“Consolo para os Desajustamentos”

Publicado por: Milu  :  Categoria: Consolo para os Desa..., PARA PENSAR


sabedoria

Imagem retirada daqui

 

“O mais humilde dos animais domésticos consegue exceder o desprendimento filosófico dos maiores sábios da antiguidade. Certa vez, o filósofo grego Pirro viajou num navio que foi surpreendido por uma tempestade terrível. À sua volta, os passageiros entraram em pânico, temendo que as demolidoras vagas destruíssem a sua frágil embarcação. Um passageiro houve, porém, que não perdeu a sua compostura e ficou calmamente sentado a um canto exibindo uma expressão tranquila. Era um porco.”

Alain De Botton

“Será que devemos concluir que o benefício da razão (que tanto prezamos e devido ao qual nos consideramos donos e senhores de toda a criação) nos foi concedido para nosso tormento? De que serve a sabedoria se, em nome dela, perdemos a calma e o repouso que poderíamos fruir sem ela e se ela nos coloca numa situação pior do que a do porco de Pirro?”

Montaigne

“Concederam-nos inconstância, hesitação, dúvida, dor, superstição, preocupações relativamente ao futuro (mesmo depois de morrermos), ambição, ganância, inveja, ciúme, apetites excessivos, insensatos e incontroláveis, guerras, mentiras, deslealdade, calúnia e curiosidade. Orgulhamo-nos da nossa razão justa, discursiva, da nossa capacidade de julgar e conhecer, mas comprámos isso tudo a um preço estranhamente elevado.”

Montaigne

“Montaigne anunciara um novo tipo de filosofia que reconhecia como estamos a milhas das criaturas racionais e serenas pelas quais a maioria dos antigos pensadores nos tinham tomado. Mostramos quase sempre ser almas histéricas e dementes, grosseiras e agitadas, à vista das quais qualquer animal é, em muitos aspetos, paradigma de saúde e virtude – uma infeliz realidade sobre a qual a filosofia era suposta refletir, embora raramente o fizesse.

E, no entanto, se aceitarmos as nossas fragilidades e deixarmos de nos atribuir uma superioridade que não possuímos, descobriremos – de acordo com a filosofia generosa e redentora de Montaigne – que, apesar de tudo, somos criaturas bem ajustadas, à nossa maneira meia sábia, meia idiota.”

Alain De Botton in ” O Consolo da Filosofia”