Padrinhos do pecado e do interdito

Publicado por: Milu  :  Categoria: Padrinhos do pecado..., SOCIEDADE

 

“São milénios de tradição de submissão e desigualdade que pesam sobre nós”.

Teresa Pizarro Beleza
(Professora catedrática de Direito Penal da Universidade Nova de Lisboa)

 

Sempre que leio notícias como esta, que se refere a um acórdão que desvaloriza a violação de uma mulher, sinto-me ainda mais na obrigação de continuar a publicar posts que contribuam para informar e difundir a História das Mulheres.

O que me move, nesta cruzada de procurar a verdade, é a imperiosa  necessidade de aprofundar os conhecimentos para melhor entender sobre como foi possível, ao longo dos séculos, manter a mulher num estado de submissão e de desigualdade. Algo que foi e ainda continua a ser aceite pela própria como sendo um estado natural, emanado pelas leis da natureza, ou divinas. Pois bem, tenho muita pena de ferir as susceptibilidades de algumas pessoas, mas a verdade é que a Igreja tem a sua quota parte de culpa neste processo. E não é pouca. É preciso que se diga, e repita, que houve um tempo em que só os homens eram letrados e grande parte destes eram sacerdotes, e com isso ajudavam a difundir uma ordem que lhes era favorável. Quanto às populações, estas eram na sua vasta maioria analfabetas, e às  mulheres, com muito raras excepções, era vedado o ensino, transformando-as assim em terreno fértil para as crendices e os abusos de toda a espécie.

É tão fácil dominar num mundo de ignorantes…

Este excerto que se segue, foi retirado do livro “As Damas do Séc. XII. A Eva e os Padres” da autoria de George Duby, historiador medievalista, especialista da época designada por Idade Média. Vamos ler!

(…).

“Convidar as mulheres, pelos menos as mais nobres, a confiar-se a um homem da Igreja era tratá-las como pessoas, capazes de se corrigirem. 

Mas era também capturá-las.

A Igreja apanhava-as nas suas malhas.

No limiar do segundo milénio, na época em que Burchardo de Worms* trabalhou, deu-se na Europa um acontecimento de considerável importância. Que, ao modificar as relações entre o masculino e o feminino, marcou profundamente toda a cultura europeia e as suas repercussões ainda hoje não se dissiparam por completo. Instituição de longe a mais poderosa de todas, tanto mais forte quanto depurava o seu pessoal e se desligava de qualquer outro controlo, a Igreja decidiu colocar sob o seu rigoroso domínio a sexualidade. A Igreja estava então dominada pelo espírito monástico.

A maior parte dos seus dirigentes, e dos mais empreendedores, eram antigos monges. 

Os monges julgavam-se anjos.

Pretendiam, como estes, não ter sexo e viam honra na sua virgindade, professando horror pela mácula sexual. A Igreja, por conseguinte, dividiu os homens em dois grupos. Aos servidores de Deus, proibiu o uso do seu sexo; permitiu-o aos outros, nas condições draconianas que decretou. 

Restavam as mulheres, o perigo, uma vez que tudo girava em redor delas.

A Igreja decidiu subjugá-las.

Para tal, definiu claramente os pecados de  que as mulheres, pela sua constituição, se tornam culpadas. No momento em que Burchardo compunha a lista destes pecados específicos, a autoridade eclesiástica acentuava o seu esforço para reger a instituição matrimonial. Impor uma moral do casamento,

governar a consciências das mulheres: um mesmo projecto, um mesmo combate.

Foi longo.

Acabou por transferir para os padres o poder dos pais de entregar as mãos das filhas a um genro e por interpor um confessor entre o marido e a sua esposa” (Duby, 1996:39-40).

“Os padres tinham que ajudar os pecadores a purgar-se inteiramente, portanto, submetê-los ao questionário, forçá-los à confissão. Assim que o penitente começava a reconhecer os seus pecados, seria bom atiçar nele a vergonha, instá-lo a ir mais longe, a examinar lucidamente o mais profundo da sua alma” (Duby, 1996:21).

“O «Decretum» apresenta-se como ferramenta indispensável de purificação geral. Dos vinte livros que o compõem, os cinco primeiros tratam do clero  e dos sacramentos, que ele distribui, isto é, dos agentes deste saneamento necessário. Vem a seguir um catálogo exaustivo dos pecados que há para extirpar punindo-os conforme a sua gravidade” (Duby, 1996:20).

“Burchardo de Worms insta o padre a interrogar directamente as mulheres. Depois de ter enunciado cento e quarenta e oito perguntas, o «Medicus» avisa:

«Se as perguntas supracitadas são comuns às mulheres e aos homens, as seguintes destinam-se especialmente às mulheres»” (Duby, 1996:23).

 

Transcrevo a seguir algumas perguntas que estava instituído fazer às mulheres durante a confissão, segundo as orientações fornecidas pelo penitenciário Decretum, obra do bispo Burchardo de Worms, um dos “fabricantes” e perpetuadores do pecado e dos interditos.

 

  • “«Fizeste o que certas mulheres têm o costume de fazer, fabricaste uma certa máquina do tamanho que te convém, usaste-a no lugar do teu sexo ou de o de uma companheira e fornicaste com outras ruins mulheres ou outras contigo, com esse instrumento ou com outro?»;
  • «Fizeste como essas mulheres que «para extinguirem o desejo que as atormenta se juntam como se pudessem unir-se?»;
  • «Fornicaste com o teu menino, isto é, pousaste-o sobre o teu sexo imitando assim a fornicação?»;
  • «Ofereceste-te a um animal, provocaste-o para o coito com algum artifício?»;
  • «Provaste a semente do teu homem para que ele arda mais de amor por ti?»;
  • «Misturaste, para o mesmo fim, no que ele bebe, no que ele come, diabólicos e repugnantes afrodisíacos, peixinhos que puseste a marinar no teu interior, pão de massa batida sobre as tuas nádegas nuas, ou então um pouco de sangue dos teus mênstruos, ou ainda uma pitada de cinzas de um testículo torrado?»;
  • «Exerceste o proxenetismo, de ti ou de outras? Quero eu dizer, vendeste, como as putas, o teu corpo a amantes para que dele gozassem? Ou, o que é mais maldoso e culpado, o corpo de outra, quero dizer, a tua filha ou a tua neta, outra cristã? Alugaste-a? Alcovitaste?»;
  • «Fizeste o que certas mulheres têm o costume de fazer quando  fornicaram e querem matar o que trazem? Actuam para expulsar o feto da matrix, seja com malefícios, seja com ervas? Assim matam e expulsam o feto ou, se ainda não conceberam, fazem o que for preciso para não conceber»;
  • «Foi por pobreza, por dificuldade em alimentar a criança, ou por fornicação e para esconder o pecado?»” (Duby, 1996:24-26).

Por outro lado, e é a principal razão, o homem é a cabeça da mulher. É responsável pelos actos e pensamentos daquela que desposou. O que a vê fazer abertamente, o que a ouve dizer abertamente e que desagrada a Deus, é seu dever proibir-lho. E se outras mulheres da sua casa, as suas filhas, suas irmãs e até serventes da cozinha, repetem em coro os refrãos que a Igreja reprova, terá que, de cacete em riste, as calar. (…) O homem é o seu «dono e senhor». Elas estão à sua mercê e, ao longo de todo o Decreto, muitas referências aos textos conciliares reforçam este postulado. Cito duas. No livro XI, Burchardo transcreve os termos do juramento que o marido e a sua cônjuge eram chamados a prestar quando o bispo os reconciliasse. 

O homem diz simplesmente:

«Tê-la-ei doravante como um marido segundo o direito deve ter a sua mulher, acarinhando-a na necessária disciplina; não me separarei dela e não tomarei outra enquanto ela viva».

A mulher fala durante mais tempo porque se compromete mais.

«Doravante tê-lo-ei e enlaçá-lo–ei e ser-lhe-ei submissa, obediente, no serviço, no amor e no temor, como segundo o direito deve a esposa ser sujeita ao marido. Não me separarei mais dele e, sendo ele vivo, não me ligarei a outro homem por casamento ou adultério»” (Duby, 1996:33-34).

 

Conclusão

 

“Do lado feminino, a servidão, a tremura, a vergonha; deste lado, e só deste lado, o adultério e as terríveis sanções que o castigavam” (Duby, 1996:34).

 

* Burchardo de Worms – Bispo de Worms, antes monge de Lobbes, elaborou o Decretum, “que mostra onde está o direito reunindo, classificando os «cânones», as decisões tomadas ao longo da história nos concílios, nas assembleias de bispos, e as prescrições contidas nesses livros chamados «penitenciários», porque indicavam, para cada pecado, a pena que haveria de resgatá-lo” (Duby, 1996:18-19).

Bibliografia

DUBY, Georges. (1996). As Damas do Séc. XII. 3 Eva e os Padres. Teorema. Lisboa.

 

A raiz do mal!

Publicado por: Milu  :  Categoria: A raiz do mal!, SOCIEDADE

 

“Não se pode, por isso, infligir a uma mulher adúltera o cilício, nem muitas vigílias, nem o jejum porque o homem poderia suspeitar de adultério se a vir fazer semelhante penitência. E, por outro lado, o corpo da mulher está de tal modo em poder do marido que não  se pode enfraquecê-lo sem o consentimento deste. Pelo contrário, ela deve alimentar e cuidar do seu corpo para que este esteja apto a ser utilizado pelo homem […]”. 

 

Tomás de Chobham in Pilosu (1995:  102)

A respeito do post de hoje, pouco tenho a acrescentar. É ler e reflectir. Apetece-me dizer que aqui estão alguns dos pais do pecado e dos interditos e, sobretudo dos carrascos das mulheres. Ajuda a compreender como foi possível durante séculos manter a mulher num estado de submissão, de inferioridade…

Em breve farei um outro post com algumas perguntas que era suposto fazer às mulheres durante a confissão… que coisa mais miserável… é certo que vivemos um outro tempo, não posso alhear-me desse facto. Não é correcto criticar factos passados com o olhar actual. As gerações futuras também se irão admirar com o nosso “modus vivendi”.  Criticar-nos por deixarmos que certas coisas tivessem acontecido, aliás, que estão ainda a acontecer. Por outro lado, também é certo que a Igreja, se pudesse, continuaria a agir como se estivéssemos na Idade Média. É que de vez em quando surpreendemos-lhe uma fraqueza, um tique do passado.

Mas vamos a factos, eis George Duby, historiador e especialista na Idade Média:

“Estêvão de Fougères foi capelão de Henrique Plantageneta, um dos padres que procediam às liturgias na casa real. Tão bem serviu o seu poderoso senhor que se tornou, em 1168, bispo de Rennes. (…). Para guiar os homens no sentido do bem, e muito especialmente os homens da Igreja a quem era imposta a castidade e que era necessário encorajar a luta contra os seus apetites, escreveu em latim vidas de santos, em particular a de Guilherme Firmat, exemplo da renúncia às alegrias do corpo. (…). Para Estêvão, a mulher é portadora do mal. É o que repete vigorosamente no «Livre des manières», redigido entre 1174 e 1178″ (Duby, 1996: 11-12).

“Este longo poema – trezentas e trinta e seis estrofes, mil trezentos e quarenta e quatro versos – é, sob uma forma aprazível, um sermão, ou melhor, uma colecção de seis sermões, cada um deles dedicado a uma categoria social, sublinhando os seus defeitos específicos e propondo-lhe um modelo de conduta. (…).

(…) o autor falou dos dominantes, os  reis, os clérigos, os cavaleiros. Passa a seguir aos dominados, os camponeses, os burgueses e por fim as mulheres.  Pela primeira vez no que hoje resta da literatura em língua profana, as mulheres são mostradas como constituintes de uma «ordo» dotada da sua moral própria e sujeita às suas próprias fraquezas. Estas são aqui denunciadas com aspereza e brio” (Duby, 1996: 12-13).

“Estêvão nada inventou, limitou-se a multiplicar os termos brejeiros que dão força ao seu discurso virulento. Com efeito, espraiou-se numa ampla, numa muito antiga corrente de ditos misóginos. (…).

(…) foi beber directamente a duas obras que tinha à mão no armário de livros da residência episcopal. Em primeiro lugar, ao «Livre des dix chapitres», escrito meio século antes por um dos  seus predecessores na sé de Rennes, Marbodo. Este ao tratar «Da Prostituta», assentara em oitenta versos forjados vigorosamente um contorno assustador da mulher (Duby, 1996: 17-18).

Um bispo, Burchardo de Worms, elaborou a obra intitulada «Decretum» que

“consiste em um tratado austero, um manual prático de administração, uma «colectânea canónica», como dizem os eruditos” . Com efeito, mostra onde está o direito reunindo, classificando os «cânones», as decisões tomadas ao longo da história nos concílios, nas assembleias de bispos, e as prescrições contidas nesses livros chamados «penitenciários», porque indicavam, para cada pecado, a pena que haveria de resgatá-lo. Há décadas que se compunham inventários desses. Ajudavam os chefes da Igreja a desempenhar uma das suas principais funções: julgar, definir, baseando-se na autoridade dos seus antecessores,  as infracções a fim de as reprimir e, assim, assentar um pouco mais solidamente as regras de uma moral. (…).

Burchardo acumulou  as fichas, ordenou-as convenientemente, elaborou o seu «Decreto» para seu uso pessoal e para o dos seus amigos. Tinha sido monge em Lobbes. Um dos seus antigos mestres, que se tornara abade de Gembloux, bem como o bispo de Espira, deram-lhe uma mãozinha. Quando pensamos nos instrumentos muito fracos que então dispunham os letrados, quanto mais não fosse para fixar as palavras por escrito, a amplitude da obra realizada espanta. O seu rigor, a sua clareza deslumbram.

Impôs-se.

Transcreveram-na por toda a parte nas dioceses do Império e da metade norte da França. Nesta parte da cristandade, todos os bispos se serviram dela durante o século XI e até ao fim do século XII, para buscar o pecado e dosear equitativamente os castigos redentores. (…). Dos vinte livros  que o compõem, os cinco primeiros tratam do clero e dos sacramentos (…). Vem a seguir um catálogo exaustivo dos pecados que há para extirpar punindo-os conforme a sua gravidade” (Duby, 1996: 18-20).

“Com efeito, no século XII as modalidades de administração do sacramento da penitência iam sendo lentamente elaboradas. Os padres tinham que ajudar os pecadores a purgar-se inteiramente, portanto, submetê-los ao questionário, forçá-los à confissão. Assim que o penitente começava a reconhecer os seus pecados, seria bom atiçar nele a vergonha” (Duby, 1996: 21).

“Também Burchardo dispunha de um modelo. Cem anos antes, na mesma região, Reginon, antes abade de Prüm, então abade de Saint-Martin de Trier, tinha, a pedido do bispo de Ratbodo, que exigia ser guiado nas suas visitas pastorais através da diocese e nas sessões do tribunal episcopal, escrito dois livros, «Das causas gerais e Da disciplina eclesiástica». No segundo figura um questionário, um interrogatório sobre o pecado. Burchardo achou-o de tal modo precioso que o transcreveu integralmente no início do Decretum, na parte consagrada aos poderes do bispo. Aqui, porém, as perguntas são formuladas de um modo diferente. Não pelo padre ao pecador arrependido, mas pelo bispo a sete homens escolhidos em cada paróquia, sete jurados «maduros, de bons costumes e verídicos». Ficam de pé diante do prelado. Este admoesta-os: «Não ides prestar juramento diante de um homem mas diante  de Deus, vosso criador […]. Cuidai de nada esconder, de não serdes condenados pelo pecado dos outros.»”

“O pecado dos outros, na verdade, não o seu.”

“Não  se pretende que vasculhem a sua consciência e confessem as fraquezas próprias. Devem revelar tudo o que sabem, o que viram, ouviram dos pecados cometidos em seu redor, na comunidade popular. O bispo passa a interrogá-los: «Há nesta paróquia um homicida? Um parricida? […] Não há quem tenha ousado cantar junto da Igreja canções dessas que fazem rir?» Sucedem-se assim oitenta e nove perguntas que vão, também elas, dos crimes mais patentes, os crimes de sangue que maculam toda a população, aos delitos sexuais muito íntimos e aos mínimos gestos de desrespeito para com o sagrado. Trata-se de um processo «inquisito» como os que o poder público instaurava periodicamente para restabelecer, para manter a paz.

É um documento que revela os primeiros avanços de um movimento que teve grandes consequências para a história da nossa cultura. Vemos no início do século X a ala activa da Igreja aperfeiçoar os seus processos de controlo e de dominação.

Vemo-la infiltrar-se, insinuar-se no seio do povo fiel por intermédio de emissários ajuramentados, encarregados, sem levar em conta  «nem amor, nem temor, reconhecimento ou afeição familiar», de detectarem, com olhos abertos, ouvidos à escuta, os menores indícios do que ela define como pecado. Vemo-la apertar assim com uma boa volta de parafuso a sua presa sobre a conduta dos leigos. 

É um primeiro passo.

Um século mais tarde, no tempo de Burchardo, a ferramenta aperfeiçoa-se consideravelmente. O padre passa a manter o diálogo, olhos nos olhos, confidencialmente, com o paroquiano.

O bispo delegou nele o seu poder de vigiar e punir, recomendando-lhe que «use de grande discrição, distinga entre aquele que pecou publicamente e fez penitência pública e aquele que publicou secretamente e confessa por si». A Igreja passa a estar à altura de regulamentar as coisas mais íntimas. Mergulhando o olhar muito além do que os inquiridores do século X estavam em posição de descobrir, toma sob a sua alçada gestos e pensamentos que ninguém antes tinha por culposos e que, nomeando-os descrevendo-os, transforma em delitos, alargando assim indefinidamente o campo da ansiedade, desse medo do inferno que leva a que as pessoas se inclinem diante dela” (Duby, 1996: 21-23).

 

Bibliografia

DUBY, Georges. (1996). As Damas do Séc. XII. Eva e os Padres. Teorema. 3º volume. Lisboa.

PILOSU, Mario. (1995). A Mulher, a Luxúria e a Igreja na Idade Média. Editorial Estampa. Lisboa.

 

 

Vidas ocultadas

Publicado por: Milu  :  Categoria: SOCIEDADE, Vidas Ocultadas

“Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exacto. E então, pude relaxar. Hoje eu sei que isso tem nome: Auto-estima.”

Kim Mcmillen

 

Ainda há quem se atreva a dizer, por disso estar convencido, que só os homens podem ser bons filósofos, cientistas ou intelectuais. Na verdade, tempos houve em que a mulher era  praticamente excluída da escola, sendo que se considerava que uma mulher deveria antes aprender a cuidar de uma casa, do marido e dos filhos. Deste modo, o estudo para uma mulher não serviria para nada, pois a sua função na sociedade era ser uma boa mãe e uma boa esposa. No entanto, mesmo em tempos remotos, durante toda a Idade Média, houve  mulheres que por terem tido a suprema graça de nascerem  no seio de uma família com posses e esclarecida, puderam não só frequentar a  escola como também aprofundar os seus estudos, não obstante as dificuldades sentidas  em relação à escolha de certas profissões que estavam interditas às mulheres, pois toda a educação era feita na base das desigualdades de género.

Por sua vez, a História não fez jus ao esforço e mérito das mulheres, tendo em conta que é muito parca em relatos seja de que ordem for, quando protagonizados por mulheres. Já em relação aos  homens,  facilmente constatamos que as narrativas sobre as suas obras são extensas, abundantes e… empoladas. A escola também tem muita responsabilidade neste facto, uma vez que conta uma história de homens, é profícua em dar a conhecer às crianças e jovens personagens masculinas.

Mas a mim, o que me suscita curiosidade são as histórias de vida das mulheres que não são faladas porque incómodas,  daquelas que vivendo num tempo de trevas foram visionárias e tiveram a coragem de  ter ideias, de desafiar o estabelecido. Algumas destas mulheres pagaram com a vida a sua ousadia…

Mas quem melhor para nos elucidar sobre estas Grandes Mulheres ocultadas senão Ana Barradas, autora do livro denominado “Dicionário Incompleto de Mulheres Rebeldes“? Fruto de aturadas pesquisas, nele poderemos encontrar cerca de 244 referências a mulheres que se destacaram pela sua rebeldia e inconformismo. Chamo a atenção para um pormenor muito importante: Algumas destas mulheres viveram na Idade Média e já viam mais longe do que a maioria das mulheres do nosso tempo… Como não poderia deixar de ser, aqui transcrevo algumas dessas referências que não sendo as mais perturbadoras, são o bastante para fornecer uma ideia do conteúdo deste livro.

Um livro que nos é apresentado da seguinte forma:

“Na bibliografia portuguesa, este livro constitui uma primeira incursão num domínio, a bem dizer, ocultado: o das mulheres que ao longo da História fizeram história ao insurgirem-se simultaneamente contra o poder político e contra as inaceitáveis e específicas limitações que a lei e os costumes sempre impuseram às mulheres para impedir a sua autonomia como seres pensantes.”

 

 

Introdução do livro “Dicionário Incompleto de Mulheres Rebeldes”

 

Sendo a historiografia essencialmente tecida em volta dos feitos dos dominadores, as obras de referência que circulam limitam-se a consagrar as figuras femininas «politicamente correctas», complementares da acção dos homens. (…). Nesta selecção que agora se apresenta transparece pois como critério fundamental o intuito de celebrar o desejo de revolta, o espírito pioneiro, os feitos inéditos e criativos, a dinâmica subversiva, a fuga à norma, enquadrando-os o mais possível num contexto epocal, para tornar mais transparentes as causas, as motivações e os efeitos dessas atitudes quase sempre assumidas à custa de enormes doses de coragem. (…).

Não se pretende pois enaltecer imperatrizes, cortesãs, sábias ou figuras desde há muito consagradas como «grandes mulheres» ou como «as mais famosas». Não se acharão aqui nomes como os da rainha Vitória, Catarina da Rússia ou Madame Curie, para citar apenas algumas.

(…)

Algumas [das mulheres deste livro] continuam a ocupar posições obscuras na história dos homens e nos registos que chegaram até nós, em resultado da sistemática desvalorização de tudo quanto é feminino e contra a norma vigente. Mas nem por isso me parecem menos dignas de nota, pelo contrário. Esse anonimato cativa-me, faz-me senti-las mais próximas, mais irmãs de todas as mulheres desconhecidas.

A selecção que se segue tem lacunas evidentes, a primeira das quais é que as mulheres portuguesas estão muito mal representadas, por falta de material documental e porque a pesquisa exigível precisaria de mais tempo para se desenvolver de forma coerente. E também porque me parece, é preciso confessá-lo, que ao longo da história elas não se destacaram particularmente em matéria de rebeldia. Muito enfeudadas à religião e aos costumes patriarcais, vivendo numa sociedade atrasada e periférica que nunca prezou as inovações, quase sempre caracterizada por um atavismo arreigado, por uma cultura de repressão e exclusão (não era essa «a apagada e vil tristeza»?) e por um desprezo muito  generalizado pelo segundo sexo, foram raros os casos de inconformismo. Ainda está para se fazer o balanço do efeito que sobre essa passividade terá tido, por exemplo, a caça às bruxas movida pela Inquisição, que foi no fundo, em grande medida, uma guerra contra as mulheres e os seus poderes de cura, de magia, de insubordinação. Curandeiras, feiticeiras, abortadeiras, «mulheres santas» e outras sacerdotisas do saber tradicional popular deviam figurar nesta antologia, mais do que a padeira de Aljubarrota, Maria da Fonte e outras figuras emblemáticas, que apenas viram o seu nome consagrado por a sua acção ter secundado , como pano de fundo, outras acções mais proeminentes, viris, políticas ou de alcance nacional, em defesa deste ou daquele interesse patriótico ou de classe”. (…) (Barradas, 1998: 7-10).

 

Histórias de Mulheres Especiais

 

Alice Walker (1954)

 

“Poetisa, romancista e contista americana, é conhecida por desafiar as tradições e inspirar mudanças. Nascida no seio de uma família de trabalhadores de plantação no Sul dos Estados Unidos, Walker confrontou-se com o  racismo, a ignorância e o ódio e procurou refúgio na escrita. Os seus livros mais famosos, The Color Purple e Possessing the Secret of Joy, tratam da opressão das mulheres e dos negros na sociedade americana. «A base de todas as mudanças tem de ser a autonomia feminina.  A mulher está completamente à altura de definir e construir o seu presente e futuro. Não padece de menoridade. É um ser humano de pleno direito, perfeitamente capaz.»

Trouxe à discussão o tema da mutilação genital. Diz ela: «O assunto surge esporadicamente a lume nos meios de comunicação social, mas para cem milhões de mulheres espalhadas por todo o mundo continuou a ser um problema e assim permanecerá, enquanto os seus filhos correrem perigo. Acho que se quebrou o silêncio. As mulheres desses países sabem que já não constitui segredo. Sabem o que se passa. Conhecem o processo em pormenor. Tem-se a sensação de que podemos manter alertada a consciência mundial.» Por outro lado, «é dever absoluto questionar todas as religiões que se conhecem, porque habitualmente agem contra os interesses das mulheres. Estas têm de tomar consciência de que são seres conscientes e que podem compreender tão bem como qualquer um por que estamos neste mundo, para começar. A partir dessa compreensão, podem elaborar uma espiritualidade e uma religião que se adaptem à sua experiência e as conduzam pela vida fora. Aqueles que tentam dominar tantos outros tornaram a vida na Terra uma infelicidade para as pessoas, durante milhares de anos. Chegou a altura de desaparecerem. Podem levar consigo esse Deus que criaram, ir para o céu e sentar-se a seu lado para se aborrecerem por toda a eternidade. Mas as mulheres têm mais que fazer

As suas ideias acerca da família também causaram celeuma: «É muito curioso as pessoas estarem constantemente a lamentarem o colapso da família; com isto querem significar o colapso da família nuclear, com o homem como chefe de família e as mulheres e crianças como uma espécie de membros subservientes. Mas o que acontece é que estão constantemente a formar-se novos tipos de famílias. (…) A família nuclear está a morrer porque serviu muito mal as pessoas. Foi quase fatal para as mulheres e crianças, porque reforçou o poder e o domínio masculinos. O homem abusou desse domínio e usou-o contra as pessoas que devia proteger: a mulher e os filhos. Por isso, deixem-na desaparecer. Deixem de tentar agarrar-se a uma coisa que realmente nunca funcionou bem.»” (Barradas, 1998: 23-24).

 

Antoinette Fouqué 

 

“Professora e crítica literária, editora e feminista, Antoinette Fouqué fundou o Movimento de Libertação das Mulheres em França nos anos 60, o primeiro do género na Europa. Reuniu logo desde o princípio milhares de apoiantes, numa altura em que as mulheres entravam em força no mercado de trabalho. 

Ao mesmo tempo, fundou um grupo chamado Psychoanalyse et Politique, para estudar as razões da opressão feminina. Organizou conferências internacionais em que estiveram presentes muitos milhares de participantes de todos os continentes.

Publicou várias revistas internacionais e fundou uma editora, Des Femmes, conhecida por editar livros escritos por mulheres” (Barradas, 1998: 36).

 

Cristina de Piza (1365-c. 1430)

 

“Cortesã e escritora francesa, é autora do Livro da Cidade das Damas, em defesa do sexo feminino e registando as vidas de mulheres famosas, desde Eva até à rainha de França, sua patrona. Opôs-se às tradições machistas do seu tempo: a educação medíocre que se dava às mulheres era o que causava a ilusão de inferioridade em relação aos homens; o casamento era mais penoso para as mulheres do que para os homens; os homens usam de crueldade com as mulheres, e estas «não sentem absolutamente prazer nenhum em serem violadas.» Ganhou os favores do duque de Bolonha com as suas poesias e escritos didácticos, históricos e filosóficos com os quais, depois de enviuvar aos 23 anos, sustentou a família (mãe, dois irmãos e os dois filhos). Na autobiografia, “Visão de Christine”, afirmou que a «ajuda» que lhe davam era «relutante e não muito generosa, e às vezes, quando a davam, havia atraso no pagamento e necessidade de assediar as suas fortunas para a receber.»

Foi uma escritora conhecida, apreciada e popular em vida. O “Livro das Três Virtudes, sobre  as actividades e atitudes indicadas para as mulheres de diferentes condições”, teve várias edições em França. Ela própria encomendou uma tradução para inglês do “Livro da Cidade das Damas”. Com grande profissionalismo, dirigiu a produção das suas obras: contratou copistas, orientou-os e deve ter copiado também partes de cerca de 55 manuscritos seus.

Christine de Piza foi a primeira mulher a participar nos debates literários e filosóficos sobre o valor das mulheres: «Não há a mínima dúvida de que as mulheres pertencem ao povo de Deus e à raça humana tanto como os homens e não há outra espécie ou raça dissemelhante, pela qual deveriam ser privadas de ensinamentos morais.»

Depois de morrer, caiu no esquecimento, vindo a ser redescoberta  na segunda metade do século XX” (Barradas, 1998: 46-47).

 

Elizabeth Cady Stanton (1815-1902)

 

“Quando da cerimónia em que se casou em 1840, insistiu em não pronunciar a palavra «obedecer» incluída nos votos do matrimónio. Em 1848 organizou, com Lucrécia Mott, a primeira convenção sobre os direitos das mulheres em Seneca Falls, que deu origem ao movimento sufragista americano. Fundou com Susan B. Anthony o Movimento Nacional pelo Sufrágio das Mulheres em 1869″ (Barradas, 1998: 58-59).

 

Émile Du Châtelet (1706-1749)

 

“Nobre e cortesã, as suas capacidades intelectuais revelaram-se desde muito cedo: aos 10 anos já lia Cícero e estudava matemática e metafísica. Aos 12 anos falava inglês, italiano, espanhol e alemão e traduzia do latim e grego textos dos clássicos.

Mais tarde, este tipo de interesses valeu-lhe ser admitida nas discussões entre matemáticos e cientistas parisienses e passou a ser conhecida como intérprete das teorias de Leibnitz e Newton. Dormia muito pouco, lia muito depressa e aparecia em público com os dedos manchados de tinta de escrever. O pai queixava-se: «Farto-me de discutir com ela. Não compreende que nenhum grande senhor quererá casar com uma mulher que se entrega diariamente à leitura.» A mãe, que lhe ensinou as oito maneiras aceitáveis de comer um ovo quente antes de a apresentarem à corte, aos 16 anos, censurava-a por dar provas de inteligência, coisa que afastaria definitivamente os pretendentes, se os outros seus excessos não os afastassem primeiro. Só o duque de Richelieu, seu amante e amigo de toda a vida, a encorajava a prosseguir os estudos e a formalizá-los com a ajuda de professores da Sorbonne.

Quando os cortesãos de Luís XV começaram a apostar sobre qual deles a seduziria primeiro, Émilie, que era atlética e alta, desafiou o coronel Jacques de Brun, comandante da guarda real, para um duelo à espada. Perdeu, mas jogou tão bem que os outros galãs suspenderam as investidas com medo de terem de ser desafiados a novos combates.

Em 1733, ao entrar no café Gradot, onde se reuniam os seus amigos cientistas e filósofos, foi impedida de se aproximar deles, por ser mulher. Mandou fazer um fato de homem e apresentou-se, para gáudio dos colegas e consternação do dono do estabelecimento.

(…)

Em 1740, Émilie du Châtelet publicou As Instituições da Física, obra em três volumes sobre Leibnitz. Também traduziu Princípios da Matemática de Newton, escreveu um livro sobre álgebra e colaborou com Voltaire no tratado deste sobre Newton” (Barradas, 1998: 61-62).

 

Etta Palm D’Aelders (1743-?)

 

Holandesa activa na Revolução Francesa, que desde 1789 se destacara como oradora, sobretudo pelo seu «Discurso sobre a Injustiça das Leis que favorecem os homens em detrimento das mulheres.» Nele denunciava a escravatura doméstica e deplorava estar o género feminino dependente do domínio de um homem, do nascimento até à morte. Quando o  destino as livrava disso, continuavam a ser vítimas dos preconceitos sociais.

No  Verão de 1791, depois de fundar o clube Sociedade Patriótica e de Beneficência das Amigas da Verdade, dirigiu-se à Assembleia Nacional, pedindo educação igual para  as raparigas e igualdade de direitos para as mulheres. Convencida de que conseguiria os seus intentos, afirmou no seu discurso: «Vós devolvestes ao homem a dignidade como ser, reconhecendo os seus direitos; não permitireis que a mulher continue a sofrer sob o jugo de uma autoridade arbitrária.»

Voltou a pronunciar-se naquela Assembleia por duas vezes: a propósito da igualdade entre herdeiros, sem distinção  de sexo, e da igualdade do homem e da mulher face ao adultério.

Em Outubro de 1793, todas as mulheres foram proibidas de exercer actividade política, a pretexto de que

«uma mulher não deve abandonar a família para se imiscuir nos assuntos do governo».

Depois da morte de Olympe de Gouges na guilhotina, Etta viu-se forçada a fugir de França para escapar à repressão. Depois disso, pouco mais se sabe da sua vida” (Barradas, 1998: 75-76).

 

Louise Otto Peters (1819-1895)

 

Feminista Alemã, escreveu romances, publicou um jornal para mulheres no período revolucionário após 1848 e foi fundadora do movimento feminino alemão. Ao fim de dois anos de publicação foi forçada a fechar o jornal, por causa de uma lei aprovada havia pouco, estipulando que só os homens podiam editar jornais.

Escreveu: «A história de todos os tempos, e a de hoje especialmente, ensina que (…) as mulheres serão esquecidas se se esquecerem de pensar em si próprias.»” (Barradas, 1998: 123).

 

Margarita Nelken (1894-1968)

 

De origem judia alemã, interessou-se por temas sociais e viveu de perto a Revolução Alemã. As suas conferências e cursos de arte levaram-na a França, Holanda, Bélgica e Espanha.

Em 1921 escreveu a Condição Social da Mulher em Espanha, livro que a igreja católica fez questão de condenar. Realçava a exploração da mulher, a sua ignorância e falta de educação sexual e a necessidade de se instituir o divórcio. Analisava problemas como prostituição, filhos ilegítimos e mães trabalhadoras.

Cumpriu três mandatos parlamentares pelo PSOE (1931, 33 e 36), antes de aderir ao Partido Comunista. Discursava nos centros industriais. Quando o governo republicano começa a reprimir aos tiros as manifestações operárias, o director da Guarda Civil, o general Sanjurjo, responsabiliza-a por fazer discursos «incendiários».

Em Janeiro de 1939, no dia em que o exército franquista estava já às portas de Barcelona, Margarita Nelken deu uma conferência sobre «Picasso, artista e cidadão de Espanha». O célebre pintor era odiado pelo regime de Franco e fora forçado a exilar-se” (Barradas, 1998: 130).

 

Olympe de Gouges (1748-1793)

 

Filha de um talhante, casou cedo com um militar de baixa patente de quem teve um filho. Aos 20 anos fugiu de casa, aborrecida com a vida de família e desejosa de se dar a conhecer ao mundo. Apresentou-se em Paris com um nome falso e uma genealogia romanceada – dizia-se filha ilegítima de um marquês. Tornou-se famosa como literata e mulher dada a ligações ocasionais.

Quando se deu a Revolução Francesa e embora  se mantivesse a favor da monarquia, pensou ver no novo ideário a possibilidade de direitos iguais entre os dois sexos e lançou-se apaixonadamente nessa luta. Passou a frequentar as tribunas, os cafés e as sociedades eruditas. Defendia, entre muitas outras coisas, mais e melhor educação para as mulheres e direitos iguais no casamento, pagando do seu bolso a impressão de panfletos que distribuía pessoalmente.

Quando, em Outubro de 1791, a Assembleia Constituinte aprovou uma Constituição que excluía as mulheres dos direitos de cidadania, Olympe de Gouges publicou a sua própria «Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne» (Declaração dos direitos da mulher e da cidadã), inspirada na Declaração dos Direitos do Homem, que dedicou a Maria Antonieta. No preâmbulo, afirma: «Esta revolução só se consumará quando todas as mulheres se compenetrarem da sua deplorável sorte e dos direitos que perderem nesta sociedade. Apoiai, Senhora, esta causa tão bela; defendei este sexo infeliz e em breve tereis para vós metade do reino e pelo menos um terço do outro.» Incluiu na declaração um «contrato social entre marido e mulher», com base numa união «pelo termo da vida e pela duração das inclinações naturais». O artigo 10º declara: «Se uma mulher tem o direito de subir à forca, também deve ter o direito de subir à tribuna.» E o texto termina com um apelo:

«Mulher, acorda! Em todo o universo ouvem-se já as badaladas do sino da razão; descobre os teus direitos. O poderoso império da natureza já não está rodeado de preconceito, fanatismo, superstição e mentira. A chama da verdade dispersou todas as nuvens de loucura e usurpação.»

Na Primavera de 1792, já desiludida, escreveu: «Ó meu pobre sexo, ó mulheres que nada adquiristes nesta revolução!» Cada vez mais mal vista pelos dirigentes do poder, é alvo de insultos e chacota. O jornal Les Révolutions de Paris comenta, referindo-se a declarações suas:

«A honra das mulheres consiste em cultivar, de bico calado, todas as virtudes do seu sexo sob o véu da modéstia e na sombra do recolhimento. Além disso, não é às mulheres que compete indicar o caminho aos homens.»

Presa como girondina, sobe à forca em Novembro de 1793, depois de decretada a proibição de as mulheres se ocuparem de actividades políticas. Antes de morrer, fez votos para que a posteridade não esquecesse que agira em favor das mulheres, cuja causa, estava certa, triunfaria um dia” (Barradas, 1998: 166-167).

 

Conclusão

 

“O estudo da História não é politicamente neutro nem alheio aos conflitos sociais. Isso mesmo o afirmam os responsáveis por esta história da mulher ocidental, ao reconhecerem que sem a luta feminina pela emancipação social e  as interrogações que esses movimentos suscitaram jamais lhes ocorreria a necessidade de tal projecto. Mais do que uma história  das mulheres, esta é uma história das relações entre os sexos, da dominação masculina ao longo do tempo. As implicações de tal dominação são tantas e de tal forma totalitárias que obrigam a uma primeira constatação:

a mulher nunca existiu como ser social.

Os ténues vestígios que dela nos chegam não são de proveniência directa, mas dos homens que governam, escrevem, constroem as memórias. Elas «pouco espaço ocupam nos arquivos públicos. Desapareceram na destruição dos arquivos privados. Quantos diários íntimos, quantas cartas queimadas por herdeiros indiferentes, ou mesmo pelas próprias mulheres que, no crepúsculo  de uma vida magoada, remexem as cinzas das suas recordações, cuja divulgação temem. Das mulheres guardam-se, muitas vezes, objectos: um dedal, um anel, um missal, uma sombrinha, a peça de um enxoval, o vestido de uma avó; ou então imagens».” (Barradas, 1998: 226).

 

Bibliografia

BARRADAS, Ana. (1998). Dicionário Incompleto de Mulheres Rebeldes. Antígona. Lisboa.