Avancemos!

Publicado por: Milu  :  Categoria: Avancemos!, FEMINISMO

“Um forte sentido de liberdade pessoal, associado à felicidade individual, é fundamental para sobreviver com boa saúde até uma idade muito avançada.”

Deepak Chopra

 

A Tomada de Consciência

Mais uma vez em prol da libertação da mulher, e reforçados que foram os meus sentimentos de  repulsa e de indignação com a notícia de Maus Tratos Sobre Idosos, publicada no Diário de Notícias do dia 14 do corrente mês, (aqui), que nos dá conta que, relativamente a Portugal, a violência sobre  idosos aumentou cerca de 30%, sendo as mulheres as principais vítimas, algumas delas a sofrerem em silêncio há mais de 40 anos,  apresento alguns excertos de um livrinho bastante assertivo que me veio parar às mãos, e que se intitula “Na Política, as Mulheres São Capazes“. Uma edição da Colecção “Bem Me Quer”, Nº 9, editado  sob a batuta da Comissão para a Igualdade e para os Direitos da Mulher – Presidência do Conselho de Ministros.

“Acontece muitas vezes passar despercebido o valor e o saber de mulheres muito capazes e muito qualificadas apenas por darem mostras de falta  de confiança em si próprias.”

“Todas nós temos opiniões sobre a sociedade e sobre a vida quotidiana. Se queremos ser capazes de contribuir para que as coisas sejam como achamos que deveriam ser, também precisamos de ter coragem para dizer abertamente o que pensamos, quando e onde são tomadas as decisões.”

“Não há dúvida que as mulheres não se envolvem muito na política. As grandes organizações que detêm o poder, assim como os órgãos eleitos por sufrágio popular, continuam dominadas por homens. Tal facto reflecte-se nas decisões tomadas e na definição das políticas: nem sempre favoráveis às mulheres como poderiam ser.”

“Há razões que explicam este domínio masculino e nós, mulheres, temos de assumir a nossa parte de responsabilidade neste estado de coisas. Aceitámos que, durante muito tempo, na sociedade, vigorasse a discriminação em função do sexo. Cabe-nos agora a nós querer participar, mas, ao mesmo tempo, é preciso que os homens modifiquem a sua atitude em relação às mulheres como políticas.”

Se quisermos tornar concreta «uma política à maneira das mulheres», temos que:

  1. Analisar a cultura dos políticos (isto é, os seus modelos, a maneira como actuam, o que verdadeiramente lhes interessa), os papéis que os políticos e os líderes desempenham;
  2. A cultura das mulheres (isto é, os seus modelos, a maneira como actuam, o que verdadeiramente lhes interessa), e os papéis que as mulheres desempenham.
  3. Assim, temos de definir a situação e examiná-la, pensar como poderá ser modificada e como dar um contributo válido para mudar a actual cultura política ou seja, a maneira de a fazer. Temos de desafiar as atitudes, as expectativas e as práticas profundamente enraizadas. E temos de ter a coragem de o fazer.”

“Não se pode deixar de reconhecer que a nossa cultura política actual – devido ao facto de ter sido sempre realizada por e para gente com poder – não é a melhor. Há regras e tradições que se entrincheiraram, e que acabaram por condicionar a evolução das pessoas, da política e das organizações. Criaram uma uniformidade entre os políticos, donde resultou quase não haver lugar para ideias novas e não convencionais.”

“Desde os primeiros contactos que as crianças vão tendo com a sociedade em que vivem, que rapazes e raparigas vão adquirindo experiências diferentes. Aqueles, influenciados pelo modelo masculino, que valoriza a força, a competição, a agressão, mas também a iniciativa e a acção. As meninas conformando-se com o ideal feminino, configurado, em grande parte, com a passividade e a sujeição, e, em contrapartida, com maior sensibilidade, afabilidade e disponibilidade. Aprendemos, assim, a exprimir-nos de modos diferentes desde a mais tenra infância: começa pelas cores dos casaquinhos, e, num ápice, desencadeia-se a adaptação ao desempenho dos papéis sexuais.”

“Como mulheres, temos de estar conscientes de que também nós contribuímos para a manutenção dos estereótipos pela maneira como educamos os nossos filhos e as nossas filhas. Se queremos mudar este estado de coisas, vamos ter de meter mãos à obra. E, assim sendo, também os homens terão de aprender a ser responsáveis por tarefas que dantes respeitavam apenas às mulheres.”

Anedotas e Caricaturas

Quando nos empenhamos a trabalhar para uma mudança de atitudes no campo de igualdade de direitos entre mulheres e homens, é preciso ter consciência de várias coisas.

  1. Não há dúvida que as anedotas, as caricaturas, os grafiti, contribuem para a manutenção de atitudes muito arreigadas, mas também é certo que são um sinal.
  2. Quando vemos as anedotas e as caricaturas dos homens políticos e as das mulheres políticas, verificamos que são consideravelmente diferentes. As imagens dos políticos e as anedotas sobre eles raras vezes se referem às suas características físicas abaixo do pescoço; no caso das mulheres, pernas, seios, etc., constituem geralmente alvo preferencial.

 

“Dupla Penalização: as Culpas e as Acusações”

 

“O que quer que se faça é mau:

Exemplo: A uma mulher com crianças pequenas que não trabalha fora de casa diz-se-lhe que é uma irresponsável e uma dependente, que devia ter um emprego, assumir as suas obrigações sociais e pagar impostos. Ensina-se-lhe tudo o que ela devia fazer e aponta-se-lhe o muito que haveria a esperar dela se ela quisesse ser útil à sociedade, o que não impediria que fosse uma boa esposa e uma boa mãe. Há quem pense que ficar em casa para tratar dos filhos não tem razão de ser.

Se uma mulher que é mãe arranja um emprego, ou é militante de um partido político ou de uma Ong, diz-se dela que não liga ao marido, nem aos filhos e os deixa ao Deus-dará; que a sua militância se faz à custa da família, que é egoísta, etc. Também se lhe lembra a sorte que tem de ter um marido compreensivo e inteligente. E o pior é que são muitas vezes as próprias mulheres a levantarem este tipo de acusações. Ora isto não pode acontecer.”

“Não é difícil fazer com que as mulheres se sintam culpadas ou falhadas. (…) Quanta mulher maltratada não acha que a culpa afinal é dela? Não acabou por ser ela quem provocou o homem, porque lhe disse, ou fez, isto e aquilo? E as que foram violadas? Quantas vezes não ouviram dizer que deram aso ao sucedido, ou que deviam ter pensado… etc. Por outras palavras: «não tinham nada que estar onde estavam». Ou porque nos saracoteámos, ou porque o decote era generoso – somos presa fácil. Haja o que houver, a culpa é sempre nossa.”

“Temos, decididamente, de trabalhar os nossos sentimentos de culpa e de vergonha, que nos oprimem. É assunto que há que resolver em conjunto. Uma das condições para isso é não lançar o descrédito, nem culpar as outras mulheres.”

Bibliografia

Comissão Para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres. (2001). Na Política, as Mulheres São Capazes. Presidência do Conselho de Ministros. Lisboa.

 

 

 

E Delas se fez História

Publicado por: Milu  :  Categoria: E Delas se fez História, FEMINISMO

“Se entre os dois sexos, por efeito de diversa educação, não há uma perfeita igualdade, no sentido rigoroso da palavra, há, todavia, uma absoluta equivalência, e onde existe equivalência não pode encontrar-se inferioridade”.

(Regina Tavares da Silva, 1982:34).

Este meu post constitui uma breve abordagem de como nasceu o feminismo em Portugal, e tem como fim primordial, esclarecer os mais curiosos e curiosas sobre este movimento “a favor da emancipação da mulher portuguesa, entendido exactamente como tomada de consciência do valor da pessoa, como definição do seu papel na sociedade, e como contestação e revisão de preconceitos e limitações até aí impostos à mulher” (Silva, 1982:7).

Considero que nunca será demais falar da luta deste “punhado” de  mulheres que nos alvores  do século XX, empreenderam uma laboriosa luta contra o estatuto inferior da mulher, que então vigorava.

Tenho lido com alguma frequência, que nos últimos tempos o estatuto das mulheres mudou tanto, que será praticamente impossível retroceder. Aliás, Silva (1982:35) postulou essa mesma ideia quando disse que ““Com a concordância dos homens ou com a sua recusa, as feministas sentem e dizem que o processo é irreversível e o regresso ao passado impossível”. Contudo, não comungo dessa certeza. Tenho visto acontecer tantas coisas que ainda não há muito tempo pareciam impossíveis…  o mais seguro será mesmo promover a informação das jovens de agora, uma vez que tudo o que não custa a ganhar, também não custa a perder, logo, faz-se pertinente  avisá-las  para que se mantenham em alerta, pois que a roda tanto anda, como desanda… E ainda há quem gostasse de a ver a andar para trás…

O movimento feminista em Portugal começou a ganhar corpo nas primeiras décadas do século XX, quando umas poucas mulheres, oriundas da burguesia, o que faz dele um movimento elitista, começaram a pôr em causa os conceitos relativos ao papel da mulher na sociedade. De acordo com Regina Tavares da Silva (1982:7) “Com certo vigor a dado passo, o movimento feminista em Portugal é, no entanto, sempre um movimento moderado, nunca declaradamente subversivo nem violento, mais atento à satisfação das suas reivindicações pela força da persuasão, do direito e da educação do que pela força dos gritos e das manifestações”.

Foram as mulheres deste movimento feminista que “começaram a fazer ouvir a sua voz, chamando a atenção para a situação das mulheres, situação de inferioridade, quer legal, quer social, quer ainda cultural, e para a necessidade de a alterar, nomeadamente através de um processo de educação e de valorização a empreender urgentemente. Todas insistem neste aspecto, radicais e conservadoras, feministas confessas e não feministas declaradas” (Silva, 1982:8).

É importante referir que nem todas estas mulheres tinham os mesmos ideais sobre o papel da mulher na sociedade. Algumas achavam que a política não era para mulheres, ou que o lugar delas era mesmo a cuidar da família. Contudo, todas defendiam que a mulher deveria ser instruída, para melhor saber educar os seus filhos, quanto mais não fosse.

Cuidar da casa, do marido e dos filhos sim, mas sendo uma mulher sobretudo instruída, com bons conhecimentos de puericultura,  e livre de superstições ou  preconceitos de qualquer ordem. No que diz respeito às superstições, e tendo em conta que este tipo de crenças grassa em consonância com a  ignorância, chegou até a ser criado o Grupo das Treze, que reunia frequentemente, como para demonstrar às mulheres que não havia motivos para temer qualquer situação onde o número treze estivesse envolvido.

Do pequeno grupo de mulheres que se dedicaram à causa das mulheres  fez parte Alice Pestana, uma das percursoras radicais; M.ª Amália Vaz de Carvalho, a grande escritora, é uma não feminista profundamente preocupada com a educação das mulheres; Carolina Michaëlis de Vasconcellos, a eminente sábia, é também uma feminista consciente da carência e pobreza cultural das mulheres; Ana de Castro Osório é talvez a teórica mais notável do feminismo e uma das militantes mais empenhadas; Adelaide Cabete é uma das dirigentes mais impulsionadoras e prestigiadas da corrente feminista e das suas várias expressões” (Silva, 1982:8).

Mas afinal o que é o Feminismo, este termo que desde sempre tem sido conotado negativamente, ao ponto de algumas mulheres sentirem necessidade de dizerem que não são feministas, quando até são?

Antes de mais é imperioso esclarecer que o feminismo, o verdadeiro feminismo não pretende tomar o lugar do homem, muito menos imitá-lo nos seus padrões. Quando a mulher começou a fumar não foi certamente para imitar o homem porque os homens fumam, mas sim porque se fumar dá prazer, relaxa, enfim, porque é que a mulher, feita do mesmo barro, não poderia fumar também? A questão implícita no Feminismo é uma questão de igualdade, logo uma questão de direitos.

“Ana de Castro Osório, uma feminista radical e militante, numa obra que é talvez o primeiro livro declaradamente feminista desta época exprime o sentimento de vergonha e de ridículo que muitos, os homens e as próprias mulheres, sentem a este propósito:

«Feminismo: É ainda em Portugal uma palavra de que os homens se riem ou se indignam, consoante o temperamento, e de que a maioria das próprias mulheres coram, coitadas, como de falta grave cometida por algumas colegas, mas de que elas não são responsáveis, louvado Deus!…»” (Silva, 1982:13).

Então o que vem a ser o Feminismo nas palavras de uma percursora?

“O Feminismo é mais alguma coisa de grande e sublime, é a dignificação da mulher, é a consequência de uma evolução e por isso precisamos de vencer alguns prejuízos que entolham o nosso caminho. Àqueles timoratos que perguntam aonde irá o Feminismo parar responder-lhe-hemos: o Feminismo terminará onde acabam todas as ideias de Progresso, toda a esperança generosa, terminará aonde acabam todas as aspirações justas» (Adelaide Cabete, in Discurso de Abertura do I Congresso Feminista e de Educação).

Para compreender o incómodo que o termo Feminismo provocava em muitas mentes, e ainda hoje provoca, atentemos nesta história:

“Virginia de Castro e Almeida, na Introdução da sua obra «A Mulher», exprime em termos da sua própria evolução individual o conceito de feminismo que a anima. Educada numa atmosfera tradicional, como ela própria diz, com a «boa educação vulgar de todas as mulheres da minha classe, do meu tempo e da minha terra» (1), condicionada por preconceitos e tradições relativos à imagem e ao papel da mulher na sociedade, naturalmente que o feminismo lhe apareceu «sob um aspecto desprezível, cómico, disparatado, absurdo, por vezes monstruoso. Essa nobre concepção dos verdadeiros deveres e direitos das mulheres, não encontrava um echo indulgente na minha consciência. E depois… depois tive uma grande mestra, a Vida; essa mestra rude e prodigiosa cujos ensinamentos práticos nunca falham. Foi assim que o feminismo, que primeiro me aparecera sob a forma grotesca e vaga de uma utopia talvez perigosa, a pouco e pouco se transformou aos meus olhos numa grande e generosa ideia de redenção, que avança gravemente com a serenidade majestosa de todas as forças invencíveis destinadas a mudar a face do mundo»” (Silva, 1982:14-15).

“Transformação, mudança, redenção aparecem aqui como novos conceitos dinâmicos e complementares dos anteriormente expressos – a verdade,  a justiça, o progresso, a esperança – numa perspectiva idealista do objectivo último a atingir em todo este processo” (Silva, 1982:15).

“Elevação, libertação, nobilitação, dignificação, reabilitação – conceitos idealistas que se repetem e que vão enriquecendo um conteúdo de feminismo que se quer transformador e que se revela cheio de sonhos e de utopias” (Silva, 1982:15).

“na voz de Elina Guimarães: «… ser verdadeiramente mulher não é como para muitos ocupar-se apenas de frivolidades, de bagatelas ou então não ter no mundo senão a preocupação da rotina doméstica. Repudiamos tanto a boneca fútil como a serva embrutecida. Para nós a verdadeira mulher é aquela moralmente forte, intelectualmente culta, que dentro da sua esfera, qualquer que seja ela, cumpre conscientemente a sua missão social»” (Silva, 1982:18).

“À recusa do passado segue-se a promessa do futuro; à recusa da mulher oprimida, a proposta da verdadeira mulher; à missão limitada do passado, uma nova missão; ao destino marcado desde o berço, a escolha do próprio destino; à relação opressora, a relação de igualdade” (Silva, 1982:18).

“Em primeiro lugar, o estatuto da mulher está marcado desde o berço; a criança que nasce, se é do sexo feminino, tem logo à sua frente um caminho traçado e um estilo de vida imposto; por isso é saudada de modo diferente, e por isso se educa segundo padrões próprios e bem determinados” (Silva, 1982:18).

Quais eram, afinal, as reivindicações do movimento feminista português?

  • “O direito de voto como manifestação privilegiada da participação cívica e política;
  • A independência económica e consequente autonomia psicológica e afectiva da Mulher;
  • A educação das mulheres – tónica dominante do Feminismo Português” (Silva, 1982:23).

“A independência económica é um dos motes da propaganda feminista. A generalidade das defensoras do feminismo, que sobre este aspecto se debruçaram, encara-a como facto de libertação e garantia de emancipação efectiva. Em seu entender, a mulher não dependente economicamente quebrou uma das cadeias da grande corrente opressora que a envolve e a limita. Independente pelo seu trabalho, a mulher poderá tomar as suas próprias decisões, traçar o seu futuro, sonhar novas ambições, projectar-se num espaço mais vasto (Silva, 1982:27).

“A emancipação dada pelo trabalho e consequente independência económica tem ainda uma outra dimensão que, se bem que em termos menos definidos, é constantemente aflorada e está subjacente a todo este processo. É a dimensão da autonomia pessoal e da independência psicológica da mulher que se basta a si própria financeiramente. Essa mulher, porque pode decidir do seu futuro, sem pressões de ordem económica, pode também decidir dele em termos de afectividade, de gosto pessoal, de vocação própria. Porque não está condicionada a ver no casamento o seu único futuro socialmente aceite e o seu único meio de subsistência, essa mulher é necessariamente mais livre, pode saber o que quer e realizar aquela autonomia e independência psicológicas e afectivas, a que as feministas aspiram.

É ainda Ana de Castro Osório que exprime:

…«desenvolver livremente as qualidades afectivas na mulher – é deixar-lhe o pleno direito da escolha, o direito sagrado de amar ou não amar, de casar ou ficar solteira, sem que isso represente uma vergonha ou, pelo menos, um ridículo.»

Em resumo, os conceitos de independência económica facultada pelo trabalho da mulher e de autonomia psicológica e afectiva daí resultantes constituem elementos definidores do feminismo português, tal como ele é expresso pelas suas teóricas e defensoras” (Silva, 1982.29).

Sobre a educação das mulheres

“(…) o tema instrução – educação das mulheres é um tema constante e uma preocupação reiteradamente expressa pelas feministas portuguesas. Enquanto que em outros aspectos, incluindo os anteriormente referidos – sufrágio e independência económica – pode haver uma certa especialização no tratamento dos temas – escritoras que se preocupam preferencialmente com um deles e sobre ele insistem – neste, a insistência é praticamente unânime, como é unânime o reconhecimento dos males da situação das mulheres no aspecto educativo.

O estatuto de ignorância das mulheres é a base reconhecida e confessa de todos os males. Pior que a ausência de direitos cívicos ou políticos, pior do que a dependência económica, é a ignorância total da mulher, a total inércia intelectual e a total dependência que daí resulta. A par do analfabetismo literal das classes inferiores e, por vezes, não apenas destas, refere-se o analfabetismo cultural e intelectual das classes superiores, resultado de uma educação errada e deformadora que, desde a infância, é ministrada à mulher” (Silva, 1982.29).

“A educação-veículo para a manutenção de estereótipos, de papéis e imagens tradicionais para a mulher, a educação-moldagem a um ideal é agora substituída pela educação-veículo de transmissão de novos papéis e novas imagens e meio de libertação desse falso ideal” (Silva, 1982.33).

Em 1921, Aurora de Castro e Gouveia refere o tema menos comum de que é a própria educação que cria a diferença de aptidões e, em última análise, a discriminação:

“«Se homens e mulheres são irmãos, descendentes dos mesmos pais, se os progenitores varões transmitem as suas qualidades e as suas taras tanto aos filhos de um sexo como aos do outro, como é que o homem e a mulher podiam ter natureza e aptidão diversas? O que, de facto, acontece é que a diversa educação ministrada aos dois sexos, faz adquirir a cada um deles qualidades diferentes das do outro» (Silva, 1982.34).

“Com a concordância dos homens ou com a sua recusa, as feministas sentem e dizem que o processo é irreversível e o regresso ao passado impossível, que os tempos mudaram e uma nova consciência de si mesma pode fazer da mulher uma nova pessoa” (Silva, 1982.35).

 

Bibliografia

SILVA, T. Regina. (1982). Feminismo em Portugal na voz de mulheres escritoras do início do séc. XX. Presidência do Conselho de Ministros. Edição da Comissão da Condição Feminina. Cadernos Condição Feminina. Lisboa.

Espíritos inquietos

Publicado por: Milu  :  Categoria: Espíritos inquietos, FEMINISMO

“Nunca tive uma preocupação que não pudesse ser afugentada com uma hora de leitura”

Montesquieu

“Se quisermos ler de facto, temos de ler o nosso próprio livro no texto que temos diante de nós; há que torná-lo pessoal, trazê-lo à nossa própria vida e pensamento, ao nosso juízo e acção pessoais”

Schole

Quando nos dedicamos à leitura as descobertas são inevitáveis. Mas quando deparamos com escritos de mulheres esclarecidas, libertas, então, estamos perante um mundo novo. Um mundo que deve estar ao alcance de toda a gente.

Através deste meu sítio, eu vou dando o meu pequeno contributo partilhando este mundo sem  mulheres oprimidas, por isso um mundo novo.

Leia muito, liberte-se – é o meu slogan.

Aventuremos-nos, então, por este mundo de libertação, mergulhando na leitura  “Dos perigos de as mulheres lerem demasiado” por Elke Heidenreich, que constitui o prefácio do livro “Mulheres que lêem são perigosas” da autoria de Stefan Bollmann.

“«Estás a ver porque razão os livros são odiados e temidos? Mostram o rosto da vida, com todos os seus poros. A mentalidade pequeno-burguesa, porém, quer rostos de cera, sem poros, sem cabelos, sem expressão.» Trata-se de uma citação de um romance de ficção científica de Ray Bradbury, chamado «Fahrenheit 451» e publicado em 1953, que mais tarde foi adaptado ao cinema por François Truffaut. O romance descreve um mundo em que os bombeiros já não apagam fogos, mas antes os ateiam. Fazem fogueiras de livros. Quem quer que possua livros ou os leia passa imediatamente a ser o inimigo público número um e, em determinadas circunstâncias, pode sem grandes delongas nem hesitações acabar também na fogueira” (Heidenreich, 2007:13).

“É que uma mulher que lê questiona, e questionar as coisas destrói as regras já firmemente estabelecidas” (Heidenreich, 2007:15).

“Nas fogueiras da Inquisição arderam sobretudo mulheres e livros. Proporcionalmente, a quantidade de homens que delas foram vítimas foi bastante reduzida. No entanto, as mulheres que sabiam ler e escrever, que soubessem fosse o que fosse, e os livros, onde estivesse contido algum conhecimento, eram ambos considerados perigosos” (Heidenreich, 2007:13).

“Os homens desprezam com frequência a palavra escrita – estadistas, ditadores, soberanos, polícias, funcionários públicos. As mulheres, essas talvez embrulhem de vez em quando um feixe de verduras para a sopa ou até um peixe na página de uma revista que contém poemas, mas que é isso, pergunta Dubravka Ugrešic, «em comparação com a incineração de livros levada a cabo sob o reinado do imperador chinês Qin Shi Huangdi»?

Mas afinal quem conhece o imperador chinês Qin Shi Huangdi?

Uma mulher que leia pode bem ir folhear umas páginas e ficará então a saber: Qin Shi Huangdi (260 a.C. – 210 a.C.) fez da China um Estado unitário, tornando-se o seu primeiro imperador.» E logo teremos diante de nós a imagem de livros (e mulheres?) nas fogueiras, pois se há uma coisa que Estados unitários não toleram bem são cidadãos que lêem.

Quem lê fica a reflectir, quem reflecte forma uma opinião, quem tem uma opinião pode dissidir, quem se torna dissidente passa a ser inimigo. É tão simples como isto” (Heidenreich, 2007.13).

“É que a mulher que lê adquire um espaço a que só ela tem acesso e, a par disto, desenvolve um estado independente de auto-estima; além disso, ela cria a sua própria visão do mundo que não corresponde necessariamente à que é transmitida pela tradição, nem à dos homens. Tudo isto não significa ainda a libertação das mulheres da tutela patriarcal, mas abre a porta que conduz à liberdade” (Bollmann, 2007:28).

“É quase inevitável pensar em Ossip Mandelstam – conseguiram neutralizar o homem, queimaram os seus poemas,  mas Nadeshda, a mulher de Mandelstam, havia-os decorado a todos, escreveu-os em papel e preservou-os. Para nós. É esse o papel das mulheres na literatura, conquanto elas próprias não sejam poetisas, mas antes leitoras: desenterram tesouros e guardam-nos para os demais – a não ser que o amor surja pelo meio.

O amor, admito-o com um suspiro, é muito mais forte que a literatura, porém o amor na literatura é bem mais belo que na própria vida. Ao menos de vez em quando permite iludirmo-nos.

«O Quadragésimo Primeiro» é o nome de uma narrativa do russo Boris A. Lavrenev, surgida em 1924, pelo que constitui um exemplo do início da literatura soviética. Maria Bassova, membro do Exército Vermelho e atiradora de elite, atravessa o Turquestão e depara-se com um oficial bielorrusso, que deverá vir a tornar-se a sua quadragésima primeira vítima.

Mas eles desencontram-se, ela captura-o, enamora-se dele, mas por fim naturalmente que vence (estamos num Estado unitário!) a consciência de classe de Maria, pelo que ela acaba por matá-lo.

Porém, até que tal aconteça, passa-se algo extraordinário: ele quer fumar e já não tem mortalhas para o tabaco. Ela possui um pequeno livro de apontamentos com os seus próprios poemas, um tesouro que preserva com cuidado. Folha após folha vai sendo rasgada, para que o oficial aí enrole o seu tabaco, e os poemas são reduzidos a fumo, um a um, até ao último verso” (…)” (Heidenreich, 2007:13-14).

“Os homens temem mulheres que lêem. Olhemos para a imagem de capa deste livro [acima] e perceberemos como têm razão para tal. Ali está sentada uma senhora com uma expressão deveras enérgica. Já não está a ler, desde há alguns instantes que acabou a leitura. Na sua cabeça, porém, ainda ressoam as palavras, as frases, as ideias que acabou de ler.

Fê-lo naqueles três volumes das edições de capa amarela dos clássicos franceses. Terá sido Voltaire? Talvez tenha acabado de ler o Cândido e esteja a reflectir sobre o que pensar de uma filosofia que desemboca nisto «É preciso cultivar o nosso jardim». Não se vai querer contentar apenas com isso e quem lho exigir há-de sentir a dura ponta da sua sombrinha branca. Mas ela tem aspecto de ser suficientemente esperta para se aperceber da profunda ironia que se esconde por detrás de todo o livro, como se não tardasse a levantar-se:

«Ah! Assim nos querem tomar por parvas? Cultivar o nosso jardim? Bem podem esperar…» O rosto dela ainda revela a reflexão, a mão, contudo, demonstra já a sua determinação, a firmeza da sua atitude: prestes a saltar dali.

Precisamente isso nunca os homens gostaram de ver nas mulheres: que elas são bem capazes de ler nas entrelinhas. Por essa mesma razão se viam no século XVIII ainda nas encadernações de alguns romances gravadas ou representadas linhas e agulhas, para recordar às mulheres aquilo para que na verdade estavam predestinadas: não para a leitura, mas para manter a lida da casa em ordem. Tempo passado a ler é tempo desperdiçado, e dinheiro também, e quem sabe onde isso poderá acabar – ter ideias próprias, revoltar-se, ter fantasias eróticas, e poderá bem ser que não fique por aí” (Heidenreich, 2007:14-15).

“«Quando uma mulher aprendeu a ler, viu a questão feminina à luz do mundo», disse Marie von Ebner-Eschenbach. É que uma mulher que lê questiona, e questionar as coisas destrói as regras já firmemente estabelecidas. Ema Bovary teve a infelicidade de nunca ter ido mais além, para lá da leitura dos seus empolados romances amorosos, que a iludiam e lhe forneciam algo de que ela tão dolorosamente sentia falta na sua própria vida.

A mãe de Carlos Bovary instiga o seu filho, denuncia o vício de leitura de Ema: «O trabalho ela é ler romances, livros ruins, obras contra a religião e onde se faz troça dos padres, com palavreado tirado de Voltaire!». E lá está ele, aqui temos de novo Voltaire.

Tivesse Ema lido Voltaire…

Mas infelizmente apenas lê baboseiras sentimentais e no fim, quando tudo está perdido, vê-se forçada a tomar arsénico – tal como as heroínas dos seus romances.

Se a própria cabeça não for posta a funcionar, se a mulher não se puser a pensar em conjunto com a leitura, nem que seja apenas um pouquinho, se o gosto pessoal não evoluir por meio dos livros, então a leitura, tal como a vemos, poderá mesmo tornar-se fatalmente perigosa. Contudo, livre-se alguém de identificar as mulheres que lêem com Ema Bovary!” (Heidenreich, 2007:15).

Que não se menospreze as mulheres que lêem! Ao fazê-lo, elas não estão apenas a fazer por ficar mais esclarecidas, não estão somente a entregar-se a um prazer egoísta, têm também a oportunidade de passar bons momentos sozinhas. A leitura é uma das grandes alegrias de se estar sozinha, sozinha na companhia da própria fantasia e da do autor.

É como a leitura e as crianças: primeiro a mãe quer que a criança sossegue e que por fim se sente a ler um livro, mas depois não tarda a verificar que a criança que lê deixou de ser a criança simples e de trato fácil, tornando-se antes mais rebelde, capaz mesmo de se isolar do mundo que a rodeia para ficar a ler, e isso é coisa que este mundo não vê com bons olhos. O mesmo acontece com as mulheres que lêem” (Heidenreich, 2007:15-16).

“Regra geral, porém, eram feitas advertências em relação a  mulheres que liam, pois no interior das suas cabeças sucedia algo que não coincidia com os projectos de vida dominantes que outros haviam traçado para elas.

A leitura questiona não só projectos de vida, como também as directivas de instâncias superiores, tais como Deus, o marido, o governo e a Igreja. A leitura dá asas à fantasia e esta última afasta do presente, mas para onde? Como se isso pudesse ainda ser controlado… E claro que tudo o que é incontrolável gera receios” (Heidenreich, 2007:19).

 Epílogo

(deste meu post)

“Ocorre-me uma história algo cómica, em que a leitura é proposta como um meio para superar e lidar com a catástrofe. Trata-se de «A Child’s Christmas in Wales», uma história acerca da infância de Dylan Thomas. Este conta um incêndio que ocorreu na época natalícia em casa dos vizinhos. Quando, depois do incêndio, tudo está reduzido a escombros e cinzas, a sala completamente encharcada e os corpulentos bombeiros por ali andam, exaustos, com os seus pesados equipamentos, a senhora Prothero, que sabia sempre encontrar as palavras mais adequadas e tentava agora dispensar algum consolo aos presentes e exprimir a sua gratidão, dirige-se então aos bombeiros com a seguinte pergunta: «Quererão agora ler um pouco?»” (Heidenreich, 2007:18).

Bibliografia

BOLLMANN, Stefan. (2007). Mulheres que lêem são perigosas. Quetzal Editores. Vicenza, Itália.