“O Erotismo”

Publicado por: Milu  :  Categoria: "O Erotismo", PARA PENSAR

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“O segredo é não correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você.”

Mario Quintana

Algumas notas que considerei interessantes recolhidas durante a leitura do livro “O Erotismo” da autoria do sociólogo Francesco Alberoni.

Francesco Alberoni nasceu em 1929, em Piacenza, Itália. Licenciado em medicina pela Universidade de Pavia, estudou psicanálise e estatística, tendo desenvolvido investigação no campo das probabilidades.
Tornou-se professor de sociologia em 1964, primeiramente em Milão, a que se seguiu Trento, Catania, Lausanne e novamente Milão.
Desenvolveu uma teoria dos movimentos colectivos, patente nos seus livros Estado Nascente (1968) e Movimento e Instituição (1977). Aqui, Alberoni explica o processo histórico como o resultado de dois tipos de forças: por um lado, as utilitárias e económicas, que transformam e inovam mas não criam solidariedade social, e, por outro lado, as representadas pelos movimentos, que só podem surgir da solidariedade social.

Sinopse:

Este livro, escrito por um dos maiores sociólogos italianos da actualidade, parte da premissa de que os homens diferem das mulheres também no que diz respeito à sensibilidade, fantasias, desejos e reacções. A obra de Alberoni estuda as diferenças entre o erotismo masculino e o feminino; o sonho da mulher, sua sensibilidade táctil, corpórea e o desejo que a percorre de deixar uma marca indelével por onde quer que passe; o sonho do homem – o que a palavra seduzir significa para ele, o seu medo de se envolver com o amor e a maneira que adopta para melhor lidar com a sexualidade; a promiscuidade dos gays e dos solteiros, e as características mais marcantes das comunidades eróticas, bem como seus limites; as forças estáveis do amor – como as pessoas se ligam umas às outras, o progressivo crescimento da atracção erótica e o ciúme em todas as suas formas; as contradições impostas pela sociedade; a convergência – o encontro entre o erotismo masculino e o feminino, à luz da psicologia e da poesia.”

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Notas:

[Tendo em conta a disciplina de antropologia, as diferenças entre os homens e as mulheres, são na sua vastíssima maioria, de origem cultural e histórica, e não forçosamente biológicas. Segundo a Sinopse , este livro “parte da premissa de que os homens diferem das mulheres também no que diz respeito à sensibilidade, fantasias, desejos e reacções”, mas é imperioso que se tenha em conta, que estas diferenças, foram sendo construídas ao longo dos séculos. A mulher foi aceitando o papel expressivo que lhe é atribuído pela sociedade. Por exemplo: adquirir um enxoval onde predomina a cor rosa, para uma menina que vai nascer, é uma das primeiras evidências de que o papel da mulher está mais ou menos traçado desde a nascença. E se se acha que as meninas são mais sensíveis, mais frágeis, é para isso mesmo que elas vão ser educadas.]

“As diferenças entre os homens e mulheres não são de natureza biológica, mas apenas cultural e histórica. Diferentes, porém, de sociedade para sociedade, de época para época, e destinadas a mudar rapidamente no Ocidente” (p.7).

“(…) a alma humana (…) é, no fundo, sempre a mesma. Nos homens, nas mulheres, no decorrer dos séculos e dos milénios” (p.8).

[Ou seja, esta frase pretende dizer que a alma não tem sexo].

Quando ele [homem] se vai embora, quando a deixa, [ela] sente-se perdida. Porque sem ele, não é nada. Mas este estado de coisas – segundo Beauvoir – destina-se a desaparecer quando, também, a mulher tiver conquistado a sua autonomia e a sua atividade. Então, mesmo que o homem esteja longe, não se sentirá vazia” (pp.32-33).

“Escreve Milan Kundera “as mulheres não procuram os homens bonitos. As mulheres procuram os homens que tiveram mulheres bonitas” . Assim, o erotismo feminino é profundamente influenciado pelo sucesso, pelo reconhecimento social, pelo aplauso, pelo papel” (p.37).

[Explicado pela antropologia e sociologia. Isto é,  umas das explicações porque a mulher prefere um homem mais velho e bem sucedido, está na origem da necessidade de garantias de que ele é um homem com capacidade para prover a sobrevivência dos filhos. Uma vez que a atracção física, o enamoramento, mais não é do que manifestações do instinto de reprodução, de procriação].

“Na Vogue Homem, a mulher quer encontrar homens célebres importantes, não gente vulgar” (p.37).

“A ideia central do Voluntarismo provém da economia capitalista. No universo económico o fim é claro: maximizar o lucro. Qualquer outro fim, não pode sequer ser levado em consideração: é irracional. Numa transacção económica todos devem procurar ganhar. Onde quer que seja, é válida a regra do custo benefício. Isto é possível porque existe uma medida comum de valor, o dinheiro, o qual torna comparáveis objectos, serviços, prestações, prazeres heterogéneos. Querendo aplicar-se o princípio da maximização, a primeira e indispensável coisa a fazer é estabelecer o fim. Em economia, o fim é unidado.” 

[Extremamente importante este conceito sobre economia. E porquê? Para quê? Porque indicia  porque devemos reclamar quando não estamos satisfeitos com um serviço que nos foi prestado. Ou com a compra, por exemplo, de um qualquer artigo. Se numa transacção económica todos devem procurar ganhar, nós, quando vamos adquirir um produto, pagamos com dinheiro. O dinheiro é bom, não enferma de defeitos susceptíveis de o desvalorizar. Quem o recebe fica bem. Logo, quem adquire o produto tem o mesmo direito, o de adquirir algo em perfeitas condições, sem defeitos, sem nada que possa constituir uma desvantagem. Ou seja,  existe uma medida comum de valor, o dinheiro, o qual torna comparáveis objectos, serviços, etc.]

“A norma não existe para o indivíduo isolado.” 

“Porque teriam alguma vez os monges necessidade de celas, senão para de defenderem dos outros monges?”

“Quando se torna repetição, hábito, dever, disciplina, o erotismo morre, transforma-se em aborrecimento, repugnância.”

[Por exemplo, o hábito que se instala com o casamento, “um aborrecimento mortal“, segundo  ENGELS, Friedrich.]

“A mulher nunca se abre eroticamente num só momento. A sua entrega é sempre gradual. Examina o homem de longe. Até o primeiro olhar experimenta sensações favoráveis ou negativas. Deixa-se avizinhar apenas quando o desconhecido lhe dá uma boa impressão, quando tem um bom odor, lhe interessa.”

“Numa cultura voluntarística, a cólera, a irritação, a agressividade, o mau humor, são considerados distúrbios que se podem eliminar, sintomas perfeitamente corrigíveis. Quem os sente irá, em 1º lugar, a um psicanalista, e este convidá-lo-á a discuti-los com outro, para remover a causa. Para a cultura voluntarística, seja que sentimento for, existe sempre uma técnica capaz de modificar o sentimento desejado, de transformar o desprazer em prazer, o ódio em amor, a repugnância em atracção. Num sistema cultural voluntarístico os sentimentos são objecto de vontade. Devem ser transformados em fins a realizar com técnicas adequadas.”

[Importante este conceito sobre cultura voluntarística, que afirma, e eu acredito, que tudo em nós pode ser “trabalhado”. Com esforço, vontade e consciência, podemos mudar muita coisa em nós.]

“A cultura voluntarística é a base de toda a cultura psiquiátrica contemporânea americana.” [Importante!]

“A mulher enamorada quererá ser bela, a mais bela do mundo, para agradar àquele que aos seus olhos, é também o mais belo do mundo. O homem enamorado quererá agradar a todas as outras mulheres, para prestar homenagem à sua mulher, tal como um rei, que é amado por todas as mulheres do seu reino, que pode tê-las a todas, mas renuncia a esse poder como dádiva à única que resume todas em si: a eleita.”

“As mulheres não têm um desejo sexual que possam satisfazer com um homem qualquer, com um orgasmo qualquer.”

“Os homens mais inteligentes, mais fortes, estão na realidade desarmados em face das momices, das provocações, por vezes de mulheres medíocres e despreconceituosas.” [Explica, por exemplo, como é possível haver um negócio tão florescente como o é a prostituição.]

Nota: As notas entre parêntesis rectos são da minha lavra, com base em outras leituras. Não inventei nada! Constituem comentários que surgiram a talhe de foice.

Bibliografia:

ALBERONI, Francesco. (1995). O Erotismo. Bertrand Editora.