O grande embuste

Publicado por: Milu  :  Categoria: ISLÃO, O grande embuste

“Olho por olho, e o mundo acabará cego”.

Gandhi

O post de hoje segue a linha anteriormente traçada, que consiste na agregação de pequenos excertos que permitem dar a conhecer aos espíritos inquietos um pouco da História contemporânea, nomeadamente sobre os acontecimentos que envolvem o Islão. Ainda assim, convém ressalvar que este meu post tem somente a pretensão de levantar um pouquinho a ponta do véu que cobre a verdade sobre a invasão do Iraque, levada a cabo pelos Estados Unidos, sob o pretexto de o Iraque estar a apoiar a Al Qaeda, bem como, pretensamente, estar a desenvolver um programa de armas de destruição maciça. Sabe-se hoje, que foi tudo um embuste, e que as justificações apresentadas para a intervenção militar eram falsas. Mas o mal está feito. Teve custos. Custos humanos, sociais e económicos.

“A história de Saddam Hussein e da sua ascensão e queda confunde-se com a História do Iraque contemporâneo. Em Julho de 1958, o general Abd al Karim Qasim tomou de assalto o Palácio Real de Bagdad e mandou massacrar toda a família real, sem poupar mulheres, crianças e criados. O jovem rei Faiçal II, filho de Faiçal I, o companheiro de Lawrence na revolta árabe, sobreviveu à fuzilaria mas morreu a caminho do hospital. Com este golpe, os oficiais progressistas, inspirados pelas ideias do partido Baath, punham termo ao domínio da dinastia hachemita, que consideravam pouco patriótica e lacaia do imperialismo britânico. Depois da vitória, iniciou-se uma sucessão de golpes e contra golpes de Estado, protagonizados por várias cliques militares ligadas ao Baath. Estes golpes, geralmente sangrentos, coexistiram com consecutivas agitações curdas e com uma subida de tensão em relação às monarquias conservadoras da região.

Saddam Hussein, um jovem oriundo de famílias muito pobres da região de Tikrit, era um desses militares e militantes do Baath. Fora sobrevivendo e progredindo entre lutas político-militares e, em 1968, tornara-se vice-presidente do Conselho da Revolução e número dois de Ahmed Hassan al-Backr. É como novo homem forte do país que negoceia um acordo de paz com os curdos iraquianos. Os curdos, espalhados pelos vários Estados da região – Turquia, Irão, Iraque, Síria – vinham sendo os beneficiários e as vítimas das relações entre estes Estados, mas depois do Acordo de Argel entre o Irão e o Iraque (1975), o Xá cortara-lhes o apoio e tinham passado a ter maiores dificuldades de sobrevivência. Em 1979, Saddam alcançou a Presidência, sucedendo a al-Bakr e confirmando o poder de facto que já lhe pertencia.

Começou por proceder a uma purga estalinista entre os altos dirigentes, eliminando preventivamente centenas de suspeitos, entre inimigos reais e virtuais, para instituir uma ditadura pessoal e securitária com o terror como dissuasor. Perante a hostilidade do Irão de Khomeini, que ameaçava sublevar a maioria xiita do Iraque, e contando com as bênçãos norte-americanas e soviéticas, Saddam iniciou uma guerra contra o Irão. Mas o Irão, com uma população três vezes superior à do Iraque, reagiu e Saddam só não saiu vencido graças ao apoio de Washington, de Moscovo, de Paris e das monarquias do Golfo, assustadas com a revolução religiosa dos ayatollahs, os grandes inimigos dos sunitas.

Saddam ganhara a guerra, mas ficara com a economia destroçada e uma gigantesca dívida aos países vizinhos. Pior ainda, apesar do conflito, os preços do petróleo tinham baixado muito nesse ano de 1989, que fora também o ano do fim da Guerra Fria.

Um dos Estados credores da dívida de guerra do Iraque era o Kuwait. Assente num lençol de petróleo, com uma monarquia constitucional, uma certa modernização dos costumes e alguma liberdade intelectual, o Kuwait, governado desde os finais do século XIX pela família al-Sabah, passara de protectorado inglês à independência em 1961, sempre com o beneplácito dos britânicos. No final da guerra Irão-Iraque, com o petróleo em baixa, o Kuwait era credor de uma grande parte da dívida do Iraque. Por isso, os iraquianos procuraram, no seio da OPEP, defender uma política restritiva de produção e exportação de crude, de modo a fazer subir os preços e a revalorizar os recursos do país. Ao contrário, os kuwaitianos, além de não lhes perdoarem a dívida, não quiseram baixar a produção.

Foi então que Saddam Hussein resolveu pôr em marcha um audacioso plano, invocando velhas questões fronteiriças. Tratava-se de invadir e conquistar o Kuwait numa operação militar surpresa.

O que se passou a seguir podia fazer parte de uma narrativa de Maquiavel sobre a perfídia dos príncipes, ou de uma comédia de enganos isabelina. Deixando crescer a tensão entre os dois Estados, Saddam aproveitou um encontro dos sauditas e dos egípcios, que tentavam mediar e resolver o diferendo Iraque-Kuwait, para pôr em marcha o seu plano. A reunião foi marcada para 1 de Agosto, em Jedah. Saddam enviou o seu vice-presidente para conversar com o príncipe herdeiro do kuwait, conversa que correu amigavelmente, tendo ficado agendada nova reunião para Bagdad.

Só que, na madrugada seguinte, a 2 de Agosto, quando o dia nascia sobre o Médio Oriente, as tropas iraquianas já estavam a ocupar o Kuwait City. O pequeno emirato era tomado de assalto em poucos dias – de surpresa, com brutalidade e eficácia. A reacção não se fez esperar: desde o espanto e indignação do rei Fahd da Arábia Saudita e do presidente Mubarak do Egipto, os iludidos mediadores da negociação de Jedah, até ao presidente George H. Bush. Para os sauditas e egípcios, que tinham sido usados e manipulados para adormecer o Kuwait, era grave a ofensa. Para os norte-americanos o caso era inesperado e muito sério. Tinham consciência de que, a partir da aliança com Saddam contra o Irão e das boas relações então criadas este poderia ser concluído que a América não se entreporia no caminho. O ditador iraquiano acabava de sair de uma guerra contra os ayatollahs de teerão, em que tivera a benevolência e o apoio da comunidade internacional e dos grandes poderes. Mais importante, a embaixadora em Bagdad, April Glaspie, que Saddam chamara uma semana antes da invasão para sondar a reacção de Washington a eventuais desenvolvimentos no seu diferendo com o Kuwait, respondera-lhe que os Estados Unidos não tomavam partido nos conflitos entre árabes: «We have no opinion on your conflits with Kuwait», teria sido o comentário da Embaixadora. A partir desta resposta, Saddam teria ficado convencido de que, além de uma obrigatória censura diplomática para salvar a face, os Estados Unidos nada fariam. Na reacção da Embaixadora, Saddam lera um velado aval para a invasão. (…). O que se seguiu é conhecido.

O Muro de Berlim fora derrubado há menos de um ano, a Guerra Fria acabara, Washington e Moscovo estavam quase de mãos dadas a pôr termo aos conflitos periféricos da segunda Guerra Fria. Nascera um clima de quase paz perpétua, que o gesto de Saddam quebrava brutalmente.

Mas era muito o que estava em jogo: o Ocidente, e sobretudo os Estados Unidos, na qualidade de potência mundial, tinham para o Médio Oriente regras estabelecidas. Era do depositário das maiores reservas mundiais de petróleo que se tratava. A norma para essas reservas era o oligopólio de geometria variável, em que o maior produtor – a Arábia Saudita – mais os sultanatos conservadores do Golfo Pérsico superavam e equilibravam países hostis como o Irão. Se o Iraque, com um exército numeroso e a sair de um conflito, ocupasse o Kuwait e ameaçasse a Arábia Saudita, os riscos de que essas regras se quebrassem eram grandes. E isso Washington não queria nem podia aceitar” (PINTO, 2015: 121-125).

(…)

“No terreno militar, após uma fase de bombardeamentos concentrados contra as forças iraquianas de ocupação do Kuwait, bombardeamentos que «amaciaram» as tropas de Saddam Hussein, foi lançada uma ofensiva terrestre que levou a uma vitória rápida na reconquista do Kuwait e neutralizou as reservas militares de Saddam no Iraque. Não foi fácil construir esta coligação e mantê-la contra as manobras divisórias de Saddam Hussein, como os ataques a Israel para provocar a reacção de Telavive que logo poria em cheque a aliança norte americana com os árabes. Os iraquianos acabaram por pedir o fim das hostilidades e os Estados Unidos decidiram que era um mal menor deixar as coisas como estavam. esperavam que Saddam fosse derrubado pelos xiitas e pelos curdos, que oprimira tão duramente. Mas Saddam manteve-se e conseguiu resistir às insurreições internas, não hesitando, para isso, em recorrer a tudo – até aos gases venenosos” (PINTO, 2015: 128-129).

(…).

“A vitória da coligação sobre Saddamm Hussein não surpreendeu o mundo. Apesar da arrogância do homem forte do Iraque, tratava-se de uma aliança militar coordenada pela primeira potência mundial, com os armamentos mais sofisticados e apoiada pela maioria dos Estados da região. Tudo isto contra um poder regional médio.

No entanto, derrotada a força invasora e libertado o kuwait, Bush e a sua equipa entenderam que não deviam derrubar Saddam. A unidade do Iraque saída da Grande Guerra e do plano de Sykes e Picot era frágil: com uma minoria sunita dominante, uma maioria xiita ressentida e a agitação dos curdos do Norte, os Estados Unidos não deveriam meter-se a mudar o Regime, correndo o risco de ficarem com um país partido nos braços. Assim, limitar-se-iam a encorajar a revolta dos dissidentes – curdos e xiitas. Revolta que os insurrectos pagariam cara, perante um Saddam ferido, mas longe de se dar por vencido ou convencido” (PINTO, 2015: 129-130).

A Guerra contra Saddam

“Há múltiplos relatos e teorias sobre como surgiu em Washington a ideia de derrubar Saddam Hussein, segundo acto dessa «Guerra contra o Terrorismo» tão auspiciosamente inaugurada com a campanha do Afeganistão. George Friedman, por exemplo, sustenta que os Estados Unidos precisavam de fazer uma demonstração de força no Médio Oriente, sublinhando que os sauditas e outros poderes da região os achavam débeis depois da Guerra Fria, recuando perante ameaças e agressões – como na Somália e no próprio Médio Oriente, em face dos ataques da Al-Qaeda e dos radicais islâmicos. Além disso, depondo Saddam, os americanos podiam ocupar um país central na região e dali impor os seus interesses. Nas suas memórias, In my Time, Dick Cheney, o todo-poderoso vice presidente de Bush e grande promotor da operação, refere como justificação informações da CIA acerca da existência de contactos entre o governo de Bagdad e a Al-Qaeda para o treino de elementos da organização terrorista no uso de armas biológicas e de armas químicas. Outro factor que levaria à guerra seria a acusação de fabrico e uso, pelo Iraque, de armas de destruição maciça, nomeadamente nucleares, prontas a ser usadas contra o Ocidente” (PINTO, 2015: 129-130).

Hoje há a convicção de que grande parte dos dados fornecidos para sustentar a invasão do Iraque foi fabricada por inspiração dos chamados «neoconservadores», um grupo muito próximo dos interesses estratégicos e das concepções dos partidos da direita de Israel. Este grupo pretendia comprometer o poder americano no Médio Oriente com o apoio à política de Israel. A estratégia teria sido prosseguida de forma quase conspiratória nos meses que precederam a invasão do Iraque, com vasta manipulação de informação e pressões sobre as agências de inteligência e segurança.

Se o apoio dos governos dos países árabes e islâmicos à primeira guerra para expulsar Saddam do Kuwait fora quase unânime, o mesmo não aconteceria com a intenção de mudar o regime do Iraque. A intervenção foi vista por muitos governos árabes, mas também pelos sectores realistas norte-americanos e europeus, como uma tentativa dos neoconservadores de exportarem o modelo político-constitucional vencedor da Guerra Fria, numa nítida afirmação de superioridade civilizacional de contornos imperialistas. O que para os seus inspiradores era «tornar o mundo mais seguro, através da exportação das instituições democráticas». para os visados e para os críticos não passava de um perigoso abuso de poder” (PINTO, 2015: 161).

(…).

“A questão das armas de destruição maciça e dos esforços do governo de Saddam Hussein para conseguir armas nucleares era outro dos temas quentes. Os aliados franceses e alemães da América de Bush mostravam sérias reservas a uma invasão, havia um forte cepticismo na rua europeia e alguns dos aliados árabes também estavam renitentes. No entanto, a ofensiva foi por diante. A invasão começou com um ataque cirúrgico por dois F-117, com bombas de penetração, ao Bunker onde se supunha que Saddam pernoitava com os filhos Udai e Qusai.

Algumas mudanças na região estavam em curso: a Turquia, até aí membro indefectível da NATO e aliada dos Estados Unidos, não permitiu o uso do seu território para atacar o Iraque pelo Norte: o governo recentemente eleito do partido islâmico de Recep Erdogan e o parlamento de Ancara recusaram passagem à 4ª Divisão de Infantaria norte-americana. Mesmo assim, a campanha denominada Operação Iraqi Freedom foi um extraordinário sucesso. O novo exército que Donald Rumsfel estava a criar e quis testar num conflito real, progrediu no terreno e conheceu um baptismo de fogo excepcional” (PINTO, 2015: 162).

. (…). Além de terem um exército mais determinado, bem armado e motivado, os americanos tinham um objectivo: invadir o Iraque e derrubar Saddam Hussein. Este, pelo contrário, só queria evitar a guerra. Os seus aliados russos e franceses tinham-no convencido de que era possível vetá-la nas Nações Unidas, caso Saddam desse garantias e abrisse as portas à fiscalização internacional. Além disso, o ditador estava tranquilo: fora tolerado e apaparicado pelos Estados Unidos e pelas democracias ocidentais na guerra contra o Irão, não estava envolvido com os «fundamentalistas religiosos» e não pensava usar contra os americanos as armas de destruição maciça de que não dispunha. Até porque, ingenuamente, pensava que os americanos saberiam de tudo através dos seus canais de inteligência e, ainda mais ingenuamente, que isso contaria para a decisão.

Por isso não atacou as concentrações de tropas na Arábia Saudita quando o podia ter feito; por isso assentou numa defesa à antiga da fronteira Arábia-Kuwait-Iraque. Sobretudo, não tinha entendido as razões de fundo da guerra. Daí a derrota clara e rápida” PINTO, 2015: 162-163).

Rumsfeld e o general Tommy Franks, responsável pelo Central Command, aplicaram e testaram as novas concepções de ofensiva; os progressos tecnológicos possibilitavam a permanente observação do terreno e os satélites e os drones permitiam, através da transmissão de dados aos comandantes, o uso de bombas inteligentes e a maximalização das acções combinadas de movimento, fogo e choque. A força de invasão era essencialmente formada pelo Quinto Corpo de Exército, que incluía a 3ª Divisão Aerotransportadas, pela Primeira Força Expedicionária dos Fuzileiros Navais e pela Primeira Divisão Blindada inglesa. Foi esta força de pouco mais de 100 000 homens que bateu o quase meio milhão de soldados do exército iraquiano. À custa de 160 mortos nos 26 dias de combates“(PINTO, 2015: 163).

Se a operação militar foi magistral, a ocupação revelar-se-ia completamente desastrosa. Paul Bremer III, o procônsul ou vive-rei nomeado e investido de todos os poderes, tomou como primeira medida o desmantelamento do exército iraquiano, incluindo o Corpo de Oficiais. Fê-lo em Maio, um mês depois da invasão. Era uma decisão peregrina em termos históricos . Normalmente o vencedor, uma vez negociada a paz ou o cessar-fogo com o vencido, deixava as Forças Armadas e policiais sob algum controlo, mas não as eliminava. Ao fazê-lo, Bremer não só entregava o policiamento do país às Forças Armadas americanas, como criava uma base de recrutamento para a resistência antiamericana” (PINTO, 2015: 164).





“Eram meio milhão de homens no desemprego, que uma economia destruída não podia ocupar. Para completar, Bremer ilegalizara o partido Baath e proibira os seus antigos filiados de exercer quaisquer direitos ou cargos políticos. Se pensarmos num regime como o de Saddam Husssein, onde o partido no poder era o único caminho para os quadros económicos, profissionais e intelectuais, podemos imaginar o caos que se seguiu.

Dez anos depois, Bremer, respondendo à cadeia de televisão Al Arabiya, explicava que se baseara em conversas ocorridas em 2002 com os exilados iraquianos e confessava que o seu erro fora entregar a responsabilidade política aos dirigente iraquianos xiitas, entre eles o famoso Chalabi, exilado nos Estados Unidos e ouvido em foro de santidade nos círculos neoconservadores de Washington. Como escreveria Kishore Mahbubani na edição do National Interest de Julho de 2014:

«A invasão e ocupação do Iraque vai ficar na História como uma das mais fracassadas operações deste tipo. A América gastou 4 biliões de dólares, perderam-se milhares de vidas americanas e milhões de vidas iraquianas para, no final, não se conseguir nada.»

Ao contrário da última ocupação americana bem-sucedida (a do Japão), em que o General MacArtur respeitara algumas instituições e até deixara no trono o imperador Hirodito, no Iraque Bremer e os seus tinha feito tábua rasa institucional.

“Acolhidos como libertadores nos primeiros dias, os americanos logo foram confrontados com o terrorismo e as milícias de várias origens e com a progressiva divisão do país por linhas étnicas e religiosas. Perante o caos, o povo e as elites iraquianas sentiram-se, senão nostálgicos da ditadura familiar de Saddam, pelo menos saudosos de uma autoridade central.

Vão seguir-se anos de terrorismo e anarquia, em que as tropas americanas terão de defrontar sucessivos ataques e insurreições de diferentes grupos. A natureza fragmentada do Estado iraquiano tornava difícil manter a unidade do país, num quadro em que as forças militares e policiais, e mesmo a alta e média burocracia, estavam no desemprego. Daí atexto-justificado formação de grupos de guerrilha nas áreas sunitas e de milícias irregulares comandadas por chefes religiosos nas áreas xiitas. Os curdos, por seu turno, trataram de se instalar numa espécie de Estado independente, apesar das rivalidades entre os clãs Barzani e Talibani” (PINTO, 2015: 164-165).

Bibliografia

PINTO. N. Jaime. (2015). O Islão e o Ocidente. A Grande Discórdia. D. Quixote. Alfragide.

Telhados de vidro

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“A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos.”

Marcel Proust

Depois do ataque de 11 de Setembro de 2001 aos Estados Unidos, muito se ouviu falar de Osama bin Laden. Mas, quantos de nós sabem quem foi verdadeiramente, e quantos de nós conhecem os contextos que deram à luz o místico guerreiro? No post de hoje, disponibilizo um excerto da obra que por ora tenho em mãos, no qual é possível perceber porque se disse que os Estados Unidos, ao serem atacados daquela forma, estavam afinal, a beber do seu próprio veneno. Seja como for, de uma coisa podemos ter a certeza, que os principais países intervenientes nestas lutas têm todos os seus telhados de vidro, todos jogaram a coberto dos bastidores, todos têm a sua quota parte da responsabilidade na instabilidade da paz mundial.

À semelhança dos companheiros e soldados do Profeta, bin Laden queria unir o Corão e a Espada – ou o Corão e a Kalashnikov – numa grande cruzada islâmica para libertar o Médio Oriente dos «nazarenos e dos judeus». Osama é uma personagem estranha, radical, enigmática, uma espécie extrema e oriental de herói romântico, à Balzac ou à Stendhal. Como é que o 17º filho de um self-made man iemenita se pôde tornar chefe da Internacional Islâmica e inimigo número um do Ocidente?

O patriarca da família, Mohamed bin Laden, fora-se sucessivamente divorciando das suas mais de vinte esposas , de modo a nunca ultrapassar a quota de quatro, permitida pela lei corânica. Fabulosamente rico, mesmo para os níveis sauditas, Mohamed fizera fortuna na construção e obras públicas em Meca, onde os monumentos históricos iam dando lugar aos grandes edifícios. O jovem Osama teve a infância e a adolescência de um filho de família rica e andou na Al Thager Model School, não longe do Mar Vermelho, um dos melhores colégios de Jeddah, frequentado por príncipes e outros membros da família real, mas também por plebeus abastados, como os bin Laden.

A Al Thager («O Paraíso», em árabe) fora fundada com o apoio da Casa Real, do então príncipe e depois futuro rei Faiçal, homem de espírito modernizante. Ensinava-se Inglês, Matemática, Ciências e Estudos Religiosos. Entre os professores havia alguns adeptos da Irmandade Muçulmana, expatriados religiosos que tinham sido perseguidos pelos ditadores progressistas do Egipto e da Síria, e a quem os sauditas acolhiam por simpatia ideológica. Para os governantes sauditas, que viam no pan-arabismo secular o inimigo principal das monarquias religiosas do Golfo, justificava-se esta protecção. Foi um destes professores exilados, um sírio, que iniciou Osama e outros companheiros nos estudos islâmicos, constituindo um grupo de oração e reflexão pós-escolar.

Osama era então um jovem alto e bem constituído, praticante de judo. Os membros do grupo começaram a adoptar os modos e estilos tradicionais, imitando o profeta Maomé: deixaram crescer a barba, usavam túnicas largas e calças pelo tornozelo. Seguiam o rigorismo dos Irmãos Muçulmanos, aliado ao purismo wahabita. Além do cumprimento estrito dos preceitos, preocupava-os a restauração e a imposição da Lei Corânica em todo o mundo islâmico através do activismo político-religioso.

Na Universidade Rei Abdul-Aziz, de jeddah, Osama foi um estudante aplicado e escrupuloso na prática islâmica, suplantando os companheiroa influenciados pela Irmandade: jejuava às segundas e quintas (excedendo o exigido) e não se interessava por mulheres, ainda que tivesse casado aos 17 anos com uma sobrinha mais nova. A mãe, Hamida Ibraim, era a 11ª esposa de Mohamed e o jovem bin Laden, ainda que partidário da poligamia, criticava os sucessivos casamentos e divórcios do pai. Osama viria a casar-se cinco vezes e a ter 20 filhos, mas sem que repudiasse nenhuma das esposas.

A invasão do Afeganistão pelos soviéticos – esses outros inimigos de Deus – foi o ponto de viragem para o jovem bin Laden, o nó que iria mudar toda a sua existência e o mundo. No princípio reinara grande harmonia e equilíbrio entre os vários parceiros da cruzada anti-soviética no Afeganistão. O Congresso Americano, empurrado por Charles Wilson, tomou a iniciativa de multiplicar o financiamento da operação e os sauditas e outros potentados do Golfo pagaram o resto – que era muito, talvez o dobro do que davam os americanos.

Por sua vez, os paquistaneses da ISI (Inter-Services-Intelligence) recebiam e redistribuíam, a seu critério, estes fundos pelos vários movimentos de resistência, que nem sempre se estimavam profundamente, já que tinham diversas origens tribais e diferentes inspiradores e financiadores – dos britânicos aos iranianos. Mesmo assim era uma «boa guerra». Bill Casey negociava com os sauditas a maquiavélica manobra da descida do preço do crude para arruinar os soviéticos, e os operacionais da CIA trabalhavam intimamente com os seus homólogos paquistaneses, profissionais sofisticados, para sabotar o moral das tropas de Moscovo naquela insubmissa província do Império. Entretanto, os mujahedin internacionais batiam-se com coragem suicida no terreno, ao lado dos chefes tribais descendentes dos guerreiros que tinham derrotado os ingleses do Raj.

Tudo parecia ir pelo melhor nos meados dos anos 80. Depois das moralmente duvidosas guerras do Vietname, das promíscuas relações com os ditadores anticomunistas da Ásia e das Américas, a grande democracia americana ajudava um povo de pastores e camponeses livres, escravizados pelos comunistas do Kremlin e pelas elites colaboracionistas do governo fantoche de Cabul. A luta era saudada como justa, nobre e até racional, já que finalmente se vislumbrava uma possibilidade de vitória.

Ossama bin Laden estreou-se nessa boa guerra: primeiro como mecenas de boa vontade, financiando os combatentes do seu bolso, fazendo o vaivém Arábia-Afeganistão, recrutando os islamitas militantes que vinham para o bom combate anti-soviético; depois como comandante, entrando com o seu próprio grupo em operações contra os invasores.

Teria nascido aqui a Al-Qaeda, «A Base», ou, como alguns querem, «a Fundação», fórmula hipoteticamente inspirada no clássico de Isaac Asimov, que bin Laden terá lido.

Esta «boa guerra» do Afeganistão foi o tempo de vésperas de Osama e do núcleo duro dos seus fiéis. Aparentemente era uma guerra clara e simples: os comunistas afegãos tinham tomado o poder através de complots e chacinas sucessivas, tentando «comunizar», ou «modernizar à maneira comunista» o Afeganistão. Para tal, tinham combatido o Irão, violentado os costumes da sociedade tradicional, suprimido impiedosamente os resistentes, assassinando o povo. O recurso às armas fora uma necessidade.

Perante a queda iminente dos seus agentes locais, os comunistas de Moscovo tinham invadido o Afeganistão para os salvar e impor o seu domínio. Aí, com um maciço apoio directo ou indirecto dos países da região e do mundo islâmico, a administração Reagan estabelecera uma aliança com os senhores da guerra locais, indignados com o domínio dos ímpios estrangeiros. Com armas modernas, como os mísseis Stinger e o canhão Oerlikon, os montanheses destemidos seriam invencíveis, passando a derrubar e a destruir com perícia helicanhões M18 e tanques T-72.

Na frente era a harmonia. Nos bastidores, talvez não. Os auxílios aos guerrilheiros – que estavam dispersos por vários movimentos e partidos – vinham de forças externas que iam dos sunitas da Casa de Saud aos xiitas do Irão, do lobby do Congresso norte-americano aos complexos meandros da ISI paquistanesa, movendo agendas e interesses muito diferentes.

Como lidou bin Laden com este complexo de forças e entidades, todas elas dirigidas pelas razões dos respectivos Estados? Como reagiu ele, que se imaginava como um combatente de Deus em estado puro, apelando directamente ao rei saudita para que se libertasse dos aliados americanos? Como actuou o guerrelheiro da fé que, na universidade, bebera os ensinamentos dos Irmãos Muçulmanos directamente de Mohamed Qutb, irmão do dirigente e mártir Sayyid Qutb, e de Abdullah Azzam, um intelectual palestiniano que combatera contra os israelitas?

Osama lera as principais obras do mártir Qutb e nelas colhera a sua concepção do mundo e uma geopolítica do conflito determinada por uma cosmovisão religiosa. Para Sayyid Qutb, o partido de Deus, o dos verdadeiros crentes, enfrentava neste mundo o partido de Satã, que se confundia com o Ocidente materialista, que humilhava e corrompia os muçulmanos através da exportação das suas ideologias, costumes e mercadorias. Mas o Ocidente só podia fazê-lo com o auxílio de muçulmanos corrompidos, os das elites reformadoras, das monarquias decadentes e das ditaduras modernizantes. Também para Qutb era determinante a distinção entre o Islão, Casa de Deus, Casa da Paz, e o não-Islão, Casa da Guerra, o mundo judaico-cristão.

Embora não entrando em hostilidade directa com o Ocidente, o ensino dos wahabitas , com o seu rigorismo ortodoxo e o seu policiamento das consciências e dos costumes, contribui para esta atitude agressiva.

Com Sayyid Qubt, Osama acreditava que os cristãos e os judeus queriam conter e submeter a renascença islâmica e eram um alvo a abater. Mas a síntese entre a teoria e a doutrina política, Osama encontrá-la-ia noutro dos seus professores, Abdullah Azzam. Depois do Egipto e da Jordânia, Azzam fixou-se em Jeddah; mais tarde foi para Islamabad, no Paquistão, sempre leccionando, e em 1984, estava em Peshawar, onde Osama o voltava a encontrar.

Azzam elaborara uma teoria e uma estratégia para para a nova Jihad: a luta contra os soviéticos era a maior das lutas dos crentes, do partido de Deus. Os fundos sauditas, do Reino e de particulares, como o próprio bin Laden, sustentavam em parte essa luta, mas deveriam também financiar todo um esforço cultural e social de doutrinação junto dos exilados e refugiados. Azzam era o editor de uma revista dos afegãos no exílio, também chamada Al-Jihad.

A luta contra os soviéticos é um dever prioritário dos bons muçulmanos, mas há outros inimigos e outras batalhas; na Palestina, na Somália, nas Filipinas, na Ásia Central Soviética. Lá onde houvesse crentes oprimidos que sofressem o domínio dos infiéis, aí deveriam estar os seus irmãos, os outros membros da Umma, a fim de lhes prestarem auxílio.

A Peshawar, onde se encontram Azzam e Osama, afluem milhares de voluntários islâmicos, de «combatentes da causa de Deus». Registaram-se na central de voluntários , vindos dos mais recônditos pontos da terra. São eles que vão ser treinados no uso dos Stinger para abaterem os M18 e os SUKOI soviéticos, para lhes emboscarem os comboios militares e lhes aterrorizarem os jovens recrutas, com os seus costumes de guerrilheiros primitivos. São eles os aliados objectivos do «Grande Satã», americano na luta com o «Grande Satã» soviético.

Quando os soviéticos retiram pelo Khyber Pass, na sua primeira derrota desde a ofensiva alemã do Verão de 1941, bin Laden, segundo os ensinamentos de Azzam, quer continuar a guerra noutras frentes. E como Azzam estava demasiado ligado aos interesses e à Realpolitik dos seus financiadores sauditas para seguir esse caminho, é o multimilionário fanático, o místico guerreiro das grandes batalhas metafísicas entre o Islão e a Casa da Guerra, quem vai travar essa luta. E agora tem experiência, conhece a logística e a frente da guerra e já pensou a estratégia, já planeou as operações, já matou ou mandou matar, já viu morrer.

É um chefe prestigiado, tem companheiros prontos a segui-lo, criou uma reputação. Do mesmo modo que combateu os soviéticos ateus, combaterá os nazarenos americanos, amigos dos judeus e cúmplices dos árabes que desprezam a leis de Deus” (PINTO, 2015: 131-137).

Bibliografia

PINTO, N. Jaime. (2015). O Islão e o Ocidente. A Grande Discórdia. D. Quixote. Alfragide.

“Guerra Fria no Médio Oriente”

Publicado por: Milu  :  Categoria: "Guerra Fria...", ISLÃO

É impossível que ocorram grandes transformações positivas no destino da humanidade se não houver uma mudança de peso na estrutura básica de seu modo de pensar.”

Stuart Mill

Ficou conhecido por «Guerra Fria» o conflito político-ideológico entre os Estados Unidos, defensores do capitalismo, e a União Soviética, defensora de uma forma de socialismo. Estas duas super-potências mantinham uma relação de competição entre si por zonas de influências e aliados regionais, nomeadamente em relação ao Médio Oriente*. Detentor das maiores reservas de petróleo e de uma importante posição geopolítica, tendo em conta que serve de passagem entre a Europa e a Ásia, o Médio Oriente foi, neste contexto, um teatro de luta ideológica. Para manter e expandir as suas influências, as super-potências valeram-se de métodos menos ortodoxos, que consistiram em apoiar os seus países amigos através da ajuda militar e económica, apoio aos movimentos que tentavam derrubar governos de países não aliados, acesso a serviços de espionagem e a treinos especiais. Na luta contra a invasão soviética do Afeganistão, os EUA facultaram armamento e treinos aos combatentes muçulmanos que lutaram no Afeganistão, treinos esses que envolveram sólidos conhecimentos de organização de inteligência militar, que se traduz na capacidade de montar um comando avançado de operações. Porém, o feitiço iria voltar-se contra o feiticeiro. Ironicamente, anos mais tarde, imbuídos de ideologia radical esses combatentes promoveram ataques coordenados aos próprios EUA.

“Desde 1985 que havia um novo líder na União Soviética. Mikhail Gorbachev, secretário-geral do Partido, tinha pela frente os conflitos da sua periferia imperial – como a África Austral e a Nicarágua – e a crescente contestação ao comunismo na Europa Oriental. Só que o enraizamento da luta anti-soviética no Afeganistão punha outros problemas(PINTO, 2015:114).

“Além das dificuldades no terreno e do auxílio da CIA e dos sauditas, nascera, à volta da Guerra do Afeganistão, uma poderosa Internacional Islâmica – e nada de mais oposto ao islamismo que o ateísmo materialistas dos marxistas. Os norte-americanos tinham-no percebido bem e desde Eisenhower, nos longínquos anos 50, que apoiavam os sauditas. Os sunistas sempre se tinham visto como guardiães da Fé perante os seus rivais xiitas. Por tudo isto, na confrontação com o Irão xiita, a aliança de Washington com Riad fazia todo o sentido. Nas guerras clandestinas do Terceiro Mundo, esta aliança com os sauditas objectivava–se também na aliança clandestina prestada a movimentos anticomunistas, como os Contras na Nicarágua” (PINTO, 2015:114).

“Havia ainda as operações conjuntas entendidas entre Casey e o príncipe Bandar bin-Sultan, como o atentado falhado contra o xeique Fadlallah, dirigente od Hezbollah ( o «partido de Deus» xiita); segundo Bob Woodward, tinham sido os sauditas a financiar a operação, subcontratada por um «independente» britânico. No entanto, apesar da grande devastação e estragos humanos causados na residência do alvo (mais de 80 mortos), Fadlallah ficaria ileso” (PINTO, 2015:114).

“A cooperação estratégica com os sauditas – que financiavam generosamente os programas de apoio à guerrilha afegã – foi também muito importante na criação dos mujahedin internacionalistas que combateram os soviéticos no Afeganistão. A jihad contra os comunistas ateus era muito popular no mundo islâmico e acabou por levar até aos campos de treino do Paquistão milhares de árabes e muçulmanos dos sete cantos da terra” (PINTO, 2015:114-115).

“Um desses voluntários chamava-se Osama bin Mohamed bin Laden. Nascera em 1957, na Arábia Saudita, filho de um modesto empreiteiro que conseguira contratos para obras de restauração nos Lugares Santos de Meca e Medina e conquistara a confiança da família real saudita. Quando morreu, em 1968, o pai bin Laden deixou 11 mil milhões de dólares aos seus 54 filhos, nascidos de mais de 20 mães. Osama frequentou a Management and Economics School da Universidade Rei Abdul-Aziz de Jeddah, mas assistiu também aos cursos de Estudos Islâmicos de Mohamed Qutb e de Abdullah Azzam, um Irmão Muçulmano da Palestina” (PINTO, 2015:115).

“Ambos influenciaram profundamente o jovem bin Laden, muito religioso, casado e com dois filhos. Aos 23 anos, em 1980, Osama dedicou-se a ajudar a resistência afegã contra os soviéticos. Para tal, criou em Peshawar, no Paquistão, uma guest-house chamada Sigill Al-Qaeda (Registo da Base) ou só Al-Qaeda, «A Base». Graças à sua experiência empresarial e aos seus recursos financeiros, foi muito importante na logística dos movimentos resistentes, mas também participou em combates” (PINTO, 2015:115).

Apesar de não ter tido um papel central na guerra contra os soviéticos, Osama ganhou muita experiência e, sobretudo, sentido de estratégia. Nas bases recuadas, os guerrilheiros colaboravam nos combates contra os soviéticos, mas quase que em segunda linha, ao lado dos senhores da guerra afegãos. O facto é que os mais de 100 000 soldados soviéticos não foram capazes de controlar, ou sequer reduzir, a rebelião. O que além de atingir a reputação de invencibilidade da URSS e o seu prestígio, podia aproximar perigosamente a «guerra santa» e a revolta islamista das populações islâmicas da Ásia Central Soviética. Por isso, os generais soviéticos e o novo Secretário-Geral do Partido, Gorbachev, consideraram a retirada do Afeganistão” (PINTO, 2015:115-116).

“De resto, na Europa Oriental, multiplicavam-se os actos de contestação aos regimes comunistas. As reformas de Gorbachev tinham acabado com a solidariedade política da URSS para com os comunistas europeus do Pacto de Varsóvia, que as tropas de Moscovo já não defendiam dos inimigos. Contra o estabelecido pela doutrina Brejnev, por Ialta e pela prática do Pacto de Varsóvia, estes países podiam agora escolher a sua própria via para o socialismo. E podendo escolher uma, rejeitaram-nas a todas” (PINTO, 2015:116).

“Assim, depois de 15 000 mortos e mais de 50 000 ferido, com 100 aviões e 300 helicópteros derrubados, a URSS decidiu dar por finda a sua intervenção no Afeganistão. No dia 15 de Fevereiro, os soviéticos retiravam–se. Era o seu Vietname, a sua guerra perdida, a sua primeira derrota desde a Segunda Guerra Mundial” (PINTO, 2015:116).

Nesses anos 80 o Médio Oriente e o mundo islâmico foram atravessados por conflitos internos prolongados, mas também conheceram conflitos transfronteiriços, como as guerras israelitas-árabes, com confrontos geralmente próximos, intensos e rápidos, graças ao tipo de armamento utilizado – aviões, carros de combate, forças móveis. Entre 1980 e 1988, deu-se uma longa guerra de atrição entre o Iraque e o Irão, que além de ser uma das mais sangrentas dos tempos modernos veio expor amizades e inimizades que a Realpolitik traçava a traço firme e duro, iludindo afinidades ideológicas ou ideais compartilhados” (PINTO, 2015:116).

O ataque de Saddam Hussein surpreendeu os iranianos, a braços com as sequelas da crise dos reféns, com a hostilidade do Ocidente e da URSS e com as Forças Armadas em confusão pós-revolucionária. Mesmo assim, os ayatollahs conseguiram reorganizar–se, recuperar grande parte dos quadros médios do exército do Xá e, em dois anos, expulsaram os invasores e passaram à ofensiva. Foi então que os Estados Unidos, a França e a União Soviética vieram apoiar Bagdad, considerando o Irão xiita e religioso o inimigo principal” (PINTO, 2015:116-117).

Foram afundados alguns petroleiros na região e a guerra causou perturbação no mercado petrolífero, já que os principais inimigos eram dois grandes produtores que procuravam atingir os recursos um do outro. Era também uma guerra entre dois regimes opostos: um, talvez o mais laico da região, e o outro, o mais religioso. Guerra que acabaria por exaustão de parte a parte depois da morte do ayatollah Khomeini” (PINTO, 2015:117).

*Médio Oriente – Região do planeta localizada predominantemente no continente asiático e um país da África. Os países que fazem parte do Oriente Médio são: Arábia Saudita, Bahrein, Chipre, Egipto, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Irão, Iraque, Israel, Jordânia, Kuwait, Estado da Palestina, Líbano, Omã, Qatar, Síria e Turquia.

Bibliografia

PINTO. Nogueira, Jaime. (2015). O Islão e o Ocidente. A Grande Discórdia. D. Quixote. Alfragide.