Adestramento

Publicado por: Milu  :  Categoria: Adestramento, SOCIOLOGIA DA FAMÍLIA

 

 

“Alguns têm na vida um grande sonho e faltam a esse sonho. Outros não têm na vida nenhum sonho, e faltam a esse também.”

 

Fernando Pessoa

Li, por aí, algures, e mesmo a propósito, que o adestramento é um processo contínuo, sistemático e organizado que permite desenvolver habilidades, conhecimentos e destrezas necessárias para desempenhar um trabalho de forma eficiente. Se bem visto, a definição de adestramento assenta que nem uma luva  ao processo a que é submetida praticamente metade do total da população humana, ou seja, os seres humanos de sexo feminino.

Quando uma menina nasce, ela vai ter de aprender a agir e a pensar de acordo com um determinado guião, de forma a que futuramente aquela menina se torne no tipo de mulher que se deseja, que convém. A menina irá, deste modo, perder a sua matriz original, o potencial e capacidade de realização que nasce com ela, para ser substituída por uma matriz construída, conveniente, há muito definida. Ficará assim bem domada. Se lhe parece história o que acabou de ler, recomendo que  leia o excerto que se segue, da autoria de Colette Dowling no seu livro “Complexo de Cinderela”. Não foi à toa que Simone Beauvoir pronunciou a célebre frase “Não se nasce mulher, torna-se”, o que significa que à mulher é impingido um determinado comportamento – tu, mulher, terás de ser desta maneira. “Assim Seja Ela!”, já dizia Benoîte Groult.

 

Há já algum tempo que os psicólogos sabem que as necessidades de afiliação femininas são mais fortes do que as masculinas, mas só recentemente desvendou-se a razão disso graças aos estudos realizados sobre as meninas. Por causa de uma dúvida intensa e profundamente assentada quanto à sua própria competência (desenvolvida desde o início da infância), as meninas se convencem de que precisam ter protecção, sob pena de não sobreviverem. Esta crença é incutida nas mulheres pela acção de expectativas sociais de base enganosa e pelos temores dos pais. Como veremos, uma ignorância monumental modela  a forma de pensar dos pais sobre as filhas, de sentir em relação a elas e de interagir com elas. As meninas têm sua capacidade de se fazerem seres humanos independentes coartada pelas atitudes protectoras dos pais – tal como se tivessem os pés atados.

O treinamento oferecido às meninas é diverso do oferecido aos meninos. O delas leva-as a transformarem-se em adultas que se submetem indefinidamente a empregos de nível inferior ao das suas capacidades. Leva-as a sentirem-se intimidadas pelos homens que desposam, e a acatar-lhes todas as palavras na esperança de serem protegidas. Leva inclusive, como veremos, à debilitação  das faculdades  intelectuais femininas.

Elogiadas pelos professores por nossa diligência e bom comportamento na escola, nós, confiantes em que tais qualidades nos ajudarão a vencer no mundo profissional, logo nos apercebemos de que somos tratadas como se não fôssemos tão crescidas assim.

(…)

Desde tempos imemoriais os homens vêm demonstrando que, na grande ordem das coisas, as mulheres realizam muito pouco. Onde, perguntam eles, estão as físicas que revolucionaram o conhecimento científico? Como é que inexistem Bartoks do género feminino? (Tais questões são geralmente levantadas no intento de se abafarem quaisquer sugestões no sentido de as mulheres serem tão inteligentes quanto os homens). Novos estudos evidenciam cada vez mais que as mulheres se «impedem de progredir». Nós sabotamos nossa própria originalidade. Andamos em segunda – evitando as marchas potentes que possibilitam maior velocidade – como se tivéssemos sido programadas para fazê-lo.

E na realidade o fomos.

A psicologia vem investigando de perto como as mulheres agem e se sentem em relação ao modo como foram ensinadas a se comportar e forçadas a se sentir quando crianças. É chocante saber que o quadro mudou bem pouco nos últimos vinte anos? A forma pela qual as meninas são socializadas continua a predeterminar um doloroso conflito quanto à independência psicológica necessária para as mulheres se libertarem e assumirem o seu lugar ao sol.

O Aprendizado

Gostamos de pensar que, como pais, estamos fazendo tudo diversamente – que as nossas filhas não sofrerão os efeitos da criação discriminatória e super-protectora a que fomos sujeitas. Contudo, as pesquisas indicam que a maioria das crianças de hoje estão sendo desvirtuadas pelos mesmos tipos de papéis fixos (e artificiais) com que você e eu nos identificamos.

A dominação masculina – e sua cúmplice feminina – podem ser observadas já nas crianças das escolas maternais.

 

Esta cena foi observada entre duas crianças de quatro anos de idade, na sala de brinquedos de um jardim de infância, e relatada na revista “Harper’s” pela supervisora do grupo de crianças, Laura Carpenter.

«Outra cena que observo de vez em quando é mais ou menos a seguinte», escreveu ela. «Três ou quatro meninos pequenos se sentam de volta de uma mesinha na cozinha de brinquedo. Os meninos começam a requisitar coisas: «Me dá uma xícara de café!», ou «Me passa a manteiga!», ou ainda: «Mais torrada!», enquanto as meninas põem-se a correr freneticamente entre o fogão e a mesa, cozinhando e servindo.

(…)

As meninas nesse jardim de infância estavam actuando um antigo sistema de troca: servir o amo em troca de protecção. Professores, terapeutas e demais profissionais que trabalham ou estudam com jovens do sexo feminino deploram a continuidade da existência do Complexo de Cinderela – a crença, por parte das meninas, de que sempre haverá alguém que irá cuidar delas. «Apesar de toda a ênfase que hoje se coloca na ampliação de papéis femininos, não houve mudanças significativas na preparação das meninas para a idade adulta», disse Edith Phelps, directora executiva do Girls Clubs of America (Clubes de Meninas da América9, numa recente conferência. «Sua preparação continua no máximo destrutiva – e no mínimo cheia de conflitos».

Estudando adolescentes na University of Michigan, a psicóloga Elizabeth Douvan descobriu que, até a idade de dezoito anos (e às vezes além dela), as meninas praticamente não mostram nenhum impulso para a independência, não se rebelam nem confrontam a autoridade, e não defendem «seus direitos de formar e preservar crenças em mecanismos de controle independentes. Com respeito a todos esses aspectos, elas diferem dos meninos.

E os dados mostram que a dependência nas mulheres cresce à medida que elas ganham mais idade.

Também revelam, surpreendentemente, que, desde bem pequenas, as meninas são treinadas para a dependência, ao passo que os meninos são treinados para se livrarem dela.

Como começa tudo isso?

As meninas iniciam o jogo da vida um passo adiante dos meninos. Elas são mais habilitadas verbal, perceptual e cognitivamente. Desde o nascimento elas contam com uma vantagem, em termos desenvolvimentistas, equivalente a quatro ou seis semanas de vida. Quando entram na primeira série do primeiro grau, as meninas se encontram um ano à frente dos meninos, nesses aspectos.

Eleanor Maccoby, uma psicóloga de Stanford com especialização em factores psicológicos da diferença de sexos, responde que «a chave do problema reside em se ou quão cedo a menina é encorajada a assumir a iniciativa, a responsabilidade por si mesma, e a resolver sozinha seus problemas, em vez de, para isso, depender de outrem».

Acontece que os comportamentos reforçados nas meninas não são reforçados nos meninos. Muito do que se considera «bom» em garotinhas é considerado extremamente repulsivo em garotinhos.

Timidez e fragilidade, ser «bem comportada» e quieta, e depender dos outros para obter auxílio e apoio são coisas julgadas naturais – se não desejáveis – nas meninas. Os meninos, em contrapartida, são activamente desencorajados  a apresentarem formas dependentes de relacionamento – elas os tornam «maricas». Gradualmente, diz Judith Bardwick, «o filho é forçado a apresentar comportamentos independentes e recompensado por isso»…

Bibliografia

 

DOWLING, Colette.  (1982).Complexo de Cinderela. Melhoramentos. São Paulo. 89-92.

Asas para a Arte

Publicado por: Milu  :  Categoria: Asas para a Arte, SOCIOLOGIA DA FAMÍLIA

 

“Nunca pintei os meus sonhos. Pintei a minha própria realidade.”

Frida Kahlo

Já cheguei a ler algures que, numa tentativa de justificar a teoria que postulava que a mulher era intelectualmente inferior ao homem, não faltou quem tivesse a veleidade e a ousadia de afirmar que era a própria História que o confirmava, uma vez que esta, praticamente só refere  homens quer no domínio das ciências, quer nas artes. E, de facto, às primeiras impressões,  assim parecia ser. Ora, se formos para o domínio das artes plásticas, quem é que nunca ouviu falar de Vicent Van Gogh, Salvador Dalí, Pablo Picasso, Auguste Renoir, Leonardo da Vinci, Michelangelo, etc, etc, etc? Mas, e as mulheres artistas plásticas famosas quem foram, e quantas foram? Porque não ouvimos falar delas com a mesma constância que ouvimos falar dos seus congéneres masculinos?

Para perceber esta problemática decidi fazer uma breve pesquisa, que me permitiu elaborar este post, com base em  dois testemunhos. O primeiro testemunho versa sobre a  “A Invisibilidade da Mulher na História da Arte”  e retrata uma época a partir do século XVI, que pode ser consultado aqui e o segundo testemunho consta no livro “Cantando a Plenos Pulmões” de Bepko & Krestan (1993).

A Invisibilidade da Mulher na História da Arte

“Não obstante, pintores, escultores e poetas não se coibirem de tomar as mulheres como modelos, era restringido à mulher o acesso à educação, sobretudo no domínio científico e  excluídas da Escola de Belas Artes. 

A mulher foi mantida  mais ou menos à margem da produção artística, consequentemente silenciosa e ausente na História da Arte, embora sempre tivessem havido mulheres artistas. O que lhes faltou  foi campo propício para desenvolver livremente o seu talento. Excepto as que por condição de nascimento ou devido a uma certa intrepidez ousaram dar curso ao génio criativo.

Muito embora hajam menções de mulheres artistas na antiguidade, assim como na idade média, as mulheres artistas são geralmente ricas aristocratas alfabetizadas e freiras que alimentaram uma produção de trabalhos artísticos associados aos bordados, aos têxteis e ao desenho e pinturas de iluminuras. A mais representativa das mulheres intelectuais e artistas desta época foi  Hildegard von Bingen. Na pintura algumas mulheres conseguiram desenvolver actividade artística como profissionais a partir de meados do século XVI. Foi o caso de Caterina van Hemessen (1528-1587); Sofonisba Anguissola (1531-1625), considerada a primeira artista do Renascimento a adquirir fama internacional; Lavínia Fontana (1522-1614); Artemisia Gentileschi (1593-1653), é geralmente considerado o primeiro grande nome da pintura no feminino. Seguindo a regra, é filha de um pintor, Orazio Gentileschi, talentoso representante do Caravaggismo.

Todas elas têm uma particularidade comum – são filhas de pintores bem sucedidos. E muitas outras lhes sucederam. Apesar de todo este capital feminino nas artes foi lento e difícil o processo de emancipação da mulher ao longo de milénios. Rosa Bonheur (1822-1899), artista famosa foi ao ponto de trocar as roupas de mulher pelas de homem para transpor obstáculos e ganhou muito dinheiro com a sua pintura. Recebeu uma medalha de ouro na exposição de 1848 e veio tornar-se Oficial da Legião de Honra em 1894.

Chegado o século XX, umas poucas mulheres impuseram-se no mundo da arte  por força do seu talento e, por vezes, fortes personalidades e naturezas transgressoras. Graças à proximidade temporal, conhecem-se as sua biografias em detalhe, facto que, associado a percursos de vida mais ou menos atribulados, despertou o interesse do cinema, como aconteceu com Frida Kahlo (1907-1954), a artista mexicana que, apesar de casada com Diego Rivera, com tudo o que isso acarreta em termos de dificuldades para a sua afirmação, consegue individualizar uma obra de grande originalidade” (Nabais, 2008).

Sofonisba Anguissola

 

Lavínia Fontana

 

“Cantando a Plenos Pulmões”

 

“As décadas de 1940 e de 1950 e todo o período posterior à Segunda Guerra Mundial testemunharam a emergência de uma vanguarda americana na arte. O expressionismo abstracto começara a instalar-se.

Foi o auge daquilo a que chamamos «modernismo», a época em que ainda acreditávamos em valores absolutos e numa estética pura. Antes disso, durante a Depressão dos anos 30, os artistas americanos começaram a formular um papel social para as artes visuais. Vários artistas, tais como Lee Krasner, Louise Nevelson e Alice Neel, conseguiram o primeiro apoio financeiro para programas apoiados pelo patrocínio governamental.

De acordo com um autor, durante a década de 1939 havia «hostilidade pública contra trabalhadoras mas também havia patrocínio governamental para as artistas». Foi como se a convicção de que as mulheres não podiam ser criativas, que persistira desde Freud e mesmo antes, tivesse sido temporariamente suspensa.

A necessidade era a mãe da invenção.

Assim como a Segunda Guerra Mundial oferecera oportunidades e empregos para as mulheres no início da década de 1940, a época da Depressão oferecera às mulheres um acesso ao mundo da arte através de projectos com fundos governamentais.

Mas quando a Depressão terminou, a história mudou.

Lee Krasner

A carreira da artista Lee Krasner exemplifica alguns desses avanços e recuos da mulher como sujeito/artista até à mulher como objecto/esposa. Lee Krasner já era uma artista reconhecida quando se casou com Jackson Pollock em 1945, depois de conhecê-lo em 1941.

Assim como ela teve de sair do mundo dos projectos artísticos com pleno apoio do governo para o das galerias particulares e marchands, houve igualmente uma transição na maneira como era vista pelo mundo artístico. A imagem de «Mrs. Pollock/esposa obscureceu Lee Krasner/pintora no mundo artístico de Nova Yorque». O apoio anteriormente sem preconceitos do governo para as artes terminou nas décadas de 1940 e de 1950 e Krasner e as suas colegas foram confrontadas com a opinião amplamente divulgada de que as mulheres não sabiam pintar.

O discípulo de Freud, Havelock Ellis, dissera que «só os homens possuíam as asas para a arte». E o maior cumprimento que Hofmann, um conhecido professor de pintura, tinha para as suas alunas ecoava em Ellis: «Esta pintura é tão boa que ninguém diria que foi feita por uma mulher».

Depois de Krasner e Pollock abrirem uma exposição conjunta em 1949, intitulada «Marido e Mulher», as críticas e as experiências negativas foram tantas que Krasner não conseguiu expor durante dois anos e destruiu muitas das suas próprias pinturas.
Só podemos deduzir que ela ficou devastada e temporariamente renunciou à parte da imagem dividida que representava o seu lado artístico.

Elaine Kooning, outra importante artista casada com um famoso artista, Willem de Kooning, passou por um dilema semelhante. Eventualmente, tanto Krasner como Elaine de Kooning passaram a assinar as suas obras apenas com as iniciais para evitar o título de «femininas».
A reacção crítica a muitas das artistas importantes do período foi trivializar as suas contribuições, estabelecendo portanto uma maneira diferente de falar sobre a arte. O’Keeffe e outras artistas mais antigas só eram citadas em termos de categoria especial estabelecida pelo mundo artístico como arte «feminina«. Esta tentativa de marginalizar as mulheres ao estabelecer categorias críticas especiais para a sua arte tem paralelo nas críticas literária, musical e em todas as outras áreas de expressão artística feminina.

Assim, a forma de vida feminina nos anos 40 e 50, mesmo a de artista, a que era potencialmente sujeito da sua própria vida, ainda estava a ser inexoravelmente moldada pelo padrão da mulher devotada ao lar e à família. A tentativa de reconciliar a imagem dividida foi expressa intensamente pelas pinturas da femme-maison de Louise Bourgeois, exibidas pela primeira vez em 1947. São pinturas com casas colocadas no topo de corpos femininos em vez de cabeças. Os críticos da época disseram que as pinturas afirmavam uma identificação «natural» entre a mulher e o lar. Chadwick diz: «Nestes trabalhos inquietantes, a domesticidade, mostrada através de fachadas vazias e de janelas pequenas, define as mulheres mas nega-lhes a voz.»” (Bepko & Krestan, 1993: 71-73).

 

Conceito de mulher dividida: “a experiência feminina foi reforçada por uma sociedade que acreditava que «as mulheres não podem pintar, as mulheres não podem escrever». As mulheres foram feitas para amar. As emoções e os sentimentos prescritos pelos papéis de esposa e de mãe eram considerados um domínio feminino e a acção e a criatividade, um domínio masculino. Para uma mulher, amar significava ser o objecto amado, a amada, e tratar das necessidades dos outros. A história cultural faz-nos pensar que a divisão é algo real, que as energias do amor nutridor e do amor enquanto paixão criativa são distintas e separadas e que não podem ser contidas numa pessoa. Ou se põe a individualidade de lado e se ama, ou se desiste do amor e se cria. Abandonar o amor pela paixão criativa significa ser menos mulher e o que ela cria é de pouco valor” (Bepko & Krestan, 1993: 31).

Bibliografia 

BEPKO, Cláudia. KRESTAN, Jo-Ann. (1993). Cantando a Plenos Pulmões. Editora Rocco, Lda. Rio de Janeiro.

Webgrafia

NABAIS, Joaquim. (2008). A Invisibilidade da Mulher na História da Arte. Câmara Municipal de Penamacor. (consultado  no dia 17/09/2017 no site

http://www.cm-penamacor.pt/00_exposicoes/invisibilidade_da_mulher.pdf

 

Ser indefinido

Publicado por: Milu  :  Categoria: Ser indefinido, SOCIOLOGIA DA FAMÍLIA

 

“Cada um de nós faria mais coisas, se as julgasse menos impossíveis.”

 François La Rochefoucauld

 

Alguns dos que vierem a ler este post, pensarão que o que nele está inscrito já são águas passadas, que a sociedade evoluiu e que actualmente já nada é assim, etc, etc. E têm razão. Felizmente. Muitos casais já não se casam e alguns nem sequer querem que a sua relação seja reconhecida como correspondendo à figura da união de facto. Querem sentir-se com um pé dentro e outro pronto a  saltar fora, quando a coisa perder a graça.

Contudo, a mim, constatar que muitas mudanças foram operadas não me basta. Acima de tudo interessa-me perceber os mecanismos que regulam a sociedade e como foi possível ao longo dos séculos oprimir tanto as mulheres, estas que, mais coisa menos coisa, representam metade da humanidade. É o meu gosto pela sociologia que aqui se manifesta. Abençoado o momento em que eu percebi o que é, e para o que serve, esta ciência da Sociologia!… Tantas respostas para as minhas perguntas eu logrei descortinar através da Sociologia…e tanto mais esta conquista se me tornou importante, quanto mais certo é que, o que mais poderemos fazer é perguntas…

Recordo-me que, já na minha adolescência, eu reparava que a vida das mulheres casadas não era coisa que se desejasse. Apercebi-me, pelo que via, que a vida da mulher tinha vários estados. Ou seja, aprendi a julgar, a formar opinião, através daquilo que observava. E o que observava na vida das mulheres da minha condição, que não eram ricas, que tinham de trabalhar para ajudar no sustento da casa, não era propriamente um cenário risonho, algo que eu desejasse para mim. De maneira que, quando comecei a ver as raparigas da minha idade, que me eram próximas, a desejar o casamento e a concretizá-lo, no lugar de querer  seguir-lhes o exemplo, de escolher o mesmo destino, pelo contrário, eu repudiava tal coisa! Para mim, pelo que observava da realidade que me era dada ver, o casamento era um altar do máximo sacrifício! Vade retro Satanás!

Como se pode desejar, afinal, uma vida em que a pessoa deixa praticamente de ter tempo para ela? E, mais importante ainda, deixa de ser ela, e passa a ser uma entidade, uma figura, cujo comportamento está previamente e minuciosamente definido, talhado, decidido?  Mas era assim naquele tempo com a vasta maioria das mulheres… Hoje, que sou uma mulher esclarecida, instruída, informada, sinto um desmedido orgulho por já naquela altura, tão novinha, ter tido a coragem de ser diferente, de renegar o que à partida seria o meu destino… Diferença que, afinal, me adveio das minhas muitas leituras que empreendi desde tenra idade. Quem lê torna o seu mundo mais vasto, mais diversificado, é por isso mesmo capaz de ver para além da realidade circundante. É imperioso que retiremos as palas dos olhos, que nos agrilhoam, que tolhem a nossa liberdade e criatividade.

Seja o que você quiser, viva de acordo com as suas aspirações, de acordo com as suas tendências e gostos, sinta-se bem. Tenha a coragem de lutar por si. De mudar radicalmente, se for esse o caso. Não se preocupe com o que os outros disserem quando estranharem a sua nova postura: lembre-se que “os cães ladram e a caravana passa”. Case, se for esse o seu desejo, mas nunca se deixe sobrecarregar, não enverede por uma vida de escravatura encapotada. Esforce-se por conquistar e manter a sua independência económica, pois só assim terá margem de manobra para poder jogar o jogo da vida. Independência em qualquer circunstância , será sempre a  tónica defendida neste blog.

Atentemos ao que nos diz  Nathalie Heinich, socióloga, diretora de pesquisa no CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique); membro do CRAL (Centre de recherches sur les arts et le langage da École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris) e membro associada do LAHIC (Laboratoire d’anthropologie et d’histoire sur l’institution de la culture: CNRS, Ministère de la Culture, EHESS), na sua obra “Estados da Mulher”, e vejamos o quanto a sociedade oprime os indivíduos, particularmente as mulheres:

 

“ESTADOS DA MULHER”

“Porque razão a sociedade toma por lei sagrada o sacrifício da Mulher à Família?», interrogava-se Renée. Longe de ser acidental ou de se ver a funestas contingências, este sacrifício parece constitutivo do casamento na sua própria essência:

é a Mulher contra a Família, ou Germaine de Staël contra Bonald – esse desprezador do materialismo, do ateísmo e da democracia -, que os pais bem intencionados faziam ler às suas filhas à saída do convento:

«Enquanto tu lias Corina, eu lia Bonald, e eis todo o segredo da minha filosofia: tive uma aparição da Família santa e forte.»

De um lado, portanto, a mulher como pessoa a todos os títulos, dotada de uma personalidade autónoma e de aspirações específicas;

do outro, a mulher como esposa, elo indispensável de uma comunidade familiar, mas substituível nas suas funções, tendo por nome apenas o do seu marido, apenas os interesses da sua linhagem, existindo apenas pelo lugar que lhe está atribuído numa configuração que a precede e que lhe sobreviverá – aquela, temporal, de uma genealogia, e aquela, espacial, de uma casa.

Eis aqui toda a ambiguidade do estatuto da primeira enquanto membro e representante dessa família «santa e forte»: soberana no seu lugar, inteiramente submetida à ordem matrimonial que lho outorga. «Casada, deixa de ser dona de si própria, é rainha e escrava do lar», escrevia Balzac em “A Mulher de Trinta Anos” (1832)” (Heinich, 1998:121).

“A esposa, nos meios privilegiados onde, segundo Veblen, o lazer é uma medida de fortuna, tem por função ser um porta-bandeira do marido e da família no seu conjunto. Sinal exterior de riqueza, consumidora ostentatória de dinheiro, de tempo e de lazer, ela tem tanto o encargo como o privilégio de ser uma montra de jóias, peles, fortuna, relações, lazer e mesmo cultura, quando reina nesses salões mundanos (…)” (Heinich, 1998:121).

“Que seja vivida como uma redução a interesses exteriores à pessoa, ou como engrandecimento por associação a uma comunidade mais poderosa que o indivíduo isolado, a entrada numa família pela instituição do casamento é portadora de uma ambivalência fundamental. Uma vez que, por um lado, a esposa tem vantagem em não ficar sozinha: tal como o seu nascimento, o seu casamento inscreve-a numa linhagem, numa família, associando o seu destino a interesses colectivos.

Mas terá de o pagar com a dependência em relação ao seu marido e, por vezes, aos seus parentes bem como, mais tarde, aos seus filhos, entraves à autonomia. Esta dependência pode ser esperada e mesmo desejada (…), mas pode também ser vivida como um fardo, recusada e rejeitada como uma alienação, como atentado identitário que reduz a pessoa a um indivíduo substituível, definido como membro de um colectivo familiar em relação ao qual ela se sente intimamente estranha, mesmo que não se sinta por ele excluída” (Heinich, 1998:122).

“Esta ambivalência está tão profundamente inscrita que se encontra no próprio coração da língua, na conotação contraditória associada a «laço» ou «nó», que tanto amarra como liga, ou no «apego», que tanto entrava como permite a afeição; ou o adjectivo «isolada» que tanto remete para solitária como para protegida“(Heinich, 1998:122).

(…).

“A esse sinal exterior de riqueza que pode representar o casamento, opõe-se a interioridade da vida pessoal, na qual a mulher deixa de ser definida pela pertença a uma «outra» comunidade – que portanto a «aliena» no significado primeiro do termo -, mas é definida por certas propriedades que lhe são específicas, fazendo dela um ser autónomo, insubstituível: uma pessoa a todos os títulos. O casamento levanta, por definição, obstáculos a este estatuto: «Antes eu era uma pessoa, e agora sou uma coisa!» queixa-se Renée após as suas núpcias.

Louise, pelo contrário, vangloria-se da assunção do seu «eu», ou seja da sua identidade pessoal, que procurou manter inteira num casamento [que contrariamente aos costumes e ditames da sociedade da época] não foi de conveniência, sujeito ao interesse familiar, mas de amor, quer dizer de escolha individual:

«Este triunfo inebria o orgulho, a vaidade, o amor próprio, enfim, todos os sentimentos do eu.» (Heinich, 1998:123).

 

Bibliografia

HEINICH, Nathalie. (1998). Estados da Mulher. A identidade feminina na ficção ocidental. Editorial Estampa. Lisboa. pp. 121-123.