Asas para a Arte

Publicado por: Milu  :  Categoria: Asas para a Arte, SOCIOLOGIA DA FAMÍLIA

 

“Nunca pintei os meus sonhos. Pintei a minha própria realidade.”

Frida Kahlo

Já cheguei a ler algures que, numa tentativa de justificar a teoria que postulava que a mulher era intelectualmente inferior ao homem, não faltou quem tivesse a veleidade e a ousadia de afirmar que era a própria História que o confirmava, uma vez que esta, praticamente só refere  homens quer no domínio das ciências, quer nas artes. E, de facto, às primeiras impressões,  assim parecia ser. Ora, se formos para o domínio das artes plásticas, quem é que nunca ouviu falar de Vicent Van Gogh, Salvador Dalí, Pablo Picasso, Auguste Renoir, Leonardo da Vinci, Michelangelo, etc, etc, etc? Mas, e as mulheres artistas plásticas famosas quem foram, e quantas foram? Porque não ouvimos falar delas com a mesma constância que ouvimos falar dos seus congéneres masculinos?

Para perceber esta problemática decidi fazer uma breve pesquisa, que me permitiu elaborar este post, com base em  dois testemunhos. O primeiro testemunho versa sobre a  “A Invisibilidade da Mulher na História da Arte”  e retrata uma época a partir do século XVI, que pode ser consultado aqui e o segundo testemunho consta no livro “Cantando a Plenos Pulmões” de Bepko & Krestan (1993).

A Invisibilidade da Mulher na História da Arte

“Não obstante, pintores, escultores e poetas não se coibirem de tomar as mulheres como modelos, era restringido à mulher o acesso à educação, sobretudo no domínio científico e  excluídas da Escola de Belas Artes. 

A mulher foi mantida  mais ou menos à margem da produção artística, consequentemente silenciosa e ausente na História da Arte, embora sempre tivessem havido mulheres artistas. O que lhes faltou  foi campo propício para desenvolver livremente o seu talento. Excepto as que por condição de nascimento ou devido a uma certa intrepidez ousaram dar curso ao génio criativo.

Muito embora hajam menções de mulheres artistas na antiguidade, assim como na idade média, as mulheres artistas são geralmente ricas aristocratas alfabetizadas e freiras que alimentaram uma produção de trabalhos artísticos associados aos bordados, aos têxteis e ao desenho e pinturas de iluminuras. A mais representativa das mulheres intelectuais e artistas desta época foi  Hildegard von Bingen. Na pintura algumas mulheres conseguiram desenvolver actividade artística como profissionais a partir de meados do século XVI. Foi o caso de Caterina van Hemessen (1528-1587); Sofonisba Anguissola (1531-1625), considerada a primeira artista do Renascimento a adquirir fama internacional; Lavínia Fontana (1522-1614); Artemisia Gentileschi (1593-1653), é geralmente considerado o primeiro grande nome da pintura no feminino. Seguindo a regra, é filha de um pintor, Orazio Gentileschi, talentoso representante do Caravaggismo.

Todas elas têm uma particularidade comum – são filhas de pintores bem sucedidos. E muitas outras lhes sucederam. Apesar de todo este capital feminino nas artes foi lento e difícil o processo de emancipação da mulher ao longo de milénios. Rosa Bonheur (1822-1899), artista famosa foi ao ponto de trocar as roupas de mulher pelas de homem para transpor obstáculos e ganhou muito dinheiro com a sua pintura. Recebeu uma medalha de ouro na exposição de 1848 e veio tornar-se Oficial da Legião de Honra em 1894.

Chegado o século XX, umas poucas mulheres impuseram-se no mundo da arte  por força do seu talento e, por vezes, fortes personalidades e naturezas transgressoras. Graças à proximidade temporal, conhecem-se as sua biografias em detalhe, facto que, associado a percursos de vida mais ou menos atribulados, despertou o interesse do cinema, como aconteceu com Frida Kahlo (1907-1954), a artista mexicana que, apesar de casada com Diego Rivera, com tudo o que isso acarreta em termos de dificuldades para a sua afirmação, consegue individualizar uma obra de grande originalidade” (Nabais, 2008).

Sofonisba Anguissola

 

Lavínia Fontana

 

“Cantando a Plenos Pulmões”

 

“As décadas de 1940 e de 1950 e todo o período posterior à Segunda Guerra Mundial testemunharam a emergência de uma vanguarda americana na arte. O expressionismo abstracto começara a instalar-se.

Foi o auge daquilo a que chamamos «modernismo», a época em que ainda acreditávamos em valores absolutos e numa estética pura. Antes disso, durante a Depressão dos anos 30, os artistas americanos começaram a formular um papel social para as artes visuais. Vários artistas, tais como Lee Krasner, Louise Nevelson e Alice Neel, conseguiram o primeiro apoio financeiro para programas apoiados pelo patrocínio governamental.

De acordo com um autor, durante a década de 1939 havia «hostilidade pública contra trabalhadoras mas também havia patrocínio governamental para as artistas». Foi como se a convicção de que as mulheres não podiam ser criativas, que persistira desde Freud e mesmo antes, tivesse sido temporariamente suspensa.

A necessidade era a mãe da invenção.

Assim como a Segunda Guerra Mundial oferecera oportunidades e empregos para as mulheres no início da década de 1940, a época da Depressão oferecera às mulheres um acesso ao mundo da arte através de projectos com fundos governamentais.

Mas quando a Depressão terminou, a história mudou.

Lee Krasner

A carreira da artista Lee Krasner exemplifica alguns desses avanços e recuos da mulher como sujeito/artista até à mulher como objecto/esposa. Lee Krasner já era uma artista reconhecida quando se casou com Jackson Pollock em 1945, depois de conhecê-lo em 1941.

Assim como ela teve de sair do mundo dos projectos artísticos com pleno apoio do governo para o das galerias particulares e marchands, houve igualmente uma transição na maneira como era vista pelo mundo artístico. A imagem de «Mrs. Pollock/esposa obscureceu Lee Krasner/pintora no mundo artístico de Nova Yorque». O apoio anteriormente sem preconceitos do governo para as artes terminou nas décadas de 1940 e de 1950 e Krasner e as suas colegas foram confrontadas com a opinião amplamente divulgada de que as mulheres não sabiam pintar.

O discípulo de Freud, Havelock Ellis, dissera que «só os homens possuíam as asas para a arte». E o maior cumprimento que Hofmann, um conhecido professor de pintura, tinha para as suas alunas ecoava em Ellis: «Esta pintura é tão boa que ninguém diria que foi feita por uma mulher».

Depois de Krasner e Pollock abrirem uma exposição conjunta em 1949, intitulada «Marido e Mulher», as críticas e as experiências negativas foram tantas que Krasner não conseguiu expor durante dois anos e destruiu muitas das suas próprias pinturas.
Só podemos deduzir que ela ficou devastada e temporariamente renunciou à parte da imagem dividida que representava o seu lado artístico.

Elaine Kooning, outra importante artista casada com um famoso artista, Willem de Kooning, passou por um dilema semelhante. Eventualmente, tanto Krasner como Elaine de Kooning passaram a assinar as suas obras apenas com as iniciais para evitar o título de «femininas».
A reacção crítica a muitas das artistas importantes do período foi trivializar as suas contribuições, estabelecendo portanto uma maneira diferente de falar sobre a arte. O’Keeffe e outras artistas mais antigas só eram citadas em termos de categoria especial estabelecida pelo mundo artístico como arte «feminina«. Esta tentativa de marginalizar as mulheres ao estabelecer categorias críticas especiais para a sua arte tem paralelo nas críticas literária, musical e em todas as outras áreas de expressão artística feminina.

Assim, a forma de vida feminina nos anos 40 e 50, mesmo a de artista, a que era potencialmente sujeito da sua própria vida, ainda estava a ser inexoravelmente moldada pelo padrão da mulher devotada ao lar e à família. A tentativa de reconciliar a imagem dividida foi expressa intensamente pelas pinturas da femme-maison de Louise Bourgeois, exibidas pela primeira vez em 1947. São pinturas com casas colocadas no topo de corpos femininos em vez de cabeças. Os críticos da época disseram que as pinturas afirmavam uma identificação «natural» entre a mulher e o lar. Chadwick diz: «Nestes trabalhos inquietantes, a domesticidade, mostrada através de fachadas vazias e de janelas pequenas, define as mulheres mas nega-lhes a voz.»” (Bepko & Krestan, 1993: 71-73).

 

Conceito de mulher dividida: “a experiência feminina foi reforçada por uma sociedade que acreditava que «as mulheres não podem pintar, as mulheres não podem escrever». As mulheres foram feitas para amar. As emoções e os sentimentos prescritos pelos papéis de esposa e de mãe eram considerados um domínio feminino e a acção e a criatividade, um domínio masculino. Para uma mulher, amar significava ser o objecto amado, a amada, e tratar das necessidades dos outros. A história cultural faz-nos pensar que a divisão é algo real, que as energias do amor nutridor e do amor enquanto paixão criativa são distintas e separadas e que não podem ser contidas numa pessoa. Ou se põe a individualidade de lado e se ama, ou se desiste do amor e se cria. Abandonar o amor pela paixão criativa significa ser menos mulher e o que ela cria é de pouco valor” (Bepko & Krestan, 1993: 31).

Bibliografia 

BEPKO, Cláudia. KRESTAN, Jo-Ann. (1993). Cantando a Plenos Pulmões. Editora Rocco, Lda. Rio de Janeiro.

Webgrafia

NABAIS, Joaquim. (2008). A Invisibilidade da Mulher na História da Arte. Câmara Municipal de Penamacor. (consultado  no dia 17/09/2017 no site

http://www.cm-penamacor.pt/00_exposicoes/invisibilidade_da_mulher.pdf