As “Indesejadas”

Publicado por: Milu  :  Categoria: As "Indesejadas", FEMINISMO

 

“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.”

 Rosa Luxemburgo

Mais um pouco de História, desta feita sobre as mulheres do Renascimento, um movimento cultural, económico e político que surgiu na Itália do século XIV, consolidado no século XV e que se estendeu até o século XVI por toda a Europa. O Renascimento teve origem na Itália devido ao florescimento de cidades como Veneza, Génova, Florença, Roma, entre outras. Estas cidades,  enriquecidas com o desenvolvimento do comércio no Mediterrâneo, deram origem a uma rica burguesia mercantil que, no seu processo de afirmação social se dedicou às artes, juntamente com alguns príncipes e papas.

Ora, o verdadeiro objectivo deste post é, mais um vez , demonstrar através da leitura dos excertos aqui transcritos, retirados do livro “A Mulher do Renascimento”,  do terrível infortúnio que era ter nascido mulher: a eterna culpada.

Antes de prosseguir, não posso deixar de apontar um pormenor: há algum tempo, numa conversa, fiquei a saber que há quem não goste do que escrevo ou do que publico ultimamente neste meu espaço.

Dizem-me que estou sempre a enaltecer a mulher…

Mas eu entendo que o que estou a fazer é tão só a estudar a História das Mulheres, numa continuada procura do fundamento das assimetrias de valor entre homens e mulheres. Na verdade, o que me move nesta minha saga é a curiosidade e, consequentemente, o prazer da descoberta, o entendimento. Gosto de perceber porque é que determinadas coisas são de uma maneira, quando até poderiam ser de outra, bem diferente…

Exemplo:

Leia-se este pequeno trecho imediatamente a seguir e reflicta-se…

Pois que, reflectir, é mais uma  das palavras de ordem deste blog.

No citado trecho está plasmada a forma como pensamos… que os meninos ou rapazes são fortes, grandes e têm força. E que as meninas ou raparigas são bonitinhas, queridas e têm coisas bonitinhas. É assim mesmo que fazemos! Por muito que nos custe aceitar temos a cabeça cheia de preconcebidos,  de ideias socialmente construídas, tão firmemente arreigadas que nem conseguimos ver mais além.

“Um mesmo bebé era vestido ora de azul ora de cor de rosa e mostrada a pessoas adultas. Nunca foi dito o sexo da criança. Mas quem a via presumia que era rapaz ou rapariga pela cor da roupa que trazia vestida. Quando vestido de azul, o bebé fazia os adultos dizerem coisas como «Que choro tão forte que ele tem!». «Como me aperta o dedo com força!», «Que grande rapaz que ele é!». Quando vestida de rosa, a criança fazia com que as pessoas que a viam dissessem: «Que bonitinha!», «Que querida!», «Que olhos tão bonitos que ela tem!». Sem nos darmos conta, acabamos por fazer distinções entre os sexos até no modo como tocamos nas crianças, na forma como as acariciamos. É inconsciente, mas não deixa de ficar gravado para sempre.

Lígia Amâncio (2001) in Marques(2004)

 

“A maioria das mulheres do Renascimento foi mãe. A maternidade definiu as suas vidas e ocupou a maior parte dos seus anos. A partir dos vinte e cinco anos na maioria dos grupos sociais, a partir da adolescência nos círculos mais elevados, experimentaram um ciclo de parto e aleitamento e novamente parto. As mulheres pobres davam à luz cada 24 a 30 meses. Os intervalos entre os nascimentos eram regulados pelo período de lactação, que impedia mais gestações com alguma eficácia. Quando a criança era desmamada, uma gestação nova podia tomar lugar. As mulheres ricas tinham ainda mais filhos que as pobres. Como as mulheres ricas não cuidavam das suas próprias crianças, em breve concebiam outra vez depois de cada nascimento” (King, 1994: 14).

“Uma fertilidade elevada era do interesse da família abastada, cuja capacidade para prevalecer «contra as poderosas forças da morte» requeria pelo menos um herdeiro masculino sobrevivente. Como no caso da inglesa Lady Verney, ainda no século XVII, a capacidade da esposa para dar à luz herdeiros era «a sua única contribuição indispensável» para a família” (King, 1994: 14).

“A necessidade de preservar a família e conservar a riqueza levava assim as mulheres de classes dominantes a serem férteis. (…) Isabel de Aragão, esposa do rei Filipe III e mãe  de Filipe IV, «o Justo» deu à luz em 1268, 1269 e 1270; neste último ano morreu, grávida de seis meses. Henriqueta Maria, rainha do rei  Carlos I de Inglaterra, esteve grávida quase sem interrupção de 1628 a 1639. (…) A florentina Antonia Masi, que morreu em 1459 com 57 anos, tinha dado à luz 36 filhos, nove varões sobreviveram-lhe” (King, 1994: 15).

“Dar à luz é ao mesmo tempo o privilégio e o fardo da mulher” (King, 1994: 15).

“Só 20 a 50% dos europeus ocidentais podiam esperar sobreviver à infância” (King, 1994: 18).

“Onde ocorriam nascimentos ilegítimos, os regulamentos feudais cobravam impostos às mulheres  consideradas culpadas, e as cidades aprisionavam ou baniam as mulheres condenadas por fornicação. Estas eram penalidades suficientemente severas para punir a mãe, mas não tão pesadas, talvez, como a real responsabilidade de uma criança indesejada, que era apenas sua” (King, 1994: 20).

“O infanticídio era a maior causa, depois da feitiçaria, para a execução das mulheres do Renascimento, e muitas bruxas eram acusadas também de infanticídio. O peso da acusação do infanticídio recaía sobre a mãe solteira, que da morte do filho era considerada culpada, enquanto a vítima mais provável da fúria contra as bruxas era ao mesmo tempo mulher e velha. «A lei e a consciência da Europa… canalizaram a sua força sobre mulheres idosas e mães solteiras»” (King, 1994: 21).

“A acusação de mulheres nestes casos marca, portanto, perversamente o início da emergência das mulheres como criminosas e como indivíduos legalmente responsáveis” (King, 1994: 21).

“Na Metz do século XV, a acusada de infanticídio era queimada num poste onde se pregava a mão culpada, enquanto à volta do pescoço se lhe dependurava uma tábua com a imagem da criança assassinada” (King, 1994: 21-22).

“As mulheres, com muito poucas excepções, eram catalogadas em termos das suas relações com o ideal feminino de virgindade e o pesadelo da sexualidade” (King, 1994: 34).

“As filhas, que constituíam aproximadamente metade dos bebés nascidos das mães do Renascimento, entravam no mundo indesejadas. Dante referiu o terror que assaltava o pai quando do parto resultava uma rapariga”  (King, 1994: 35).

“«Crianças do sexo masculino são geradas de uma semente mais quente e seca e as do sexo feminino de uma mais fria e húmida; pois há muito menos força no frio do que no calor e, igualmente, na humidade do que na secura; e é essa a causa porque demora mais tempo para uma rapariga se formar no ventre do que um rapaz.» Preguiçosas mesmo «in utero» as raparigas eram geralmente consideradas produto de concepções «inferiores». A percepção da sua inferioridade era acompanhada de deficiências nos primeiros cuidados. Não eram saudadas nem noticiadas” (King, 1994: 36).

“Desde que nascia, a perspectiva do dote ameaçava a mulher: ela representava perda potencial mais do que ganho potencial. O dote dado pela família da noiva à do noivo, só ultrapassando a oferta matrimonial do noivo no século XII, aumentou consideravelmente durante os séculos seguintes e atingiu o máximo no Renascimento. Nessa época de florescimento cultural único, o contrato matrimonial atingiu o seu extremo de monopolaridade: a família da noiva entregava filha e dote, dinheiro e enxoval; a família do marido assumia uma responsabilidade limitada pela manutenção da esposa e viúva” (King, 1994: 37).

“As mulheres sem família, seduzidas ou violadas, tinham que se defender sem ajuda. Vulneráveis, tais mulheres pertenciam sobretudo às classes sociais mais baixas e estavam culturalmente mal preparadas para apresentar formalmente as suas queixas. Uma compensação ordenada pelo tribunal (ou doada por um benfeitor) poderia sustentá-las na condição de solteiras e sem possibilidade de contrair matrimónio ou até ultrapassar o facto da «sverginità» e permitir-lhes o casamento. Estas variações de norma, onde a fornicação era seguida pelo matrimónio ou, pelo menos, por uma compensação pela honra perdida, não disfarçam o facto de o casamento ser mais eficiente e proveitosamente negociado para uma mulher cuja castidade estava intacta, pois a castidade tinha valor monetário numa transacção matrimonial” (King, 1994: 42).

Desde o nascimento, portanto, as filhas representavam um duplo fardo para as famílias: preservação da castidade e provisão do dote” (King, 1994: 42).

“Era-lhes requerido que abdicassem, com efeito, em termos contemporâneos, de dois «direitos»: o direito à propriedade paterna além do limite do dote e o direito de escolha sexual livre. Os pais escolhiam os maridos para as filhas e negociavam os acordos de bens sem a sua participação” (King, 1994: 43).

“A asserção e talvez mesmo a reafirmação do controlo masculino das mulheres no casamento, durante o Renascimento, é um facto indiscutível, por muito difícil que seja conciliá-lo com outras impressões de uma época que descobriu, pela primeira vez, o significado da liberdade. A mesma época que elevou o matrimónio a um estado sagrado – pelo edictos de Trento no Catolicismo, pelo cultivo do sentimento familiar no Protestantismo – fortaleceu, paradoxalmente, a autoridade do marido sobre a esposa e exigiu a sua mais profunda submissão ((King, 1994: 49).

“O reformador de Estrasburgo Martinho Bucer explicou que o marido era para a mulher o que o pastor era para as ovelhas, enquanto o italiano Orazio Lombardelli ofereceu outras comparações à sua jovem noiva: tal como «a cabeça adorna o corpo, o príncipe a cidade, a pedra o anel, assim o marido adorna a esposa e ela deve não só obedecer quando ele comanda mas também quando ele não o faz (King, 1994: 50).

“No Renascimento, o tema da misoginia, longe de diminuir, floresceu com a intensidade que em tudo caracterizava a época. Numa torrente de livros, poemas e panfletos demasiado vasta para aqui ser enumerada, os autores do sexo masculino atacaram o feminino e a instituição do casamento. De facto os que se pronunciavam eram quase sempre homens, que encaravam as mulheres «como objectos ao mesmo tempo desprezíveis, aterradores e tentadores». Os ataques às mulheres eram apoiados pelo sistema da cultura erudita: filosófica, jurídica, teológica, médica, assentando na autoridade das Escrituras, dos Padres, de Aristóteles, Galeno e Tomás de Aquino”  (King, 1994: 58).

“A sua própria presença era maligna e todas as coisas contaminadas pelo contacto com o seu corpo, se menstruada ou grávida, eram perigosas para os homens, como ensinavam os filósofos naturais a partir do sórdido «De secretis mulierum»do século XIII” (King, 1994: 58).

“O vigor do ataque antifeminista é uma lembrança clara de que a mutualidade de marido e mulher não era um ideal universalmente aceite, mas sim um ideal em contradição com os outros, durante os séculos do Renascimento, quando o lugar da mulher na família parece não ter ganho, mas antes perdido, terreno. O poder moral exercido pelos homens sobre as mulheres era acompanhado de poder real, como temos visto: legal, social, sexual, físico. Estes, por seu lado, ligam-se ao seu poder sobre os bens da mulher. Este poder foi cuidadosamente preservado nos séculos do Renascimento e, na verdade, expandiu-se em detrimento do estatuto da mulher. O paradoxo de as mulheres possuírem bens (promessa de independência) e, ao mesmo tempo, não os poderem controlar (negação da mesma) é fundamental para a compreensão da posição das mulheres” (King, 1994: 58-59).

“As viúvas eram numerosas durante o Renascimento porque as mulheres casavam jovens com homens maduros, sobrevivendo-lhes. Algumas beneficiavam economicamente por morte do marido ou conseguiam levar os rendimentos do dote paterno ou do primeiro casamento, para um segundo. Quando não era conveniente, de acordo com a estratégia familiar, voltarem a casar, as viúvas recolhiam-se na invisibilidade e sujeição dos seus lares conjugais ou de origem. Perdiam o estatuto de esposa e, frequentemente, a autoridade de mãe. Fora desses nichos, em que usufruíam de protecção e respeito, a sua condição moral e económica deteriorava-se muitas vezes gravemente. (…). Nem o casamento nem a viuvez tinham sido instituídos para as beneficiar. Em Florença, era grande o grupo das mulheres solteiras idosas e pobres. As mulheres que já não tinham idade para  ter filhos tinham, na maioria dos grupos etários, maiores probabilidades de se tornarem pobres do que os homens e menores probabilidades de se tornarem ricas” (King, 1994: 71).

“Na Florença do século XVI, quase metade das mulheres de algumas famílias elevadas residia em conventos e, numa família nobre veneziana do século XVII, uma em cada três filhas era persuadida a «monacar» em vez de «maritar». As mulheres de inferior posição social viviam em conventos, como criadas e trabalhadoras. Mas as próprias freiras eram recrutadas quase exclusivamente nas linhagens ricas e respeitadas. De facto, eram estes grupos os que possuíam bens a transmitir, que precisavam de ser defendidos contra a terrível fertilidade das filhas excedentárias. E eram estes os que melhor podiam reclamar o privilégio de um asilo, humano e útil, para as raparigas a remover do ciclo de reprodução e para aquelas cuja fertilidade tinha terminado: as mães «desoladas» – significado de «relicta» viúva, em latim” (King, 1994: 92).

Na Itália do Renascimento, a maioria das mulheres que viviam dentro dos muros do convento era aristocrata e uma fracção significativa das mulheres das classes elevadas (embora apenas uma pequena fracção de todas as mulheres) vivia em clausura. Em Veneza, especialmente, o convento constitui a solução para o pai com mais filhas do que dotes” (King, 1994: 93).

“Se algumas freiras, no fim da Idade Média, apreciaram lautas refeições, beneficiaram de serviço doméstico, conversaram alegremente com visitantes estranhos, tocaram alaúde e bordaram graciosamente, mantiveram os seus amantes abertamente e deram à luz secretamente, tudo isto se explica, certamente, porque nunca tinham transposto os muros  do convento em busca do espiritual. Tinham ali dado entrada porque não podiam ou não queriam casar e não podiam ser deixadas em liberdade. Assim, a história do monaquismo feminino é, pelo menos em parte, a história do aprisionamento da mulher” (King, 1994: 95-96).

 Bibliografia

KING, L. Margaret. (1994). A Mulher do Renascimento. Editorial Presença. Lisboa.

MARQUES. Alice. (2004). Mulheres de Papel. Livros Horizonte. Lisboa.

A morte do príncipe encantado

Publicado por: Milu  :  Categoria: A morte do príncipe..., FEMINISMO

 

“Viver é isso: Ficar-se equilibrando o tempo todo, entre escolhas e consequências.”

 Sartre

 

Na saga de tentar compreender o mundo que me rodeia, os jugos a que somos submetidos (as), eis mais um excerto de um livro que me ajudou a esclarecer algumas das minhas antigas interrogações. Com Colette Dowling  no seu “Complexo de Cinderela”, porque tudo tem uma origem, uma explicação. Muito importante: Aconselho vivamente a que leiam o trecho que se encontra no fundo do post, logo após as referências bibliográficas.

 

Estou só no terceiro andar de nossa casa, de cama, em razão de uma forte gripe, tentando evitar que a doença passe aos outros. Sinto o quarto grande e frio e, com o correr das horas, estranhamente inóspito. Começo a recordar a rapariguinha pequena, vulnerável e indefesa que fui. Ao cair da noite já me sinto imprestável, não tanto pela gripe quanto pela ansiedade. “O que estou fazendo aqui, tão solitária, tão distanciada dos outros, tão… incerta”, pergunto a mim mesma. Que coisa estranha ver-me tão perturbada, afastada de meus familiares e de minha vida tão ocupada e frenética… desligada…” (Dowling, 1982: 11).

O fluxo de pensamentos se interrompe e reconheço: eu «sempre» estou só. Cá está, sem aviso prévio, a verdade ignorada às custas de tanto dispêndio de energia.”

(…)

Desde aqueles dias passados na cama, aprendi que há muitas mulheres como eu, milhares e milhares de nós, criadas de um modo tal que nos impossibilita encarar a realidade adulta de que toca a nós, apenas, a responsabilidade por nós mesmas. Podemos até verbalizar essa ideia mas, no íntimo, não a aceitamos. Tudo na forma de sermos educadas continha a mensagem de que seríamos parte de alguma outra pessoa – que seríamos protegidas, sustentadas, alimentadas pela felicidade conjugal até o dia da nossa morte.

É claro que, uma a uma, descobrimos – cada uma de nós com os instrumentos respectivos – a mentira dessa promessa. Porém, foi apenas nos anos 70 que se deu uma modificação no cenário cultural, e as mulheres passaram a ser vistas, concebidas e tratadas de modo diferente. As expectativas em relação a nós mudaram. Foi-nos dito que os nossos velhos sonhos de infância eram débeis e ignóbeis, e que existiam coisas melhores a ambicionar: dinheiro, poder e a mais ilusória das condições, a liberdade. A capacidade de escolhermos o que faríamos das nossas vidas, como pensaríamos e a que daríamos importância. Liberdade é melhor que segurança, diziam-nos; a segurança aleija.

Logo descobrimos, contudo, que a liberdade assusta.

Ela nos apresenta possibilidades para as quais não nos sentimos equipadas: promoções, responsabilidade, oportunidades de viajarmos sozinhas sem homens a nos conduzirem, oportunidades de fazermos amigos por nossa conta. Todo o tipo de perspectivas rapidamente abriu-se às mulheres; juntamente com isso, porém, vieram novas exigências: que cresçamos e paremos de esconder-nos sob o manto paternalista daquele que escolhemos para representar o ente “mais forte”; que comecemos a basear nossas decisões em nosso próprios valores, e não nos de nossos maridos, pais ou professores. A liberdade requer que nos tornemos autênticas e fiéis para connosco. Aqui é que surge a dificuldade, repentinamente, quando não mais basta sermos «uma boa esposa», ou «uma boa filha», ou «uma boa aluna».

Pois ao iniciarmos o processo de separar de nós as figuras de autoridade a fim de nos tornarmos autónomas, descobrimos que os valores que julgávamos serem nossos não o são.

Pertencem a outrem – a pessoas de um passado vivo e demais abrangente. Por fim a hora da verdade emerge: «Realmente não tenho quaisquer convicções próprias. Realmente não sei no que acredito».

Esta experiência pode ser bem ameaçadora. Tudo o de que tínhamos certeza parece desmoronar tal como uma avalanche, enchendo-nos de incerteza em relação a tudo – e aterrorizando-nos. Esta atordoante perda de estruturas de apoio antiquadas – crenças em que nem mesmo cremos mais – pode marcar o início da verdadeira liberdade. Mas seu carácter assustador pode fazer-nos recuar para o conhecido, o familiar, aparentemente tão seguro.

Por que é que, tendo a chance de crescer, tendemos a recuar? Porque as mulheres não estão acostumadas a enfrentar o medo e ultrapassá-lo. Fomos sempre encorajadas a evitar qualquer coisa que nos amedronte; desde pequenas fomos ensinadas a só fazer as coisas que nos permitissem sentirmo-nos seguras e protegidas. O facto é que não fomos jamais treinadas para a liberdade, mas sim para o seu oposto: a dependência” (Dowling, 1982: 11-12).

(…)

Ocorre que, como veremos, desde pequenas as mulheres são incentivadas a uma dependência doentia. Qualquer mulher que se auto-analise sabe quão destreinada foi para sentir-se confiante perante a ideia de cuidar de si própria, afirmar-se como pessoa e defender-se. Na melhor das hipóteses, pode ter representado o papel de independente, intimamente invejando os meninos (e posteriormente os homens) por parecerem tão naturalmente auto-suficientes.

A auto-suficiência não é um bem agraciado aos homens pela natureza; ela é um produto de aprendizagem e treino.

Os homens são educados para a independência desde o dia de seu nascimento.

De modo igualmente sistemático , as mulheres são ensinadas a crer que, algum dia, de algum modo, serão salvas.

Esse é o conto de fadas, a mensagem de vida que ingerimos juntamente com o leite materno.

Podemos aventurar-nos a viver por nossa conta por algum tempo. Podemos sair de casa, trabalhar, viajar; podemos até ganhar muito dinheiro. Subjacente a isso tudo, porém, está o conto de fadas, dizendo: aguente firme, e um dia alguém virá salvá-la da ansiedade causada pela vida. (O único salvador de que o «menino» ouve falar é ele próprio)”(Dowling, 1982: 13)” .

(…)

“Fugindo da Luta”

“Como Simone de Beauvoir observou tão astutamente há mais de um quarto de século, as mulheres aceitam o papel de submissas «para evitar a tensão envolvida na construção de uma existência autêntica»” (Dowling, 1982: 16).

“O Desejo de Salvação”

“Podemos nem sempre reconhecê-lo (…), porém ele existe em todas nós, emergindo quando menos se espera, permeando nossos sonhos, abafando nossas ambições. É possível que o desejo feminino de ser salva tenha as suas raízes nos primórdios da História, quando a força física masculina era necessária para proteger mulheres e crianças de perigos naturais. Mas tal desejo não é mais adequado nem construtivo. Nós não necessitamos ser salvas.

As mulheres hoje se acham entre o fogo cruzado de velhas e radicalmente novas ideias sociais; a verdade porém é que não podemos mais refugiar-nos no antigo «papel». Ele não é funcional, nem uma opção verdadeira. Podemos crer que o seja; podemos desejar que o seja; mas não é. O príncipe encantado desapareceu. O homem das cavernas é hoje menor e mais fraco. Na realidade, em termos do que se requer para a sobrevivência no mundo moderno, ele não é mais forte, mais inteligente ou mais corajoso do que nós.

Todavia, ele «realmente» tem mais experiência” (Dowling, 1982: 22).

“O Complexo de Cinderela”

“Existe somente um instrumento para obtermos a «libertação», e esse é emancipar-nos desde dentro. 

“A tese deste livro é a de que a dependência psicológica – o desejo inconsciente dos  cuidados de outrem – é a força motriz que ainda mantém as mulheres agrilhoadas. Denominei-a «Complexo de Cinderela»: uma rede de atitudes e temores profundamente reprimidos que retém as mulheres numa espécie de penumbra e impede-as de utilizarem plenamente seus intelectos e criatividade. Como Cinderela, as mulheres de hoje ainda esperam por algo externo que venha transformar suas vidas” (Dowling, 1982: 26).

 

Bibliografia

DOWLING, Colette. (1982). Complexo de Cinderela. Melhoramentos. São Paulo. Brasil.

“Em meados da década de 60, Colette Dowling fez uma descoberta chocante. Atacou rápida e violentamente todas as ideias preconcebidas que tinha sobre si mesma. «Achei que o que eu realmente queria era alguém que tomasse conta de mim. Não era apenas uma questão de ter alguém pagando as contas, eu queria protecção emocional por tempo integral. Alguém que amenizasse o choque entre o mundo e eu». Enfrentando esta verdade sobre si mesma, e durante o processo se liberando, a autora continuou a achar que os mesmos desejos permaneciam escondidos no coração de milhões de outras mulheres. 

Complexo de Cinderela aborda um fenómeno que o movimento feminista ainda não tinha confrontado: está profundamente enraizado nas mulheres o desejo psicológico de serem cuidadas por alguém, de serem aliviadas de suas responsabilidades essenciais para consigo mesmas, de «serem salvas».

O fenómeno «complexo de cinderela» é um sistema de desejos reprimidos, memórias e atitudes distorcidas que se iniciaram na infância, na crença da menina de que sempre haverá uma outra pessoa mais forte a sustentá-la e protegê-la. Esta crença é sempre alimentada e com o tempo ela se solidifica, seguindo a mulher em sua vida adulta e resultando em todas as espécies de medos interiores e descontentamentos. O mais destrutivo para a autora é que essa crença mantém vivo na mulher um sentimento de inferioridade. 

Complexo de Cinderela causará um choque de reconhecimento em todas as mulheres que inconscientemente sempre sabotam seus próprios futuros ou sentem medo de ficar sozinhas. «O medo é que se nós realmente nos mantivermos, terminaremos sem ajuda, perderemos a feminilidade, não amaremos e não seremos amadas». Enfrentar este medo frágil e reagir contra ele, é o que leva à verdadeira independência (texto de apresentação do livro impresso nas badanas da sua respectiva capa e contracapa).

 

 

A voz de todas

Publicado por: Milu  :  Categoria: A voz de todas, FEMINISMO

“Há algo nas mulheres”

 

Holly Near

Eis-me uma vez mais na luta pela libertação da mulher, alguns dias depois de se ter tornado público, através das redes sociais, que a Porto Editora tinha lançado no ano de 2016, dois manuais de actividades com conteúdos diferentes, consoante se destinassem para meninas ou para meninos.  Ver aqui e aqui e aqui . De acordo com quem teve a oportunidade de verificar os manuais, estes têm conteúdos susceptíveis de serem considerados como veículos de perpetuação de estereótipos com base no género. Ver aqui

Consta-se que, por exemplo, uma das actividades propostas apresenta-se com cenários diferentes. Enquanto que, para os rapazes, o espaço para desenvolver a actividade é na rua, para as meninas é em casa, a ajudar a mãe a fazer um bolo. Ora já estamos a ver o cenário! Mas também é justo que se pergunte: quantos (as) de nós estão verdadeiramente preparados, leia-se capacitados (as) para perceber a mensagem aqui implícita, o estereótipo afinal?

E, porque não foi feito ao contrário, com os rapazes a ajudarem a mãe na cozinha?? Isso sim, seria combater os estereótipos que apenas têm servido para desvalorizar a mulher. Temos é de estar atentos e atentas, ou um dia destes, ainda voltamos ao tempo em que a mulher tem de pedir autorização ao marido para poder trabalhar fora de casa, ter o seu emprego, a sua independência, o seu amor-próprio… Ressalvo que,  todos os que se preocupam minimamente em acompanhar os acontecimentos a nível mundial, já repararam com certeza, que alguns deles são bem estranhos e que ninguém esperava que acontecessem!…

E, como vem sendo apanágio deste blog, trago-vos mais um contributo para esta luta sem tréguas, desta feita com excertos do livro “Cantando a plenos pulmões”, porque o cantar é libertador, das autoras Cláudia Bepko & Jo-Ann Krestan.

“ELA É O SUJEITO”

 

“Com as histórias da criatividade feminina tão escondidas, com a paixão tão suprimida nas nossas vidas, é difícil imaginar que a maioria de nós possa ter a coragem de definir e de procurar o que nos move. As mulheres não podem começar a pensar em mudanças se não tiverem acesso à história das mulheres que desafiaram o estereótipo cultural e ousaram moldar as suas próprias vidas. Só vendo o que realmente uma mulher experimentou nas profundezas da sua dor subjectiva podemos perceber as restrições por que passou e os significados secretos que dá à sua própria experiência. Só através deste género de acesso podemos sentir conexão, empatia e identificação. O género de coragem  necessária para lutar contra as convenções e definir o que nos deixa apaixonadas não pode existir no isolamento. Nós precisamos de vozes de apoio das nossas companheiras para ficarmos mais fortes. Até ao desenvolvimento da pesquisa feminista e da nova perspectiva que ganhamos durante o movimento feminista, ainda não possuímos realmente um contexto para compreender a nossa própria experiência, porque as histórias feministas não estavam a ser contadas e tão-pouco podiam ser ouvidas(BEPKO & KRESTAN, 1993: 81).

Devemos lembrarmo-nos de que foi só nos anos 20, (…) que as mulheres conquistaram o direito de voto [26 de agosto de 1920, três quartos dos legislativos estaduais ratificam a Décima Nona Emenda. As mulheres americanas ganham pleno direito de voto]. Um grande número de mulheres também entrou na força de trabalho nos anos 20 e uma imagem emergente da independência feminina estava em ascensão.

No final dos anos 20, começou a surgir uma ênfase renovada na domesticidade, embora as mulheres continuassem a trabalhar durante os anos 30 e 40. Nos anos 50, a domesticidade tornar-se-ia mais uma vez a imagem principal da mulher e as mulheres voltaram para casa. Esta ida e vinda parece-se bastante com o início dos anos 90, quando as mulheres, depois de uma luta árdua nos anos 70 e 80 para penetrar em campos profissionais antigamente dominados pelos homens, acabaram por desistir das suas carreiras para seguir o “caminho da mãe”, ou para ter filhos.

Nos anos entre as décadas de 1920 e de 1990 o mundo testemunhou outro movimento dialéctico que afectou os homens e as mulheres de igual modo. O manso conformismo dos anos 40 e 50 deu lugar a uma raivosa turbulência de rápidas transformações sociais que marcaram as décadas de 1960 e de 1970.

Estes avanços e recuos, no entanto, representaram um movimento relativo dentro de um compartimento histórico que impunha certos limites. Mudanças nos papéis das mulheres só podiam avançar até certo ponto; a mulher ainda não construíra a sua experiência enquanto sujeito. Movimentos rumo à independência para as mulheres casadas foram rotulados como «tem sorte que ele a deixe fazer isso».

As regras relativas aos papéis femininos podiam ser mexidas, alteradas e até mesmo abandonadas, mas não se questionava quem fazia as regras e até mesmo qual seria a linguagem que descreveria a experiência. A mudança parecia ser definida sobretudo pelas necessidades económicas. Sempre que a economia precisasse de colaboradores, as mulheres deixavam o lar. Quando a economia oscilava, as mulheres voltavam para casa.

Na década de 1990 uma mulher podia votar, podia participar na direcção de uma firma, podia ter mostras individuais do seu trabalho ou ver os seus romances, poesias e ensaios publicados pelos grandes gigantes da Imprensa. Mas a aparência de mudança era maior do que a realidade da mudança. Ela ainda não se elegia com frequência para cargos públicos, ainda não ultrapassara o «telhado de vidro» para se tornar presidente com frequência, nem conseguia os preços de um Rauschenberg ou de um Picasso pelo seu trabalho. E nesta década, o que ainda não conseguiu foi caminhar nas ruas livre da violência masculina, tornar-se Presidente da república, ou até mesmo ter como garantido o direito de controlar o seu próprio corpo ou o de conseguir que a sua pensão seja paga.

Ainda não pode ver um filme que retrate a sua experiência de maneira adequada ou consistente com a experiência subjectiva da vida. Tem dificuldades em livrar-se da culpa, do conflito e da vergonha de não sorrir. O que ela ainda não conseguia fazer foi saber por conta própria o que significa amar ((BEPKO & KRESTAN, 1993: 66-68).