A complexidade da Liberdade

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Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência.”

Léon Tolstoi

Frequentemente quando falamos sobre Liberdade estamos não só a referirmo-nos à possibilidade de emitirmos livremente as nossas opiniões, como também a um modo de vida independente, autónomo, que nos confere a capacidade para traçarmos o nosso caminho na vida de acordo com a nossa vontade. Ou seja, sermos autores da nossa própria história. Mas, a Liberdade é um conceito que envolve muita complexidade, tem custos e não é, por isso mesmo, para toda a gente. Quando decidimos que somos nós próprios a tomar as rédeas da nossa vida e tomamos decisões com toda a liberdade, não podemos atribuir culpas a ninguém se, consequência dessas decisões, viermos a sofrer alguns reveses. De facto, a Liberdade envolve responsabilidade, e por tal, muita gente tem medo dela. Preferem a segurança das amarras.

Mas, para falar de Liberdade consultemos um mestre, o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman, que nos demonstra quão complicado é o conceito de Liberdade. É claro que estes meus registos são uma pálida representação do conteúdo deste obra intitulada “A Liberdade”.

Podemos dizer o que quisermos. Estamos num país livre”. Usamos e ouvimos esta expressão com demasiada frequência para que possamos deter-nos e raciocinar sobre o seu significado; tomamo-la como óbvia, explanatória em si mesma, não levantando problemas nem ao nosso entendimento nem ao dos outros. Em certo sentido, a liberdade é como o ar que respiramos. Não perguntamos o que é esse ar, não perdemos tempo a discuti-lo, a argumentar sobre ele, a pensar nele. Isto é, a menos que estejamos numa sala apinhada e abafada, onde seja difícil respirar” (Bauman, 1989: 9).

(…)

“Talvez a ideia mais antiga de liberdade se referisse mais a um acto do que a uma condição: uma decisão dos poderosos para libertar alguém sujeito a seu poder de escravatura, cativeiro ou servidão. Tal libertação – manumissão (de manumittere, largar da mão) – era, para todos os fins e intentos práticos, um acto de “humanização”: na antiguidade clássica, os escravos ou cativos eram olhados e legalmente tratados como bens móveis semelhantes à restante propriedade do seu senhor; prejudicá-los ou destruí-los era como um assalto mais à propriedade do senhor do que aos “direitos humanos” – e o dano tinha de ser reparado, tal como no caso de um roubo de ovelhas ou de fogo-posto.

A manumissão transformava um escravo ou cativo num homem libertado, na maior parte dos casos não inteiramente um ser humano, mas já não era um bem móvel. O homem libertado – libertinus – trazia em si a marca da sua condição anterior, marca impossível de lavar, por vezes até à terceira geração. A sua situação legal era completamente negativa; não era um escravo. Para isto fazer sentido, a sua condição tinha de ser avaliada em comparação com a condição de escravatura ou de cativeiro. Esta mostrava quem ele era, enquanto a condição de uma pessoa que nunca fora escravo, pouco dizia quanto à sua situação social. Fosse qual fosse a “liberdade” existente na identidade do homem libertado, ela era relativa. Referia-se ao que ele já tinha deixado de ser e que alguns outros ainda eram. Referia-se também a um terceiro agente, o único verdadeiro agente do triângulo – o poder que ditava essa distinção. Os homens libertados tinham de ser tornados livres. A libertação em si mesma não era um acto de liberdade”
(Bauman, 1989: 52).

Pode argumentar-se que a teoria e a prática da heteronomia, ou a negatividade da liberdade, legadas tanto pela antiguidade judaica como pela greco-romana, lançaram alguma luz sobre o conhecido episódio da “heresia de Pelágio” no início da história da Igreja. Os ensinamentos de Pelágio e a resposta veemente que mereceram a Santo Agostinho (que seria repetida mais tarde, virtualmente intacta, por S. Tomás de Aquino e João Calvino, embora nunca tivesse sido oficialmente aceite como um cânone da Igreja) diziam respeito à origem e ao âmbito da “livre vontade”.

Segundo Pelágio, Deus fez os homens livres; tendo sido assim feitos, os seres humanos podiam escolher entre o bem e o mal segundo a sua vontade. Dependia deles viverem para a salvação ou para a condenação; tendo sido feitos livres, tendo-lhes sido dado o dom da livre vontade, suportavam a inteira e exclusiva responsabilidade pelos seus actos. Os ensinamentos de Pelágio parecem estar de acordo com a prática da antiguidade: a manumissão era na verdade o fim do estado de escravatura e, entre outras coisas, significava a aceitação por parte do homem libertado de toda a responsabilidade pela sua conduta” (Bauman, 1989: 53).

“A Antiguidade, porém, conheceu também uma libertação incondicional e irreversível: nesses casos, o senhor que exercera o poder anteriormente – no acto da manumissão – renunciava ao seu domínio sobre o antigo escravo, para o futuro. É provável que precisamente esta consequência do acto de libertação tornasse inaceitáveis os ensinamentos de Pelágio para Santo Agostinho e para os poderes que estavam por trás dele. Na verdade, Pelágio reduziu a Igreja a uma associação de pregadores de moral e recusou-lhe qualquer outro poder sobre os fiéis a não ser o da exortação espiritual. Se é verdade que Deus, na sua omnipotência, dotou os seres humanos com o dom irrevogável da livre vontade, da mesma maneira lhes pôs nas mãos o seu próprio destino, e decidiu renunciar a todo o poder sobre a sua conduta. Indirectamente, a Sua decisão teria lançado dúvidas sobre as reivindicações da Igreja de todo o controlo do seu rebanho, e augurado prejuízos para a condição social da hierarquia eclesiástica que surgia”
(Bauman, 1989: 54).

Foi esta ameaça que Santo Agostinho tratou de afastar com a sua doutrina, complexa e notoriamente ambivalente, da graça divina e do pecado original” (Bauman, 1989: 54).

Segundo esta doutrina, os seres humanos continuam para sempre a suportar a marca do seu passado culpável e condenável – muito à semelhança dos homens libertados, transportando consigo até à morte e à morte dos seus descendentes o estigma da sua escravatura original. Todos os seres humanos participam no pecado original – o acto de rejeição da custódia de Deus e da ordem divina. Daí a sua propensão inata para preferirem o mal ao bem. O facto de não poderem propagar a sua existência terrena senão através do desejo carnal e das paixões sexuais, confirma a regra duradoura das coisas corporais (o mal) se sobreporem às do espírito (o bem). Neste sentido, continuam a ser escravos. A sua liberdade limita-se à escolha do mal; escolher o bem só pode ser obra da graça divina. Os seres humanos precisam da orientação constante do seu divino Mestre: precisam de ser vigiados, censurados, admoestados, forçados a seguir o caminho da virtude. Indirectamente, mais uma vez, a Igreja, esse vigário colectivo de Deus na Terra, deve censurar, vigiar e impor a virtude. (Pode ser de algum interesse sociológico fazer notar que não foi a Igreja, afinal, que rejeitou os ensinamentos de Pelágio; enquanto o Papa Zósimo hesitava quanto ao acerto de condenar a doutrina de Pelágio, o imperador Honório proscreveu o infeliz advogado da livre vontade e a Igreja segui-o”
(Bauman, 1989: 54-55).

“O episódio da heresia pelagiana revela um aspecto novo e importante da liberdade. Talvez pela primeira vez, surge uma teoria que lança completa e firmemente a liberdade para os domínios do mal, apenas para a usar como justificação da regra heteronómica” (Bauman, 1989: 55).

“As pessoas estão desiludidas com as salas de aula super-lotadas, com a má qualidade e insegurança dos transportes públicos, com as longas filas e o tratamento negligente dado pelo serviço nacional de saúde, sobrecarregado com trabalho e com poucos recursos; e assim pensam encantados em consultar “um médico da sua preferência no momento que entenderem” ou em mandar os filhos “à escola de sua preferência, administrada pela autoridade escolar que escolherem”. Quanto menos satisfatória e mais opressiva a cena pública dirigida pela política, mais entusiasmo têm os cidadãos por “se livrarem dela”. Se pudessem, deixariam para trás os serviços públicos politicamente administrados. Quanto mais o fizerem, menos força muscular ou puro aborrecimento restará naqueles que não podem dar-se ao luxo de “sair”. É exercida menos pressão sobre o governo para melhorar o trabalho no sector público e para tornar os seus serviços mais atractivos. E assim a deterioração continua, e com crescente velocidade. Ainda mais energia é acrescentada à debandada”
(Bauman, 1989: 133).

“A ciência política moderna desenvolveu um “teorema do eleitor médio” que diz, resumindo que, “somente os programa que podem atrair o apoio da maioria dos eleitores serão aprovados”. segundo este teorema, os governos evitam atribuir recursos à minoria, mesmo que apenas estes pequenos grupos minoritários precisem muito deles e não possam passar sem eles. Esta atribuição seria altamente impopular junto de todos os outros, isto é, da maioria que a interpretaria como um fardo que eles, os contribuintes, têm de suportar. Se as necessidades de uma minoria se tornam verdadeiramente insuportáveis e não podem mais ser ignoradas, a atribuição é por vezes realizada – mas apenas numa forma que separa os dissidentes daqueles que não precisam dela. Por exemplo, em vez de financiar generosamente a educação das crianças verdadeiramente pobres, bem como dos adolescentes, é oferecida a todos uma subvenção mais pequena (claramente insuficiente para alguns, mas excessiva para outros), ou pelo menos a um número suficientemente grande para alcançar o “eleitor médio” reduzindo os impostos. Somente um “poder incomodativo” realmente considerável de uma minoria desprezada pode prevalecer sobre esta preferência” (Bauman, 1989: 133-134).

“Mas a saída maciça dos mais favorecidos torna a “voz” dos menos favorecidos inaudível – pois que o seu “poder incomodativo” é suficientemente pequeno para ser ignorado sem perigo. Um clamor maciço de aprovação por este facto ainda abafaria qualquer voz de protesto que pudesse levantar-se. Com a “saída” aumentando em volume e extensão, e libertando assim os governos da pressão “dos que não contam”, aqueles cujas vidas continuam directamente dependentes de decisões políticas, verificam que a sua capacidade para “emitir voz” (a oportunidade prática de empreender uma acção política eficaz) está desaparecendo rapidamente” (Bauman, 1989: 134).

“Sem sentido em termos de actuação democrática regulamentada pela regra da maioria (tal como descrita no “teorema do eleitor médio”), o seu protesto é classificado como uma questão de lei e de ordem, e como tal reprimido. O paradoxo da política na era do consumo é o facto de aqueles que podem ter impacto nas decisões políticas terem pouco estímulo para o fazerem, enquanto aqueles que mais dependem das decisões políticas não terem recursos para as influenciar” (Bauman, 1989: 135).

“Dentro da sociedade de consumidores existe uma categoria de pessoas que têm fracas oportunidades para “sair” da supervisão importuna da burocracia de Estado e cuja “voz” não pode ser suficientemente sonora para ser escutada. Esta categoria é composta por pessoas que vivem na pobreza ou próxima dela, por estarem cronicamente desempregadas ou empregadas apenas em trabalhos ocasionais, ilegalmente desprotegidos e irregulares, ou estarem sobrecarregadas por um grande número de pessoas a seu cargo, por terem “a cor da pele errada”, ou por viverem na “parte errada do país”, isto é, a parte abandonada pelo capital” (Bauman, 1989: 135).

“Numa sociedade de consumo tais pessoas são socialmente definidas como consumidores imperfeitos; a sua “imperfeição” (usada para legitimar a discriminação de que são alvo) consiste na sua incapacidade para entrar no jogo da livre escolha, na sua inaptidão manifesta para exercer a sua liberdade individual e conduzir as suas vidas como um assunto particular entre elas e o mercado. A sua “imperfeição” é tomada (numa argumentação tipicamente circular) como prova de que as pessoas desta categoria não sabem fazer o devido uso de qualquer liberdade que possuam e que, por consequência, devem ser guiadas, controladas, corrigidas ou penalizadas por desobediência por aqueles que sabem o que é bom para elas e como elas devem usar a sua liberdade. Tal definição social é auto-realizada. Uma vez que certas pessoas não sabem quais são as suas necessidades, estas devem ser determinadas por outras que sabem. Uma vez que certas pessoas mostraram a sua incapacidade para usarem devidamente a sua liberdade, o seu direito a tomar decisões deve ser-lhes retirado ou suspenso, e os problemas devem ser decididos por outras. Estas “outras” são a burocracia do Estado e os vários peritos que ela emprega para esse fim” (Bauman, 1989: 135-136).

Numa sociedade de consumo, pobreza significa incapacidade social e política, causada primeiramente pela inaptidão para desempenhar o papel de consumidor, e depois confirmada, legalmente corroborada e burocraticamente institucionalizada como condição de heteronomia e de não-liberdade. A pobreza reporta-se ao rendimento (pequeno demais pelos padrões aceites) e ao volume de propriedades (pequeno demais para satisfazer necessidades consideradas básicas ou vitais) os quais, em princípio, podem ser medidos de certa maneira “objectiva” (claro que a própria ideia de que eles podem ser assim medidos pressupõem que existem outros – peritos, especialistas – que “sabem verdadeiramente” o que é e o que não é a condição de pobreza)” (Bauman, 1989:136).

“O estado de pobreza não é, contudo, definido por estes índices de medição. Numa sociedade de consumo, como em qualquer outra sociedade, a pobreza é, na sua essência, uma condição social. Abel-Smith e Townsend observaram que o estado de pobreza é determinado pelo grau de “eficiência social” (ou antes, ineficiência). Uma pessoa pobre é alguém que não pode tomar parte no comportamento social reconhecido como próprio de um membro “normal” da sociedade. Pormenorizando esta ideia, David Donnison definiu a pobreza como “um padrão de vida tão baixo que exclui as pessoas da comunidade em que vivem”. Notemos que o que de facto exclui as pessoas pobres da comunidade, o que as torna “socialmente ineficientes”, não são apenas os meios insuficientes para viver mas também o facto de o estado de heteronomia e a legislação burocrática importuna, as separar dos outros membros da comunidade, livres e autónomos. Numa sociedade de consumidores livres, recebermos das autoridades indicações de como gastar o nosso dinheiro, é uma fonte de vergonha. A “ineficiência social” é uma questão de estigma – sermos estigmatizados torna-nos ainda menos eficientes. (…).” (Bauman, 1989: 136-137).

“A determinação burocrática das necessidades significa uma persistente falta de autonomia pessoal e de liberdade individual” (Bauman, 1989: 137).

Bibliografia

ZYGMUNT, Bauman. (1989). A Liberdade. Editorial Estampa. Ciências Sociais nº9. Lisboa.



“O Assalto ao Poder”

Publicado por: Milu  :  Categoria: O Assalto ao Poder, POLÍTICA

“A política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano.”

Voltaire

O post de hoje dispensa quaisquer apresentações… se tivermos em conta os últimos acontecimentos políticos e o agressivo ambiente eleitoral que já se respira…

Todos os dias assistimos estupefactos às cenas mais estúpidas, seja da parte dos políticos, seja da parte de muitos daqueles que estes deviam governar. São tão poucos os políticos e seus eleitores que se preocupam verdadeiramente com o país e as suas gentes! O que é visível é que cada um só pensa em si. Muitos de nós, temos de assistir a este carnaval devastados por um sentimento de impotência, sem podermos fazer nada. Ou podemos?

Para de alguma forma ajudar à compreensão de alguns dos vastos meandros que norteiam a política, socorri-me de um livro cujo título vai ao encontro do sentimento de desolação que se faz sentir em muitos de nós, “A Nova Ordem Estupidológica”, da autoria do Psicólogo Doutorado em Psicologia pela Universidade de Lisboa e Psicoterapeuta desde 1985, Vitor J. Rodrigues, no qual é prometido que o leitor poderá compreender:

. “quais os passos que poderá dar para acelerar a vitória esmagadora da estupidez

. se é uma pessoa fundamentalmente estúpida ou se, pelo contrário, ainda terá de se esforçar para alcançar esse estádio

. quais os estratagemas mais utilizados pela inteligência e qual a melhor maneira de os derrotar

. como identificar um estúpido ou um inteligente, apenas com uma simples observação” (RODRIGUES).

Designação de: C.A.I – Centros Anti-Inteligentes

“Os tempos e os costumes são de crassa magnífica estupidez; contudo não podemos deixar-nos adormecer face às conquistas feitas. Ainda subsistem, em muitos locais do mundo, numerosas bolsas de resistência inteligente e, até, grandes associações ou agrupamentos que pretendem levar as mentalidades a desenvolver-se para além da sua barbárie engravatada. A inteligência não está derrotada e constitui uma ameaça que não pode ser menosprezada. Ainda há religiosos tolerantes e ecuménicos, ecologistas convictos, académicos interessados no progresso da ciência em si mesma, comerciantes honestos e outras aberrações de uma inteligência pateticamente renitente em compreender que o mundo não lhe pertence. Apesar de tudo, até no seio dos governos continua a aparecer, de vez em quando, um governante que faz o jogo da inteligência em lugar de, como seria mais adequado, se juntar à invencível lógica estupidológica que rege actualmente os destinos das nações” (Rodrigues, 1995: 8).

“A conquista e a manutenção do poder político”

Pressupostos de base da ciência política estupidológica”

  1. Há pessoas mais caras e mais baratas mas todas podem ser adquiridas. De acordo com este pressuposto, todo o homem tem o seu preço e, quando não aceita ser pago em dinheiro, aceita geralmente ser pago em géneros, compensações afectivas, realização de ambições pessoais e assim por diante; daí que, com o dinheiro e os meios necessários, seja fácil adquirir influências, votos e pessoas. O problema, regra geral, não tem nada a ver com uma raríssima incorruptibilidade destas últimas nem com a pretensão inteligente de que certos valores humanos não têm preço e não são comercializáveis; tem, antes, a ver com a tabela de preços…
  2. Cada ser humano possui um valor quantificável em riqueza, prestígio e, claro, votos. Isto relega para o plano da inutilidade a ambição de valorizar qualitativamente as pessoas de acordo com a sua competência profissional, integridade ou capacidade cultural e estabelece, como incomparavelmente mais válida, uma perspectiva quantitativa – que é também mais científica, como já vimos. Os homens podem e devem ser exaustivamente avaliados quanto ao seu valor pecuniário e patrimonial (aquilo de que são donos e/ou que podem fazer adquirir) bem como quanto ao seu valor político e social (taxas de audiência, impacto na opinião pública equacionado numericamente na forma do número de intenções de voto, número de associações poderosas que conseguem colocar a seu favor, etc.). O tempo dos estadistas carismáticos, se alguma vez existiu, já acabou: com a Nova Ordem Estupidológica, assistimos ao triunfo dos políticos maquilhados e, numa boa parte dos casos, transaccionáveis (ver ponto 1).
  3. Os estúpidos são donos da Verdade e proprietários da Realidade. Este facto reiterado e inequívoco fundamenta epistemologicamente o direito dos políticos estúpidos (políticos E) a fazerem da Verdade e da Realidade o que entenderem. Esta é, sem dúvida, uma das razões pelas quais eles preferem largamente vencer um debate a conquistar uma vitória para a Verdade (seria ridículo curvarem-se dessa maneira perante uma subalterna sua). Do mesmo modo, é altamente compreensível que prefiram utilizar, a seu bel-prazer, pequenos fragmentos da Realidade, colhidos com métodos estatísticos, para os transformarem em coutadas pessoais e/ou partidárias (pois podem fazer o que lhes apetecer com a sua propriedade privada).
  4. Os homens são animais e, além disso, são animais políticos. Graças a esta ideia, cuja primeira parte aparece expressa com grande clareza no dogma da ditadura biológica (um dos dogmas da bibliografia redutora do conhecimento inteligente), ficamos inteirados acerca do que podemos esperar dos seres humanos. Por essa razão os políticos E costumam apelar bastante à animalidade dos seus eleitores e às perspectivas políticas que abre. Conforme sabem os observadores dos tempos e costumes actuais, não se movem grupos alargados de inteligentes com apelos à agressão, à vingança, ao egoísmo, ao racismo e xenofobia, à ambição pessoal, etc. etc.; contudo é exactamente dessa forma que se arrebanham multidões de estúpidos…
  5. Todos os homens querem ser estupidologicamente felizes. Por isso é fundamental convencê-los de que o partido e/ou os políticos estúpidos a eleger ou a manter no poder são especialmente capazes de assegurar a sua felicidade: (1) por posse mínima, (2) pela realização sexual, (3)
  6. A gestão do poder é um jogo: o jogo do poder. Devemos, assim, encarar com algum espírito lúdico o facto de estarmos a brincar com a vida de milhões e milhões de pessoas, o que descontrai bastante. Não é por acaso, aliás, que muitos políticos gostam tanto de pensar nos outros como peões no seu xadrez pessoal e na economia como um conjunto de jogadas financeiras.
  7. Quando não podemos vencê-los, é preferível juntarmo-nos a eles. Sabe-se que, historicamente, os políticos derrotados tendem a perder a cabeça seja no sentido mais real e directo (mediado por machados, sabres ou guilhotinas) ou no sentido figurado. Talvez por essa razão – uma consciência aguda das desvantagens da derrota política – seja tão frequente encontrarmos, da parte de muitos políticos E, uma habilidade excepcional para, antes de serem derrotados, se aliarem ao partido, movimento, ideia ou pessoa que iria derrotá-los. Convenhamos que isto é mais saudável do que a opção dos inteligentes que nunca se rendem perante a estupidez das ideias e procedimentos mesmo quando elas têm por si a força dos tempos e dos apoios eleitorais.

(…)

Propaganda Eleitoral

Uma propaganda adequada deve obedecer a duas grandes linhas:

  1. Inquéritos de mercado (também conhecidos como pesquisas de opinião pública). É fundamental saber o que é que o público deseja para si, o que considera serem as características daquele ou daquela em quem está disposto a votar e o que gosta que lhe prometam fazer (geralmente é um casamento dos dois primeiros dados). Note-se que, se as ilusões do povo fizerem obter votos, será muito mais profícuo cultivá-las do que desfazê-las – visto que a desilusão dos eleitores costuma modificar as tendências de voto; por esta e por outras razões, a arte do político estúpido assemelha-se, em parte, à do ilusionista: trata-se de fazer as pessoas acreditarem que está a acontecer aquilo que, na realidade, é bem outra coisa. Os políticos estúpidos não costumam tirar coelhos do chapéu mas é bem frequente tirarem dele argumentos que, perante a inteligência, até parecem impossíveis.
  2. Fabrico de líderes. Conhecidos os resultados da primeira etapa, que pode ser e deve ser feita tanto a nível nacional como local, deve-se maquilhar física e psicologicamente o político E para que pareça ter as características elegíveis e, claro, instrui-lo para que faça convincentemente promessas agradáveis (ver 1). O importante é que as pessoas acreditem que o político considerado possui qualidades e ideias adequadas a um bom governante bem como um programa governativo capaz; se, na verdade, o político é humana e culturalmente inepto, as suas ideias são outras tantas teorias estúpidas e o seu programa é impraticável, isso não tem nada a ver com o caso pois, conforme sabemos, os únicos objectivos políticos dignos da Nova Ordem Estupidológica são a conquista e a manutenção do poder – pagando, por isso, os preços que haja a pagar; ora, nos dias que correm, a inteligência está tão desvalorizada que até sai barato aos políticos sacrificarem os valores dela…

Acção Governativa

Uma vez no poder, cabe aos políticos E perpetuarem-se nesse poder independentemente de acreditarem ou não que são governantes mais competentes do que outros quaisquer (embora seja fácil convencerem-se de que o são graças ao outrismo e à competitividade: no jogo político, o que interessa mesmo é vencer e não tanto jogar bem). Uma das características naturais da estupidez é a de constituir um ciclo vicioso reforçando-se a si mesma, pelo que isto não constitui dificuldade. Por outro lado, um governo de estúpidos não se avalia realmente a si mesmo nem fornece aos outros elementos para que o avaliem: pelo contrário, apresenta dados que convençam os outros de que é um bom governo. A fim de assegurar a perpetuação do poder, é fundamental fazer quatro coisas:

a) consolidar o poder. Acelerar o acesso de primos, conhecidos, comparsas, colegas, enfim, estúpidos de confiança a lugares-chave. Elaborar legislação destinada a favorecer as conquistas de todos os interessados em que o político E continue a governar;

b) convencer o público de que os seus interesses estão a ser objecto de um zelo desvelado. Isto será grandemente facilitado pelo facto de uma parte destes interesses ser de natureza estúpida – o que, nos tempos que correm, é frequentemente o caso;

c) Justificar cuidadosamente as decisões tomadas. O que importa é justificá-las a posteriori, razão pela qual elas podem e devem ser tomadas segundo conveniências políticas momentâneas deixando depois a técnicos esforçados o cuidado de inventarem justificações que pareçam convincentes (até mesmo científicas). Isto costuma ser especialmente interessante e útil na esfera educativa e laboral;

d) afastar do poder as pessoas inteligentes. Este aspecto costuma ser fácil pois essas pessoas tomam frequentemente a iniciativa de se conservarem afastadas – sob o efeito do enjoo – ou, noutra variante, não têm hipóteses pois uma boa parte do mundo está nas mãos dos estúpidos. Além disso, mesmo quando estão dispostos a optar pelos atalhos ditados pela estupidez e, com isso, perdem a vez face aos estúpidos que, graças a esses atalhos, chegam lá mais depressa.

O que fazem os operacionais da estupidez uma vez de posse desta preciosa formação teórica. Evidentemente, passam à acção. Sabedores de que uma pparte bastante vasta do público eleitor é estúpido ou, pelo menos, capaz de estupidez, evitam enfatizar coisas inteligentes nas suas campanhas ou fazer concessões metodológicas à mesma qualidade. Por essa razão, raramente se mostram tolerantes, colaborantes ou complementares face a outros políticos – o que seria inteligentemente possível se o objectivo da campanha fosse eleger o melhor e, sobretudo, as melhores ideias governativas face a uma realidade socio-económica e cultural devidamente investigada. É bom não esquecer que, por detrás da política contemporânea, temos o impulso evidente do Separatismo e do Lucrismo, pelo que se fala na «corrida eleitoral» em que, muito mais do que colaborar inteligentemente com os que podem enriquecer uma perspectiva global (por verem diferentes facetas da realidade), importa vencê-los. Muito mais do que obter melhorias no nível de vida geral importa, em primeiro lugar, lucrar (em votos, dinheiro, poder, fama…).

Ninguém vence uma corrida eleitoral com dados científicos, filosofia política elaborada ou com a busca da verdade. Também não se vence uma eleição com preocupações altruístas e desinteressadas (que levam imediatamente os estúpidos à desconfiança). Há que efectuar boas manobras de bastidores, trabalhos de sapa, fuzilamentos públicos das ideias dos outros. Há que vender os produtos a eleger e, neste aspecto, um político E assemelha-se largamente a um vendedor de banha de cobra na convicção aparente com que se vende e vende os seus produtos quer acredite neles ou não. Um político estupidologicamente carismático é, muitas vezes, alguém capaz de sustentar uma imagem pública de tipo bastante semelhante ao que faz vender uma pasta dentífrica: ideias da moda, sorriso oportuno, argumentos competitivos mas nunca demasiado rigorosos, «sex-appeal»…

Não esqueçamos: um bom comando anti-inteligente na política deve, antes de tudo, assegurar-se do uso dos meios que forem precisos para atingir a finalidade de subir ao poder e ficar lá. Esse objectivo justificará largamente tudo o que fizer pelo caminho. É porém essencial assegurar ainda que, depois, o exercício desse poder privilegie, apoie e subsidie a estupidez nacional e internacional em obediência às instâncias lucristas. Quando, em seguida, mencionarmos diversas grandes áreas de actividade dos C.A.I., será muito importante conservarmos em mente que, desde que haja estúpidos no poder, jamais a inteligência poderá ir muito longe pois, no momento de tentar produzir obra, debater-se-á com uma esperável escassez de meios. Devemos, ainda, realçar um pormenor: existem muitos C.A.I. infiltrados nos partidos políticos com a finalidade subtil de «perpetuarem o poder da estupidez» sem se concentrarem no acesso da estupidez ao poder em si. Assim eles concentram esforços no sentido de apoiar, incentivar e, até, subsidiar todas e quaisquer iniciativas políticas estúpidas sabedores de que, inevitavelmente, elas fortalecerão os políticos E (dando-lhes boas bases). Noutra versão, procuram exercer um efeito estupidificante sobre todas e quaisquer iniciativas políticas susceptíveis de inteligência. Obviamente , uma das suas preocupações dominantes consiste em conservar as pessoas inteligentes fora dos partidos” (Rodrigues, 1995: 83-91)

Bibliografia

RODRIGUES. J. Vitor. (1995). A Nova Ordem Estupidológica. Livros Horizonte. Lisboa.

Este livro já não tem somente o valor do esclarecimento teórico e prático: ele é também um relato das actividades concretas que têm sido desenvolvidas para boicotar a inteligência do mundo e desenvolver a estupidez alternativa. É, ainda, um manual para todos os que pretendem fazer da sua estupidez uma atividade absolutamente intencional e militante. A aliança  da Tradição Estupidológica Secreta e da moderna Estupidez Científica está em vias de concretizar finalmente esse sonho de incontáveis gerações de pessoas cujo comportamento tem contribuído, consciente ou inconscientemente, para isso: A Nova Ordem Estupidológica mundial. Juntemo-nos todos a esta obra colossal e partilhemos do êxito que se manifestará quando, finalmente, o planeta mergulhar na absoluta obscuridade mental tornando-se naquele paraíso que os estúpidos hão-se herdar…”

A Dinâmica da Cultura

Publicado por: Milu  :  Categoria: A Dinâmica da Cultura, SOCIEDADE

“Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre.”

Simone Beauvoir

O meu post de hoje teve como ponto de partida a minha indignação com o artigo publicado por Joana Bento Rodrigues que pode ser lido aqui.

Neste artigo, Joana Bento Rodrigues, médica  de profissão, fez algumas afirmações através das quais pretendeu atribuir uma natureza à mulher, que me esforçarei aqui por rebater, uma vez que as suas afirmações não são mais do que arquétipos. Entende-se como arquétipo, neste âmbito, as expressões da influência de experiências e memórias de nossos antepassados, que  interferem na nossa formação que pode ser copiado, moldado, padronizado ou estimulado para ser seguido e vivido.

Eventualmente, alguns trechos deste meu post que abordam a maternidade, poderão impressionar e chocar quem tiver a curiosidade e a paciência de o ler. Também poderá parecer  que este post coloca mal  a mulher, pois que contribui para  destruir aquela imagem de mulher ideal tão acarinhada pela sociedade patriarcal, e que sobrevive até hoje. Mas o que me move verdadeiramente é a reposição  da verdade. Da verdade histórica. Da verdade pura e dura.

O método que utilizo para a elaboração dos meus posts apoia-se em fontes abertas. Fontes estas que estão acessíveis a qualquer pessoa através dos livros e ou da Internet. Depois é só uma questão de tempo, paciência e capacidade para relacionar toda a informação. A lógica do meu trabalho parte do princípio de que é obrigação de todos nós, que intervimos no espaço público, contribuir para a difusão da  verdade oficial, com factos e provas documentáveis que estejam acessíveis a todos. O conhecimento é uma vantagem, pelo que se deve adquirir e compartilhar. Posto isto, tenha-se em conta que não são as minhas ideias que aqui se discutem, mas sim a verdade comprovada pela História.

Vamos então às afirmações da Senhora Doutora Médica Joana Bento Rodrigues, e assistam como elas não fazem sentido perante a verdade histórica, que todos poderão comprovar nos livros que constarão da bibliografia registada no final deste post.

Informo que, para não alongar demasiado este post, apenas será focado o  “potencial matrimonial” e o “potencial maternal”, tendo em conta que Joana Rodrigues os considerou como fazendo parte da natureza da mulher, logo, um essencialismo.

Falar em essencialismos acerca da natureza do ser humano é como entrar em areias movediças. Porque, seguramente, o que poderemos considerar como próprio da  natureza do ser humano é a sua  capacidade de criar e de transformar.  O ser humano é criador, cria cultura, e esta não é estática, é dinâmica. Vamos mudando a nossa maneira de encarar o mundo quer devido a contingências ambientais, quer por transformações da consciência social. Tudo o que fazemos, aquilo de que gostamos, o que desejamos, etc, é determinado pela cultura do  meio em vivemos. Ainda assim, o indivíduo pode sempre recusar-se a aceitar  as regras que lhe são propostas pela sua sociedade de pertença, mas isto já é outro assunto que não interessa agora abordar.

Diz a Dra. Rodrigues que:

[A mulher feminista] “optou por se objectificar, pretendendo ser apenas fonte de desejo em relações casuais, rejeitando todo o seu potencial feminino, matrimonial e maternal.”

O potencial matrimonial reside, precisamente, no amparo e na necessidade de segurança. A mulher gosta de se sentir útil, de ser a retaguarda e de criar a estabilidade familiar, para que o marido possa ser profissionalmente bem sucedido.”

“O potencial da maternidade é algo biológico! A mulher é provida de um encanto, de uma ternura, que só se encontra na sua relação com os filhos. Ela é o porto de abrigo das crianças.”

Nela [mulher] reside a arte do cuidar e do mimar.”

A verdade histórica:

Se nos reportarmos, por exemplo, ao tempo da “pedra lascada”, facilmente constatamos que a preocupação primordial dos seres humanos era prover o seu sustento. Naquele tempo, sem saber ler nem escrever, não havia Bíblias para lhes engendrar nas mentes a ideia do pecado ou de outros interditos. Assim, e no que respeita à sexualidade, estes nossos antepassados viviam em liberdade sexual, obedecendo aos seus mais primários instintos. Por isso, e só depois de ter sido feita a descoberta de que o homem também tinha parte activa na procriação, muito embora desconhecessem o processo, a descendência só podia, originariamente, ser contada segundo a linha materna, de mãe para mãe (…) e que esta posição originária das mães, como únicos progenitores seguros dos seus filhos, lhes garantia, bem como às mulheres em geral, uma posição social superior à que alguma vez desde então voltaram a possuir.” (Engels, 1985: 17-18).

“(…) sabia-se quem era a mãe de uma criança mas não quem era o pai e, por isso, o parentesco só era contado segundo a linha feminina, com exclusão da masculina: era o direito materno” (Engels, 1985:19).

Contudo, com a sedentarização, consequência da descoberta da agricultura e pastorícia, que deu lugar à apropriação de terras, a organização social então vigente conheceu uma transformação:  

“À medida que as riquezas aumentavam, por um lado elas iam dando ao homem uma posição mais importante que à mulher na família e, por outro, geravam um impulso para utilizar essa posição reforçada para modificar, em favor dos filhos, a ordem de sucessão tradicional. (…) Bastou a simples decisão de que, de futuro, os descendentes dos companheiros masculinos deveriam permanecer nas gens, mas que os descendentes dos femininos deveriam ser dela excluídos (…). Deste modo tinham sido derrubados o estabelecimento da descendência por linha feminina e o direito de herança materno e introduzido o direito de herança paterno e a linha de descendência masculina.” (Engels, 1985:68).

“O derrube do direito materno foi a derrota do sexo feminino na história universal. O homem tomou o leme mesmo em casa, a mulher foi degradada, servilizada, tornou-se escrava do prazer dele e mero instrumento de reprodução. Esta posição rebaixada da mulher, tal como nos aparece abertamente, nomeadamente entre os tempos clássicos, é gradualmente embelezada e disfarçada, revestindo-se também, em alguns lugares, de formas mais suaves, mas não de forma nenhuma eliminada. O primeiro efeito da dominação exclusiva dos homens então instituída aparece na forma intermédia da família patriarcal, que então surgia.

De acordo com documentos históricos, o “potencial matrimonial” que a Senhora Doutora Rodrigues refere como sendo um atributo próprio da natureza da mulher é uma falácia. A verdade é que o casamento tal como o conhecemos, singular e monogâmico, surge com a instituição da propriedade privada, depois do homem  acumular riqueza e a necessidade de a transmitir para alguém do seu sangue, seguramente do seu sangue, para que este  continuasse a sua obra.  Ler o livro “A Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado”. Também pode ler aqui um pequeno excerto.

É a propriedade privada e a cultura que então se criou que está na base da instituição do casamento e  não  no pendor da mulher para tal. Ler também o livro “As Damas do Séc. XII. Lembrança das Antepassadas” para constatar como a mulher era tratada como uma mercadoria e como se davam meninas, ainda muito crianças, em casamento, por razões que tinham a ver com a propriedade e heranças. Ler aqui um excerto desta obra.

É com o evento da Revolução Industrial que se difunde uma ordem social  que remete a mulher casada para o lar, incumbida de desempenhar os papéis considerados apropriados à feminilidade. A cuidadora e zeladora da harmonia familiar para que o marido ficasse mais disponível para o desempenho de uma profissão. Trata-se da família do tipo nuclear, composta pelos filhos e respectivos progenitores. Assim, a mulher assume o papel expressivo (gestão do cuidar e dos afectos) e o homem o papel operativo ou instrumental (papel do chefe de família com a responsabilidade de angariar o sustento da família).

O casamento passa agora, pós revolução industrial, a obedecer a critérios de escolha pessoal, guiado por normas de afeição e de amor romântico. O homem e a mulher têm diferentes posições no seio da família, a mulher fica encarregue da educação dos filhos e o homem é o ganha-pão. Em meados do século XX estava generalizado o sentimento de que a família é ou deveria ser um mundo privado, de realizações pessoais, onde imperasse carinho, afectividade, protecção, estímulo à educação e formação. Ler aqui sobre família nuclear.

Também foi a partir destas condições que se engendrou a ideia de que a mulher tem características específicas para os cuidados, considerando-se então que estariam talhadas para desempenhar funções como enfermeiras e professoras. Outras profissões que exigissem raciocínios complicados, elaborados, claro, eram só para os homens!… E esta ideia formatou o nosso pensamento. Vinga ainda nos nossos dias e vingará até um dia cair no ridículo.

Como pudemos constatar, pelo que já aqui foi descrito, todas estas mudanças foram fruto de circunstâncias que foram conduzindo à ordem social patriarcal que ainda hoje vigora. Nada disto tem a ver com uma suposta natureza humana da mulher para o casamento e para um estado de submissão e dependência da mulher.

Eis-nos finalmente chegados à discussão focada no “potencial maternal”. Atentemos no que nos narra a História:

Excertos retirado da obra “A Formação da Família Moderna” de Edward Shorter , professor de História na Universidade de Toronto.

“Na sociedade tradicional, as mães assistiam com indiferença ao desenvolvimento e felicidade das crianças com menos de dois anos.”

“Note o leitor que são os bebés e não os «filhos» em geral que constituem o tema deste capítulo” (Shorter, 1975: 183).

“Foi o historiador social Philippe Ariès o pioneiro que primeiro defendeu que a indiferença materna aos bebés caracterizava a sociedade tradicional. (…) concluiu que as crianças pequenas eram consideradas, na Idade Média, criaturas aparte das outras pessoas. (…)  Ariès argumentava que, entre os grupos da grande burguesia e dos nobres, em cujos testemunhos se apoia, este modelo de indiferença começou a ceder por volta dos séculos XVI e XVII. E terá provavelmente razão em relação a estas classes. Mas entre a gente vulgar, de quem me ocupo, esta despreocupação tradicional persistiu pelo menos até ao último quartel do século XVIII e, nalgumas classes e regiões, até bastante mais tarde” (Shorter, 1975: 184).

“(…) a prática quase universal de o deixar sozinho [o bebé] por longos períodos de tempo.

(…) os pais deixam que as crianças fiquem a assar no meio das suas próprias fezes horas a fio, muito apertadas em cueiros; de que as crianças que ficam ao abandono defronte da lareira morrem quando as suas roupas se incendeiam, e de que os bebés ficavam sem vigilância eram atacados e comidos pelos porcos”  (Shorter, 1975: 185).

“As mães deixavam simplesmente os bebés moribundos «abandonados na sarjeta e a apodrecer nas estrumeiras de Londres” (Shorter, 1975: 187).

“Evidentemente que havia circunstâncias em que a morte infantil era  recebida com menos serenidade, como quando a mãe morria juntamente com o primeiro filho no parto, pois isso implicava  que o marido devolvesse o dote da mulher aos parentes dela. Mas em especial com o terceiro ou quarto filho, a morte era encarada como uma bênção, tanto para os filhos como para os pais. No condado de Haidau, na Baviera, «as pessoas ficam geralmente contentes com a morte rápida dos filhos e dizem que ‘eles ficam bem’» (Shorter, 1975: 188).

“Qualquer enjeitado com mais de um ano podia ser legítimo (pela lógica de que as mães solteiras abandonavam o filho o mais cedo possível) (…). Podemos calcular que entre um décimo e um quarto de enjeitados eram legítimos. Isto quer dizer que, num dado ano, umas cinco mil crianças eram abandonadas pelas suas famílias” (Shorter, 1975: 189).

É quando nos viramos para o hábito de deixar os bebés com amas mercenárias que a separação da mãe e do bebé pequeno se destaca como prática sistemática de todas as classes, pobres ou não. E a crescente amamentação materna mostra que o abandono, quer a uma ama mercenária quer a uma instituição de caridade, era na realidade uma prática tradicional” (Shorter, 1975: 190).

Um dos fenómenos mais notáveis da história social europeia foi  grande número de mães que mandavam os filhos bebés para longe, para serem criados por amas de leite mercenárias em lugares distantes. Logo a seguir ao baptismo, a criança era retirada à mãe e contrabandeada através de longas estradas para uma cabana aldeã onde, se sobrevivesse à viagem, passaria os dois anos seguintes” (Shorter, 1975: 190) .

As mulheres pobres de áreas rurais, por exemplo, punham os próprios filhos na ama a preços  muito baixos para poderem aceitar uma criança  de peito de outro sítio que lhes proporcionasse melhor paga” (Shorter, 1975: 191-192).

De Chambéry [França], por exemplo, dizia-se: «As mães da cidade ainda não foram capazes de se acostumar a cuidar dos seus próprios filhos; esta ocupação continua, infelizmente, a ser confiada a mulheres do campo, onde muitas destas crianças de peito morrem de convulsões (…)»” (Shorter, 1975: 192).

“Depois de os bebés estarem com a ama, os pais raramente os visitavam” (Shorter, 1975: 193).

As amas de leite, trabalhadoras agrícolas, camponesas marginais e mães solteiras (que muitas vezes engravidavam para terem leite e poderem oferecer-se no mercado) eram criaturas desesperadamente pobres e devastadas que viviam  geralmente em casebres rurais” (Shorter, 1975: 194).

“Estas crianças, depositadas deste modo no campo e isoladas de qualquer espécie de vigilância médica ou administrativa, tornam-se vítimas da ignorância, cupidez e falta de atenção. Para a ama, ajoujada sob a carga das tarefas da sua própria casa e o fardo dos próprios filhos, pouca atenção pode prestar à limpeza e exercício físico de que estas crianças tanto precisam” (Shorter, 1975: 195).

Havia histórias de negligência que raiavam o terror: «A ama estava embriagada e trazia o bebé de cabeça para baixo. Eu vi qual era o destino que esperava a pobre criatura inocente. Encarregado  vários meses depois pela comissão policial de investigar a morte desta criança de peito que tinha chegado a Nogent tão fresca e rosada, encontrei na choça que a mulher habitava, uma pequena forma mirrada, de  feições engelhadas, estendida sobre uma enxerga de palha suja e malcheirosa, sem lençóis. A pobre criança tinha morrido de fome e miséria”  (Shorter, 1975: 195).

Em Morvan, por exemplo, as amas de leite não mudavam a roupa de cama entre um bebé e o seguinte e os travesseiros  de penas «impregnados de suor, urina e fezes, exalavam um cheiro a amoníaco terrível». A impaciência, a fadiga e a indiferença acabavam por levar as amas a tentar calar os bebés que gritavam com álcool ou com tranquilizantes à base de ópio como o «Cordial de  Godfrey», uma mistura de melaço, láudano e sassafrás. Os observadores achavam estranho que os bebés estivessem deitados tão calados quando iam fazer visitas e é claro que os bebés não resistiam muito tempo” (Shorter, 1975: 195).

“Na realidade, acontecia com frequência que mesmo as amas que amamentavam  não tinham leite suficiente para todas as crianças, dando as primeiras mamadas aos próprios filhos (no caso de não os terem abandonado) e suplementando depois o restante leite para os estranhos com comida dada à mão. Ou, pior ainda, as amas mais indigentes, que não tinham nem uma vaca nem uma cabra, eram obrigadas a dar às crianças que estavam a seu cargo «papa» – uma mistura de farinha, água e açúcar que, desprovida de proteínas e vitaminas, as enchia de amidos cedo demais e de maneira  geral as despojava  de quaisquer imunidades naturais que poderiam ter recebido do leite humano” (Shorter, 1975: 195-196).

Depois de 1800, deu-se um grande declínio na procura de amas de leite mercenárias, de fora. Enquanto a direcção municipal das amas  de Paris enviava para longe 5000 a 6000 bebés por ano no Período Napoleónico, por alturas da década de 1830 o número baixara para 1000. (…) Foi entre as classes médias que a prática foi primeiro interrompida. Só mais tarde é que as classes baixas a alcançaram”  (Shorter, 1975: 197).

As mulheres abastadas de La Rochelle, por exemplo, abaladas por uma vaga de mortes entre os bebés que tinham mandado para amas camponesas, começaram elas mesmas em 1766 a amamentar ao peito (e a escandalizar a sociedade ao fazê-lo em público)” (Shorter, 1975: 198).

Eis o relatório da Assembleia Geral do departamento de Aube referente à prestação de cuidados das amas de crianças abandonadas na década de 1830: «Muitas destas amas não fiscalizadas relegam as crianças a seu cargo para qualquer recanto sombrio e insalubre, quase nem as tapam, deixam-nas ser apoquentadas pelos bichos, remexendo-se no meio dos seus próprios excrementos e presa de toda a espécie de doenças de pele. É a falta de cuidados que o prefeito atribui o aumento da mortalidade das crianças abandonadas para 67 em cada 100»” (Shorter, 1975: 201).

Seria inútil prolongar esta pavorosa enumeração. O que a importa é que as «nourrices» tradicionais parecem não ter tido virtualmente nenhum interesse intrínseco no bem-estar dos seus bebés.  Se um morria, voltavam simplesmente ao hospital e era-lhes dado outro. Para elas, o pagamento era tudo, a criança – enquanto pequenina centelha de vida que poderia ter sido amada por razões não económicas -, nada” (Shorter, 1975: 202).

A viragem na Modernidade:

Os sábios ensinamentos de Locke sobre a infância apresentados pela pena eloquente de Rousseau, começaram a dar frutos na cidade. Entre as classes altas, já há vários anos que um número cada vez maior de mães descobriram que a fadiga de amamentar é compensada por muitos prazeres e vantagens. As pessoas dão agora mais liberdade às crianças. (…) A papa (bouillie) foi banida do seu regime e fazem mais exercício” (Shorter, 1975: 198-199).

De particular interesse é a associação feita aqui entre a amamentação pela mãe e uma renovada preocupação pelo bem estar da criança” (Shorter, 1975: 199).

“No decurso do século XX, este «economismo» da parte das amas mercenárias começou a dar lugar a um afecto quase maternal” (Shorter, 1975: 202).

“Ser uma boa mãe é uma invenção da modernização.”

No começo do século XX, a grande transformação da atitude maternal achava-se virtualmente completa. A indiferença para com a vida e a morte do bebé, quase universal um século antes, estava limitada a alguns lugares atrasados como o interior da Bretanha, onde as mães «quase não se ocupavam dos seus filhos. Com frequência indesejados, os Bretões aceitam-nos, ou antes, toleram-nos e deixam-nos crescer sem lhes dar atenção absolutamente nenhuma». Nem os perturbava muito a elevada mortalidade infantil que essa desatenção produzia; o nascimento e a morte eram acolhidos com a mesma placidez” (Shorter, 1975: 211).

Noutros lugares, já por volta de 1900, o estilo moderno de cuidar dos filhos triunfara. Heni Baudrillart ficou impressionado com a «brandura» dos modos de criar as crianças durante os seus estudos exaustivos da vida rural na década de 1880, «O afecto dos pais pelos filhos parece nunca ter sido tão profundo, tão manifesto através dos cuidados. ‘Hoje em dia, as crianças são muitíssimo mais estragadas do que eram  dantes’ é uma frase que oiço repetir por todo o lado»

Quando o surto de sentimento despedaçou esta mão férrea [os costumes, as tradições] a mortalidade infantil caiu  e a ternura maternal tornou-se parte do mundo que tão bem conhecemos” (Shorter, 1975: 220).

Na sociedade moderna, elas colocam o bem-estar dos seus filhos pequenos acima de tudo o mais” (Shorter, 1975: 183).

No mundo moderno, a morte de uma criança marca um casal para toda a vida”  (Shorter, 1975: 188).

Bibliografia

ENGELS, Friedrich. (1985). A Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado. Lisboa. Edições Avante.

SHORTER, Edward. (1975). A Formação da Família Moderna. Terramar. Lisboa.