Adestramento

Publicado por: Milu  :  Categoria: Adestramento, SOCIOLOGIA DA FAMÍLIA

 

 

“Alguns têm na vida um grande sonho e faltam a esse sonho. Outros não têm na vida nenhum sonho, e faltam a esse também.”

 

Fernando Pessoa

Li, por aí, algures, e mesmo a propósito, que o adestramento é um processo contínuo, sistemático e organizado que permite desenvolver habilidades, conhecimentos e destrezas necessárias para desempenhar um trabalho de forma eficiente. Se bem visto, a definição de adestramento assenta que nem uma luva  ao processo a que é submetida praticamente metade do total da população humana, ou seja, os seres humanos de sexo feminino.

Quando uma menina nasce, ela vai ter de aprender a agir e a pensar de acordo com um determinado guião, de forma a que futuramente aquela menina se torne no tipo de mulher que se deseja, que convém. A menina irá, deste modo, perder a sua matriz original, o potencial e capacidade de realização que nasce com ela, para ser substituída por uma matriz construída, conveniente, há muito definida. Ficará assim bem domada. Se lhe parece história o que acabou de ler, recomendo que  leia o excerto que se segue, da autoria de Colette Dowling no seu livro “Complexo de Cinderela”. Não foi à toa que Simone Beauvoir pronunciou a célebre frase “Não se nasce mulher, torna-se”, o que significa que à mulher é impingido um determinado comportamento – tu, mulher, terás de ser desta maneira. “Assim Seja Ela!”, já dizia Benoîte Groult.

 

Há já algum tempo que os psicólogos sabem que as necessidades de afiliação femininas são mais fortes do que as masculinas, mas só recentemente desvendou-se a razão disso graças aos estudos realizados sobre as meninas. Por causa de uma dúvida intensa e profundamente assentada quanto à sua própria competência (desenvolvida desde o início da infância), as meninas se convencem de que precisam ter protecção, sob pena de não sobreviverem. Esta crença é incutida nas mulheres pela acção de expectativas sociais de base enganosa e pelos temores dos pais. Como veremos, uma ignorância monumental modela  a forma de pensar dos pais sobre as filhas, de sentir em relação a elas e de interagir com elas. As meninas têm sua capacidade de se fazerem seres humanos independentes coartada pelas atitudes protectoras dos pais – tal como se tivessem os pés atados.

O treinamento oferecido às meninas é diverso do oferecido aos meninos. O delas leva-as a transformarem-se em adultas que se submetem indefinidamente a empregos de nível inferior ao das suas capacidades. Leva-as a sentirem-se intimidadas pelos homens que desposam, e a acatar-lhes todas as palavras na esperança de serem protegidas. Leva inclusive, como veremos, à debilitação  das faculdades  intelectuais femininas.

Elogiadas pelos professores por nossa diligência e bom comportamento na escola, nós, confiantes em que tais qualidades nos ajudarão a vencer no mundo profissional, logo nos apercebemos de que somos tratadas como se não fôssemos tão crescidas assim.

(…)

Desde tempos imemoriais os homens vêm demonstrando que, na grande ordem das coisas, as mulheres realizam muito pouco. Onde, perguntam eles, estão as físicas que revolucionaram o conhecimento científico? Como é que inexistem Bartoks do género feminino? (Tais questões são geralmente levantadas no intento de se abafarem quaisquer sugestões no sentido de as mulheres serem tão inteligentes quanto os homens). Novos estudos evidenciam cada vez mais que as mulheres se «impedem de progredir». Nós sabotamos nossa própria originalidade. Andamos em segunda – evitando as marchas potentes que possibilitam maior velocidade – como se tivéssemos sido programadas para fazê-lo.

E na realidade o fomos.

A psicologia vem investigando de perto como as mulheres agem e se sentem em relação ao modo como foram ensinadas a se comportar e forçadas a se sentir quando crianças. É chocante saber que o quadro mudou bem pouco nos últimos vinte anos? A forma pela qual as meninas são socializadas continua a predeterminar um doloroso conflito quanto à independência psicológica necessária para as mulheres se libertarem e assumirem o seu lugar ao sol.

O Aprendizado

Gostamos de pensar que, como pais, estamos fazendo tudo diversamente – que as nossas filhas não sofrerão os efeitos da criação discriminatória e super-protectora a que fomos sujeitas. Contudo, as pesquisas indicam que a maioria das crianças de hoje estão sendo desvirtuadas pelos mesmos tipos de papéis fixos (e artificiais) com que você e eu nos identificamos.

A dominação masculina – e sua cúmplice feminina – podem ser observadas já nas crianças das escolas maternais.

 

Esta cena foi observada entre duas crianças de quatro anos de idade, na sala de brinquedos de um jardim de infância, e relatada na revista “Harper’s” pela supervisora do grupo de crianças, Laura Carpenter.

«Outra cena que observo de vez em quando é mais ou menos a seguinte», escreveu ela. «Três ou quatro meninos pequenos se sentam de volta de uma mesinha na cozinha de brinquedo. Os meninos começam a requisitar coisas: «Me dá uma xícara de café!», ou «Me passa a manteiga!», ou ainda: «Mais torrada!», enquanto as meninas põem-se a correr freneticamente entre o fogão e a mesa, cozinhando e servindo.

(…)

As meninas nesse jardim de infância estavam actuando um antigo sistema de troca: servir o amo em troca de protecção. Professores, terapeutas e demais profissionais que trabalham ou estudam com jovens do sexo feminino deploram a continuidade da existência do Complexo de Cinderela – a crença, por parte das meninas, de que sempre haverá alguém que irá cuidar delas. «Apesar de toda a ênfase que hoje se coloca na ampliação de papéis femininos, não houve mudanças significativas na preparação das meninas para a idade adulta», disse Edith Phelps, directora executiva do Girls Clubs of America (Clubes de Meninas da América9, numa recente conferência. «Sua preparação continua no máximo destrutiva – e no mínimo cheia de conflitos».

Estudando adolescentes na University of Michigan, a psicóloga Elizabeth Douvan descobriu que, até a idade de dezoito anos (e às vezes além dela), as meninas praticamente não mostram nenhum impulso para a independência, não se rebelam nem confrontam a autoridade, e não defendem «seus direitos de formar e preservar crenças em mecanismos de controle independentes. Com respeito a todos esses aspectos, elas diferem dos meninos.

E os dados mostram que a dependência nas mulheres cresce à medida que elas ganham mais idade.

Também revelam, surpreendentemente, que, desde bem pequenas, as meninas são treinadas para a dependência, ao passo que os meninos são treinados para se livrarem dela.

Como começa tudo isso?

As meninas iniciam o jogo da vida um passo adiante dos meninos. Elas são mais habilitadas verbal, perceptual e cognitivamente. Desde o nascimento elas contam com uma vantagem, em termos desenvolvimentistas, equivalente a quatro ou seis semanas de vida. Quando entram na primeira série do primeiro grau, as meninas se encontram um ano à frente dos meninos, nesses aspectos.

Eleanor Maccoby, uma psicóloga de Stanford com especialização em factores psicológicos da diferença de sexos, responde que «a chave do problema reside em se ou quão cedo a menina é encorajada a assumir a iniciativa, a responsabilidade por si mesma, e a resolver sozinha seus problemas, em vez de, para isso, depender de outrem».

Acontece que os comportamentos reforçados nas meninas não são reforçados nos meninos. Muito do que se considera «bom» em garotinhas é considerado extremamente repulsivo em garotinhos.

Timidez e fragilidade, ser «bem comportada» e quieta, e depender dos outros para obter auxílio e apoio são coisas julgadas naturais – se não desejáveis – nas meninas. Os meninos, em contrapartida, são activamente desencorajados  a apresentarem formas dependentes de relacionamento – elas os tornam «maricas». Gradualmente, diz Judith Bardwick, «o filho é forçado a apresentar comportamentos independentes e recompensado por isso»…

Bibliografia

 

DOWLING, Colette.  (1982).Complexo de Cinderela. Melhoramentos. São Paulo. 89-92.

Asas para a Arte

Publicado por: Milu  :  Categoria: Asas para a Arte, SOCIOLOGIA DA FAMÍLIA

 

“Nunca pintei os meus sonhos. Pintei a minha própria realidade.”

Frida Kahlo

Já cheguei a ler algures que, numa tentativa de justificar a teoria que postulava que a mulher era intelectualmente inferior ao homem, não faltou quem tivesse a veleidade e a ousadia de afirmar que era a própria História que o confirmava, uma vez que esta, praticamente só refere  homens quer no domínio das ciências, quer nas artes. E, de facto, às primeiras impressões,  assim parecia ser. Ora, se formos para o domínio das artes plásticas, quem é que nunca ouviu falar de Vicent Van Gogh, Salvador Dalí, Pablo Picasso, Auguste Renoir, Leonardo da Vinci, Michelangelo, etc, etc, etc? Mas, e as mulheres artistas plásticas famosas quem foram, e quantas foram? Porque não ouvimos falar delas com a mesma constância que ouvimos falar dos seus congéneres masculinos?

Para perceber esta problemática decidi fazer uma breve pesquisa, que me permitiu elaborar este post, com base em  dois testemunhos. O primeiro testemunho versa sobre a  “A Invisibilidade da Mulher na História da Arte”  e retrata uma época a partir do século XVI, que pode ser consultado aqui e o segundo testemunho consta no livro “Cantando a Plenos Pulmões” de Bepko & Krestan (1993).

A Invisibilidade da Mulher na História da Arte

“Não obstante, pintores, escultores e poetas não se coibirem de tomar as mulheres como modelos, era restringido à mulher o acesso à educação, sobretudo no domínio científico e  excluídas da Escola de Belas Artes. 

A mulher foi mantida  mais ou menos à margem da produção artística, consequentemente silenciosa e ausente na História da Arte, embora sempre tivessem havido mulheres artistas. O que lhes faltou  foi campo propício para desenvolver livremente o seu talento. Excepto as que por condição de nascimento ou devido a uma certa intrepidez ousaram dar curso ao génio criativo.

Muito embora hajam menções de mulheres artistas na antiguidade, assim como na idade média, as mulheres artistas são geralmente ricas aristocratas alfabetizadas e freiras que alimentaram uma produção de trabalhos artísticos associados aos bordados, aos têxteis e ao desenho e pinturas de iluminuras. A mais representativa das mulheres intelectuais e artistas desta época foi  Hildegard von Bingen. Na pintura algumas mulheres conseguiram desenvolver actividade artística como profissionais a partir de meados do século XVI. Foi o caso de Caterina van Hemessen (1528-1587); Sofonisba Anguissola (1531-1625), considerada a primeira artista do Renascimento a adquirir fama internacional; Lavínia Fontana (1522-1614); Artemisia Gentileschi (1593-1653), é geralmente considerado o primeiro grande nome da pintura no feminino. Seguindo a regra, é filha de um pintor, Orazio Gentileschi, talentoso representante do Caravaggismo.

Todas elas têm uma particularidade comum – são filhas de pintores bem sucedidos. E muitas outras lhes sucederam. Apesar de todo este capital feminino nas artes foi lento e difícil o processo de emancipação da mulher ao longo de milénios. Rosa Bonheur (1822-1899), artista famosa foi ao ponto de trocar as roupas de mulher pelas de homem para transpor obstáculos e ganhou muito dinheiro com a sua pintura. Recebeu uma medalha de ouro na exposição de 1848 e veio tornar-se Oficial da Legião de Honra em 1894.

Chegado o século XX, umas poucas mulheres impuseram-se no mundo da arte  por força do seu talento e, por vezes, fortes personalidades e naturezas transgressoras. Graças à proximidade temporal, conhecem-se as sua biografias em detalhe, facto que, associado a percursos de vida mais ou menos atribulados, despertou o interesse do cinema, como aconteceu com Frida Kahlo (1907-1954), a artista mexicana que, apesar de casada com Diego Rivera, com tudo o que isso acarreta em termos de dificuldades para a sua afirmação, consegue individualizar uma obra de grande originalidade” (Nabais, 2008).

Sofonisba Anguissola

 

Lavínia Fontana

 

“Cantando a Plenos Pulmões”

 

“As décadas de 1940 e de 1950 e todo o período posterior à Segunda Guerra Mundial testemunharam a emergência de uma vanguarda americana na arte. O expressionismo abstracto começara a instalar-se.

Foi o auge daquilo a que chamamos «modernismo», a época em que ainda acreditávamos em valores absolutos e numa estética pura. Antes disso, durante a Depressão dos anos 30, os artistas americanos começaram a formular um papel social para as artes visuais. Vários artistas, tais como Lee Krasner, Louise Nevelson e Alice Neel, conseguiram o primeiro apoio financeiro para programas apoiados pelo patrocínio governamental.

De acordo com um autor, durante a década de 1939 havia «hostilidade pública contra trabalhadoras mas também havia patrocínio governamental para as artistas». Foi como se a convicção de que as mulheres não podiam ser criativas, que persistira desde Freud e mesmo antes, tivesse sido temporariamente suspensa.

A necessidade era a mãe da invenção.

Assim como a Segunda Guerra Mundial oferecera oportunidades e empregos para as mulheres no início da década de 1940, a época da Depressão oferecera às mulheres um acesso ao mundo da arte através de projectos com fundos governamentais.

Mas quando a Depressão terminou, a história mudou.

Lee Krasner

A carreira da artista Lee Krasner exemplifica alguns desses avanços e recuos da mulher como sujeito/artista até à mulher como objecto/esposa. Lee Krasner já era uma artista reconhecida quando se casou com Jackson Pollock em 1945, depois de conhecê-lo em 1941.

Assim como ela teve de sair do mundo dos projectos artísticos com pleno apoio do governo para o das galerias particulares e marchands, houve igualmente uma transição na maneira como era vista pelo mundo artístico. A imagem de «Mrs. Pollock/esposa obscureceu Lee Krasner/pintora no mundo artístico de Nova Yorque». O apoio anteriormente sem preconceitos do governo para as artes terminou nas décadas de 1940 e de 1950 e Krasner e as suas colegas foram confrontadas com a opinião amplamente divulgada de que as mulheres não sabiam pintar.

O discípulo de Freud, Havelock Ellis, dissera que «só os homens possuíam as asas para a arte». E o maior cumprimento que Hofmann, um conhecido professor de pintura, tinha para as suas alunas ecoava em Ellis: «Esta pintura é tão boa que ninguém diria que foi feita por uma mulher».

Depois de Krasner e Pollock abrirem uma exposição conjunta em 1949, intitulada «Marido e Mulher», as críticas e as experiências negativas foram tantas que Krasner não conseguiu expor durante dois anos e destruiu muitas das suas próprias pinturas.
Só podemos deduzir que ela ficou devastada e temporariamente renunciou à parte da imagem dividida que representava o seu lado artístico.

Elaine Kooning, outra importante artista casada com um famoso artista, Willem de Kooning, passou por um dilema semelhante. Eventualmente, tanto Krasner como Elaine de Kooning passaram a assinar as suas obras apenas com as iniciais para evitar o título de «femininas».
A reacção crítica a muitas das artistas importantes do período foi trivializar as suas contribuições, estabelecendo portanto uma maneira diferente de falar sobre a arte. O’Keeffe e outras artistas mais antigas só eram citadas em termos de categoria especial estabelecida pelo mundo artístico como arte «feminina«. Esta tentativa de marginalizar as mulheres ao estabelecer categorias críticas especiais para a sua arte tem paralelo nas críticas literária, musical e em todas as outras áreas de expressão artística feminina.

Assim, a forma de vida feminina nos anos 40 e 50, mesmo a de artista, a que era potencialmente sujeito da sua própria vida, ainda estava a ser inexoravelmente moldada pelo padrão da mulher devotada ao lar e à família. A tentativa de reconciliar a imagem dividida foi expressa intensamente pelas pinturas da femme-maison de Louise Bourgeois, exibidas pela primeira vez em 1947. São pinturas com casas colocadas no topo de corpos femininos em vez de cabeças. Os críticos da época disseram que as pinturas afirmavam uma identificação «natural» entre a mulher e o lar. Chadwick diz: «Nestes trabalhos inquietantes, a domesticidade, mostrada através de fachadas vazias e de janelas pequenas, define as mulheres mas nega-lhes a voz.»” (Bepko & Krestan, 1993: 71-73).

 

Conceito de mulher dividida: “a experiência feminina foi reforçada por uma sociedade que acreditava que «as mulheres não podem pintar, as mulheres não podem escrever». As mulheres foram feitas para amar. As emoções e os sentimentos prescritos pelos papéis de esposa e de mãe eram considerados um domínio feminino e a acção e a criatividade, um domínio masculino. Para uma mulher, amar significava ser o objecto amado, a amada, e tratar das necessidades dos outros. A história cultural faz-nos pensar que a divisão é algo real, que as energias do amor nutridor e do amor enquanto paixão criativa são distintas e separadas e que não podem ser contidas numa pessoa. Ou se põe a individualidade de lado e se ama, ou se desiste do amor e se cria. Abandonar o amor pela paixão criativa significa ser menos mulher e o que ela cria é de pouco valor” (Bepko & Krestan, 1993: 31).

Bibliografia 

BEPKO, Cláudia. KRESTAN, Jo-Ann. (1993). Cantando a Plenos Pulmões. Editora Rocco, Lda. Rio de Janeiro.

Webgrafia

NABAIS, Joaquim. (2008). A Invisibilidade da Mulher na História da Arte. Câmara Municipal de Penamacor. (consultado  no dia 17/09/2017 no site

http://www.cm-penamacor.pt/00_exposicoes/invisibilidade_da_mulher.pdf

 

A morte do príncipe encantado

Publicado por: Milu  :  Categoria: A morte do príncipe..., FEMINISMO

 

“Viver é isso: Ficar-se equilibrando o tempo todo, entre escolhas e consequências.”

 Sartre

 

Na saga de tentar compreender o mundo que me rodeia, os jugos a que somos submetidos (as), eis mais um excerto de um livro que me ajudou a esclarecer algumas das minhas antigas interrogações. Com Colette Dowling  no seu “Complexo de Cinderela”, porque tudo tem uma origem, uma explicação. Muito importante: Aconselho vivamente a que leiam o trecho que se encontra no fundo do post, logo após as referências bibliográficas.

 

Estou só no terceiro andar de nossa casa, de cama, em razão de uma forte gripe, tentando evitar que a doença passe aos outros. Sinto o quarto grande e frio e, com o correr das horas, estranhamente inóspito. Começo a recordar a rapariguinha pequena, vulnerável e indefesa que fui. Ao cair da noite já me sinto imprestável, não tanto pela gripe quanto pela ansiedade. “O que estou fazendo aqui, tão solitária, tão distanciada dos outros, tão… incerta”, pergunto a mim mesma. Que coisa estranha ver-me tão perturbada, afastada de meus familiares e de minha vida tão ocupada e frenética… desligada…” (Dowling, 1982: 11).

O fluxo de pensamentos se interrompe e reconheço: eu «sempre» estou só. Cá está, sem aviso prévio, a verdade ignorada às custas de tanto dispêndio de energia.”

(…)

Desde aqueles dias passados na cama, aprendi que há muitas mulheres como eu, milhares e milhares de nós, criadas de um modo tal que nos impossibilita encarar a realidade adulta de que toca a nós, apenas, a responsabilidade por nós mesmas. Podemos até verbalizar essa ideia mas, no íntimo, não a aceitamos. Tudo na forma de sermos educadas continha a mensagem de que seríamos parte de alguma outra pessoa – que seríamos protegidas, sustentadas, alimentadas pela felicidade conjugal até o dia da nossa morte.

É claro que, uma a uma, descobrimos – cada uma de nós com os instrumentos respectivos – a mentira dessa promessa. Porém, foi apenas nos anos 70 que se deu uma modificação no cenário cultural, e as mulheres passaram a ser vistas, concebidas e tratadas de modo diferente. As expectativas em relação a nós mudaram. Foi-nos dito que os nossos velhos sonhos de infância eram débeis e ignóbeis, e que existiam coisas melhores a ambicionar: dinheiro, poder e a mais ilusória das condições, a liberdade. A capacidade de escolhermos o que faríamos das nossas vidas, como pensaríamos e a que daríamos importância. Liberdade é melhor que segurança, diziam-nos; a segurança aleija.

Logo descobrimos, contudo, que a liberdade assusta.

Ela nos apresenta possibilidades para as quais não nos sentimos equipadas: promoções, responsabilidade, oportunidades de viajarmos sozinhas sem homens a nos conduzirem, oportunidades de fazermos amigos por nossa conta. Todo o tipo de perspectivas rapidamente abriu-se às mulheres; juntamente com isso, porém, vieram novas exigências: que cresçamos e paremos de esconder-nos sob o manto paternalista daquele que escolhemos para representar o ente “mais forte”; que comecemos a basear nossas decisões em nosso próprios valores, e não nos de nossos maridos, pais ou professores. A liberdade requer que nos tornemos autênticas e fiéis para connosco. Aqui é que surge a dificuldade, repentinamente, quando não mais basta sermos «uma boa esposa», ou «uma boa filha», ou «uma boa aluna».

Pois ao iniciarmos o processo de separar de nós as figuras de autoridade a fim de nos tornarmos autónomas, descobrimos que os valores que julgávamos serem nossos não o são.

Pertencem a outrem – a pessoas de um passado vivo e demais abrangente. Por fim a hora da verdade emerge: «Realmente não tenho quaisquer convicções próprias. Realmente não sei no que acredito».

Esta experiência pode ser bem ameaçadora. Tudo o de que tínhamos certeza parece desmoronar tal como uma avalanche, enchendo-nos de incerteza em relação a tudo – e aterrorizando-nos. Esta atordoante perda de estruturas de apoio antiquadas – crenças em que nem mesmo cremos mais – pode marcar o início da verdadeira liberdade. Mas seu carácter assustador pode fazer-nos recuar para o conhecido, o familiar, aparentemente tão seguro.

Por que é que, tendo a chance de crescer, tendemos a recuar? Porque as mulheres não estão acostumadas a enfrentar o medo e ultrapassá-lo. Fomos sempre encorajadas a evitar qualquer coisa que nos amedronte; desde pequenas fomos ensinadas a só fazer as coisas que nos permitissem sentirmo-nos seguras e protegidas. O facto é que não fomos jamais treinadas para a liberdade, mas sim para o seu oposto: a dependência” (Dowling, 1982: 11-12).

(…)

Ocorre que, como veremos, desde pequenas as mulheres são incentivadas a uma dependência doentia. Qualquer mulher que se auto-analise sabe quão destreinada foi para sentir-se confiante perante a ideia de cuidar de si própria, afirmar-se como pessoa e defender-se. Na melhor das hipóteses, pode ter representado o papel de independente, intimamente invejando os meninos (e posteriormente os homens) por parecerem tão naturalmente auto-suficientes.

A auto-suficiência não é um bem agraciado aos homens pela natureza; ela é um produto de aprendizagem e treino.

Os homens são educados para a independência desde o dia de seu nascimento.

De modo igualmente sistemático , as mulheres são ensinadas a crer que, algum dia, de algum modo, serão salvas.

Esse é o conto de fadas, a mensagem de vida que ingerimos juntamente com o leite materno.

Podemos aventurar-nos a viver por nossa conta por algum tempo. Podemos sair de casa, trabalhar, viajar; podemos até ganhar muito dinheiro. Subjacente a isso tudo, porém, está o conto de fadas, dizendo: aguente firme, e um dia alguém virá salvá-la da ansiedade causada pela vida. (O único salvador de que o «menino» ouve falar é ele próprio)”(Dowling, 1982: 13)” .

(…)

“Fugindo da Luta”

“Como Simone de Beauvoir observou tão astutamente há mais de um quarto de século, as mulheres aceitam o papel de submissas «para evitar a tensão envolvida na construção de uma existência autêntica»” (Dowling, 1982: 16).

“O Desejo de Salvação”

“Podemos nem sempre reconhecê-lo (…), porém ele existe em todas nós, emergindo quando menos se espera, permeando nossos sonhos, abafando nossas ambições. É possível que o desejo feminino de ser salva tenha as suas raízes nos primórdios da História, quando a força física masculina era necessária para proteger mulheres e crianças de perigos naturais. Mas tal desejo não é mais adequado nem construtivo. Nós não necessitamos ser salvas.

As mulheres hoje se acham entre o fogo cruzado de velhas e radicalmente novas ideias sociais; a verdade porém é que não podemos mais refugiar-nos no antigo «papel». Ele não é funcional, nem uma opção verdadeira. Podemos crer que o seja; podemos desejar que o seja; mas não é. O príncipe encantado desapareceu. O homem das cavernas é hoje menor e mais fraco. Na realidade, em termos do que se requer para a sobrevivência no mundo moderno, ele não é mais forte, mais inteligente ou mais corajoso do que nós.

Todavia, ele «realmente» tem mais experiência” (Dowling, 1982: 22).

“O Complexo de Cinderela”

“Existe somente um instrumento para obtermos a «libertação», e esse é emancipar-nos desde dentro. 

“A tese deste livro é a de que a dependência psicológica – o desejo inconsciente dos  cuidados de outrem – é a força motriz que ainda mantém as mulheres agrilhoadas. Denominei-a «Complexo de Cinderela»: uma rede de atitudes e temores profundamente reprimidos que retém as mulheres numa espécie de penumbra e impede-as de utilizarem plenamente seus intelectos e criatividade. Como Cinderela, as mulheres de hoje ainda esperam por algo externo que venha transformar suas vidas” (Dowling, 1982: 26).

 

Bibliografia

DOWLING, Colette. (1982). Complexo de Cinderela. Melhoramentos. São Paulo. Brasil.

“Em meados da década de 60, Colette Dowling fez uma descoberta chocante. Atacou rápida e violentamente todas as ideias preconcebidas que tinha sobre si mesma. «Achei que o que eu realmente queria era alguém que tomasse conta de mim. Não era apenas uma questão de ter alguém pagando as contas, eu queria protecção emocional por tempo integral. Alguém que amenizasse o choque entre o mundo e eu». Enfrentando esta verdade sobre si mesma, e durante o processo se liberando, a autora continuou a achar que os mesmos desejos permaneciam escondidos no coração de milhões de outras mulheres. 

Complexo de Cinderela aborda um fenómeno que o movimento feminista ainda não tinha confrontado: está profundamente enraizado nas mulheres o desejo psicológico de serem cuidadas por alguém, de serem aliviadas de suas responsabilidades essenciais para consigo mesmas, de «serem salvas».

O fenómeno «complexo de cinderela» é um sistema de desejos reprimidos, memórias e atitudes distorcidas que se iniciaram na infância, na crença da menina de que sempre haverá uma outra pessoa mais forte a sustentá-la e protegê-la. Esta crença é sempre alimentada e com o tempo ela se solidifica, seguindo a mulher em sua vida adulta e resultando em todas as espécies de medos interiores e descontentamentos. O mais destrutivo para a autora é que essa crença mantém vivo na mulher um sentimento de inferioridade. 

Complexo de Cinderela causará um choque de reconhecimento em todas as mulheres que inconscientemente sempre sabotam seus próprios futuros ou sentem medo de ficar sozinhas. «O medo é que se nós realmente nos mantivermos, terminaremos sem ajuda, perderemos a feminilidade, não amaremos e não seremos amadas». Enfrentar este medo frágil e reagir contra ele, é o que leva à verdadeira independência (texto de apresentação do livro impresso nas badanas da sua respectiva capa e contracapa).