

“Aludindo à diferente penalização do crime de adultério, Ana de Castro Osório Salienta:

«(…) a mulher casada podia sofrer todas as afrontas, todos os vexames, duma poligamia mal disfarçada, que não tinha o direito de se queixar, como se para ela a consciência e a justiça não existissem! (…) a mulher casada não tinha o direito de pôr os olhos fora da sua própria casa, devendo antes fechá-los com submissão e paciência, como a favorita legítima do senhor, a quem tudo era permitido  sem desdouro. Para ela toda as responsabilidades; para ele todas as vantagens e regalias» (Pimentel & Melo, 2015: 114).

“Mais uma vez, o bem jurídico protegido por estas normas é o da honra, sobretudo a do marido, ofendida pelo comportamento sexual da mulher quando esta estabelece uma relação extraconjugal. O comportamento do marido, quando agride a mulher ou o amante, é considerado socialmente quase aceitável – como escreve Lopes Praça:

«A queda da mulher não só a enlameia aos olhos de quantos a conhecem, mas dissolve todo o amor que alentava a família. O amor paternal, fraterno, conjugal e filial transforma-se em ódio insanável, em desprezo irremediável. O pai tem matado a filha, o irmão a irmã, o marido a mulher, o filho a mãe. E a opinião pública olha todos estes crimes com indulgência. Os criminosos dizem aos tribunais: “Sentia em mim a imperiosa necessidade de desafrontar a minha honra.” E os tribunais atenuam a pena, ou os absolvem.» (Pimentel & Melo, 2015: 114).

“O Código pune igualmente, no capítulo intitulado «Dos crimes contra a honestidade», outros crimes sexuais praticados fora do casamento: o estupro, a violação e o rapto. Estes crimes são delineados tendo em atenção vários factores: se a mulher solteira é ou não virgem (e, logo, «honesta» ou «desonesta»), a sua idade e a violência com que são cometidos” (Pimentel & Melo, 2015: 115).

(…).

“No caso de violação, o legislador não distingue entre mulher «virgem» ou «não virgem» nem maior ou menor de dezoito anos. Porém, na aplicação da lei pelos tribunais, estes factores serão tidos em conta, enquanto preconceitos dominantes na sociedade portuguesa de finais do século XIX, para a determinação da pena aplicável no caso concreto. Como salienta Lopes Praça a propósito da prática judicial em matéria de crimes sexuais, à data:

«Até mesmos os funcionários encarregados do cumprimento da lei, eivados dos preconceitos públicos, facilitam a impunidade dos sedutores (…)»” (Pimentel & Melo, 2015: 115).

(…).

«Perdoa-se ao mancebo a imoralidade e os extravios da juventude; na mulher punem-se essas irregularidades como crimes irreparáveis. Daí o pesar sobre as meninas uma desconfiança de ferro. A mulher não só deve ser imaculada, mas tratar-se de modo que até o contrário nos pareça impossível. Com que razão os princípios de moralidade, à luz dos quais são julgadas as meninas, hão-de ser relaxados na sua aplicação ao procedimento masculino? (…)»” (Lopes Praça, 190) in (Pimentel & Melo, 2015: 116).

“Afigura-se-lhe deste modo indispensável que «os legisladores se pronunciassem severa e abertamente em favor do desafrontamento das mulheres tão severamente punidas pelo seu crime, e contra o sedutor, que a opinião pública proterva e desmoralizada, em lugar de punir exalta, aplaude e até inveja» (Lopes Praça, 190) in (Pimentel & Melo, 2015: 117).

Sinopse

Valter Hugo Mãe em “o nosso reino”:

“Delicadíssima história de uma criança em torno da ansiedade por uma resposta de Deus. Retrato de um Portugal recôndito ao tempo da Revolução dos Cravos que nos conta como em lugares pequenos as ideias maiores são relativamente intemporais e o que acontece ignora largamente o tempo exacto do mundo.
O belo livro de estreia de valter hugo mãe é uma fulgurante prova de imaginação e beleza. Entre a profunda ternura e a difícil aprendizagem da vida, cada dia é um esforço para que se prove a existência do milagre de se ser alguém.”

CRÍTICAS DE IMPRENSA

“Há uma nova presença importante na ficção portuguesa contemporânea. Falo de valter hugo mãe, que surge agora, numa escrita mágica, suave-cruel, entre paraíso e inferno, com o seu romance o nosso reino.”

Urbano Tavares Rodrigues

“A narração do autor é quase que um sussurrar de lembranças, o resgatar de um tempo vivido entre o temor e a confiança nos valores divinos. Mas esse falar deixa às vezes de ser sussurro (…) quando a linguagem se torna menos mansa e lógica, para então enfurecer-se, tornar-se deliberadamente incongruente e torna-se alquimia verbal.”

Ferreira Gullar, Prefácio

“Ou muito me engano (…) ou o romance o nosso reino, de valter hugo mãe, é uma das maravilhas, deste final de ano. (…) É uma fenda no céu. Uma ventania.

Francisco José Viegas

Bibliografia

MÃE, H. Valter.(2016). o nosso reino. Porto Editora.

MILLER, Henry. (2008). Trópico de Câncer. Editorial Presença. Barcarena. pp. 10.11.

PIMENTEL, F. Irene. MELO, P. Helena. (2015). Mulheres Portuguesas. Clubedoautor, S.A. Lisboa