Tirania consentida

Publicado por: Milu  :  Categoria: FEMINISMO, Tirania consentida

 

“Aquele que percorre os seus próprios caminhos aí não encontra ninguém. Ninguém o vem ajudar na sua tarefa: perigos, surpresas, maldades e tempestades, tem de ultrapassar sozinho tudo o que o assalta. É que ele tem de fazer o seu próprio caminho…”

Nietzsche, Aurora in Carvalho (2012)

O post de hoje é uma subtil abordagem à ditadura da beleza e da juventude, que é inegavelmente imposta às mulheres e que configura, inevitavelmente, uma forma de as oprimir. É um facto, por demais evidente, que reparamos e criticamos muito  os países cuja cultura impõe às mulheres o uso da burca, por outro lado, custa-nos a ver, a nós mulheres ocidentais, que a cultura em que vivemos nos exige que sejamos sempre jovens e belas, sob pena de passarmos a ser alvo do menosprezo, independentemente das qualidades que possamos ter.

No livro “Mulheres de Papel” da autoria de Alice Marques, podemos ler que  Simone Beauvoir notou que «ao longo da história, à mulher coube o papel de corpo, com tudo o que lhe é peculiar. Em contraste os homens classificaram-se a eles próprios como a ideia pura, o uno, o todo, o espírito absoluto» (Marques, 2004: 29).

E ainda que «da experiência das mulheres como cuidadoras do corpo, do seu corpo e dos corpos dos outros, resultou, segundo Dinnerstein, que as limitações da carne tornaram-se domínio das mulheres» (Marques, 2004: 29).

É ainda desta autora o  excerto que foi retirado do já citado livro, que a seguir se apresenta. É esta a triste realidade que nos esforçamos por não ver, mas que é bem real e está reservada para todas nós, a não ser que se morra jovem… algo que presumo ninguém querer…

há uma assimetria simbólica: os homens são mais valorizados por aquilo que fazem e as mulheres por aquilo que parecem.

Alice Marques

 

“À entrada do pavilhão principal da Arco 2000, um painel com oito fotografias de  100 x 80 cm transforma a galeria «Espacio Minimo» num campo de visão máxima. Dezenas de mulheres e homens acotovelam-se e empurram-se, num vaivém de aproximação-afastamento, para captar, em pormenor ou em plano geral, a obra que o fotógrafo Erwin Olaf mostra nesta feira de arte.

São fotografias de oito mulheres, a rondar os 70-80 anos, em cenários e poses de «top-models», às quais o artista deu nomes como Claudia S., Cindy C., Linda E., entre outros.

O painel exerce uma força de atracção e repulsa,

desconcerta pela ambiguidade dos significados, que o título da obra «Mature» acentua.

Espelho da verdade do corpo decadente,

da corruptibilidade da carne, a que a encenação e a pose acrescentam:

como é esplendorosa a decadência!

Mas a coragem de assumir as marcas do tempo, o corpo impiedosamente envelhecido, contra a norma socialmente valorizada e esteticamente correcta do corpo jovem, liso e perfeito, transforma aquelas fotografias em signos perturbadores. Desafiando os olhares, aquelas fotografias dizem a cada mulher:

tu, que és bela porque o tempo ainda não corrompeu a juventude e a lisura do teu corpo, serás irremediavelmente assim.

Queremos desviar o olhar, quebrar o espelho do futuro. Nalguns rostos notam-se os embaraços do desconforto face ao corpo, enquanto vozes sussurram comentários diversos:

que velhas desenvergonhadas! Que lata! É preciso muita coragem!

Da vergonha já sabemos. O que desafia a norma transforma-se em estigma.

É a coragem que importa reter.

Qualquer que tenha sido a intenção com que aquelas mulheres quiseram exibir-se e dos significados com que o artista pretendeu dotar as fotografias, ao aparente despudor daquele existir para o olhar dos outros acresce uma mensagem que pode transformar a visão dos corpos decadentes numa grande lição de vida.

É de vidas que trata aquele painel.

Biografias longas, cujas experiências se lêem naquelas imagens.

Contra a norma e contra o mito, os corpos envelhecem.

Porque o tempo é o grande escultor.

E é essa a história que têm para contar” (MARQUES, (2004: 9).

 

Bibliografia

CARVALHO, D. Alberto. (2012). Antropologia da Exclusão ou o Exílio da Condição Humana. Porto Editora. Porto. p. 7.

MARQUES, Alice. (2004). Mulheres de Papel. Livros Horizonte. Lisboa. p. 9.

 

 

 

 

Castidade, Silêncio e Obediência

Publicado por: Milu  :  Categoria: Castidade,..., FEMINISMO

 

“É difícil libertar os tolos das amarras que eles veneram”

Voltaire

 

Tal como já disse anteriormente noutros posts, já faz tempo que decidi dedicar-me aos Estudos sobre a Mulher. Interessava-me saber, para perceber, se a mulher é assim tal como a conhecemos, ou se foi moldada e, neste caso, moldada de acordo com vontades que lhe eram alheias.  Em boa hora o decidi fazer. Agora já estou na posse de informação que me permite encaixar muitos factos, e afirmar com certeza de que a mulher, a mulher que eu sou, a mulher que todas são além de mim, foi forjada de uma forma incisiva e sistemática pelo sistema patriarcal, que é a mesma coisa que dizer, por uma ordem que regula e organiza a sociedade. Ou seja, quando nascemos, a nossa matriz original, única, que nasce connosco, vai sendo progressivamente substituída por uma matriz construída de acordo com interesses estabelecidos, através de uma educação que à boa maneira da linguagem portuguesa se diz “com rédea curta”. Consequentemente, já não chegaremos a ser aquilo que poderíamos ter sido. É claro que o homem também é submetido ao mesmo processo, ao homem também é exigido que se porte de acordo com um padrão no qual a trave mestra é o conceito da  virilidade. Daí a frase “um homem nunca chora” porque chorar é coisa de mulher, de piegas, de fracos. Contudo, com a mulher foi bem mais grave: foi durante séculos mantida na ignorância – porque o ignorante,  aquele que não sabe, não percebe, também não alcança… Para que tal se tornasse possível, a mulher foi remetida para a domesticidade e, ao mesmo tempo, dificultado o seu acesso aos estudos.

Castidade, silêncio e obediência – eram estes os pilares da educação da mulher. Embora muito tenha sido conquistado, a  mulher continua a não ter voz. E obedece demais..

Ah! Mas a História ainda é o melhor Juiz, leia-se portanto:

 

Conceitos (definição).

 

Sociedade Patriarcal

A sociedade patriarcal é uma forma de submissão (subordinação) das mulheres de acordo com os papéis desempenhados por elas, bem como aqueles desempenhados pelos homens na reprodução da espécie. Em consequência, tem-se a dominação masculina sobre o feminino.

 Dominação masculina
“A dominação masculina está tão arreigada em nosso inconsciente que não a percebemos mais, tão de acordo com nossas expectativas que até nos sentimos mal em questioná-la. Mais do que nunca, é indispensável destruir as evidências e explorar as estruturas simbólicas do inconsciente androcêntrico que sobrevive nos homens e nas mulheres. Quais são os mecanismos e as instituições que realizam o trabalho de reprodução do eterno masculino? É possível neutralizá-los para liberar as forças de transformação que eles conseguem obstruir?” (Bourdieu).

Sempre vi na dominação masculina, e na maneira pela qual ela é imposta e suportada, o exemplo por excelência desta submissão paradoxal, efeito do que chamo de violência simbólica, violência doce, insensível, invisível para suas vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias simbólicas da comunicação e do conhecimento ou, mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento” (Bourdieu).

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“A Mulher do Renascimento”

 

Como eram educadas as mulheres?

 

“Tanto as mulheres como os homens pobres não recebiam qualquer educação formal, embora muitos homens e algumas mulheres fossem treinados em certos ofícios. Porém, as mulheres das classes médias e alta eram iniciadas numa cultura feminina específica, pela qual eram ensinadas a desempenhar as tarefas do lar, seguindo um programa que acentuava a costura e a fiação, o silêncio e a obediência. A leitura era útil, mas deveria ser limitada a bons livros: obras de devoção e os títulos mais são os de Dante, Petrarca e Boccaccio. Era duplo objectivo da educação para estas mulheres: primeiro, guiar a jovem no sentido de desenvolver os traços de carácter mais adequados ao casamento patriarcal; segundo, treiná-la naquelas funções mais úteis para a economia doméstica” (King, 1994: 172).

“As cidades onde a educação das mulheres for negligenciada, avisou o humanista Juan Luis vives, aludindo a Aristóteles; Xenofonte e Platão, «estão privadas da maior porção de felicidade»… As jovens deveriam ser ensinadas a ler, para que, livres da ignorância pudessem aproximar-se dos autores mais sérios da sua civilização: os Evangelhos, os Actos dos Apóstolos e as epístolas do Novo Testamento, bem como os livros históricos e moralistas do Antigo Testamento; os santos Cipriano, Jerónimo, Agostinho, Ambrósio, João Crisóstomo, Hilário e Gregório; também Boécio, Fulgêncio, Tertuliano e até Platão, Cícero e Séneca. (…). Este ousado humanista, que durante a sua carreira desafiaria o monopólio escolástico da educação universitária e provaria a responsabilidade do estado laico na assistência aos pobres, abre assim a porta à educação séria das mulheres”  (King, 1994: 172).

“Ao mesmo tempo, Vives parece fechar a porta que abrira. Embora a mulher devesse aprender a ler a nível elevado, o âmbito e o propósito da educação a atingir por esse meio são severamente limitados. Insinua o que Jean Jacques Rousseau declararia, com concisão característica, quase três séculos mais tarde , no início da era moderna: «Deve aprender muitas coisas , mas apenas aquelas que lhe for útil saber.»”  (King, 1994: 172).

(…) E as tarefas domésticas não devem ser negligenciadas: a jovem deveria aprender «juntamente com as letras, a fiar tanto a lã como o linho, duas artes que a famosa idade de ouro e a época da inocência ensinaram à posteridade, muito úteis na economia doméstica…»”  (King, 1994: 173).

Assim, a educação prevista por Vives para a jovem do Renascimento não cultivaria a sua mente, mas encorajaria a sua obediência aos deveres e virtudes familiares. Os homens devem fazer muitas coisas no mundo e, assim, devem ser amplamente educados; mas à mulher apenas se pede alguma educação. (…). Torna a questão explícita: deve ser introduzida nos estudos literários, mas apenas em alguns: «os seus estudos deveriam ser aqueles que moldam a moral e a virtude; os estudos da sabedoria que ensinam a melhor e mais santa forma de vida. Recomendo que não se preocupe com a retórica; uma mulher não precisa dela; o que uma mulher precisa é probidade e prudência; não é impróprio uma mulher estar calada; o que é horrível e abominável é ser caprichosa e portar-se mal… Quando aprender a ler, colocai nas suas mãos os livros que melhoram a moral, e quando aprender a escrever, não lhes deis versos baixos…, mas um dito sério ou uma pequena passagem, sábia e sagrada, tirada das sagradas Epístolas ou dos escritos dos filósofos, que quando copiados repetidamente aderem mais à mente». A ignorância de tais preceitos é, como sempre tem sido, a ruína das mulheres: «a maioria dos vícios das mulheres nesta nossa época e em épocas anteriores… é produto da ignorância, pois nunca lêem nem ouvem aqueles ditos e conselhos excelentes dos Santos Padres sobre a castidade, a obediência, o silêncio, os adornos e tesouros das mulheres” (King, 1994: 174).

“Se os tesouros das mulheres são a castidade, o silêncio e a obediência, a castidade é o mais importante de todos: é a preocupação particular da mulher; armada com a sua virtude, está suficientemente instruída” (King, 1994: 174).

“Passados dois séculos e meio, o criador do liberalismo económico europeu, Adam Smith, admirava ainda este aspecto da educação feminina: é-lhes ensinado o que lhes é útil saber, «e nada mais lhes é ensinado». Cada elemento da sua educação tem um propósito claro: «ou para aumentar a atracção natural das suas pessoas, ou para formar as suas mentes na reserva, na modéstia, na castidade e na economia; para as tornar, ao mesmo tempo, aptas a serem donas de casa e comportarem-se convenientemente nessa situação».” (King, 1994: 174).

“Em todos os cenários da educação feminina – na própria casa da jovem ou noutra, na escola ou no convento, estes eram os comportamentos necessários e suficientes da educação feminina: conselhos de castidade, silêncio e obediência, e a aquisição de conhecimentos sobre as artes têxteis e outros ligados à economia doméstica. (…). A habilidade das mulheres nestas tarefas equipara-se a um quase monopólio do comércio associado à produção de tecidos e à manufactura de vestuário, como se viu, até que a estrutura das corporações, largamente masculinas, se intrometeu nessa área durante os séculos do Renascimento” ( King, 1994: 175).

A aprendizagem da costura e da fiação desempenhava assim um papel relevante na educação das raparigas. No início do século XIV, Francesco de Barberino elogiou tais actividades em desfavor da leitura: as filhas de mercadores têm que aprender muitas tarefas caseiras e não se devem preocupar com a leitura: as filhas da classe trabalhadora deveriam saber coser e fiar, cozinhar e cuidar dos outros membros da casa. Uma geração mais tarde, Paolo de Certaldo incentivou os chefes de família a vigiarem atentamente as mulheres nas suas casas, assegurando-se de que estivessem sempre ocupadas em qualquer trabalho, para evitarem o ócio – perigoso para todos, mas especialmente para as mulheres. «e não parecerá tola e não se dirá que saiu da floresta; e não sereis amaldiçoado por a ter criado assim»” ( King, 1994: 175).

 

“«Vosso pai, que era um filósofo natural, não era de opinião que as mulheres piorassem ao educar-se. Pelo contrário, como sabeis, teve grande prazer ao ver vosso interesse para aprender.»; «Vossa mãe, porém, que tinha as habituais ideias femininas sobre o assunto, queria que passásseis o vosso tempo fiando, como as outras mulheres, e impediu-vos de fazer mais progressos e de penetrar mais profundamente na ciência e estudo durante a vossa infância.» “Pizan 1975, 875 (2.36) in ( King, 1994: 193).

 

Bibliografia

King, L. Margaret. (1994). A Mulher do Renascimento. Editorial Presença. Lisboa.

 

 

 

 

As “Indesejadas”

Publicado por: Milu  :  Categoria: As "Indesejadas", FEMINISMO

 

“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.”

 Rosa Luxemburgo

Mais um pouco de História, desta feita sobre as mulheres do Renascimento, um movimento cultural, económico e político que surgiu na Itália do século XIV, consolidado no século XV e que se estendeu até o século XVI por toda a Europa. O Renascimento teve origem na Itália devido ao florescimento de cidades como Veneza, Génova, Florença, Roma, entre outras. Estas cidades,  enriquecidas com o desenvolvimento do comércio no Mediterrâneo, deram origem a uma rica burguesia mercantil que, no seu processo de afirmação social se dedicou às artes, juntamente com alguns príncipes e papas.

Ora, o verdadeiro objectivo deste post é, mais um vez , demonstrar através da leitura dos excertos aqui transcritos, retirados do livro “A Mulher do Renascimento”,  do terrível infortúnio que era ter nascido mulher: a eterna culpada.

Antes de prosseguir, não posso deixar de apontar um pormenor: há algum tempo, numa conversa, fiquei a saber que há quem não goste do que escrevo ou do que publico ultimamente neste meu espaço.

Dizem-me que estou sempre a enaltecer a mulher…

Mas eu entendo que o que estou a fazer é tão só a estudar a História das Mulheres, numa continuada procura do fundamento das assimetrias de valor entre homens e mulheres. Na verdade, o que me move nesta minha saga é a curiosidade e, consequentemente, o prazer da descoberta, o entendimento. Gosto de perceber porque é que determinadas coisas são de uma maneira, quando até poderiam ser de outra, bem diferente…

Exemplo:

Leia-se este pequeno trecho imediatamente a seguir e reflicta-se…

Pois que, reflectir, é mais uma  das palavras de ordem deste blog.

No citado trecho está plasmada a forma como pensamos… que os meninos ou rapazes são fortes, grandes e têm força. E que as meninas ou raparigas são bonitinhas, queridas e têm coisas bonitinhas. É assim mesmo que fazemos! Por muito que nos custe aceitar temos a cabeça cheia de preconcebidos,  de ideias socialmente construídas, tão firmemente arreigadas que nem conseguimos ver mais além.

“Um mesmo bebé era vestido ora de azul ora de cor de rosa e mostrada a pessoas adultas. Nunca foi dito o sexo da criança. Mas quem a via presumia que era rapaz ou rapariga pela cor da roupa que trazia vestida. Quando vestido de azul, o bebé fazia os adultos dizerem coisas como «Que choro tão forte que ele tem!». «Como me aperta o dedo com força!», «Que grande rapaz que ele é!». Quando vestida de rosa, a criança fazia com que as pessoas que a viam dissessem: «Que bonitinha!», «Que querida!», «Que olhos tão bonitos que ela tem!». Sem nos darmos conta, acabamos por fazer distinções entre os sexos até no modo como tocamos nas crianças, na forma como as acariciamos. É inconsciente, mas não deixa de ficar gravado para sempre.

Lígia Amâncio (2001) in Marques(2004)

 

“A maioria das mulheres do Renascimento foi mãe. A maternidade definiu as suas vidas e ocupou a maior parte dos seus anos. A partir dos vinte e cinco anos na maioria dos grupos sociais, a partir da adolescência nos círculos mais elevados, experimentaram um ciclo de parto e aleitamento e novamente parto. As mulheres pobres davam à luz cada 24 a 30 meses. Os intervalos entre os nascimentos eram regulados pelo período de lactação, que impedia mais gestações com alguma eficácia. Quando a criança era desmamada, uma gestação nova podia tomar lugar. As mulheres ricas tinham ainda mais filhos que as pobres. Como as mulheres ricas não cuidavam das suas próprias crianças, em breve concebiam outra vez depois de cada nascimento” (King, 1994: 14).

“Uma fertilidade elevada era do interesse da família abastada, cuja capacidade para prevalecer «contra as poderosas forças da morte» requeria pelo menos um herdeiro masculino sobrevivente. Como no caso da inglesa Lady Verney, ainda no século XVII, a capacidade da esposa para dar à luz herdeiros era «a sua única contribuição indispensável» para a família” (King, 1994: 14).

“A necessidade de preservar a família e conservar a riqueza levava assim as mulheres de classes dominantes a serem férteis. (…) Isabel de Aragão, esposa do rei Filipe III e mãe  de Filipe IV, «o Justo» deu à luz em 1268, 1269 e 1270; neste último ano morreu, grávida de seis meses. Henriqueta Maria, rainha do rei  Carlos I de Inglaterra, esteve grávida quase sem interrupção de 1628 a 1639. (…) A florentina Antonia Masi, que morreu em 1459 com 57 anos, tinha dado à luz 36 filhos, nove varões sobreviveram-lhe” (King, 1994: 15).

“Dar à luz é ao mesmo tempo o privilégio e o fardo da mulher” (King, 1994: 15).

“Só 20 a 50% dos europeus ocidentais podiam esperar sobreviver à infância” (King, 1994: 18).

“Onde ocorriam nascimentos ilegítimos, os regulamentos feudais cobravam impostos às mulheres  consideradas culpadas, e as cidades aprisionavam ou baniam as mulheres condenadas por fornicação. Estas eram penalidades suficientemente severas para punir a mãe, mas não tão pesadas, talvez, como a real responsabilidade de uma criança indesejada, que era apenas sua” (King, 1994: 20).

“O infanticídio era a maior causa, depois da feitiçaria, para a execução das mulheres do Renascimento, e muitas bruxas eram acusadas também de infanticídio. O peso da acusação do infanticídio recaía sobre a mãe solteira, que da morte do filho era considerada culpada, enquanto a vítima mais provável da fúria contra as bruxas era ao mesmo tempo mulher e velha. «A lei e a consciência da Europa… canalizaram a sua força sobre mulheres idosas e mães solteiras»” (King, 1994: 21).

“A acusação de mulheres nestes casos marca, portanto, perversamente o início da emergência das mulheres como criminosas e como indivíduos legalmente responsáveis” (King, 1994: 21).

“Na Metz do século XV, a acusada de infanticídio era queimada num poste onde se pregava a mão culpada, enquanto à volta do pescoço se lhe dependurava uma tábua com a imagem da criança assassinada” (King, 1994: 21-22).

“As mulheres, com muito poucas excepções, eram catalogadas em termos das suas relações com o ideal feminino de virgindade e o pesadelo da sexualidade” (King, 1994: 34).

“As filhas, que constituíam aproximadamente metade dos bebés nascidos das mães do Renascimento, entravam no mundo indesejadas. Dante referiu o terror que assaltava o pai quando do parto resultava uma rapariga”  (King, 1994: 35).

“«Crianças do sexo masculino são geradas de uma semente mais quente e seca e as do sexo feminino de uma mais fria e húmida; pois há muito menos força no frio do que no calor e, igualmente, na humidade do que na secura; e é essa a causa porque demora mais tempo para uma rapariga se formar no ventre do que um rapaz.» Preguiçosas mesmo «in utero» as raparigas eram geralmente consideradas produto de concepções «inferiores». A percepção da sua inferioridade era acompanhada de deficiências nos primeiros cuidados. Não eram saudadas nem noticiadas” (King, 1994: 36).

“Desde que nascia, a perspectiva do dote ameaçava a mulher: ela representava perda potencial mais do que ganho potencial. O dote dado pela família da noiva à do noivo, só ultrapassando a oferta matrimonial do noivo no século XII, aumentou consideravelmente durante os séculos seguintes e atingiu o máximo no Renascimento. Nessa época de florescimento cultural único, o contrato matrimonial atingiu o seu extremo de monopolaridade: a família da noiva entregava filha e dote, dinheiro e enxoval; a família do marido assumia uma responsabilidade limitada pela manutenção da esposa e viúva” (King, 1994: 37).

“As mulheres sem família, seduzidas ou violadas, tinham que se defender sem ajuda. Vulneráveis, tais mulheres pertenciam sobretudo às classes sociais mais baixas e estavam culturalmente mal preparadas para apresentar formalmente as suas queixas. Uma compensação ordenada pelo tribunal (ou doada por um benfeitor) poderia sustentá-las na condição de solteiras e sem possibilidade de contrair matrimónio ou até ultrapassar o facto da «sverginità» e permitir-lhes o casamento. Estas variações de norma, onde a fornicação era seguida pelo matrimónio ou, pelo menos, por uma compensação pela honra perdida, não disfarçam o facto de o casamento ser mais eficiente e proveitosamente negociado para uma mulher cuja castidade estava intacta, pois a castidade tinha valor monetário numa transacção matrimonial” (King, 1994: 42).

Desde o nascimento, portanto, as filhas representavam um duplo fardo para as famílias: preservação da castidade e provisão do dote” (King, 1994: 42).

“Era-lhes requerido que abdicassem, com efeito, em termos contemporâneos, de dois «direitos»: o direito à propriedade paterna além do limite do dote e o direito de escolha sexual livre. Os pais escolhiam os maridos para as filhas e negociavam os acordos de bens sem a sua participação” (King, 1994: 43).

“A asserção e talvez mesmo a reafirmação do controlo masculino das mulheres no casamento, durante o Renascimento, é um facto indiscutível, por muito difícil que seja conciliá-lo com outras impressões de uma época que descobriu, pela primeira vez, o significado da liberdade. A mesma época que elevou o matrimónio a um estado sagrado – pelo edictos de Trento no Catolicismo, pelo cultivo do sentimento familiar no Protestantismo – fortaleceu, paradoxalmente, a autoridade do marido sobre a esposa e exigiu a sua mais profunda submissão ((King, 1994: 49).

“O reformador de Estrasburgo Martinho Bucer explicou que o marido era para a mulher o que o pastor era para as ovelhas, enquanto o italiano Orazio Lombardelli ofereceu outras comparações à sua jovem noiva: tal como «a cabeça adorna o corpo, o príncipe a cidade, a pedra o anel, assim o marido adorna a esposa e ela deve não só obedecer quando ele comanda mas também quando ele não o faz (King, 1994: 50).

“No Renascimento, o tema da misoginia, longe de diminuir, floresceu com a intensidade que em tudo caracterizava a época. Numa torrente de livros, poemas e panfletos demasiado vasta para aqui ser enumerada, os autores do sexo masculino atacaram o feminino e a instituição do casamento. De facto os que se pronunciavam eram quase sempre homens, que encaravam as mulheres «como objectos ao mesmo tempo desprezíveis, aterradores e tentadores». Os ataques às mulheres eram apoiados pelo sistema da cultura erudita: filosófica, jurídica, teológica, médica, assentando na autoridade das Escrituras, dos Padres, de Aristóteles, Galeno e Tomás de Aquino”  (King, 1994: 58).

“A sua própria presença era maligna e todas as coisas contaminadas pelo contacto com o seu corpo, se menstruada ou grávida, eram perigosas para os homens, como ensinavam os filósofos naturais a partir do sórdido «De secretis mulierum»do século XIII” (King, 1994: 58).

“O vigor do ataque antifeminista é uma lembrança clara de que a mutualidade de marido e mulher não era um ideal universalmente aceite, mas sim um ideal em contradição com os outros, durante os séculos do Renascimento, quando o lugar da mulher na família parece não ter ganho, mas antes perdido, terreno. O poder moral exercido pelos homens sobre as mulheres era acompanhado de poder real, como temos visto: legal, social, sexual, físico. Estes, por seu lado, ligam-se ao seu poder sobre os bens da mulher. Este poder foi cuidadosamente preservado nos séculos do Renascimento e, na verdade, expandiu-se em detrimento do estatuto da mulher. O paradoxo de as mulheres possuírem bens (promessa de independência) e, ao mesmo tempo, não os poderem controlar (negação da mesma) é fundamental para a compreensão da posição das mulheres” (King, 1994: 58-59).

“As viúvas eram numerosas durante o Renascimento porque as mulheres casavam jovens com homens maduros, sobrevivendo-lhes. Algumas beneficiavam economicamente por morte do marido ou conseguiam levar os rendimentos do dote paterno ou do primeiro casamento, para um segundo. Quando não era conveniente, de acordo com a estratégia familiar, voltarem a casar, as viúvas recolhiam-se na invisibilidade e sujeição dos seus lares conjugais ou de origem. Perdiam o estatuto de esposa e, frequentemente, a autoridade de mãe. Fora desses nichos, em que usufruíam de protecção e respeito, a sua condição moral e económica deteriorava-se muitas vezes gravemente. (…). Nem o casamento nem a viuvez tinham sido instituídos para as beneficiar. Em Florença, era grande o grupo das mulheres solteiras idosas e pobres. As mulheres que já não tinham idade para  ter filhos tinham, na maioria dos grupos etários, maiores probabilidades de se tornarem pobres do que os homens e menores probabilidades de se tornarem ricas” (King, 1994: 71).

“Na Florença do século XVI, quase metade das mulheres de algumas famílias elevadas residia em conventos e, numa família nobre veneziana do século XVII, uma em cada três filhas era persuadida a «monacar» em vez de «maritar». As mulheres de inferior posição social viviam em conventos, como criadas e trabalhadoras. Mas as próprias freiras eram recrutadas quase exclusivamente nas linhagens ricas e respeitadas. De facto, eram estes grupos os que possuíam bens a transmitir, que precisavam de ser defendidos contra a terrível fertilidade das filhas excedentárias. E eram estes os que melhor podiam reclamar o privilégio de um asilo, humano e útil, para as raparigas a remover do ciclo de reprodução e para aquelas cuja fertilidade tinha terminado: as mães «desoladas» – significado de «relicta» viúva, em latim” (King, 1994: 92).

Na Itália do Renascimento, a maioria das mulheres que viviam dentro dos muros do convento era aristocrata e uma fracção significativa das mulheres das classes elevadas (embora apenas uma pequena fracção de todas as mulheres) vivia em clausura. Em Veneza, especialmente, o convento constitui a solução para o pai com mais filhas do que dotes” (King, 1994: 93).

“Se algumas freiras, no fim da Idade Média, apreciaram lautas refeições, beneficiaram de serviço doméstico, conversaram alegremente com visitantes estranhos, tocaram alaúde e bordaram graciosamente, mantiveram os seus amantes abertamente e deram à luz secretamente, tudo isto se explica, certamente, porque nunca tinham transposto os muros  do convento em busca do espiritual. Tinham ali dado entrada porque não podiam ou não queriam casar e não podiam ser deixadas em liberdade. Assim, a história do monaquismo feminino é, pelo menos em parte, a história do aprisionamento da mulher” (King, 1994: 95-96).

 Bibliografia

KING, L. Margaret. (1994). A Mulher do Renascimento. Editorial Presença. Lisboa.

MARQUES. Alice. (2004). Mulheres de Papel. Livros Horizonte. Lisboa.