Doa a quem doer

Publicado por: Milu  :  Categoria: Doa a quem doer, SOCIOLOGIA DA FAMÍLIA

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“Até aqui, temos vivido a civilização unisexual, a mulher não passou de espectadora no cenário da vida.”

María Lacerda de Moura — 1932

Há algum tempo, deparei-me com um artigo partilhado no Facebook, que logo considerei adequado para abrir caminho para mais um dos meus posts.

O artigo a que me refiro, publicado no site capazes.pt, da autoria de Joana Correia dos Santos, tem como título “O meu marido ajuda-me em casa!“.

Esta é uma expressão que actualmente muito se ouve, e a mulher que a profere fá-lo com evidente satisfação. Considera-se uma mulher com sorte, por isso, feliz da vida, diz à boca cheia “o meu marido ajuda-me em casa”. Porém, as coisas não são bem assim… e, muito possivelmente, o marido não a ajuda tanto quanto é o seu dever.

Senão vejamos:

Comecemos, então,  por procurar saber o que significa o vocábulo “ajuda”. Segundo o Dicionário Priberam, aqui, o significado de “ajuda” é o “acto de dar auxílio, favor, favorecer, facilitar”, etc.

Ora,  na gíria popular  “dar auxílio” é “dar uma mãozinha”, para que um outro alguém cumpra uma tarefa.

Deste modo, podemos verificar que, subjacente a esta expressão “o meu marido ajuda-me em casa”, está uma armadilha!… Uma vez que a mulher ao proferi-la  está  a aceitar que o grosso da coluna dos trabalhos domésticos lhe pertence a ela. É ela, sobretudo ela, que está incumbida de zelar pelo amanho da casa.

Mas porquê assim? É uma condição biológica? Está no sangue? No DNA? E, já agora, tendo em conta a religiosidade: foi Deus que assim determinou?

Não.

Tudo isto tem uma explicação:

Dominação masculina

Nas sociedades patriarcais, o masculino é considerado superior e o feminino inferior. Assim, as mulheres são submetidas à autoridade de um homem, começando pelo pai, algumas vezes até o irmão e depois o marido. Da relação patriarcal,  o homem é tido  como o principal ganha-pão familiar e a mulher como trabalhadora complementar, tendo na reprodução da família o seu papel principal. Ou seja, o marido era considerado o “chefe da família” enquanto à mulher cabia a “gestão doméstica”, o mesmo é dizer que, a ela estava destinado o dever de tratar da casa e da família, enquanto a ele  a missão de prover o sustento destas.

Ora, este estado de submissão das mulheres só foi sendo possível ao longo dos séculos porque tudo estava organizado de forma a que as mulheres se mantivessem na ignorância, dificultando-lhes a aprendizagem, impedindo-as de estudar mais que uma certa conta, etc. Afinal, sempre é verdade que, aquele (a) que não sabe, não viu, não percebe, também não sente…

Mas é com o evento da  Revolução Industrial, no final do século XIX, que esta distinção dos papéis sociais do homem e da mulher atingiria o seu cúmulo, quando o trabalho passou a ser dividido em duas esferas distintas, de um lado a unidade doméstica, de outro a unidade de produção. A essa fragmentação correspondeu uma divisão sexual do trabalho, cabendo ao homem o trabalho produtivo (papel operativo), pelo qual passou a receber um salário, enquanto à mulher coube principalmente a realização das tarefas relativas à reprodução da força de trabalho, cuidando da casa, dos filhos e dos velhos da família (papel expressivo), sem remuneração, constituindo assim a salvaguarda da retaguarda do marido.

Por conseguinte, a sujeição da mulher ao homem não se originou propriamente no capitalismo, porém, nesse sistema, tornou-se mais virulenta e devastadora.

Contudo, os tempos são outros. Actualmente as mulheres são companheiras dos homens no mundo do trabalho, trabalham tantas horas quanto eles, chegam a casa tão cansadas quanto eles, tão depauperadas quanto eles, muitas delas mais qualificadas e ganhando bem mais do que os seus maridos.

Posto isto, é justo que se continue a atribuir maior obrigação às mulheres do que aos homens  quando se trata de cuidar da casa? É justo que muitas mulheres continuem a pensar que uma mulher para ser mulher têm de ser uma moura de trabalho, uma escrava encapotada, por assim dizer?

Não estarão, agora, que marido e mulher trabalham fora de casa,  em paridade?

Claro que estão numa situação de igualdade. Por isso mesmo, a mulher não deverá sentir-se satisfeita com as “ajudas” nem deverá dizer “o meu marido ajuda-me em casa”, mas antes como disse uma das entrevistadas à autora do artigo aqui referido, por altura de um estudo que andava a fazer.

Disse a entrevistada:

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Partilha! Partilha é a palavra chave.

Toda a mulher tem o direito de cuidar da sua família, até de se comprometer mais do que lhe competiria para com o governo da casa, mas desde que o faça por amor, pelo gosto de cuidar bem dos seus, mas sempre, sempre, com a consciência do que o faz porque é esse o seu desejo e não a sua exclusiva obrigação, porque essa é dos dois elementos do casal.

Burgess

Publicado por: Milu  :  Categoria: Burgess, SOCIOLOGIA DA FAMÍLIA

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“Casa é uma construção de cimento e tijolos. Lar é uma construção de valores e princípios.”

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Da instituição ao companheirismo: a proposta de Burgess

Até aos anos 60 do século XX é em torno da ideia do surgimento da família moderna e da centralidade do casamento neste novo contexto, que as principais teorias e análises se desenvolvem. Burgess vem propor a ideia de transformação da família «instituição» em família «companheirismo». A transformação dever-se- ia, essencialmente, à passagem da produção agrícola e artesanal para a produção industrial, bem como à mobilidade geográfica e a crescente urbanização que a acompanhavam. A caracterizar o modelo “companheirismo”, e por oposição à lógica da instituição, temos uma família que é fundada pelo casamento decidido pela livre escolha dos cônjuges, que instala a democracia como princípio de funcionamento e que tem como finalidades o bem-estar pessoal do casal e dos filhos.
Deste modo, é o novo casal e, portanto, o casamento na verdadeira acepção da palavra, que funda a família e não, como na lógica institucional, a família através de casamentos por conveniência, que impõe aos mais novos o casamento. Como afirma Burgess, no modelo institucional as preocupações patrimoniais e económicas estão acima de todas as outras. Com o assalariamento, possível também para um número mais significativo de pessoas através da industrialização, tende a difundir-se o «companheirismo» como nova forma de encarar a família e o casamento.
Cada vez mais a família é valorizada no quadro da vida individual, como fonte de gratificação e bem-estar afectivo e não tanto como prestadora de serviços ou como unidade de produção de bens económicos.

Burgess apresenta a vida familiar e a vida pública como esferas autónomas, dicotomizáveis, por serem governadas por lógicas diferentes – de um lado a lógica da protecção, do afecto e da intimidade, do outro a da competição, do interesse e do lucro.

Críticas:

O facto de Burgess não ter tido devidamente em conta o conjunto de trocas e de relações internas à vida familiar, que não passam necessariamente apenas pela lógica dos afectos. Cita-se como exemplo, o enorme volume de serviços prestados, portanto, trabalho prestado, na esfera familiar – os cuidados com os filhos, as tarefas domésticas, etc. Além disso, a dicotomização entre vida familiar e vida pública está associada a uma perspectiva que considera a distribuição de papéis diferenciados e complementares entre mulher e homem como “natural” e “universal”.
Surge assim, a questão das diferenças de sexo, aqui completamente obscurecida pela visão “naturalizada” da distribuição dos papéis de acordo com as diferenças biológicas. A tendência para encarar a vida familiar e o casamento como empreendimentos abstractos desligados de outras dimensões da vida social, governados apenas por lógicas sentimentais e interpessoais, por oposição às dimensões consideradas agressivas e difíceis das outras relações sociais, alimentou ainda, por sua vez, e por demasiado tempo, a ideia de família como casulo protector. Mas o certo é que a realidade não é bem assim, uma vez que persiste a a possibilidade de factores externos interferirem no funcionamento interno da família. Apesar de serem governadas pelo companheirismo, sentimento e afecto, as famílias podem ser também palco de conflitos, tensões, desentendimentos, problemas.
Burgess considera, com efeito, que a família tem um papel central na manutenção da ordem social, exactamente porque a considera como factor compensatório e equilibrador dos constrangimentos e dificuldades a que os indivíduos estão sujeitos nas outras esferas da vida social.

Promove-se assim a ideia da centralidade da família como factor protector do indivíduo – numa sociedade e numa época onde são inexistentes ou incipientes os sistemas do Estado.
Ainda assim, a valorização do sentimento, dos afectos, não se traduziu, forçosamente, na estabilidade da família.

Bem vistas as coisas, a estabilidade económica não garante a estabilidade afectiva e familiar, uma vez que também pode contribuir, para o aumento da ruptura conjugal. Na verdade, estabilidade económica, menor desemprego, e sobretudo o surgimento, nos finais dos anos 50, de maiores oportunidades de emprego para as mulheres dos chamados sectores administrativos e de serviços, colocou também a questão da menor dependência feminina face ao casamento. Assim o casamento deixa de ser uma necessidade económica. Os empregos estão hoje ao alcance não só das mulheres solteiras ou divorciadas como também das mulheres casadas. Ora, exactamente a estabilidade económica e o maior acesso aos recursos por parte das mulheres casadas, em conjugação com a maior importância atribuída aos sentimentos, foram factores decisivos no aprofundamento do processo, já nessa altura em curso, de transformação das famílias. Com esta nova visão verifica-se que as pessoas casam por amor e divorciam-se também por causa do amor, ou seja, quando ele falta, quando ele terminou.

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Sociologia americana

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“Nosso egoísmo é, em grande parte, produto da sociedade.”

Émile Durkheim

“Não foram os sociólogos americanos que inventaram a sociologia. Mas foi nos Estados Unidos que a sociologia se tornou uma profissão. Juntando, nos seus cadinhos, teorias de intelectuais universitários e alguns procedimentos técnicos imaginados por investigadores de talento, obtiveram um produto novo, feito de peças e de bocados de obras primas, na sua maior parte europeias. Os puristas e os estetas das construções concetuais podem ter ficado inquietos. Mas os sociólogos americanos não são os intelectuais oriundos das classes dominantes de que fala Max Weber, que se refugiam em fantásticas construções intelectuais. São profissionais da sociologia (Herpin, 1982: 7).

“Pode considerar-se que a primeira fórmula estabelecida pela sociologia americana é obra da escola de Chicago: e é nesta medida que se pode dizer que esta sociologia começa em Chicago. O estudo etnometodológico é a sua mais recente fórmula, em laboriosa constituição na Califórnia” (Herpin, 1982: 21).

“Os sociólogos da escola de Chicago (…) procuram estabelecer o equilíbrio ou o desequilíbrio de um conjunto extremamente variado de elementos, cujo número está limitado pela proximidade geográfica. É neste sentido que o conceito fundamental de “comunidade”, ou mais rigorosamente de “comunidade ecológica” é utilizado. Park escreve: “A relação recíproca e a interdependência entre as espécies são naturalmente mais evidentes e mais íntimas num habitat comum do que em qualquer outro local” (Herpin, 1982: 28-29).

“A análise funcional consiste em explicar as condutas particulares dos membros duma mesma sociedade como o resultado de um equilíbrio entre os diversos sistemas normativos que se equilibram entre si”  (Herpin, 1982: 44).

“A ideia dum sistema, composto de elementos interdependentes, que são eles próprios sistemas, e onde o sistema total se equilibra à custa, por vezes, da substituição dum elemento por outro, não se encontra nem no culturalismo, onde a análise sistemática se limita ao estudo das relações indivíduos-sociedades através de operações de socialização, desculturação-aculturação, repressão-aprendizagem, ajustamento-desadaptação, nem na escola de Chicago onde, inversamente, a extraordinária variedade dos elementos composto no sistema biótico se analisa a partir da repartição da população no espaço, da apropriação técnica da natureza e do ordenamento do seu habitat” (Herpin, 1982: 45).

“A “comunidade” dos culturalistas é definida unicamente a partir dos modelos culturais comuns aos membros de um mesmo grupo” (Herpin, 1982: 29).

“A natureza para os culturalistas, corresponde essencialmente aos instintos dos indivíduos. Pelo contrário, as ferramentas que usam são categorizadas na cultura. Para Chicago, a noção do meio reporta essencialmente à natureza externa e às ferramentas, na exata medida em que são a transformação dessa natureza. A cultura, para a escola de Chicago, não designa senão a tradição escrita e oral dos diversos grupos étnicos; a este título, a cultura não é senão uma força cuja incidência não se deve sobrestimar, na globalidade do meio” (Herpin, 1982: 34).

“A escola de Chicago inspirava-se na ecologia animal, o funcionalismo na biologia organicista, o culturalismo tinha abandonado o freudismo em favor das matemáticas, mas todos se exprimiam numa linguagem própria de uma disciplina “científica” (Herpin, 1982: 74).

As concepções do desvio:

“Viver em sociedade é sair do anonimato, pelo menos em relação àqueles com os quais se entra em interacção. O desvio é uma categoria semântica com base na qual certos indivíduos são identificados. É um esquema de construção das imagens do EU, isto é, um princípio pelo qual se regem os membros de um grupo nas questões que têm com os outros. O problema sociológico já não é portanto, como para os funcionalistas, o de avaliar as consequências institucionais de um comportamento de transgressão, mas estudar o processo de exclusão pelo qual um indivíduo acaba por ser considerado um desviante” (Herpin, 1982: 83).

“Becker é sem dúvida o primeiro a seguir esta via, em Outsiders. O ato de desvio deixa de ser um momento em que o indivíduo transgride a lei, para ser o processo complexo no decorrer do qual o indivíduo vem a ser designado como desviante. Sem dúvida que o ato de transgressão da lei é uma etapa necessária ao processo; mas, como mostra Becker, o primeiro cigarro de marijuana não conduz necessariamente à heroína” (Herpin, 1982: 84).

“Não é a primeira infracção que é determinante, mas o desencadear de mecanismos sociais de designação; Lemert opõe comportamento desviado primário a comportamento desviado secundário; só o comportamento desviado secundário é desvio, quando a reacção societal constrange o indivíduo designado a viver à margem das convenções: O comportamento desviado primário produz-se em contextos variados (sociais, culturais e psicológicos) e só tem, quando muito, implicações marginais na estrutura psíquica do indivíduo. Não conduz à reorganização simbólica das atitudes face a si próprio e face aos papéis sociais. O comportamento desviado secundário é um comportamento desviado em que os papéis sociais nele fundamentados se tornam meios de defesa, de ataque ou de adaptação aos problemas explícitos ou implícitos criados pela reacção societal ao comportamento desviado primário. De facto, as causas originárias do comportamento desviado perdem importância; e o fenómeno central passa a ser as reacções da sociedade que tendem a desaprovar, degradar e isolar o indivíduo” (Herpin, 1982:  84-85).

“Retomando de uma forma mais teórica esta concepção da resistência do EU, Goffman, em Stigma (54), distingue duas identidades sociais: a identidade social virtual e a identidade social real. A identidade social virtual é a personalidade que lhe imputam aqueles com quem o indivíduo está em contato. Esta identidade é construída a partir das informações de que dispõem os indivíduos que com ele estão em interacção: a sua aparência física, a sua reputação, o seu modo de falar, de se vestir, de se apresentar. .. A identidade social real é a personalidade deste indivíduo, definida a partir dos atributos que efectivamente são os seus. Alguns destes atributos efectivamente possuídos têm um efeito de “descrédito” sobre aquele que os apresenta: são os estigmas. Os estigmas podem variar muito de sociedade para sociedade ou de grupo social para grupo social: ser negro nos Estados Unidos, ser judeu, ser velho entre os jovens, ser doente nas nossas sociedades, ter estado na prisão quando se procura emprego…” (Herpin, 1982: 85).

“Qualquer que seja a natureza dos estigmas, o estigmatizado ocupa uma posição de desviante face àqueles com quem entra em interacção: o estigmatizado tende “a resistir à concepção que os outros membros do grupo fazem dele”. Se os estigmas não podem ser dissimulados (ser negro), eles pertencem à identidade virtual. O estigmatizado procurará, por técnicas várias, impedir que o julguem unicamente por esses estigmas. Se, pelo contrário, os estigmas não são imediatamente aparentes (o facto de ter estado na prisão), o indivíduo procurará, por outras tácticas, fazer passar a sua identidade virtual pela sua identidade real” (Herpin, 1982: 85-86).

“Para Goffman, não é necessário cometer uma infracção para se cair na situação de desviante: qualquer indivíduo, no momento ou outro da sua vida, pode revelar-se possuidor de determinantes que o tornem desviante em relação aos grupos nos quais age” (Herpin, 1982: 86). “Parece portanto que a teoria interaccionista do desvio tende a minimizar cada vez mais o papel da infracção em relação à norma” (p. 86).

“Se se quiser compreender o desvio, não se deve partir dos indivíduos, nem dos seus comportamentos, nem mesmo das regras eventualmente transgredidas, mas das situações nas quais possam vir a ser designados desviantes. Não há, com efeito, nada de pré-determinado; a eventual distribuição das designações de desviantes é produto da interacção” (p. 89).
“Organizacionalmente falando, os desviantes são aqueles a quem falta senso-comum, aqueles em quem não se pode ter nenhuma confiança porque se recusam a submeter-se à operação de normalização” (p.91).

Uma escola sociológica é uma equipa de investigadores – a palavra “equipa” está entendida no sentido goffmaniano (team) – que, embora não seguindo um plano pré-determinado, desenvolve trabalhos convergentes. Ora esta convergência não é “intencional”: não existe ninguém – o chefe da escola – que saiba para onde vai toda a gente. A convergência é, tal como o EU de que falamos mais atrás, um efeito colectivo. E se se tenta explicitar em que consiste o “consenso efectivo”, na origem desta convergência, encontra-se um composto instável, a que chamamos uma problemática” (p. 93).
“Muito esquematicamente, podemos dizer que a cidade foi o objecto privilegiado da escola de Chicago, a família o do culturalismo, a organização de empresas o do funcionalismo e o desvio o do interaccionismo (p. 107).

“A delinquência juvenil foi objecto de numerosos trabalhos em todos os períodos da sociologia americana (…). Se procurarmos explicar uma tal concentração – qualitativa e quantitativa – num domínio tão particular – concentração bem surpreendente para um francês, visto que a sociologia francesa jamais produziu neste domínio qualquer obra notável – não basta invocar a turbulência dos jovens americanos (…) dificilmente podemos explicar que com o desaparecimento da sociedade comunitária tradicional ou a burocratização das organizações, os jovens delinquentes tenham sido um grupo historicamente determinante. Na realidade, a sociologia da delinquência desenvolveu-se particularmente na medida em que existe, desde a escola de Chicago, um corpo de técnicos sociais – os trabalhadores sociais -, cursos universitários de formação deste pessoal – e mais geralmente uma procura institucionalizada para este tipo de intervenção social” (p. 109).

A lógica da orientação teórica

“As quatro escolas codificam de forma diferente os diversos dados de que dispõem sobre a delinquência. O código de Chicago é o conceito de desorganização. O dos culturalistas é o conceito de sub-cultura; a anomia é o dos funcionalistas; a reacção societal o dos integracionistas (p. 110).
“Assim, para compreendermos as práticas e as crenças dos adolescentes dos bandos, é preciso partir do espaço urbano onde esses jovens vivem, porque: «Do mesmo modo que os recursos naturais duma região ou território determinam, de maneira geral, as actividades dos seus habitantes, também o habitat dum gang forma os interesses dos seus membros»” (p.113).
“Em resumo,” (…) a estrutura da cidade, como o mostrámos, é tanto o produto da luta e dos esforços dos indivíduos que aí vivem e trabalham, como o resultado dos costumes locais, das tradições, dos rituais sociais, das leis, da opinião pública e da ordem moral dominante” (p. 114-115).

“A delinquência é o resultado do desenvolvimento incontrolado duma sociedade onde se conjugam forças diversas; isto não quer dizer que a delinquência seja um fenómeno informe. Para Thrasher é, pelo contrário, um modo de sobrevivência notável, tendo em atenção as condições difíceis nas quais se realiza” (p. 115).

Para Cohen a delinquência:

“- não é utilitária – os delinquentes juvenis, diferentemente dos ladrões profissionais, não roubam um objecto para dele se servirem ou para revender: o roubo é uma “atividade validada por si mesma, à qual se junta a glória, a proeza e profunda satisfação;
é maldosa – os delitos são realizados «pelo simples prazer de ver os outros aborrecidos, pelo prazer de desafiar os tabus»;
é negativista – no sentido em que “a sub-cultura delinquente toma como fonte a cultura dominante, mas inverte o seu sentido” (p.115-116).

“Para que uma sub-cultura seja possível, é preciso, primeiramente, que os indivíduos encontrem os mesmos problemas: “A condição crucial para a emergência de novas formas culturais é a existência de um certo número de atores em interacção recíproca, com problemas similares de ajustamento” (p.116).
“Uma vez que se constitui uma sub-cultura, uma vez que emergiram os “novos padrões de grupo”, como se perpetua esta sub-cultura? Aqui Cohen recupera as lições do seu professor em Harvard, Talcott Parsons: «Uma vez estabelecidos, tais sistemas sub-culturais não se perpetuam por pura inércia. A sub-cultura pode sobreviver aos que a criaram, desde que continue a servir as necessidades daqueles que sucederam aos seus criadores»” (p. 117).

“Por fim, não é por acaso que o mecanismo central sobre o qual Cohen funda a sua teoria da delinquência é o da socialização. Mais precisamente, trata-se das dificuldades que a socialização das crianças provenientes das classes populares encontra. Há uma contradição entre a socialização familiar e a socialização escolar; e é a esta contradição que os adolescentes reagem quando se constituem em bandos delinquentes” (p. 119).

“A posição da família na estrutura social” – isto é, no sistema de classes – “determina as experiências e os problemas que todos os membros da família reencontrarão no seu contacto com o mundo exterior à família”. Experiências e problemas dependem, com efeito, do sistema de valores dos indivíduos. Ora, parece-nos que na sociedade americana há pelo menos duas atitudes que opõe os diversos grupos sociais: a sub-cultura da classe média, versão secularizada da ética protestante, que Cohen designa pelo nome de ética “da responsabilidade individual”, e a sub-cultura popular, que Cohen analisa como ética da “reciprocidade”. Enquanto a socialização se reduz à educação familiar, as crianças interiorizam os modelos homogéneos (ou coerentes). Mas desde que estão em contato com o sistema escolar, surge então uma disparidade. Com efeito, o sistema de valores nos termos do qual a atuação das crianças é apreciada na escola é o da classe média. Ora se as crianças oriundas das classes médias vêem, deste modo, a educação familiar confirmada, às crianças das classes populares é solicitado que renunciem à sua cultura original, para adotarem os modelos da classe média. Cohen critica então o sistema escolar: “Numa sociedade como a nossa, na qual é legítimo comparar as crianças umas com as outras segundo os mesmos critérios, sem tomar em consideração a sua origem familiar, não se conclui que a capacidade de realizar tais critérios seja necessariamente distribuída independentemente da origem familiar ou da pertença de classe. Diferenças em tais capacidades, sistematicamente ligadas à pertença de classe, relegam para o fundo da pirâmide estatutária as crianças que pertencem às classes mais desfavorecidas…”. Dito de outro modo, a escola não é tanto o lugar onde se redobra a desigualdade como sobretudo onde se desculturalizam as crianças saídas das classes populares. Certos jovens aculturam-se aos valores da classe média. Não deixam, por isso, de estar numa situação difícil. Porque o facto de haverem abandonado parcialmente os valores da sua classe de origem, ao passo que economicamente continuam a fazer parte dela, conduz tais jovens àquilo que os culturalistas designam pudicamente como problemas de adaptação, ou que Cohen designa por «soluções sub-culturais»”. (p. 119-120).

“Submetidos à pressão de duas culturas contrárias – que em si mesmas não são fontes de atos ilegais – a crianças oriunda das classes populares reage de forma análoga à do neurótico. Em vez de elaborar uma cultura de conciliação, ela resolve de uma forma simbólica (ou fantasmática) o problema no qual se instala. As formas aberrantes – não utilitária, negativista e maldosa – que esta sub-cultura delinquente toma, exprimem segundo uma forma disfarçada a perturbação na qual se encontra o jovem proletário, incapaz de resolver a contradição entre duas culturas interiorizadas. As incoerências do super-ego ou da cultura estão na origem da delinquência juvenil. Tal é a teoria culturalista da delinquência que encontramos na obra de Cohen” (p. 121).
“O acto delinquente é a violação de uma norma que acompanha uma sanção infligida pelo grupo social ao delinquente: “O ato delinquente é definido a partir de dois elementos essenciais, é um comportamento que viola normas fundamentais da sociedade e, quando oficialmente reconhecido, provoca um julgamento pelos agentes da justiça criminal, estabelecendo que tais normas foram violadas” (p. 122).

“Conforma a posição que um indivíduo ocupa na estrutura social, ele está ou não em condições de agir conforme as prescrições da cultura da sociedade. Merton parece querer dizer o seguinte: para pessoas que pertencem à classe operária ou a grupos minoritários particularmente desfavorecidos, o que define as suas posições são os baixos salários, uma qualidade profissional muito fraca, um nível de educação pouco elevado, eventualmente mesmo a doença, a separação familiar, etc. Se se quer definir a desigualdade social, não se deve portanto partir como fazem os culturalistas – e Cohen em particular – de valores diferentes segundo as classes sociais, mas das diferenças objectivas entre as condições nas quais vivem os indivíduos. Os membros das classes desfavorecidas são os indivíduos cuja situação sócio-económica torna difícil, ou até mesmo impossível, o acesso às posições socialmente procuradas pelos privilégios financeiros, de prestígio ou de poder que conferem. À partida as pessoas das classes desfavorecidas têm um handicap que só excepcionalmente conseguem superar. Para Merton, o que assim se cria são as condições de comportamento desviado. Para Cloward e Ohlin, são criadas as condições das sub-culturas delinquentes. Nos dois casos, dá-se conta do aparecimento mais frequente da delinquência nos meios populares ou nos meios desfavorecidos, sem recorrer a uma teoria da desculturação-aculturação como em Cohen” (p. 126-127).

IMPORTANTE:

Nota de rodapé:

“Sugerimos que numerosos adolescentes originários das classes populares têm a experiência do desespero, que nasce da certeza de que a sua posição na estrutura económica é relativamente fixa e imutável – um desespero tanto mais agudo quanto eles estão expostos à ideologia cultural na qual a incapacidade de se orientar para o topo da hierarquia social é considerada como falta moral e na qual o fracasso na mobilidade ascendente é encarado como prova desta tara” (p. 126-127).

Bibliografia:

HERPIN, Nicolas. (1982). A Sociologia Americana. Porto. Edições Afrontamento.