Canto meu

Publicado por: Milu  :  Categoria: Canto meu, FEMINISMO

“Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre.”

Simone de Beauvoir

 

Um quarto que seja o mundo” é o título do IV Capítulo da obra “Alteridades Feridas“, da autoria de Laura Ferreira dos Santos, doutorada em Filosofia da Educação pela Universidade do Minho, a propósito de um livro-ensaio publicado por Virginia Woolf.

Neste livro, Virginia Woolf enfatiza a necessidade das mulheres disporem de um quarto só para  si para poderem escrever,  de modo a  ficarem a salvo de eventuais interrupções durante o processo de escrita.

Contudo, a expressão “ter um quarto só para si” encerra um significado bem mais profundo.

Implica antes de mais, a necessidade da mulher deter autonomia financeira. Sem autonomia financeira não há poder. Mas também, tal como Santos (2002: 115-116)  sugere “Dizer que se deseja que as mulheres tenham um quarto que seja seu remete para muito mais, para um espaço de concentração de forças, para um ambiente de liberdade de pensamento e de expressão, para a possibilidade de se poder ler e escrever as nossas próprias vidas, ou, em termos similares, para a possibilidade de podermos aceder ao apalavramento da nossa própria palavra”.

Neste aspecto, sou uma mulher duplamente satisfeita, pois não tenho apenas um quarto só para mim. Tenho dois. Um deles é este meu blog, no qual dou asas ao meu instinto de livre pensadora e combatente de “verdades” estabelecidas.

Algumas dessas supostas verdades, que faço questão de combater, desconstruindo-as, têm a ver com os estereótipos construídos em torno das mulheres. Por exemplo: é costume ouvir-se dizer que as mulheres são mais dadas às actividades ligadas à educação e aos cuidados,  por isso são influenciadas pela família e de modo geral pela sociedade, a optarem por profissões que tenham a ver com essa área.

A respeito da maternidade, não falta quem considere que uma mulher sem filhos é uma mulher incompleta, que não se realizou, como se não houvessem mulheres que assumem terminantemente que ter filhos nunca esteve no seu horizonte, ou que apesar de os terem tido, assumem sem pruridos que se pudessem voltar atrás optariam por não os ter.

Também é comum ouvir-se dizer que a mulher relativamente ao homem tem um temperamento pacífico. Tenho dúvidas. Não fosse a mulher tão reprimida e tão forçada a encaixar num molde pré formado e talvez em questões de violência não apresentaria qualquer diferença…

Mas, nada melhor para compreender esta problemática do que ouvir o que nos dizem as autoridades nestes assuntos. Eis, pois, um sub-capítulo do livro “Caminho Errado” de Badinter, filósofa francesa nascida em 1944, uma das vozes mais importantes e controversas do movimento feminista francês, traduzida em mais de vinte países.

“A biologia e a distinção de papéis”

“Ao fazer-se da diferença biológica o critério último de classificação dos seres humanos, estamos condenados a pensá-los um por oposição ao outro. Dois sexos, logo duas formas de ver o mundo, dois tipos de pensamento e de psicologia, dois universos diferentes que permanecem lado a lado sem nunca  se misturarem. O feminino é um mundo em si, o masculino o outro, o que torna difícil a ultrapassagem de fronteiras e parece ignorar as diferenças sociais e culturais.

Ao deduzir-se o feminino da capacidade maternal, define-se a mulher por aquilo que ela é e não por aquilo que ela escolheu ser. Pelo contrário, não há definição simétrica do homem, o qual continua a ser apreendido por aquilo que faz e não por aquilo que é. O recurso à biologia só a ela diz respeito.

Nunca se define o homem pela sua capacidade paternal ou pela importância dos seus músculos, mas ela é de imediato presa ao seu corpo, ao passo que ele é liberto dele. A maternidade é o destino da mulher, ao passo que a paternidade é uma escolha. Esta cosmogonia sexual põe mais problemas do que aqueles que resolve. Se a maternidade é a essência da feminilidade, somos levados a pensar que aquela que a recusar é uma anormal ou uma doente. Ao etiquetá-la de «virilista», está a retirar-se-lhe a sua identidade e a declará-la indigna do seu sexo.

Ela é como lançada para fora da comunidade das mulheres.

Porque ao deplorar-se a mulher estéril, está a condenar-se a egoísta que recusa a condição dos seus pares.

Assim procedendo, está a dizer-se realmente que a maternidade não é uma escolha mas uma necessidade que se pode, quando muito, adiar, mas não iludir.

Mesmo se o feminismo bem pensante não elabora qualquer condenação explícita das mulheres que não sejam mães, não perde uma ocasião de sublinhar que elas se alienaram para conseguir um lugar no mundo masculino, não só traindo deste modo a causa das mulheres, como ainda viram costas às virtudes femininas maternais.

Os 3% de francesas que não querem ser mães e fazem uso da sua liberdade são, por isso, inclassificáveis aos olhos do critério adoptado. Nem homens nem «verdadeiras» mulheres, são sempre seres à parte encarados com suspeita.

Além dessas mulheres entregues à sua liberdade, a concepção da mulher-mãe cria uma teoria da psicologia feminina inscrita na natureza que não é clara nem evidente.

A capacidade maternal uniria o género feminino tanto pelas suas características como pelas suas preocupações comuns. As primeiras foram determinadas por altura da questão da paridade, em que as mulheres se descreveram como mais altruístas, mais concretas e mais pacíficas de que os homens, como se todas essas virtudes fossem inatas e não o resultado de uma aprendizagem e de um condicionamento social.

Fez-se de conta que os interesses comuns fariam com que fossem ultrapassadas as suas divergências ao ponto de se constituírem como entidade política distinta do outro sexo, criando assim dois pontos de vista sobre o mundo: um ponto de vista feminino e um ponto de vista masculino. Parece que se esqueceu com alguma precipitação a luta de classes e a divergência dos interesses masculinos. Da mesma forma, é preciso ser-se surdo para não ouvir os múltiplos pontos de vista femininos, nomeadamente sobre assuntos que lhes dizem respeito em primeiro lugar: o aborto, o subsídio de maternidade, o trabalho a tempo parcial ou a paridade.

Na verdade, o relativismo sexual como princípio político é um logro. Homens e mulheres não constituem dois blocos separados. Por um lado, não se vota em função do sexo, mas dos interesses e da ideologia de cada um. Por outro, há muito menos diferenças entre um homem e uma mulher com o mesmo estatuto social e cultural que entre dois homens ou duas mulheres de meios diferentes. Contrariamente ao que se quis fazer crer, a diferença sexual é ínfima em comparação com a diferença social:

a mãe desempregada com dois filhos não tem as mesmas prioridades que a mãe tecnocrata ou quadro de empresa.

Finalmente, mais graves aos nossos olhos são as implicações imediatas e práticas do diferencialismo sexual. Ao fazer-se do biológico o critério distintivo das mulheres, está antecipadamente a legitimar-se a especialização dos papéis que se procurou combater durante mais de trinta anos. A pretexto da luta contra a horrível neutralidade e a abominável indiferenciação, dá-se um vigor inesperado aos velhos estereótipos masculinos e femininos. Receio que os homens tenham tudo a ganhar e as mulheres muito a perder” (Badinter, 2005: 114-116).

Biografia

BADINTER, Elisabeth. (2005). Caminho Errado. Asa Editores. Porto.

SANTOS, F. Laura. (2002). Alteridades Feridas. Angelus Novus. Coimbra.

Webgrafia

Imagem retirada daqui

O Eldorado

Publicado por: Milu  :  Categoria: O Eldorado, SOCIEDADE

“O espírito que nos anima pode assumir as mais diversas formas: tornar-nos semelhantes a anjos, a demónios ou a bestas. A cada um a sua escolha.”

Henry Miller

De vez em quando sinto necessidade de tornar a ler livros que já li há muito. Alguns, lidos na minha juventude. É como revisitar os lugares onde fui feliz.

Desta feita, calhou ao grande Henry Miller.

Numa altura em que os Estados Unidos da América andam na boca do mundo,  nomeadamente na figura do seu presidente Donald Trump, eis que chego a uma descrição deste país, através de Henry Miller, na sua obra “Pesadelo em ar condicionado“, que é no mínimo curiosa.  Este livro foi escrito na década de 40 do século passado, mais precisamente em 1945. Quando o li na minha juventude, provavelmente a minha atenção não se quedou nesta descrição. Era muito jovem para me perder nestes detalhes. Talvez eu quisesse saber outras coisas. Mas agora que reli à luz dos acontecimentos da actualidade, não pude deixar de ficar pensativa. Por momentos, recordei um ex colega e a sua experiência nos USA, onde trabalhou uma temporada,  que uma vez me disse “aquilo é o puro capitalismo, o capitalismo puro e duro!”. E eu ouvi isto e fiquei absorta, a tentar imaginar, em vão, como teriam sido as suas vivências.

Miller, um americano nascido em New York, fala assim do seu próprio país:

“New Hope é uma das colónias de arte da América. Recordo-me vivamente do meu estado de espírito ao deixá-la, o qual se pode resumir no seguinte: Não há esperança para o artista! Os únicos artistas que não levavam uma vida de cão eram os comerciais; tinham belas casas, belos pincéis, belos modelos. Os outros viviam como condenados a prisão perpétua. Esta impressão foi confirmada e tornou-se mais profunda durante o resto da viagem.

A América não é país para um artista – porque um artista é considerado moralmente um leproso, uma pessoa economicamente desajustada, socialmente passiva. Um suíno alimentado com cereais leva vida melhor que um criador, seja ele escritor, pintor ou músico. Um coelho desfruta ainda de melhores regalias” (Miller, 1971: 14-15).

“A América é povoada, como todos sabemos, por pessoas, ou seus descendentes, que fugiram de situações tão desagradáveis. A América é a terra par excellence dos expatriados, dos fugitivos, dos renegados, para usar uma palavra mais forte. Poderíamos ter construído um mundo maravilhoso neste novo continente, se tivéssemos realmente rejeitado os nossos semelhantes da Europa, da Ásia e da África. A América ter-se-ia tornado um admirável mundo novo, se tivéssemos tido coragem de voltar costas ao antigo para construir a partir do nada, aproveitando apenas o solo, a fim de eliminarmos os venenos que se acumularam através de séculos de amargas rivalidades, invejas e profundos conflitos.

Um mundo novo não se constrói procurando esquecer o antigo.

Um mundo novo alicerça-se num espírito novo, em novos valores. O nosso mundo poderia ter começado daquela maneira, mas hoje é somente uma caricatura.

O nosso mundo é um mundo de coisas.

É todo ele constituído por comodidades e luxos, ou então pelo desejo de os alcançar. O que mais tememos, ao encarar o débâcie iminente, é sermos obrigados a abandonar as nossas futilidades, as nossas engenhocas, todos os pequenos objectos cómodos que nos tornaram tão desconsolados. Não há nada de admirável e de cavalheiresco, de heróico ou de magnânimo, nas nossas atitudes. Não somos almas tranquilas; somos presunçosos, tímidos, demasiado escrupulosos, enfastiados e instáveis” (Miller, 1971: 15-16).

 “Tive de percorrer cerca de quinze mil quilómetros até conseguir a necessária inspiração para escrever a primeira linha do meu livro. Podia contar num máximo de trinta páginas tudo o que se me afigurava digno de ser dito sobre a vida americana. Topograficamente, o país é magnífico… e aterrador. Aterrador porquê? Porque em nenhum outro ponto do mundo é tão absoluto o divórcio entre o homem e a Natureza. Em parte alguma encontrei estrutura de vida tão insípida e monótona como na América. Aqui, o aborrecimento, a sensaboria atingem o seu ponto mais alto.

Estamos habituados a supor-nos um povo emancipado; declaramos que somos democráticos, amantes da liberdade, isentos de preconceitos, que não sentimos ódios. Este é o crisol de uma grande experiência humana. Belas palavras, eivadas de um nobre e idealístico sentimento. Porém, constituímos uma casta vulgar de videirinhos, cujas paixões são facilmente mobilizadas pelos demagogos, pelos jornalistas, pelos charlatães das diversas seitas religiosas, pelos agitadores e por outra gente do mesmo jaez.

Chamar a isto uma sociedade de pessoas livres é blasfémia.

Que temos para oferecer ao mundo além da superabundância de excedentes, daquilo que pilhamos brutalmente à terra, com a ilusão maníaca de que esta actividade insana representa progresso e iluminação? A terra da oportunidade transformou-se na terra da labuta insensata e da luta porfiada. Os objectivos de todos os nossos esforços foram há muito esquecidos. Já não desejamos auxiliar os oprimidos e os indigentes; não há lugar nesta enorme terra vazia para os que, como os nossos avós, procuram agora refúgio. Milhões de homens e mulheres estão, ou estiveram até muito recentemente, a ser socorridos pela assistência pública, condenados como cobaias a uma vida de inacção ou preguiça forçada. O mundo entretanto fixa-nos com um desespero jamais conhecido.  Onde está o espírito democrático? Onde estão os dirigentes?” (Miller, 1971: 18-19).

Bibliografia

MILLER, Henry. (1971). Pesadelo em ar condicionado. Editorial Estampa. Lisboa.

Os males da Mulher

Publicado por: Milu  :  Categoria: Os males da Mulher, SOCIEDADE

“O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles.”

Simone de Beauvoir

 

Desde sempre que a mulher tem vindo a ser associada ao mal. De acordo com o Génesis, o primeiro ser humano a ser tentado e a sucumbir à tentação foi uma mulher. Pois… Tinha de ser…

De então para cá, pobre mulher, saco de porrada, que és culpada de tudo. Mas esta situação pode sofrer uma transformação:

quando as mulheres lograrem perceber o que causa este estado de coisas.

Porque é a causa do mal que tem de ser combatida.

Para tal, aconselho a leitura do excerto que se segue, que foi retirado do livro “Alteridades Feridas”, da autoria de Laura Ferreira dos Santos, doutorada em Filosofia da Educação, pela Universidade do Minho.

“O mal no feminino”

 

“Durante séculos, a reflexão filosófica (e teológica) ocidentais sobre o mal, quando não quis passar à margem do que hoje qualificamos de questões de género – faltaria saber se o conseguiu ou não, mesmo querendo-o -, tendeu muitas vezes a enveredar por discursos que, de um modo mais ou menos explícito, apontavam as mulheres como lugares especiais de existência ou de proliferação do “mal“, ou, pelo menos, de determinado tipo de males (…). Seja como for, por omissão ou não, este contexto teórico, condicionando a vida social mas sendo também, por sua vez, condicionado por ela, não possibilitou a emergência da afirmação da igualdade de direitos e dignidade entre homens e mulheres. Mais, ou pior ainda, este contexto teórico (e “cultural”) impediu que se tomasse consciência da grande manifestação de “mal” existente no interior da própria relação mulher-homem, ao ponto de Ivone Gebara escrever que

“O que constitui a humanidade, a diferença criativa entre os sexos, aparece como um dos lugares privilegiados em que o mal mostra as suas obras” (Santos, 2002: 51-52).

(…)

Através desta narrativa, Gebara pretende assim chamar a atenção para «a particularidade do mal vivido pelas mulheres», o que significa introduzir assumida e conscientemente a mediação da categoria de género na antiga reflexão sobre o mal, utilizando-a de modo a perceber melhor os desequilíbrios ou males existentes no relacionamento entre mulheres e homens.

Na sua perspectiva, é na abertura notória da diferença entre os seres humanos que passa pela diferença de género que o  mal se aloja de uma forma particularmente profunda, embora se possa também acrescentar que de uma forma quase naturalizada, como se o mal estivesse lá mas poucas pessoas o vissem, numa naturalização ou imperceptibilidade que reforçam necessariamente o carácter insidioso desse mal. Pois que é um mal que poucos e poucas vêem, sobretudo aqueles e aquelas que possuem alguma forma de intervenção transformadora do mundo? Obviamente, também um  mal que poucos e poucas combatem, um mal que se traveste nas formas de um destino contra o qual nada há a fazer” Santos, 2002: 52-53).

(…).

“Obviamente, só tomando consciência da amplitude deste mal poderemos depois procurar meios que facilitem uma vivência diferente da alteridade homem-mulher. Nas palabras de Gebara, “Trata-se de um trabalho de cura e de educação das nossas relações“, relações de género, é certo, mas relações que também podemos dizer que as extravasam, pretendendo-se uma relacionalidade diferente entre as pessoas e das pessoas com a natureza e com deus, para quem nele acredita.

Neste contexto, há algumas temáticas desenvolvidas por Ivone Gebara que se revelam a meu ver extremamente elucidativas para situar a questão do mal vivido pelas mulheres. Inicialmente, servindo-se sobretudo de obras literárias escritas por mulheres, em geral pertencentes à América Latina, Gebara focaliza a sua atenção nalguns tipos específicos de mal que as afectam: o mal que experienciam por terem um nulo ou muito reduzido acesso ao ter, ao poder e ao saber, e o mal que também se abate sobre elas por serem encaradas como valendo pouco, sobretudo se não têm a cor da pele considerada mais importante. Muito resumidamente, irei tentar explicitar cada um destes pontos, embora se deve dizer desde já que toda esta enumeração de males só artificialmente pode ser diferenciada, atendendo ao seu entrelaçamento inevitável. Embora a autora faça ainda um esforço por apresentá-los de um modo separado, acaba por ser ela própria a reconhecer que o mal de não-ter arrasta consigo os males de não-poder e de não-valer – a que bem poderia acrescentar o mal de não-saber – todos eles se conjugando para desembocar “no mal antropológico de ser mulher, e, mais ainda, no mistério do mal humano” (Santos, 2002: 54).

Quanto ao mal de não-ter, Gebara assinala sobretudo a situação de grande pobreza económica em que vivem milhões de mulheres, impossibilitando-as de experimentarem um quotidiano alternativo que possa ser fonte de singularização. E embora Gebara tenha por ponto de referência das suas reflexões as sociedades mais pobres, é fácil alargar esse ponto de referência às sociedades economicamente mais desenvolvidas da contemporaneidade, captando que, mesmo aí, as mulheres possuem menos acesso ao ter do que os homens. Algo de semelhante pode ser dito em relação ao poder. Por variadas razões, foi-se instaurando o que Bourdieu designou de «sociodiceia masculina», ou seja, uma legitimação da sociedade e das vivências sociais em termos masculinos. Por isso mesmo, ao longo da história as mulheres foram sendo retiradas do exercício do poder, mesmo naqueles casos em que alguma vez tinham acedido a ele. À semelhança do que foi dito para a questão do ter, também nas sociedades contemporâneas economicamente mais desenvolvidas as mulheres podem menos do que os homens.

Por outro lado, ao mal de não-ter e de não-poder junta-se o mal de não-saber. Neste ponto concreto, Ivone Gebara refere o exemplo da Irmã Juana Inés de la Cruz, mexicana do século XVII, objecto de um estudo de Octavio Paz (Paz, 1987), que a considera a primeira feminista da América Latina. Desejosa de saber mais, Juana entra num convento. Mas as «leis de género» abatem-se sobre ela, tornando-a suspeita de transgredir a natureza ao querer ocupar-se de uma área masculina como era a do conhecimento. Por isso, teve os livros queimados e teve de renunciar ao saber, num movimento que, na perspectiva de Octavio Paz e de Ivone Gebara, nada se assemelhava a um acto de humildade, mas era antes um acto de humilhação «imposto pelas autoridades eclesiásticas responsáveis pela Inquisição na Nova Espanha. Como é sabido, o conhecimento intelectual foi durante séculos um monopólio masculino, julgando-se que as mulheres não tinham capacidade suficiente para aceder a ele, por não estar de acordo com a sua «natureza», ou que deviam limitar-se a adquirir os conhecimentos que ajudariam a governar melhor uma casa. Ainda hoje, como se sabe, a distribuição entre os géneros do conhecimento socialmente prestigiante ou valorizado é algo de bastante desigual.

Finalmente, Ivone Gebara incide a sua atenção no mal de não-valer. Como escreve, em muitas sociedades,

«uma menina não vale por si mesma. Vale quando é submissa ao pai e à mãe, ao seu marido ou simplesmente à sua família. Vale pela sua beleza, pelos serviços domésticos que pode oferecer, pela sua capacidade de ser uma mãe excelente e uma excelente dona de casa. Os homens, sim, os homens valem por si mesmos, pelos seus esforços de autonomia, pelo seu combate para se tornarem pessoas de bem e socialmente reconhecidas».

Pior ainda se a menina ou mulher, para além de não ter o sexo normativo, não tem tão-pouco a cor da pele normativa, que é a branca. Como nos informa Gebara, no nordeste brasileiro era habitual as crianças negras (decerto tanto  meninas como meninos, subentende-se) não serem aceites para irem vestidas de anjo (a) nas festividades religiosas católicas, sobretudo nas que diziam respeito a Maria. Por outro lado, como nos alerta Gebara, sabe-se que há poucas bonecas negras no mercado, que as mulheres negras, em particular as mulatas, ainda mais do que as outras mulheres, são sobretudo vistas como um objecto sexual, e que muitas crianças negras anseiam ter traços de crianças brancas, como aquela menina negra que rezava todos os dias para ter os olhos azuis” (Santos, 2002: 55-56).

(…).

“Por outras palavras, poder-se-ia dizer que, ao longo da história mulheres e homens têm estado colocados em posições excessivas ou extremadas, os homens num excesso de ter, poder, saber e valer, as mulheres num excesso de carência desse mesmo ter, poder, saber e valer” (Santos, 2002: 57).

♦♦♦

“Esconde esse absorvente

Essas espinhas

Arranca esses pêlos

Da um jeito nesse seu cabelo duro

Mal cuidada

Porca

 

Feche esse sorriso

Sua mãe não te ensinou

Sobre o perigo de andar sorrindo na rua?

Abaixa essa cabeça

Para de encarar

Você esta chamando atenção

Assim vão achar que você esta dando mole

 

Delicia

Gostosa

Oh la em casa

Fecha essa boca e não reclama

Saiu de casa de saia curta

Camisa decotada

Maquiagem

Sem um homem

Tem que aguentar

 

Como assim não sabe cozinhar?

Você é mulher

Tem que cuidar do lar

Como assim não quer engravidar?

Você é mulher

Tem que engravidar

 

Faculdade? Viagem?

Mas você é mãe

Tem que cuidar

Abriu as pernas, agora não adianta

Largar na creche

Irresponsável

 

Mãe solteira?

O pai foi embora?

Não sabe quem é o pai?

Transou sem camisinha

Vai ter que aguentar

Vadia

 

Esse roxo ai

Tenho certeza que apanhou

Que teu marido te bateu

Mas você mereceu

Provocou ele

Você sabe que não pode se levantar

Mulher tem que ser submissa

O homem é que comanda o lar

 

Ah, mas que criança linda

É uma menina?

Toma aqui esse vestidinho rosa

Essa coberta de florzinhas

Pinta o quarto de rosa

Um rosa bem bonito

Porquê mulher é monocromática durante a infância

 

Ih, chegou a menarca

Essa vai dar trabalho

Ensina pra ela a se valorizar

Mulher tem que se dar ao respeito

Fala pra ela não deixar ninguém ver esse absorvente

Esse sangue sujo

 

Vai ter que começar a usar sutiã

Os mamilos estão aparecendo pela camisa

Que coisa horrível

Adolescente descuidada

A mãe dessa ai não ensinou nada

 

Foi estuprada?

Morreu no processo?

Devia estar pedindo

Sem sutiã, andava sozinha

Aquele batom vermelho

Aquela bunda enorme

Não sabe que menina tem que ficar em casa?

Deu sorte pro azar

 

Não foi educada

A mãe era solteira

O pai estava é certo de ir embora

Se ela era assim com a filha, imagine com o marido

 

Não foi respeitada

Opressão?

Imagine

 

Olha lá a mãe dela

Na beira do caixão

Olhando pro rosto da filha

Sem cor, sem vida

Um futuro morto antes mesmo do nascimento

Filha de mãe solteira

Sem pai, sem respeito

 

Morreu tão jovem

Aos 17

Uma menina tão linda

Maldita sociedade

Espero que a mãe dela aprenda a lição

E não tenha mais filhos

 

Suicídio?

Mas ela poderia ter começado uma vida nova

Agora que tinha perdido a filha

Poderia terminar a faculdade

Arrumar um emprego

Mas era uma fraca

Era mulher

O destino, a vida, as possibilidades

As pessoas

Cavaram a cova e jogaram ela lá dentro

 

Vitimismo? Preconceito?

Abuso? Agressão?

Cala essa boca e vai lavar uma louça

Você tem uma delegacia só sua

Tem seus direitos

Não luta na vida

(Mas luta na rua)

Não morre na guerra

(Mas morre em casa)

 

Cintia Duarte Montilla

Bibliografia

SANTOS, F. Laura. (2002). Alteridades Feridas. Ensaio Filosofia. Angelus Novus. Coimbra.