A eclosão do ovo

Publicado por: Milu  :  Categoria: A eclosão do ovo, TERRORISMO

894777__snake-and-yours-eggs_p

“Os direitos humanos são violados não só pelo terrorismo, a repressão, os assassinatos, mas também pela existência de condições de extrema pobreza e estruturas económicas injustas, que originam as grandes desigualdades.”

Papa Francisco

Eis mais um post que pretende ajudar a compreender de como as políticas erradas e sobretudo hipócritas, tomadas pelos governos dos países ocidentais, ajudaram a chocar este ovo da serpente, que já eclodiu e a serpente por aí anda à solta.

Sem Título

“O aumento considerável na força e no alcance das organizações jihadistas na Síria e no Iraque não mereceu até há pouco tempo a atenção dos políticos e jornalistas ocidentais. Um motivo primário para isto é o facto de os governos ocidentais e as suas forças de segurança definirem de forma restrita a ameaça jihadista, limitando-a às forças directamente controladas pelo «núcleo» central da al-Qaeda” (p.70).

(…).

“O nome al-Qaeda sempre foi aplicado de forma flexível no processo de identificação de um inimigo. Em 2003 e 2004, no Iraque, enquanto crescia a oposição armada iraquiana à ocupação liderada por americanos e britânicos, Washington atribuía a maioria dos ataques à al-Qaeda, apesar de muitos serem levados a cabo por grupos nacionalistas e baathistas. Propaganda deste tipo ajudou a persuadir quase 60% dos eleitores americanos antes da invasão do Iraque de que existia uma ligação entre Saddam Hussein e os responsáveis pelo 11 de Setembro,  mesmo sem existirem provas. No próprio Iraque e por todo o mundo islâmico, estas acusações beneficiaram a al-Qaeda por exagerarem o seu papel na resistência à ocupação americana e britânica.

A táctica oposta foi empregue pelos governos ocidentais na Líbia em 2011, onde foram minoradas quaisquer semelhanças entre a al-Qaeda e rebeldes apoiados pela NATO no esforço para derrubar Muammar Gaddafi. Apenas os jihadistas com uma ligação operacional directa com o «núcleo» da al-Qaeda de Osama bin Laden foram considerados perigosos. A falsidade da crença de que os jihadistas anti-Gaddafi na Líbia eram menos ameaçadores do que os que tinham ligação directa com a al-Qaeda foi exposta de forma trágica quando o embaixador americano Chris Stevens foi morto por jihadistas em Benghazi em Setembro de 2012. Os responsáveis foram os  mesmos combatentes louvados pelos regimes ocidentais e pelos média pelo seu papel na revolta contra Gaddafi.

A al-Qaeda é mais um conceito do que uma organização e há muito que isto se verifica. Num período de cinco anos após 1996, teve centros de recrutamento, recursos e bases no Afeganistão, mas tudo isto foi eliminado após o derrube dos talibãs em 2001. Posteriormente, o nome «al-Qaeda» tornou-se sobretudo um grito de guerra, um conjunto de crenças islamistas centradas na criação de um Estado islâmico, na imposição da sharia, no regresso às tradições muçulmanas, na subjugação das mulheres e na guerra santa contra outros muçulmanos, sobretudo contra os xiitas, que são considerados hereges e merecedores de pena capital. No centro desta doutrina bélica encontra-se uma ênfase do sacrifício próprio e do martírio como símbolos de fé e compromisso religioso. Isto levou à utilização de crentes fanáticos sem treino como bombistas suicidas, com efeitos devastadores.

Os Estados Unidos e os governos de outros países sempre tiveram interesse em apresentar a al-Qaeda como possuindo uma estrutura de controlo central semelhante a um Pentágono em miniatura ou semelhante à máfia. É uma imagem confortante para o público porque os grupos organizados, por mais demoníacos que sejam, podem ser localizados e eliminados pela prisão ou pela morte. Mais alarmante será a realidade de um movimento cujos aderentes se recrutam por sua própria iniciativa e que podem surgir em qualquer parte do mundo.

Há doze anos, o grupo de militantes que se reunia em redor de Osama bin Laden, a que não se chamou al-Qaeda até ao 11 de Setembro, era apenas um entre muitos grupos jihadistas. Actualmente, as suas ideias e métodos tornaram-se predominantes entre os jihadistas pelo prestígio e publicidade conquistados após a destruição das Torres Gémeas, após a guerra no Iraque e graças à sua demonização por Washington como origem do todo o mal antiamericano. Hoje em dia, estreitam-se as diferenças entre as crenças dos jihadistas, independentemente da sua ligação formal à al-Qaeda ou falta dela.

De forma nada surpreendente, os governos preferem a visão fantasiosa da al-Qaeda porque lhes permite clamar vitória quando conseguem matar os seus membros e aliados mais conhecidos. Frequentemente, atribuem-se aos eliminados patentes quase militares, como «chefe operacional», para aumentar a relevância da sua morte. O culminar deste aspecto altamente publicitado mas praticamente irrelevante da «guerra contra o terror» foi a morte de bin Laden em Abbottabad, no Paquistão, em 2011. Isto permitiu ao presidente Obama apresentar-se diante do povo americano como o homem que orientara a caça ao líder da al-Qaeda. Em termos práticos, porém, a sua morte teve pouco impacto nos grupos jihadistas inspirados pela al-Qaeda, tendo a sua maior expansão ocorrido posteriormente.

As decisões principais que permitiram a sobrevivência da al-Qaeda e sua posterior expansão foram tomadas nas horas que se seguiram ao 11 de Setembro. Quase todos os elementos significativos no plano para lançar aviões contra as Torres Gémeas e contra outros edifícios americanos emblemáticos apontavam para a Arábia Saudita. Bin Laden pertencia à elite saudita e o seu pai fora um associado próximo do monarca saudita. Citando um relatório da CIA de 2002, o relatório oficial acerca do 11 de Setembro refere que a al-Qaeda obtinha o seu financiamento a partir de «uma ampla variedade de dadores e angariadores, sobretudo nos países do Golfo e, em particular, na Arábia Saudita».

Os investigadores responsáveis pelo relatório viram o seu acesso ser limitado ou negado quando procuraram informações na Arábia Saudita. E, no entanto, o presidente George W. Bush parece nunca ter sequer ponderado a possibilidade de considerar os sauditas responsáveis pelo que sucedeu. Uma partida dos Estados Unidos de sauditas de relevo, incluindo parentes de bin Laden, foi facilitada pelo governo americano nos dias que se seguiram ao 11 de Setembro. De forma ainda mais significativa, vinte e oito páginas do relatório da comissão sobre o 11 de Setembro acerca da relação dos executores do ataque e a Arábia Saudita foram cortadas e nunca publicadas, apesar do presidente Obama ter prometido fazê-lo. O motivo indicado foi a segurança nacional.

Em 2009, oito anos após o 11 de Setembro, numa mensagem revelada pelo WikiLeaks, a secretária de Estado americana Hillary Clinton, queixava-se de que o principal financiamento de grupos terroristas sunitas em todo o mundo provinha de dadores na Arábia Saudita. Mas, apesar de o admitirem em privado, os Estados Unidos e a Europa Ocidental continuaram indiferentes aos pregadores sauditas, cuja mensagem, chegando a milhões de pessoas graças às transmissões por satélite, ao You Tube e ao Twitter, pediam a morte dos xiitas como hereges. Estes apelos ocorriam enquanto bombas da al-Qaeda chacinavam inocentes bairros xiitas iraquianos. (…)

O Paquistão, por intermédio dos seus serviços secretos militares, os Serviços Interligados de Informação (SII), foi o outro progenitor da al-Qaeda, dos talibãs e dos movimentos jihadistas em geral. Quando os talibãs se desintegravam sob os bombardeamentos americanos em 2001, as suas forças no Norte do Afeganistão eram cercadas por forças antitalibã. Antes de se renderem, centenas de elementos dos SII, formadores militares e conselheiros foram apressadamente evacuados por via aérea. Apesar das provas claras do patrocínio dos SII aos talibãs e aos jihadistas em geral Washington recusou confrontar o Paquistão e abriu assim caminho ao ressurgimento dos talibãs após 2003, algo que nem os Estados Unidos nem a NATO conseguiram inverter.

A «guerra contra o terror» fracassou porque não escolheu como alvo o movimento jihadista como um todo e, acima de tudo, porque não foi orientada contra a Arábia Saudita e o Paquistão, os dois países que albergaram o jihadismo como credo e como movimento. Os EUA não o fizeram por não quererem ofender dois países que são aliados importantes. A Arábia Saudita é um grande mercado para as armas de fabrico americano e os sauditas aliciaram e compraram ocasionalmente membros influentes do panorama político americano. O Paquistão é uma potência nuclear com uma população de cento e oitenta milhões e forças armadas com ligações próximas ao Pentágono.

O ressurgimento espectacular da al-Qaeda e das suas ramificações ocorreu apesar da grande expansão dos serviços de espionagem americanos e britânicos (e dos respectivos orçamentos) após o 11 de Setembro. De então para cá, os Estados Unidos, seguidos de perto pela Grã-Bretanha, travaram guerras no Afeganistão e no Iraque e adoptaram procedimentos normalmente associados a Estados policiais, tais como a prisão sem julgamento, o envio de suspeitos para interrogatório noutros países, a tortura e a espionagem doméstica. Os governos travam a «guerra contra o terror» alegando que os direitos individuais dos cidadãos terão de ser sacrificados para assegurar a segurança comum.

Perante estas medidas de segurança controversas, os movimentos contra os quais são implementadas não apenas não foram derrotados como se tornaram mais fortes. Aquando do 11 de Setembro, a al-Qaeda era uma organização pequena e geralmente ineficiente. Em 2014, grupos inspirados pela al-Qaeda cresceram em número e em poderio. Por outras palavras, a «guerra contra o terror» que alterou o panorama político de uma parte tão considerável do mundo desde 2001, fracassou de uma forma comprovada.”

Bibliografia

COCKBURN, Patrick. (2014). O Novo Estado Islâmico. Self- Desenvolvimento Pessoal. Carcavelos. pp. 70-77.

Embustes bestiais

Publicado por: Milu  :  Categoria: Embustes bestiais, TERRORISMO

image001_5_75

Diz Giddens e muito bem:

 

«Os velhos maquinismos do poder não funcionam numa sociedade em que os cidadãos vivem no mesmo ambiente informativo que aqueles que os governam» (2000: 88).

 

Na minha senda da busca de esclarecimento sobre a trama do Terrorismo eis mais um post com um excerto do livro “A Sociedade Invisível”, da autoria de Innerarity, que considero deveras pertinente, uma vez que põe a nu o cinismo que poderá haver na luta contra o terrorismo. É que ele, afinal… dá um grande jeitão…

Na pretensa luta contra o terrorismo podem-se fazer as coisas mais impensáveis… E esta circunstância deveria suscitar a desconfiança de todos nós… Cada um que leia e pense o que bem entender, mas uma coisa é certa: o terrorismo pode, de uma forma esconsa, reverter em  benefícios para uma determinada facção, numa determinada conjectura. Sejamos observadores, críticos e capazes de pensar e imaginar o impensável, se não quisermos ser engolidos, trapaceados a todo o momento. Sejamos capazes de pensar o impossível… mas que pode não ser assim tão impossível. A ganância  e a sede pelo poder é uma cegueira e na cegueira o ser humano é capaz de tudo, tudo pode. Ou seja, o terrorismo não deixa de ser também uma desculpa para levar a cabo medidas que jamais seriam aceites noutras circunstâncias.

“Observar bem a realidade é uma tarefa interpretativa que exige desenvolver uns hábitos semelhantes aos da espionagem, sobretudo quando o mais imediato é o mais enganoso e a crescente complexidade não se combate acumulando dados ou informações, mas mediante uma boa interpretação.”

Prólogo 

As Desculpas:

“Transformaram-se em operações muito adequadas num momento de escassez de projectos e ideias. A arte de administrar a desculpa torna possível efectuar as operações básicas exigidas no programa: cativar, distrair, desviar, aparentar, dissimular. A estratégia da desculpa põe ao alcance de qualquer uma fórmula infalível para conseguir o que noutros tempos teria de ser o resultado de um trabalho profundo. O actual dirigente já não precisa de ler muito nem de pensar muito. Nem sequer tem de argumentar ou de ser convincente: basta-lhe manejar correctamente os dispositivos da atenção pública. É uma pessoa que não tem ideias para convencer, mas apenas processos de distrair” (Innerarity, 2009: 60).

 

“Comecemos pelo princípio. Falando propriamente, que vem a ser o terrorismo? O terrorismo é um fenómeno muito próprio do nosso tempo, da era das desculpas, pois é a maior de todas elas, a mais grosseira, que parasita causas que só prejudica, como os direitos humanos, a religião ou a liberdade das nações. Mas o terrorismo tem também uma dimensão «virtual» que não consiste em procurar a eliminação física do inimigo (como procuravam as guerras convencionais), mas a sua deserção, mediante uma estratégia que, dirigida em princípio contra certas vítimas concretas, pretende modificar o comportamento de toda a sociedade. O terrorismo faz parte da nossa paisagem cultural porque é também uma estratégia de manipulação dos sinais no intuito de encenar e confundir. Umberto Eco indicava recentemente que o terrorismo procura desestabilizar o campo do inimigo, pôr o outro numa situação em que todos desconfiem de todos (2003).

E também o antiterrorismo se pode transformar numa desculpa. Modificando a célebre fórmula de Clausewitz, dizia Baudrillard que determinado antiterrorismo é a continuação da falta de política por outros meios. Neste momento, é já bastante claro que o antiterrorismo nem sempre serve para molestar os terroristas e proporciona, por vezes, benefícios que de outro modo não poderiam ser obtidos. Entre outras coisas, serve para ganhar eleições, obter legitimidade, incomodar o adversário, desviar as atenções de outros temas, impor prioridades, ocultar incompetências ou assumir poderes que uma sociedade democrática não suportaria sem essa desculpa. Dos benefícios que ele pode facultar, o mais suculento é aquele que provém da possibilidade de entalar a oposição e eliminar as divergências. Quem traça os eixos do bem e do mal efectua uma polarização que simplifica coactivamente o terreno do jogo, despolitiza e comprime o pluralismo. Daí o interesse em promover unanimidades forçadas a partir das quais o direito de fazer oposição fica ameaçado e em interpretar a divergência como cumplicidade ou deslealdade. Por que é que a política antiterrorista não é um âmbito adequado ao exercício do pluralismo?

Uma vez abandonada a velha justificação ideológica que procura silogismos e demonstrações, a lógica de certo comportamento antiterrorista gira em redor da categoria da equiparação. A estratégia consiste em repetir insistentemente que A é igual a B até que isso crie um automatismo social. Num mundo confuso, atacar começa por identificar, e o público sente-se aliviado com alguma referência indiscutível no meio da confusão. Desse modo se promove uma guerra contra um país ou se ilegaliza um partido político; mas também se limita o jogo de qualquer adversário com a ameaça de o acusar de cumplicidade. São equiparações mais ou menos arbitrárias que definem um território cómodo para as estratégias mas que impedem a distinção inteligente das realidades que são complexas.

Depois do 11 de Setembro, criou-se um clima que outorgava licença a tudo quanto se apresentasse como luta antiterrorista. A mais clara regressão do direito foi formulada no «Patriot Act» de 25 de Outubro de 2001, que autorizava prender um estrangeiro sem motivo e privá-lo de todos os seus direitos, criava tribunais de excepção e revogava o texto de 1974 que proibia a eliminação física de adversários. A reacção de determinados estados perante as novas formas da violência e dos conflitos seguiu uma linha de requinte dos métodos de repressão virados contra as populações civis, ignorando em grande medida os fundamentos sociais dessas novas violências.

Sob o rótulo da luta contra o terrorismo, a própria população volta a ser objecto de uma suspeita generalizada: religião, raça e procedência convertem-se de súbito em critérios de observação intensificada.

O principal prejudicado por tudo isto é o direito, que sempre girou em redor de provas e evidências demonstráveis e que agora é obrigado a mover-se no mundo da suspeita.

Na era da desculpa, o abuso conta com maiores possibilidades de aceitação.

Todas as garantias, todos os procedimentos e toda a presunção de inocência perdem força no horizonte de uma possível conspiração. Os discursos penetram no território virtual do subjuntivo. Não haverá provas de o Irak possuir armas de destruição em massa, mas o facto de se as não encontrar será utilizado como argumento: elas «têm» de existir. Quando explicava que a guerra contra o Afeganistão não podia ser justificada pelas provas tradicionais, Bush dava a entender uma coisa realmente estranha:

era uma guerra em busca de provas que pudessem justificá-la;

Powel desfiava no Conselho de Segurança uma bataria de suposições com base nas quais ninguém poderia ser condenado em qualquer país civilizado; Aznar pediu ao Parlamento que acreditasse nele, parecendo dar a entender que tinha dados que nós não conhecíamos mas que, se os conhecêssemos, o apoiaríamos. Toda uma reabilitação da velha concepção do poder segundo a qual uns mandam porque sabem mais do que todos os outros.

Diz Giddens: «Os velhos maquinismos do poder não funcionam numa sociedade em que os cidadãos vivem no mesmo ambiente informativo que aqueles que os governam» (2000,88).

Nas manifestações de cidadãos contra a guerra do Irak, foi defendido não só o desejo de paz mas também a aspiração democrática de igualdade no conhecimento dos dados com base nos quais são tomadas as grandes decisões colectivas. Foi defendida a prática do peso da prova contra os privilégio da suspeita. O combate ao terrorismo começa, em qualquer nível, pela protecção do juízo equilibrado e plural que o terrorismo pretende destruir” (Innerarity, 2009: 61-64).

Bibliografia

INNERARITY, Daniel. (2009). A Sociedade Invisível. Teorema. Lisboa. 61-64.

Guerra sobre Guerra

Publicado por: Milu  :  Categoria: Guerra sobre Guerra, TERRORISMO

World, 25 September 2013 Terorrism kills innocent people. Terrorisme doodt onshuldige mensen. Cartoon: Shahrokh Heidari/Cartoon Movement/Hollandse Hoogte

 

 

«A criação mais perigosa de uma sociedade é a de um homem que não tem nada a perder».

James Baldwin

Mais uma vez o meu filho me irá criticar, dizendo:

– “Mãe, fazes posts muito grandes, escreves muito, e assim as pessoas não vão querer ler”.

E eu responderei, peremptoriamente:

– Os posts que escrevo, assim longos, completos, com substância, não são para essas pessoas. Ponto final.

INTRÓITO

A minha História.

Decorria o ano de 1986, quando assisti pela primeira vez a um aceso debate sobre o fenómeno do Terrorismo. Nesse ano, era eu uma estudante trabalhadora de 25 anos,  que frequentava o 9º ano escolar. Como acabei agora de dar a entender, o meu percurso escolar não foi linear. Houve interregnos. Mas há três anos que havia retomado os estudos. E tinha sonhos… Motivada por esses sonhos, que tantas vezes acalentava nos meus momentos de introspecção, tornei-me impaciente… e quis dar um salto quântico.

Por isso, assim que tomei conhecimento, de que havia uma forma de ingressar no ensino superior, mesmo sem deter o 12º ano, esta menina decidiu que tinha de embarcar nessa caravela de sonhos feitos e tornados realidade. Fiz exames Ad- hoc!

O Ad- hoc consistia num exame que fazia uma avaliação geral das capacidades e conhecimentos do candidato. Actualmente é designado por M23. Fiz, por essa altura, dois exames Ad-hoc. O primeiro teve lugar na Faculdade de Direito na Cidade Universitária.

Não cheguei a procurar os resultados, porque entendi que me tinha corrido pessimamente. A prova de Português até foi fácil, em tudo semelhante ao que eu estava habituada a fazer no Liceu, por isso correu sobre rodas. Mas, no que diz respeito à prova específica, aconteceu-me meter os pés pelas mãos… e vice versa. Tudo isso porque quis dar um passo maior do que as pernas. Já se viu…

Senão vejamos: eram dois os temas a desenvolver, devendo o candidato optar por um deles, e elaborar  um trabalho escrito de umas tantas linhas. Já não me recordo quantas.. O primeiro versava sobre espécies em vias de extinção, devendo-se referir uma delas, descrever as suas características, habitat, etc. O segundo tema tinha como título “As relações entre a arte e o poder”. Complicado!…

Por vezes fico perplexa comigo mesma, porque chego a tomar atitudes algo incompreensíveis! Parece que há uma coisa ali a puxar-me no sentido contrário ao que deveria ir… Pois o que fiz foi que, ao invés de optar pelo primeiro tema, para o qual estava perfeitamente documentada e capacitada, uma vez que tinha lido recentemente  na revista Selecções do Reader’s Digest um artigo sobre animais em perigo de extinção, os linces da Serra da Malcata,  com tudo muito fresquinho na minha prodigiosa memória de então, fui logo escolher, repare-se bem, o tema sobre as relações entre a arte e o poder!!

Até parece uma tentação do Diabo!

 Porque agi por  impulso, sem pensar, convencida de que era capaz de concluir uma abordagem muito sui generis sobre a questão? Será que eu gosto da dificuldade? Porque espalho eu pedras no meu caminho?

Mas, por outro lado, e sem me contradizer, não terá sido só uma tentação do diabo, julgo que sei, ou sinto, o que motivou a minha escolha. Afinal, tudo tem a sua justificação…

Foram as associações que me assolaram a moleirinha sobre a igreja, com a sua arte sacra, e o poder, logo, os governos que se aproveitam da fé, dos medos e das crenças das pessoas, para as levarem a aceitar tudo aquilo que um povo educado e culto se sentiria na obrigação de contestar, de repelir fortemente. No fundo, eu fazia uma ideia do que queria. Mas não tinha conhecimentos suficientes para tal. Resultado: Após uns quantos arremedos, sabe-se lá as teorias que eu ali naquele momento inventei, meia dúzia de linhas depois, dei-me por incapaz de prosseguir, ainda com tantas linhas por preencher.

Cheguei ao ponto em que não consegui fazer sair mais nada da minha imaginação, do meu poder criativo, não obstante costumar ser muito fértil em ideias. Como já antes referi, nunca quis saber os resultados, porque acreditei que não eram nada de louvar.

Poupei-me ao veredicto. Foi o que foi.

A segunda tentativa correu  melhor e  assisti às provas orais individuais, que tinham a duração média de 30 minutos.

Trinta minutos de nervos em franja, à beira do colapso. Lembro-me que, quando estava na minha prova oral, cheguei a sentir-me como um touro  numa arena. Acossada por todos os lados. Quando eu defendia um determinado ponto de vista, os professores  examinadores, eram três, olhavam-me do alto da sua cátedra, poderosos, e contestavam-me, apresentando diversos argumentos, como o fim de abalar ou  derrubar as minhas convicções, as minhas afirmações. Diziam eles, que tinham de empregar esta técnica para nos testar das capacidades para jurista. Porque nem sempre ser-se inteligente é qualidade suficiente para se ser um bom jurista, diziam.

Ao cabo de uns instantes, mais ou menos longos, eu já estava determinada a aceitar, que eram eles que tinham razão, que quem estava a ver mal as coisas era eu… Aí,  nesse momento, diziam-me que afinal eu deveria ter sido mais firme porque até estava certa, que tinha feito mal em retroceder nas minhas considerações.

Meia hora nisto, ora a afirmar, ora a desdizer, numa espécie de avanço um passo e recuo dois!

Mas porque estou a relatar tudo isto?? Ora, para, nem  mais nem menos, chegar ao que motivou verdadeiramente a elaboração deste meu post:

Foi num ambiente destes, de prova oral, que assisti ao primeiro debate sobre o Terrorismo.

Um dos alunos, tinha optado por fazer a prova específica com este tema. Foi dos que levou mais «porrada», pois então. Suaram-lhe as estopinhas!

Escusado será dizer que levou um baile. É que um tema destes exige mais do que a opinião do senso comum, com ligeiras leituras em jornais. Exige estudo. Exige uma  mente aberta, flexível. Exige o emprego da hermenêutica. Exige que nos coloquemos no lugar do outro, ver com os olhos do outro, para sentir o outro, para sentir o sentir do outro, etc, etc.

O fulcro da questão está em que, em dada altura, um dos professores examinadores proferiu que o  terrorismo, em determinados contextos, até pode ser considerado como o último reduto. Quando não se pôde fazer mais nada. Quando as negociações teimam  em falhar. Ouvir isto confundiu-me!  Porque me parece, até certo ponto, uma legitimação do Terrorismo, embora na altura o terrorismo do domínio público, que qualquer um já tinha ouvido falar, fosse o IRA,  que actuou na Grã-Bretanha em prol da independência da Irlanda do Norte, e a ETA, na Espanha, que representa o grupo armado do movimento separatista basco.

De então para cá muitas coisas foram mudando.

Pois bem, agora que ele está aí numa nova onda, o Terrorismo, decidi aprofundar esta problemática. Eu quero ter a minha opinião, e quero-o consertada, fundamentada. Aqui não são aconselháveis os saltos quânticos. Quero profundidade. Está, por isso mesmo, criada uma nova categoria no  meu blog, que dá pelo nome de Terrorismo. Para quem quer conhecer mais. Informo que este excerto, que a seguir é apresentado, consta de uma obra datada de 2009, que foi elaborada tendo em conta os acontecimentos dessa década, nomeadamente o 11 de Setembro de 2001. Apesar de não ser recente é uma abordagem a ter em conta. É História. E quem não sabe História, não sabe nada, não entende nada do mundo.

“A Sociedade Invisível”

 

“A modernidade, o processo histórico no qual se configuram os estados nacionais, pensou e manejou o selvagem como uma coisa que se pode e deve colocar atrás de certos limiares, para lá de certos limites; havia uma clara contraposição entre o espaço dominado da civilização e o espaço não dominado da barbárie. Esta distinção nunca foi, provavelmente, tão nítida como pensaram os seus formuladores, mas a sua validade de princípio era, pelo menos, um horizonte indiscutido. No momento em que a expansão civilizadora abarca o mundo inteiro, quando a globalização não deixa nada de fora nem concebe nenhum «mais além» fora dos seus limites, a civilização racional e a violência parecem entremesclar-se. O potencial da barbárie que tinha sido impelido para a periferia volta para o centro.

A divisão entre civilização e violência já não é traçada por uns limites que separem umas trevas exteriores do espaço interior da razão; esses limites atravessam o próprio cerne do mundo civilizado com a mesma naturalidade com que os terroristas se movem entre nós (Caygill, 1993, 51). Não creio que seja uma casualidade a coincidência no tempo da teoria segundo a qual a máxima racionalidade contém em si uma forma de irracionalidade (formulada, entre outros, pelos filósofos da Escola de Franckfurt) com a prática terrorista, que parece confirmar de uma maneira sinistra essa hipótese.

O assunto seria menos inquietante se nos encontrássemos perante uma guerra clássica, isto é: se o embate fosse entre dois mundos relativamente distintos; se a agressão viesse de um exterior localizável; se os terroristas fossem realmente agentes de alguma tirania longínqua e subdesenvolvida e não gente que estudou em Havard, maneja perfeitamente as nossas técnicas e conhece a lógica que governa os nossos meios de comunicação; se a sua legitimação ideológica fosse somente uma interpretação fundamentalista do Corão em vez de uma mescla dessa interpretação com os resíduos de determinados elementos ideológicos do mundo ocidental; se os países que servem de apoios do terrorismo fossem regimes do islamismo mais atrasado e não uma síntese explosiva desse fundamentalismo com formas de totalitarismo estatal importadas da nossa cultura.

Infelizmente, nem podemos conceber essa nova hostilidade como coisa completamente alheia à nossa cultura nem fazer-lhe frente com a lógica de quem maneja, fora dos seus limites, uma exterioridade absoluta. O assunto é, por assim dizer, de política interna do mundo.

As coisas tornam-se, pois, tão pouco tranquilizadoras porque a agressão não vem de fora, é «terror no sistema» (Baecker, Krieg & Simon, 2002), com ataques no interior de uma modernidade globalizada na qual desaparecem as distâncias espacio-temporais e o mundo se converte numa metrópole dificilmente divisável. O 11 de Setembro e o 11 de Março puseram a claro a versão mais trágica de uma série de fenómenos típicos de um mundo globalizado: o desconcerto dos aparelhos militares contra inimigos invisíveis recorda as estratégias políticas e económicas dos estados no espaço global perante a agilidade das empresas que actuam nesses cenários; a diversificação das sedes empresariais parece-se muito com a mobilidade mundial das organizações terroristas; o aproveitamento feito pelos global players das condições políticas e jurídicas nas diversas regiões do mundo a fim de minimizar os custos económicos corresponde ao modo como os terroristas parasitam as insatisfações latentes na periferia da sociedade mundial; uns procuram o lugar onde produzirão mais barato e os outros procuram o conflito que lhes proporcionará uma justificação mais plausível.

As guerras já não são o que julgavam os grandes filósofos da modernidade, o direito internacional e a política clássica. Quando se podia distinguir amigos e inimigos, o mundo estava, pelo menos, em ordem. Quem ler Hegel, por exemplo, poderá encontrar páginas tão memoráveis como actualmente estranhas acerca da guerra humanizada. O terrorismo, pelo contrário, escapa a qualquer regulação jurídica, socava todas as distinções e transforma a inimizade numa coisa absoluta. O terrorismo desconstrói não só a distinção entre civil e militar mas também a distinção entre vitória e derrota, e até entre vencedor e vencido (podemos encontrar o exemplo mais claro disso no facto de se não saber quando terminou a guerra do Irak nem quem a ganhou e de o maior número de vítimas se ter verificado quando a guerra parecia ter acabado). O terrorismo, que desconhece os limites  esfumou também distinções que eram características da nossa cultura: entre a barbárie para lá das fronteiras e a civilização no interior delas; entre militares e não combatentes; entre militares e polícias, por um lado, e criminosos por outro. Já não existem os limites e as fronteiras para lá dos quais se podia estar certo de encontrar um inimigo e para cá dos quais só havia amigos.

E a distinção cuja perda nos causa maior perplexidade é a que separava a paz e a guerra, à qual sucede agora uma situação geral de ameaça indiferenciada. A teoria política concebia três situações possíveis: paz, guerra e pós-guerra. Pois bem: é como se a ameaça do terrorismo tivesse eliminado a possibilidade das duas primeiras e vivêssemos agora todos numa situação de pós-guerra.

O medo dos ameaçados é expressão de uma absoluta insegurança, tanto maior quanto menos identificável é o inimigo. A determinação de um inimigo é um modo de absorver essa insegurança, e por isso os governos sabem que tranquilizam as suas populações se dirigirem todas as atenções para um inimigo reconhecível. Do mesmo modo que as campanhas eleitorais são sintetizadas num rosto, também as políticas de segurança apontam para algum canalha que concentre a inquietação – seja ele um homem ou um estado concreto. Mas todos sabem que, perante a verdadeira natureza do perigo, essa estratégia é um «placebo». Os inimigos do século XXI são intransparentes, dificilmente localizáveis; não estão para lá dos limites, mas no meio do mundo contra o qual lutam.

Como naquele relato de Kafka intitulado «A construção», o inimigo está de repente em toda a parte e mostra-se especialmente perigoso na medida em que não se mostra. Todo o fenómeno do terrorismo contemporâneo se torna tão inquietante por causa dessa invisibilidade.

Não só os seus executores pretendem ser invisíveis como também há uma espécie de invisibilidade objectiva, própria do assunto, como invisíveis são o medo e a insegurança que eles desencadeiam, e que não podem ser combatidos com evidências; a estratégia antiterrorista também concedeu primazia à suposição do que não se vê sobre a objectividade da evidência; a guerra não pôde ser justificada por meio de provas mas por indícios que ninguém conseguiu justificar, bem como depois se afirmou que não seria possível condenar ninguém por provas como as que o estado de direito exige, isto é, por evidências visíveis, e se introduziu o conceito de «guerra preventiva», que é uma espécie de justificação para fazer aquilo que, em princípio, só seria legítimo perante a evidência de uma agressão – realizada ou, pelo menos, iminente.

A ênfase não costuma contribuir para esclarecer a verdadeira natureza dos problemas – que, antes de tudo, têm de ser bem compreendidos. Não deveríamos cair no erro de pensar que enfrentamos outra estratégia de representação. A tradicional sintomática política que procura explicações causais para os fenómenos já não serve. Explicamos fenómenos complexos e estabelecemos causas e efeitos em vez de compreender que esses movimentos têm fins, ideologias, estruturas e estratégias que não se deixam reduzir a isso. Não só os culpados são invisíveis: são-no também os seus objectivos, frequentemente indeterminados e, por isso mesmo, inegociáveis. Os actuais terroristas não têm exigências explícitas que possam revelar a sua identidade. Estamos perante um fenómeno novo que nem é revolução nem guerra fria e que podemos compreender melhor com as categorias da conspiração.

Voltámos à lógica do combatente irregular, do guerrilheiro. A figura do delinquente ou criminoso está obsoleta, e o seu lugar é agora ocupado pelo conquistador, por aquele que confunde por meio de sinais que não significam o que deviam significar. As causas que ele aduz (religião, conflito palestiniano, globalização e pobreza) não devem ser levadas a sério, porque não são causas mas justificações a posteriori de acções que, de facto, não têm explicação suficiente. A violência difusa também tornou extremamente fluídas as causalidades. Para este tipo de assuntos, é válida a recomendação de Graham Greeene: não tomemos muito a sério nenhum jogo, quando não perdemos.

É preciso compreender e combater o terrorismo sem necessariamente acreditar no que os terroristas dizem; uma das armas deles consiste, precisamente, em criar confusão.

O 11 de Setembro de 2001 deu início a uma nova era de terrorismo, que também exige ser pensado e combatido de outra maneira. Com o desaparecimento dos limites e das fronteiras desaparece também a categoria tradicional do delito, que consistia, precisamente, na transgressão desses limites. Daí que a primeira discussão tenha sido para saber se estávamos perante uma guerra ou um acto de terrorismo. Os simulacros de guerra tradicional (Afganistão, Irak) foram executados sem se querer reconhecer que o inimigo se situa numa frente interior contra a qual se tem de lutar de outra maneira. Ao fazer uma guerra tradicional, Bush e aliados comportaram-se como quem responde  com evasivas fúteis quando o interrogam. A tentativa de atribuir a responsabilidade a determinados estados corresponde a um pensamento militarista tradicional, mas é possível que já tenhamos passado por uma situação de «individualização da guerra» (Beck, 2002, 34) que não põe frente a frente os estados e na qual o que acontece é que são indivíduos – ou grupos difusos, de algum modo articulados em redor de um princípio territorial ou estatal – quem declara guerra aos estados.

E, de facto, depois do desaparecimento do sistema mundial bipolar as ameaças já não procedem dos estados nem se apresentam na figura estatal. Todas as pretensões de identificação de «estados terroristas» apenas procuram, e inutilmente, reconduzir as categorias conhecidas um fenómeno que exige outra explicação. Os célebres estados – canalhas (Litwak, 2000) são – quando muito – pontos de apoio do terrorismo, mas este ultrapassa os territórios e as fronteiras. A guerra difusa dissolveu por completo o princípio da frontalidade; já não se localiza num espaço e num tempo concretos, antes pode acorrer em qualquer sítio e em qualquer momento. De qualquer modo, o confronto já não é territorial. Em última instância, falta um inimigo ao qual corresponda um estatuto de sujeito político. Já não estamos naquele mundo mais simples em que o inimigo tinha um rosto e uma mensagem, em que era possível negociar com ele, em que se lhe podia enviar uma declaração formal de guerra e em que ele poderia perdê-la.

O futuro imediato não vai deixar que nos consolemos com os tradicionais esquemas que ajudavam a combater a confusão.

Assistiremos a conflitos sem uniformes, com explosões dispersas e métodos de destruição sinistros, sem marcas nos mapas a desenhar as frentes de combate e com estratégias mais delineadas para produzir medo que para causar baixas.

 Martim van Creveld (1991 a 1999) viu em tudo isso uma metamorfose que vai além do  militar; termina a época da estatalidade moderna, da soberania reconhecível, do monopólio da força monopolizada e da segurança garantida. O mundo nunca mais será seguro enquanto não formos capazes de lhe dar uma forma que substitua a anterior. A violência difusa é uma expressão deste desajuste, como se nos encontrássemos no ponto de fricção de duas grandes placas da história. Entretanto, há que realizar todo um trabalho que exige menos emoção e mais inteligência: é preciso configurar um novo cenário multilateral, construir a segurança sem limites territoriais e enfrentar problemas e conflitos que já não podemos considerar alheios num mundo em que deixou de haver assuntos externos e há apenas política interna.

Guerras assimétricas

(…)

As guerras clássicas entre os estados eram fundamentalmente guerras simétricas, em que se exercia uma violência especialmente intensa no campo de batalha e nas quais se procurava limitar essa violência a esse cenário, impedi-la de alastrar a espaços mais amplos. A guerra clássica era simétrica, não porque os actores tivessem a mesma força mas porque eram da mesma ordem: eram estados. Essa igualdade de princípio pressupunha que os estados se reconheciam como similares e aceitavam as normas mediante as quais o direito regulava, com maior ou menos êxito, as situações de paz ou de guerra. O uniforme era o símbolo dessa simetria, era por ele que os combatentes de distinguiam dos outros e era ele que dava a conhecer os inimigos. A ritualização do cessar-fogo e as negociações de capitulação tinham por efeito facilitar a disposição para negociar de maneira que não fosse necessário continuar uma guerra já dada por decidida. Não é preciso idealizar estas condições para reconhecer a sua validade geral – entre outros motivos, porque o que desse modo se regulava não deixava de ser um exercício de violência brutal.

(…).

Na sua maior parte, os actos de violência que caracterizam as novas guerras, se medidos pelas normas e tratados internacionais, são delitos de guerra. Por isso é que as guerras costumam agora terminar com a constituição de tribunais específicos. Já não se pode dizer que a guerra é um confronto entre combatentes, pois mais de 80% dos mortos são agora civis, ao passo que em começos do século XX esta taxa andava pelos 10%. As novas guerras caracterizam-se pela desmilitarização da violência como mostram a crescente presença de grupos paramilitares, a extensão da prática do sequestro de civis e a aplicação sistemática de violência sexual.

Uma das características das guerras assimétricas é que nelas não há propriamente «batalhas» mas «matanças»; em vez de batalhas decisivas que conduzam à capitulação e ao acordo, o que há são matanças que conduzem ao desespero.

(…).

(…) as matanças agudizam o desejo de desforra e acelerem o ciclo infernal que cada vez mais fere as estruturas de uma sociedade. A matança é  mais um passo de uma violência instalada; a batalha, pelo menos na intenção, era o começo do fim da guerra.

(…).

As constelações simétricas caracterizam-se por a capacidade de matar e ser matado estar nelas tendencialmente repartida por igual. A assimetria suprime de forma radical esse equilíbrio: uma parte procura levar a outra a uma posição de completa inferioridade, e até de indefensão. Onde esta assimetria se exemplifica melhor é no desequilíbrio que os atentados suicidas representam. Faz parte da simetria do combate supor que o inimigo, ainda que pratique actos que ponham a sua vida em perigo, não deseja morrer. Pois bem: quem não se contenta com o risco normal  do combate e se dispõe a morrer nele obtém vantagens estratégicas que o convertem num inimigo muito difícil de neutralizar. O comportamento de um combatente que supomos não querer perder a vida no combate é é calculável; um inimigo suicida introduz um equilíbrio imponderável, uma assimetria radical.

Como dizia James Baldwin, «a criação mais perigosa de uma sociedade é a de um homem que não tem nada a perder»” (Innerarity, 2009: 72-82).

Bibliografia

INNERARITY, Daniel. (2009). A Sociedade Invisível. Teorema. Lisboa. pp. 72-82).