As “Indesejadas”

Publicado por: Milu  :  Categoria: As "Indesejadas", FEMINISMO

 

“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.”

 Rosa Luxemburgo

Mais um pouco de História, desta feita sobre as mulheres do Renascimento, um movimento cultural, económico e político que surgiu na Itália do século XIV, consolidado no século XV e que se estendeu até o século XVI por toda a Europa. O Renascimento teve origem na Itália devido ao florescimento de cidades como Veneza, Génova, Florença, Roma, entre outras. Estas cidades,  enriquecidas com o desenvolvimento do comércio no Mediterrâneo, deram origem a uma rica burguesia mercantil que, no seu processo de afirmação social se dedicou às artes, juntamente com alguns príncipes e papas.

Ora, o verdadeiro objectivo deste post é, mais um vez , demonstrar através da leitura dos excertos aqui transcritos, retirados do livro “A Mulher do Renascimento”,  do terrível infortúnio que era ter nascido mulher: a eterna culpada.

Antes de prosseguir, não posso deixar de apontar um pormenor: há algum tempo, numa conversa, fiquei a saber que há quem não goste do que escrevo ou do que publico ultimamente neste meu espaço.

Dizem-me que estou sempre a enaltecer a mulher…

Mas eu entendo que o que estou a fazer é tão só a estudar a História das Mulheres, numa continuada procura do fundamento das assimetrias de valor entre homens e mulheres. Na verdade, o que me move nesta minha saga é a curiosidade e, consequentemente, o prazer da descoberta, o entendimento. Gosto de perceber porque é que determinadas coisas são de uma maneira, quando até poderiam ser de outra, bem diferente…

Exemplo:

Leia-se este pequeno trecho imediatamente a seguir e reflicta-se…

Pois que, reflectir, é mais uma  das palavras de ordem deste blog.

No citado trecho está plasmada a forma como pensamos… que os meninos ou rapazes são fortes, grandes e têm força. E que as meninas ou raparigas são bonitinhas, queridas e têm coisas bonitinhas. É assim mesmo que fazemos! Por muito que nos custe aceitar temos a cabeça cheia de preconcebidos,  de ideias socialmente construídas, tão firmemente arreigadas que nem conseguimos ver mais além.

“Um mesmo bebé era vestido ora de azul ora de cor de rosa e mostrada a pessoas adultas. Nunca foi dito o sexo da criança. Mas quem a via presumia que era rapaz ou rapariga pela cor da roupa que trazia vestida. Quando vestido de azul, o bebé fazia os adultos dizerem coisas como «Que choro tão forte que ele tem!». «Como me aperta o dedo com força!», «Que grande rapaz que ele é!». Quando vestida de rosa, a criança fazia com que as pessoas que a viam dissessem: «Que bonitinha!», «Que querida!», «Que olhos tão bonitos que ela tem!». Sem nos darmos conta, acabamos por fazer distinções entre os sexos até no modo como tocamos nas crianças, na forma como as acariciamos. É inconsciente, mas não deixa de ficar gravado para sempre.

Lígia Amâncio (2001) in Marques(2004)

 

“A maioria das mulheres do Renascimento foi mãe. A maternidade definiu as suas vidas e ocupou a maior parte dos seus anos. A partir dos vinte e cinco anos na maioria dos grupos sociais, a partir da adolescência nos círculos mais elevados, experimentaram um ciclo de parto e aleitamento e novamente parto. As mulheres pobres davam à luz cada 24 a 30 meses. Os intervalos entre os nascimentos eram regulados pelo período de lactação, que impedia mais gestações com alguma eficácia. Quando a criança era desmamada, uma gestação nova podia tomar lugar. As mulheres ricas tinham ainda mais filhos que as pobres. Como as mulheres ricas não cuidavam das suas próprias crianças, em breve concebiam outra vez depois de cada nascimento” (King, 1994: 14).

“Uma fertilidade elevada era do interesse da família abastada, cuja capacidade para prevalecer «contra as poderosas forças da morte» requeria pelo menos um herdeiro masculino sobrevivente. Como no caso da inglesa Lady Verney, ainda no século XVII, a capacidade da esposa para dar à luz herdeiros era «a sua única contribuição indispensável» para a família” (King, 1994: 14).

“A necessidade de preservar a família e conservar a riqueza levava assim as mulheres de classes dominantes a serem férteis. (…) Isabel de Aragão, esposa do rei Filipe III e mãe  de Filipe IV, «o Justo» deu à luz em 1268, 1269 e 1270; neste último ano morreu, grávida de seis meses. Henriqueta Maria, rainha do rei  Carlos I de Inglaterra, esteve grávida quase sem interrupção de 1628 a 1639. (…) A florentina Antonia Masi, que morreu em 1459 com 57 anos, tinha dado à luz 36 filhos, nove varões sobreviveram-lhe” (King, 1994: 15).

“Dar à luz é ao mesmo tempo o privilégio e o fardo da mulher” (King, 1994: 15).

“Só 20 a 50% dos europeus ocidentais podiam esperar sobreviver à infância” (King, 1994: 18).

“Onde ocorriam nascimentos ilegítimos, os regulamentos feudais cobravam impostos às mulheres  consideradas culpadas, e as cidades aprisionavam ou baniam as mulheres condenadas por fornicação. Estas eram penalidades suficientemente severas para punir a mãe, mas não tão pesadas, talvez, como a real responsabilidade de uma criança indesejada, que era apenas sua” (King, 1994: 20).

“O infanticídio era a maior causa, depois da feitiçaria, para a execução das mulheres do Renascimento, e muitas bruxas eram acusadas também de infanticídio. O peso da acusação do infanticídio recaía sobre a mãe solteira, que da morte do filho era considerada culpada, enquanto a vítima mais provável da fúria contra as bruxas era ao mesmo tempo mulher e velha. «A lei e a consciência da Europa… canalizaram a sua força sobre mulheres idosas e mães solteiras»” (King, 1994: 21).

“A acusação de mulheres nestes casos marca, portanto, perversamente o início da emergência das mulheres como criminosas e como indivíduos legalmente responsáveis” (King, 1994: 21).

“Na Metz do século XV, a acusada de infanticídio era queimada num poste onde se pregava a mão culpada, enquanto à volta do pescoço se lhe dependurava uma tábua com a imagem da criança assassinada” (King, 1994: 21-22).

“As mulheres, com muito poucas excepções, eram catalogadas em termos das suas relações com o ideal feminino de virgindade e o pesadelo da sexualidade” (King, 1994: 34).

“As filhas, que constituíam aproximadamente metade dos bebés nascidos das mães do Renascimento, entravam no mundo indesejadas. Dante referiu o terror que assaltava o pai quando do parto resultava uma rapariga”  (King, 1994: 35).

“«Crianças do sexo masculino são geradas de uma semente mais quente e seca e as do sexo feminino de uma mais fria e húmida; pois há muito menos força no frio do que no calor e, igualmente, na humidade do que na secura; e é essa a causa porque demora mais tempo para uma rapariga se formar no ventre do que um rapaz.» Preguiçosas mesmo «in utero» as raparigas eram geralmente consideradas produto de concepções «inferiores». A percepção da sua inferioridade era acompanhada de deficiências nos primeiros cuidados. Não eram saudadas nem noticiadas” (King, 1994: 36).

“Desde que nascia, a perspectiva do dote ameaçava a mulher: ela representava perda potencial mais do que ganho potencial. O dote dado pela família da noiva à do noivo, só ultrapassando a oferta matrimonial do noivo no século XII, aumentou consideravelmente durante os séculos seguintes e atingiu o máximo no Renascimento. Nessa época de florescimento cultural único, o contrato matrimonial atingiu o seu extremo de monopolaridade: a família da noiva entregava filha e dote, dinheiro e enxoval; a família do marido assumia uma responsabilidade limitada pela manutenção da esposa e viúva” (King, 1994: 37).

“As mulheres sem família, seduzidas ou violadas, tinham que se defender sem ajuda. Vulneráveis, tais mulheres pertenciam sobretudo às classes sociais mais baixas e estavam culturalmente mal preparadas para apresentar formalmente as suas queixas. Uma compensação ordenada pelo tribunal (ou doada por um benfeitor) poderia sustentá-las na condição de solteiras e sem possibilidade de contrair matrimónio ou até ultrapassar o facto da «sverginità» e permitir-lhes o casamento. Estas variações de norma, onde a fornicação era seguida pelo matrimónio ou, pelo menos, por uma compensação pela honra perdida, não disfarçam o facto de o casamento ser mais eficiente e proveitosamente negociado para uma mulher cuja castidade estava intacta, pois a castidade tinha valor monetário numa transacção matrimonial” (King, 1994: 42).

Desde o nascimento, portanto, as filhas representavam um duplo fardo para as famílias: preservação da castidade e provisão do dote” (King, 1994: 42).

“Era-lhes requerido que abdicassem, com efeito, em termos contemporâneos, de dois «direitos»: o direito à propriedade paterna além do limite do dote e o direito de escolha sexual livre. Os pais escolhiam os maridos para as filhas e negociavam os acordos de bens sem a sua participação” (King, 1994: 43).

“A asserção e talvez mesmo a reafirmação do controlo masculino das mulheres no casamento, durante o Renascimento, é um facto indiscutível, por muito difícil que seja conciliá-lo com outras impressões de uma época que descobriu, pela primeira vez, o significado da liberdade. A mesma época que elevou o matrimónio a um estado sagrado – pelo edictos de Trento no Catolicismo, pelo cultivo do sentimento familiar no Protestantismo – fortaleceu, paradoxalmente, a autoridade do marido sobre a esposa e exigiu a sua mais profunda submissão ((King, 1994: 49).

“O reformador de Estrasburgo Martinho Bucer explicou que o marido era para a mulher o que o pastor era para as ovelhas, enquanto o italiano Orazio Lombardelli ofereceu outras comparações à sua jovem noiva: tal como «a cabeça adorna o corpo, o príncipe a cidade, a pedra o anel, assim o marido adorna a esposa e ela deve não só obedecer quando ele comanda mas também quando ele não o faz (King, 1994: 50).

“No Renascimento, o tema da misoginia, longe de diminuir, floresceu com a intensidade que em tudo caracterizava a época. Numa torrente de livros, poemas e panfletos demasiado vasta para aqui ser enumerada, os autores do sexo masculino atacaram o feminino e a instituição do casamento. De facto os que se pronunciavam eram quase sempre homens, que encaravam as mulheres «como objectos ao mesmo tempo desprezíveis, aterradores e tentadores». Os ataques às mulheres eram apoiados pelo sistema da cultura erudita: filosófica, jurídica, teológica, médica, assentando na autoridade das Escrituras, dos Padres, de Aristóteles, Galeno e Tomás de Aquino”  (King, 1994: 58).

“A sua própria presença era maligna e todas as coisas contaminadas pelo contacto com o seu corpo, se menstruada ou grávida, eram perigosas para os homens, como ensinavam os filósofos naturais a partir do sórdido «De secretis mulierum»do século XIII” (King, 1994: 58).

“O vigor do ataque antifeminista é uma lembrança clara de que a mutualidade de marido e mulher não era um ideal universalmente aceite, mas sim um ideal em contradição com os outros, durante os séculos do Renascimento, quando o lugar da mulher na família parece não ter ganho, mas antes perdido, terreno. O poder moral exercido pelos homens sobre as mulheres era acompanhado de poder real, como temos visto: legal, social, sexual, físico. Estes, por seu lado, ligam-se ao seu poder sobre os bens da mulher. Este poder foi cuidadosamente preservado nos séculos do Renascimento e, na verdade, expandiu-se em detrimento do estatuto da mulher. O paradoxo de as mulheres possuírem bens (promessa de independência) e, ao mesmo tempo, não os poderem controlar (negação da mesma) é fundamental para a compreensão da posição das mulheres” (King, 1994: 58-59).

“As viúvas eram numerosas durante o Renascimento porque as mulheres casavam jovens com homens maduros, sobrevivendo-lhes. Algumas beneficiavam economicamente por morte do marido ou conseguiam levar os rendimentos do dote paterno ou do primeiro casamento, para um segundo. Quando não era conveniente, de acordo com a estratégia familiar, voltarem a casar, as viúvas recolhiam-se na invisibilidade e sujeição dos seus lares conjugais ou de origem. Perdiam o estatuto de esposa e, frequentemente, a autoridade de mãe. Fora desses nichos, em que usufruíam de protecção e respeito, a sua condição moral e económica deteriorava-se muitas vezes gravemente. (…). Nem o casamento nem a viuvez tinham sido instituídos para as beneficiar. Em Florença, era grande o grupo das mulheres solteiras idosas e pobres. As mulheres que já não tinham idade para  ter filhos tinham, na maioria dos grupos etários, maiores probabilidades de se tornarem pobres do que os homens e menores probabilidades de se tornarem ricas” (King, 1994: 71).

“Na Florença do século XVI, quase metade das mulheres de algumas famílias elevadas residia em conventos e, numa família nobre veneziana do século XVII, uma em cada três filhas era persuadida a «monacar» em vez de «maritar». As mulheres de inferior posição social viviam em conventos, como criadas e trabalhadoras. Mas as próprias freiras eram recrutadas quase exclusivamente nas linhagens ricas e respeitadas. De facto, eram estes grupos os que possuíam bens a transmitir, que precisavam de ser defendidos contra a terrível fertilidade das filhas excedentárias. E eram estes os que melhor podiam reclamar o privilégio de um asilo, humano e útil, para as raparigas a remover do ciclo de reprodução e para aquelas cuja fertilidade tinha terminado: as mães «desoladas» – significado de «relicta» viúva, em latim” (King, 1994: 92).

Na Itália do Renascimento, a maioria das mulheres que viviam dentro dos muros do convento era aristocrata e uma fracção significativa das mulheres das classes elevadas (embora apenas uma pequena fracção de todas as mulheres) vivia em clausura. Em Veneza, especialmente, o convento constitui a solução para o pai com mais filhas do que dotes” (King, 1994: 93).

“Se algumas freiras, no fim da Idade Média, apreciaram lautas refeições, beneficiaram de serviço doméstico, conversaram alegremente com visitantes estranhos, tocaram alaúde e bordaram graciosamente, mantiveram os seus amantes abertamente e deram à luz secretamente, tudo isto se explica, certamente, porque nunca tinham transposto os muros  do convento em busca do espiritual. Tinham ali dado entrada porque não podiam ou não queriam casar e não podiam ser deixadas em liberdade. Assim, a história do monaquismo feminino é, pelo menos em parte, a história do aprisionamento da mulher” (King, 1994: 95-96).

 Bibliografia

KING, L. Margaret. (1994). A Mulher do Renascimento. Editorial Presença. Lisboa.

MARQUES. Alice. (2004). Mulheres de Papel. Livros Horizonte. Lisboa.

Festivalando!

Publicado por: Milu  :  Categoria: CULTURA, Festivalando!

 

Hoje, dia 4 de Novembro de 2017, teve lugar na cidade de Marinha Grande, o evento denominado “Festival de Outono 2017“, promovido pela Universidade Sénior da Marinha Grande – Asurpi.

Deste evento fizeram parte  quatro Universidades Seniores:  Pombal, União das Freguesias da Chamusca e Pinheiro GrandeRotary Club de Porto de Mós e, como promotora e anfitriã, a Universidade Sénior da Marinha Grande.

O encontro começou de manhã, com roteiros pela cidade que incluíram a visita ao Núcleo de Arte Contemporânea,  Museu  da Indústria de Moldes, ambos alojados no Edifício da Resinagem, assim como ao estúdio de artesanato em vidro PoeirasGlass, com demonstração de fabrico ao vivo.

Como não poderia deixar de ser, também se procedeu à visita do Museu do Vidro no Palácio Stephens e ao Ateliê  do Vidro com demonstração de fabrico  de pequenas peças em vidro com o uso de maçarico.

Cumpridos os roteiros preconizados e todos já com um ratinho no estômago, dirigimos-nos  para o restaurante da Cooppovo – Cooperativa de Consumo do Povo da Marinha Grande, para retemperarmos as forças.

A tarde, que se prolongou até cerca das 18:00 horas, foi abrilhantada com as actuações dos Jogralesa – Clube de Músicos da Marinha Grande e  dos Grupos de Cantares e Tunas das respectivas Universidades Seniores, nas acolhedoras  instalações do Sport Operário Marinhense.

Após o espectáculo e antes das despedidas houve mais uma oportunidade para o convívio, foi servido um opíparo lanche, composto pelas mais  diversas iguarias, de fazer crescer na boca copiosos rios de água!

As fotos presentes nesta galeria dispensam mais descrições do decurso deste encontro de Universidades Seniores.

Nota: Nesta galeria não constam fotos do Museu de Arte Contemporânea nem do Museu do Vidro, uma vez que não foi permitido tirar fotos.

 

Foi um Sucesso! Está de Parabéns, mais uma vez, a Universidade Sénior da Marinha Grande – Asurpi.

 

 

Galeria de Fotos

 

Foto 1 – Com um grupo de alunos da Universidade Sénior de Pombal

Foto 2 – Chegada do grupo de alunos da Universidade Sénior de Pombal

Foto 3 – Chegada do grupo de alunos da Universidade Sénior de Pombal

Foto 4 – Calcorreando o centro histórico da cidade de Marinha Grande

Foto 5 – Museu da Indústria de Moldes

Foto 6 – Museu da Indústria de Moldes

Foto 7 – Museu da Indústria de Moldes

Foto 8 – Museu da Indústria de Moldes

Foto 9 – Museu da Indústria de Moldes

Foto 10 – Museu da Indústria de Moldes

Foto11 – Museu da Indústria de Moldes

Foto 12 – Museu da Indústria de Moldes

Foto 13 – Museu da Indústria de Moldes

Foto 14 – Ateliê do Vidro, com fabrico de pequenas peças em vidro a maçarico

Foto 15 – Ateliê do Vidro, com fabrico de pequenas peças em vidro a maçarico

Foto 16 – Estúdio de fabrico de vidro ao vivo PoeirasGlass

Foto 17 – Estúdio de fabrico de vidro ao vivo PoeirasGlass

Foto 18 – Estúdio de fabrico de vidro ao vivo PoeirasGlass

Foto 19 – Estúdio de fabrico de vidro ao vivo PoeirasGlass

Foto 20 – Estúdio de fabrico de vidro ao vivo PoeirasGlass

Foto 21 – Almoço no Restaurante da  Cooppovo – Cooperativa de Consumo do Povo da Marinha Grande

Foto 22 – Almoço no Restaurante da  Cooppovo – Cooperativa de Consumo do Povo da Marinha Grande

Foto 23 – Almoço no Restaurante da  Cooppovo – Cooperativa de Consumo do Povo da Marinha Grande

Foto 24 – Almoço no Restaurante da  Cooppovo – Cooperativa de Consumo do Povo da Marinha Grande

Foto 25 – Almoço no Restaurante da  Cooppovo – Cooperativa de Consumo do Povo da Marinha Grande

Foto 26 – Almoço no Restaurante da  Cooppovo – Cooperativa de Consumo do Povo da Marinha Grande

Foto  27 – Actuação dos Jogralesa

Foto 28 – Entrega de Lembranças à Universidade Sénior de Pombal, na pessoa sua representante e coordenadora

Foto 29 – Entrega de Lembranças à Universidade Sénior de Pombal, na pessoa sua representante e coordenadora

Foto 30 – Actuação do grupo de alunos da Universidade Sénior da União das Freguesias da Chamusca e Pinheiro Grande

Foto 31 – Actuação do grupo de alunos da Universidade Sénior de Pombal

Foto 32 – Actuação  do grupo de alunos da Universidade Sénior Rotary de Porto de Mós

Foto 33 – Actuação  do grupo de alunos da Universidade Sénior da Marinha Grande

Foto 34 – Actuação  do grupo de alunos da Universidade Sénior da Marinha Grande

Foto 35 – Hora do lanche, após o espectáculo decorrido durante a tarde

Foto 36 – Hora do lanche, após o espectáculo decorrido durante a tarde

Foto 37 – Hora do lanche, após o espectáculo decorrido durante a tarde

Foto 38 – Hora do lanche, após o espectáculo decorrido durante a tarde

Foto 39 – Hora do lanche, após o espectáculo decorrido durante a tarde

Foto 40 – Hora do lanche, após o espectáculo decorrido durante a tarde

Foto 41 – Hora do lanche, após o espectáculo decorrido durante a tarde

Populismo

Publicado por: Milu  :  Categoria: POLÍTICA, Populismo

 

“Se os porcos pudessem votar, o homem com o balde de comida seria eleito sempre, não importa quantos porcos ele já tenha abatido no recinto ao lado.”

Orson Scott Card

Tendo em conta os acontecimentos do nosso tempo, e para que seja cada vez mais difícil comerem-nos as papas na cabeça, eis um post sobre o Populismo, cuja  característica básica é o contacto directo com as massas urbanas, consistindo  numa estratégia que lavra forte no plano dos afectos e da teatralidade, através do uso de manifestações e discursos populares, abundantemente difundidos pelos  órgãos de comunicação social.

Este post foi elaborado com trechos retirados de um livro editado já neste ano de 2017, da autoria de MUDDE & KALTWASSER, apresentado como uma breve introdução com textos exclusivos para a edição portuguesa sobre as eleições nos Estados Unidos.

 

“«Populismo» é uma das principais palavras da moda do século XXI. O termo é utilizado para descrever presidentes de esquerda na América latina, partidos de oposição de direita na Europa e candidatos presidenciais tanto de esquerda como de direita nos Estados Unidos” (MUDDE & KALTWASSER, 2017: 13).

“Uma abordagem mais recente considera o populismo, em primeiro lugar, como uma estratégia política empregada por um tipo específico de líder que procura governar recorrendo ao apoio directo e não mediado das bases. É especialmente popular entre os estudiosos das sociedades latino-americanas e não ocidentais. A abordagem enfatiza o facto de o populismo implicar a emergência de uma figura forte e carismática, que concentra o poder e mantém uma ligação directa às massas” (MUDDE & KALTWASSER, 2017: 16).

“Uma abordagem final considera o populismo predominantemente como um estilo folclórico de política, de que líderes e partidos fazem uso para mobilizar as massas. Esta abordagem é popular em especial nos estudos de comunicação (política), assim como nos media. Neste entendimento, o populismo refere-se a uma conduta política amadora e não profissional que visa captar o máximo a atenção dos media e o apoio popular” (MUDDE & KALTWASSER, 2017: 17).

“Por exemplo, num discurso de campanha proferido na Florida em Outubro de 2016, Trump afirmou: «O nosso movimento visa substituir um establishment falhado e corrupto por um governo controlado por vocês, o povo americano». A sua vitória surpreendente das eleições presidenciais de 2016 mostrou que, contrariamente às expectativas, o populismo de direita constitui uma estratégia viável para chegar a cargos políticos nos Estados Unidos (MUDDE & KALTWASSER, 2017: 43).

“O comunismo e o fascismo namoraram o populismo, em especial durante as suas fases de movimento, numa tentativa de granjear o apoio das massas. Na essência, contudo, ambos devem ser vistos como ideologias e regimes elitistas, e não populistas. Isto é mais evidente no caso do fascismo, que nas suas diferentes variedades exalta o líder (Führer) e a raça (nacional-socialismo) ou o Estado (fascismo), e não o povo” (MUDDE & KALTWASSER, 2017: 49).

Foi só no final da década de 1990 que o populismo se tornou uma força política relevante na Europa. Dando resposta às frustrações sentidas quanto aos efeitos tanto das antigas como das novas transformações da política e da sociedade europeias, nomeadamente a integração europeia e a imigração, apareceram partidos populistas de extrema direita em todo o continente, embora com níveis diferentes  de sucesso político e eleitoral. Estes partidos conjugam o populismo com duas outras ideologias: autoritarismo e nativismo. A primeira destas refere-se à crença numa sociedade estritamente regulada e é expressa numa ênfase em questões de «lei e ordem»; a segunda diz respeito à noção de os Estados deverem ser habitados exclusivamente pelos elementos do grupo nativo («a nação») e os elementos não nativos («estrangeiros») constituírem uma ameaça ao Estado-nação homogéneo. Assim a natureza xenófoba do actual populismo europeu deriva de uma concepção específica de nação, assente numa definição étnica e chauvinista do povo. Isto quer dizer que actualmente o populismo, o autoritarismo e o nativismo estão a viver uma espécie de casamento de conveniência na Europa (MUDDE & KALTWASSER, 2017: 50).

O paradigma de partido populista de extrema-direita é a Front National (FN – Frente Nacional) de França, criada em 1972 por Jean-Marie Le Pen, ex-deputado pela UDCA. Le Pen transformou a extrema-direita desorganizada e elitista francesa num partido populista radical de direita bem organizado, que inspirou partidos e políticos em toda a Europa. Le Pen afirmou «dizer o que você pensa» e lançou a FN contra o «Gangue dos Quatro», isto é, os quatro partidos estabelecidos na altura. Os partidos populistas da direita radical também conjugam nativismo e populismo na sua agenda económica de chauvinismo em relação aos benefícios sociais e na sua agenda política de eurocepticismo. Acusam a elite de destruir o Estado social para incorporar os imigrantes, o seu suposto novo eleitorado, e exigem um Estado social que ponha em primeiro lugar «o seu próprio povo»” (MUDDE & KALTWASSER, 2017: 50-51).

“Apesar de na Europa o populismo permanecer sobretudo de direita, a Grande Recessão deu um novo impulso ao populismo de esquerda. Na Grécia, a devastação económica convenceu um grande número de grupos de esquerda radical a juntar-se na nova e populista Coligação da Esquerda Radical (Syriza), ao passo que em Espanha os protestos dos Indignados abriram caminho ao nascimento de um novo partido, o Podemos. este populismo de esquerda é bastante parecido com o do movimento Occupy na América do Norte, embora cada agente tenha os seus inimigos e terminologia específicos – para o Syriza, a UE constitui uma parte importante da elite, ao passo que o Podemos opõe-se sobretudo a «la casta», a expressão pejorativa que utiliza para nomear a elite política nacional” (MUDDE & KALTWASSER, 2017: 53-54).

“Em aproximadamente 150 anos, o populismo passou de um pequeno grupo elitista na Rússia dos czares e de um grupo grande mas desorganizado em partes dos Estados Unidos a um fenómeno político diversificado que cobre o globo. A sua ascensão está estritamente ligada à ascensão da democracia no mundo. O populismo e a democracia eram fenómenos relativamente raros no final do século XIX, mas ambos estão agora disseminados. Não se quer com isto dizer que os dois estão necessariamente ligados: o populismo pode existir em regimes autoritários e muitas democracias não têm agentes populistas relevantes. Mas enquanto ideologia que exalta a vontade geral do povo, o populismo tira partido da crescente hegemonia global do ideal democrático, assim como das possibilidades oferecidas pela democracia eleitoral e das frustrações criadas pela democracia liberal”(MUDDE & KALTWASSER, 2017: 56-57) .

Todos os fenómenos políticos são produto de um contexto cultural, político e social mais ou menos específico e o populismo não constitui excepção. É por esta razão que o populismo assume uma grande variedade de formas. A forma específica que o populismo acaba por adoptar depende das queixas sociais preponderantes no contexto em que opera. Os agentes populistas são especialistas em detectar e politizar problemas sociais que, intencionalmente ou não, não estão a ser tratados pelas forças políticas dominantes de modo adequado. Mas sendo o populismo um conjunto muito básico de ideias, este surge necessariamente ligado a uma ideologia hospedeira, e esta é determinante para fornecer uma interpretação específica de «povo» e «elite»” (MUDDE & KALTWASSER, 2017: 56-57).

“(…) vale a pena referir que o populismo está geralmente associado a um líder (masculino) forte, cujo carisma pessoal – e não o seu programa ideológico – constitui a base do apoio granjeado. Embora os líderes (masculinos) carismáticos sejam importantes no populismo, a mobilização populista não está sempre ligada a um líder carismático” (MUDDE & KALTWASSER, 2017: 59).

Uma vez que o populismo é em geral utilizado para atacar o poder instituído, os eruditos e os académicos tendem a afirmar que este é contra a representação política. Afinal de contas, os agentes e o eleitorado populistas afirmam habitualmente que os partidos políticos existentes são organizações corruptas. Contudo, isso não significa que o populismo seja intrinsecamente contrário à representação política. O que os populistas querem é os seus representantes no poder, ou seja, representantes do «povo». Assim, os seus partidos políticos usam o populismo para desafiar o poder instituído e dar voz a grupos que não se sentem representados. Com efeito, a ascensão dos partidos populistas e a sua força eleitoral estão directamente relacionadas com a sua capacidade de politizar determinadas questões que, deliberada ou indeliberadamente, não estão a ser tratadas de modo adequado pelos partidos políticos existentes. No momento em que os partidos políticos se tornam relevantes e se apropriam de uma questão, conquistam um espaço na paisagem política, obrigando os outros partidos a reagir e a ter em conta a questão abordada. Embora o movimento social também pudesse obter este efeito, a capacidade acrescida de granjear votos (e assentos) torna muitas vezes os partidos populistas mais eficazes” (MUDDE & KALTWASSER, 2017: 70).

 

“«o populismo requer os indivíduos mais extraordinários a conduzir as pessoas mais comuns»” 

Paul Taggart (MUDDE & KALTWASSER, 2017: 81).

“(…) há algo que os líderes populistas têm em comum: apresentam-se como a voz do povo [vox populi], o que quer dizer ao mesmo tempo como outsiders políticos e como genuínos representantes do povo comum. Esta imagem é construída cuidadosamente pelo líder populista, baseada num conjunto de características pessoais, e nem sempre reflecte a realidade. Considere-se, por exemplo, o caso de Donald Trump, o bilionário sem experiência política que venceu as eleições presidenciais norte-americanas em 2016 e que, nos seus discursos de campanha, se apresentava a si próprio, como um outsider a lutar pelo «povo» e Hillary Clinton, sua adversária na corrida, como uma insider a lutar pelos insiders” (MUDDE & KALTWASSER, 2017: 82).

 

Bibliografia

MUDDE, Cas. KALTWASSER, R., Cristóbal. (2017). Populismo. Graviva. Lisboa.