Um desmaio libertador

Publicado por: Milu  :  Categoria: FLAGRANTES DA VIDA, Um desmaio libertador

Sê senhor da tua vontade e escravo da tua consciência.

ARISTÓTELES

Sem querer ser cansativa, isto é, sem estar a querer explorar demais o mesmo tema, penso, no entanto, ser pertinente contar mais este episódio da minha vida, de um tempo em que ainda não me era permitido agir de acordo com a minha vontade, no que concerne às práticas religiosas, porque se fosse, nem haveria sequer, qualquer possibilidade de me lembrar deste acontecimento, já que nunca poderia ter acontecido.

Esta minha história teve origem no interior da igreja, enquanto me encontrava a assistir a uma missa. A igreja era bastante pequena e os corridos bancos não abundavam, por conseguinte, mais uma vez ali estava de pé e extremamente contrariada, no meio daquela mole de gente sem graça, a maioria vestida de rudes vestes de cor preta, algumas mulheres de cabeça coberta com um negro e arrendado véu e terço entrelaçado nos dedos das mãos. Como sempre, ansiava fervorosamente pelo fim da missa, para poder voltar para casa e embrenhar-me nas minhas inspiradas brincadeiras, que tanto e tão bem preenchiam o meu espírito de então. Para me entreter e assim alhear-me da ladainha, que o padre borrifava da santa boca fui olhando em meu redor, quando à minha direita mas um pouco afastada avistei a Élia, a minha vizinha e cúmplice de brincadeiras, apesar de ser mais velha do que eu, cerca de três anos.

Senti-me um pouco mais animada,  já não estava tão sozinha, tinha ali, bem perto de mim, a minha grande companheira das inconsequentes conspirações infantis. Daí em diante e por diversas vezes entreolhámos-nos sorrindo amistosas uma para a outra, ainda assim, nunca em algum momento pus de parte a ideia de me pôr ao fresco, nem que fosse na confusão do momento da comunhão. Já nessa altura sabia, que mais vale tarde do que nunca! Em dada altura, senti que os olhos me lacrimejavam, para limpar as inopinadas lágrimas tive de recorrer ao pequeno e fino lencinho de assoar, que a minha mãe insistia em fazer-me guardar, para o que desse e viesse, junto ao pulso, por dentro da manga do branco e imaculado casaquinho domingueiro. Mas as lágrimas teimavam em aflorar-me aos olhos, perturbando-me a acuidade visual e impedindo-me de ver nitidamente o simpático e belo sorriso da minha querida amiga, que entretanto se apercebera, que alguma coisa não estava bem comigo. Subitamente fui acometida por um acesso de sono incontrolável, bocejava ininterruptamente e só conseguia pensar numa fofa almofada, para nela encostar a cabeça e dormir, dormir profundamente. Continuava ainda nesta aflição, lutando desesperadamente contra o desmesurado sono, quando me senti afundar numa enorme, alva e fofa nuvem, que me fez sentir uma nunca antes experimentada sensação de alívio, como se tivesse acabado de sair do pior dos infernos.

Tinha desmaiado.

Assim que de novo abri os olhos, num ápice me pus de pé, não sei onde, para tal, terei ido buscar forças e sangue frio. Talvez a minha força tivesse tido origem na vergonha que senti, quando reparei que me carregavam em braços em direcção ao fresco da rua, de uma forma tão destrambelhada, que me puseram de cuecas ao léu. Pareceu-me mal. Lá por ser criança também tinha direitos, e um deles era o  meu direito ao pudor. Aquele descuido da parte dos adultos ofendeu-me profundamente. Eu mesma já tinha sido testemunha de um desmaio de uma senhora na igreja, que contrariamente a mim, foi transportada para a rua com maneiras adequadas. Lembrava-me bem. A meio da missa eu tinha saído sub-repticiamente do interior da igreja, para me acoitar no espaço entre a rua e o guarda-vento, quando senti as portas vaivém abrirem-se de rompante e logo surgiu, perante os meus assarapantados olhos, um colossal par de  pernas de uma bem nutrida senhora, que havia tido o azar de logo naquele infeliz dia, de ter optado para compor a toillete, por uma daquelas saias travadas, que ao mínimo movimento dão em subir insidiosamente pelas pernas, expondo delas, no desmaio, mais do que o conveniente.  Mas, pelos vistos,  uma criança não inspira esses cuidados! O meu embaraço foi tal, que de imediato recuperei do chilique, e quando, a custo, porque não me apetecia, me dispus a entrar novamente na igreja, alguém se adiantou dizendo que era melhor ir para casa e avisar a minha mãe, porque podia estar doente.

Hossana nas alturas!

Ó bendito desmaio!

brincar

Não foi preciso mais, numas escassas décimas de segundo já estava de costas voltadas para a igreja. Chegada a casa logo contei à minha mãe, que se mostrou francamente preocupada e o caso não era para menos, porque cuidei de exagerar um bocadinho, para a castigar, tentando que se sentisse culpada por me obrigar a ir à missa, ainda para mais, quando já tinha motivos suficientes para suspeitar que, a este respeito, mais tarde eu viria a deixar de  lhe obedecer. Durante o dia foi com bastante agrado, que por várias vezes, surpreendi a minha mãe a olhar para mim com um ar circunspecto.  Ter visto uma expressão ralada no rosto da minha mãe  fazia-me sentir bem, porque era uma prova de amor por mim, que o tinha e muito, embora nem sempre o demonstrasse. A impressão que ainda guardo  é que os pais de antigamente sentiam vergonha de exteriorizar os sentimentos. Mais depressa se dava uma lambada do que um beijo. Eram simplesmente os sinais daqueles tempos.