Telhados de vidro

Publicado por: Milu  :  Categoria: ISLÃO, Telhados de vidro

“A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos.”

Marcel Proust

Depois do ataque de 11 de Setembro de 2001 aos Estados Unidos, muito se ouviu falar de Osama bin Laden. Mas, quantos de nós sabem quem foi verdadeiramente, e quantos de nós conhecem os contextos que deram à luz o místico guerreiro? No post de hoje, disponibilizo um excerto da obra que por ora tenho em mãos, no qual é possível perceber porque se disse que os Estados Unidos, ao serem atacados daquela forma, estavam afinal, a beber do seu próprio veneno. Seja como for, de uma coisa podemos ter a certeza, que os principais países intervenientes nestas lutas têm todos os seus telhados de vidro, todos jogaram a coberto dos bastidores, todos têm a sua quota parte da responsabilidade na instabilidade da paz mundial.

À semelhança dos companheiros e soldados do Profeta, bin Laden queria unir o Corão e a Espada – ou o Corão e a Kalashnikov – numa grande cruzada islâmica para libertar o Médio Oriente dos «nazarenos e dos judeus». Osama é uma personagem estranha, radical, enigmática, uma espécie extrema e oriental de herói romântico, à Balzac ou à Stendhal. Como é que o 17º filho de um self-made man iemenita se pôde tornar chefe da Internacional Islâmica e inimigo número um do Ocidente?

O patriarca da família, Mohamed bin Laden, fora-se sucessivamente divorciando das suas mais de vinte esposas , de modo a nunca ultrapassar a quota de quatro, permitida pela lei corânica. Fabulosamente rico, mesmo para os níveis sauditas, Mohamed fizera fortuna na construção e obras públicas em Meca, onde os monumentos históricos iam dando lugar aos grandes edifícios. O jovem Osama teve a infância e a adolescência de um filho de família rica e andou na Al Thager Model School, não longe do Mar Vermelho, um dos melhores colégios de Jeddah, frequentado por príncipes e outros membros da família real, mas também por plebeus abastados, como os bin Laden.

A Al Thager («O Paraíso», em árabe) fora fundada com o apoio da Casa Real, do então príncipe e depois futuro rei Faiçal, homem de espírito modernizante. Ensinava-se Inglês, Matemática, Ciências e Estudos Religiosos. Entre os professores havia alguns adeptos da Irmandade Muçulmana, expatriados religiosos que tinham sido perseguidos pelos ditadores progressistas do Egipto e da Síria, e a quem os sauditas acolhiam por simpatia ideológica. Para os governantes sauditas, que viam no pan-arabismo secular o inimigo principal das monarquias religiosas do Golfo, justificava-se esta protecção. Foi um destes professores exilados, um sírio, que iniciou Osama e outros companheiros nos estudos islâmicos, constituindo um grupo de oração e reflexão pós-escolar.

Osama era então um jovem alto e bem constituído, praticante de judo. Os membros do grupo começaram a adoptar os modos e estilos tradicionais, imitando o profeta Maomé: deixaram crescer a barba, usavam túnicas largas e calças pelo tornozelo. Seguiam o rigorismo dos Irmãos Muçulmanos, aliado ao purismo wahabita. Além do cumprimento estrito dos preceitos, preocupava-os a restauração e a imposição da Lei Corânica em todo o mundo islâmico através do activismo político-religioso.

Na Universidade Rei Abdul-Aziz, de jeddah, Osama foi um estudante aplicado e escrupuloso na prática islâmica, suplantando os companheiroa influenciados pela Irmandade: jejuava às segundas e quintas (excedendo o exigido) e não se interessava por mulheres, ainda que tivesse casado aos 17 anos com uma sobrinha mais nova. A mãe, Hamida Ibraim, era a 11ª esposa de Mohamed e o jovem bin Laden, ainda que partidário da poligamia, criticava os sucessivos casamentos e divórcios do pai. Osama viria a casar-se cinco vezes e a ter 20 filhos, mas sem que repudiasse nenhuma das esposas.

A invasão do Afeganistão pelos soviéticos – esses outros inimigos de Deus – foi o ponto de viragem para o jovem bin Laden, o nó que iria mudar toda a sua existência e o mundo. No princípio reinara grande harmonia e equilíbrio entre os vários parceiros da cruzada anti-soviética no Afeganistão. O Congresso Americano, empurrado por Charles Wilson, tomou a iniciativa de multiplicar o financiamento da operação e os sauditas e outros potentados do Golfo pagaram o resto – que era muito, talvez o dobro do que davam os americanos.

Por sua vez, os paquistaneses da ISI (Inter-Services-Intelligence) recebiam e redistribuíam, a seu critério, estes fundos pelos vários movimentos de resistência, que nem sempre se estimavam profundamente, já que tinham diversas origens tribais e diferentes inspiradores e financiadores – dos britânicos aos iranianos. Mesmo assim era uma «boa guerra». Bill Casey negociava com os sauditas a maquiavélica manobra da descida do preço do crude para arruinar os soviéticos, e os operacionais da CIA trabalhavam intimamente com os seus homólogos paquistaneses, profissionais sofisticados, para sabotar o moral das tropas de Moscovo naquela insubmissa província do Império. Entretanto, os mujahedin internacionais batiam-se com coragem suicida no terreno, ao lado dos chefes tribais descendentes dos guerreiros que tinham derrotado os ingleses do Raj.

Tudo parecia ir pelo melhor nos meados dos anos 80. Depois das moralmente duvidosas guerras do Vietname, das promíscuas relações com os ditadores anticomunistas da Ásia e das Américas, a grande democracia americana ajudava um povo de pastores e camponeses livres, escravizados pelos comunistas do Kremlin e pelas elites colaboracionistas do governo fantoche de Cabul. A luta era saudada como justa, nobre e até racional, já que finalmente se vislumbrava uma possibilidade de vitória.

Ossama bin Laden estreou-se nessa boa guerra: primeiro como mecenas de boa vontade, financiando os combatentes do seu bolso, fazendo o vaivém Arábia-Afeganistão, recrutando os islamitas militantes que vinham para o bom combate anti-soviético; depois como comandante, entrando com o seu próprio grupo em operações contra os invasores.

Teria nascido aqui a Al-Qaeda, «A Base», ou, como alguns querem, «a Fundação», fórmula hipoteticamente inspirada no clássico de Isaac Asimov, que bin Laden terá lido.

Esta «boa guerra» do Afeganistão foi o tempo de vésperas de Osama e do núcleo duro dos seus fiéis. Aparentemente era uma guerra clara e simples: os comunistas afegãos tinham tomado o poder através de complots e chacinas sucessivas, tentando «comunizar», ou «modernizar à maneira comunista» o Afeganistão. Para tal, tinham combatido o Irão, violentado os costumes da sociedade tradicional, suprimido impiedosamente os resistentes, assassinando o povo. O recurso às armas fora uma necessidade.

Perante a queda iminente dos seus agentes locais, os comunistas de Moscovo tinham invadido o Afeganistão para os salvar e impor o seu domínio. Aí, com um maciço apoio directo ou indirecto dos países da região e do mundo islâmico, a administração Reagan estabelecera uma aliança com os senhores da guerra locais, indignados com o domínio dos ímpios estrangeiros. Com armas modernas, como os mísseis Stinger e o canhão Oerlikon, os montanheses destemidos seriam invencíveis, passando a derrubar e a destruir com perícia helicanhões M18 e tanques T-72.

Na frente era a harmonia. Nos bastidores, talvez não. Os auxílios aos guerrilheiros – que estavam dispersos por vários movimentos e partidos – vinham de forças externas que iam dos sunitas da Casa de Saud aos xiitas do Irão, do lobby do Congresso norte-americano aos complexos meandros da ISI paquistanesa, movendo agendas e interesses muito diferentes.

Como lidou bin Laden com este complexo de forças e entidades, todas elas dirigidas pelas razões dos respectivos Estados? Como reagiu ele, que se imaginava como um combatente de Deus em estado puro, apelando directamente ao rei saudita para que se libertasse dos aliados americanos? Como actuou o guerrelheiro da fé que, na universidade, bebera os ensinamentos dos Irmãos Muçulmanos directamente de Mohamed Qutb, irmão do dirigente e mártir Sayyid Qutb, e de Abdullah Azzam, um intelectual palestiniano que combatera contra os israelitas?

Osama lera as principais obras do mártir Qutb e nelas colhera a sua concepção do mundo e uma geopolítica do conflito determinada por uma cosmovisão religiosa. Para Sayyid Qutb, o partido de Deus, o dos verdadeiros crentes, enfrentava neste mundo o partido de Satã, que se confundia com o Ocidente materialista, que humilhava e corrompia os muçulmanos através da exportação das suas ideologias, costumes e mercadorias. Mas o Ocidente só podia fazê-lo com o auxílio de muçulmanos corrompidos, os das elites reformadoras, das monarquias decadentes e das ditaduras modernizantes. Também para Qutb era determinante a distinção entre o Islão, Casa de Deus, Casa da Paz, e o não-Islão, Casa da Guerra, o mundo judaico-cristão.

Embora não entrando em hostilidade directa com o Ocidente, o ensino dos wahabitas , com o seu rigorismo ortodoxo e o seu policiamento das consciências e dos costumes, contribui para esta atitude agressiva.

Com Sayyid Qubt, Osama acreditava que os cristãos e os judeus queriam conter e submeter a renascença islâmica e eram um alvo a abater. Mas a síntese entre a teoria e a doutrina política, Osama encontrá-la-ia noutro dos seus professores, Abdullah Azzam. Depois do Egipto e da Jordânia, Azzam fixou-se em Jeddah; mais tarde foi para Islamabad, no Paquistão, sempre leccionando, e em 1984, estava em Peshawar, onde Osama o voltava a encontrar.

Azzam elaborara uma teoria e uma estratégia para para a nova Jihad: a luta contra os soviéticos era a maior das lutas dos crentes, do partido de Deus. Os fundos sauditas, do Reino e de particulares, como o próprio bin Laden, sustentavam em parte essa luta, mas deveriam também financiar todo um esforço cultural e social de doutrinação junto dos exilados e refugiados. Azzam era o editor de uma revista dos afegãos no exílio, também chamada Al-Jihad.

A luta contra os soviéticos é um dever prioritário dos bons muçulmanos, mas há outros inimigos e outras batalhas; na Palestina, na Somália, nas Filipinas, na Ásia Central Soviética. Lá onde houvesse crentes oprimidos que sofressem o domínio dos infiéis, aí deveriam estar os seus irmãos, os outros membros da Umma, a fim de lhes prestarem auxílio.

A Peshawar, onde se encontram Azzam e Osama, afluem milhares de voluntários islâmicos, de «combatentes da causa de Deus». Registaram-se na central de voluntários , vindos dos mais recônditos pontos da terra. São eles que vão ser treinados no uso dos Stinger para abaterem os M18 e os SUKOI soviéticos, para lhes emboscarem os comboios militares e lhes aterrorizarem os jovens recrutas, com os seus costumes de guerrilheiros primitivos. São eles os aliados objectivos do «Grande Satã», americano na luta com o «Grande Satã» soviético.

Quando os soviéticos retiram pelo Khyber Pass, na sua primeira derrota desde a ofensiva alemã do Verão de 1941, bin Laden, segundo os ensinamentos de Azzam, quer continuar a guerra noutras frentes. E como Azzam estava demasiado ligado aos interesses e à Realpolitik dos seus financiadores sauditas para seguir esse caminho, é o multimilionário fanático, o místico guerreiro das grandes batalhas metafísicas entre o Islão e a Casa da Guerra, quem vai travar essa luta. E agora tem experiência, conhece a logística e a frente da guerra e já pensou a estratégia, já planeou as operações, já matou ou mandou matar, já viu morrer.

É um chefe prestigiado, tem companheiros prontos a segui-lo, criou uma reputação. Do mesmo modo que combateu os soviéticos ateus, combaterá os nazarenos americanos, amigos dos judeus e cúmplices dos árabes que desprezam a leis de Deus” (PINTO, 2015: 131-137).

Bibliografia

PINTO, N. Jaime. (2015). O Islão e o Ocidente. A Grande Discórdia. D. Quixote. Alfragide.

“Guerra Fria no Médio Oriente”

Publicado por: Milu  :  Categoria: "Guerra Fria...", ISLÃO

É impossível que ocorram grandes transformações positivas no destino da humanidade se não houver uma mudança de peso na estrutura básica de seu modo de pensar.”

Stuart Mill

Ficou conhecido por «Guerra Fria» o conflito político-ideológico entre os Estados Unidos, defensores do capitalismo, e a União Soviética, defensora de uma forma de socialismo. Estas duas super-potências mantinham uma relação de competição entre si por zonas de influências e aliados regionais, nomeadamente em relação ao Médio Oriente*. Detentor das maiores reservas de petróleo e de uma importante posição geopolítica, tendo em conta que serve de passagem entre a Europa e a Ásia, o Médio Oriente foi, neste contexto, um teatro de luta ideológica. Para manter e expandir as suas influências, as super-potências valeram-se de métodos menos ortodoxos, que consistiram em apoiar os seus países amigos através da ajuda militar e económica, apoio aos movimentos que tentavam derrubar governos de países não aliados, acesso a serviços de espionagem e a treinos especiais. Na luta contra a invasão soviética do Afeganistão, os EUA facultaram armamento e treinos aos combatentes muçulmanos que lutaram no Afeganistão, treinos esses que envolveram sólidos conhecimentos de organização de inteligência militar, que se traduz na capacidade de montar um comando avançado de operações. Porém, o feitiço iria voltar-se contra o feiticeiro. Ironicamente, anos mais tarde, imbuídos de ideologia radical esses combatentes promoveram ataques coordenados aos próprios EUA.

“Desde 1985 que havia um novo líder na União Soviética. Mikhail Gorbachev, secretário-geral do Partido, tinha pela frente os conflitos da sua periferia imperial – como a África Austral e a Nicarágua – e a crescente contestação ao comunismo na Europa Oriental. Só que o enraizamento da luta anti-soviética no Afeganistão punha outros problemas(PINTO, 2015:114).

“Além das dificuldades no terreno e do auxílio da CIA e dos sauditas, nascera, à volta da Guerra do Afeganistão, uma poderosa Internacional Islâmica – e nada de mais oposto ao islamismo que o ateísmo materialistas dos marxistas. Os norte-americanos tinham-no percebido bem e desde Eisenhower, nos longínquos anos 50, que apoiavam os sauditas. Os sunistas sempre se tinham visto como guardiães da Fé perante os seus rivais xiitas. Por tudo isto, na confrontação com o Irão xiita, a aliança de Washington com Riad fazia todo o sentido. Nas guerras clandestinas do Terceiro Mundo, esta aliança com os sauditas objectivava–se também na aliança clandestina prestada a movimentos anticomunistas, como os Contras na Nicarágua” (PINTO, 2015:114).

“Havia ainda as operações conjuntas entendidas entre Casey e o príncipe Bandar bin-Sultan, como o atentado falhado contra o xeique Fadlallah, dirigente od Hezbollah ( o «partido de Deus» xiita); segundo Bob Woodward, tinham sido os sauditas a financiar a operação, subcontratada por um «independente» britânico. No entanto, apesar da grande devastação e estragos humanos causados na residência do alvo (mais de 80 mortos), Fadlallah ficaria ileso” (PINTO, 2015:114).

“A cooperação estratégica com os sauditas – que financiavam generosamente os programas de apoio à guerrilha afegã – foi também muito importante na criação dos mujahedin internacionalistas que combateram os soviéticos no Afeganistão. A jihad contra os comunistas ateus era muito popular no mundo islâmico e acabou por levar até aos campos de treino do Paquistão milhares de árabes e muçulmanos dos sete cantos da terra” (PINTO, 2015:114-115).

“Um desses voluntários chamava-se Osama bin Mohamed bin Laden. Nascera em 1957, na Arábia Saudita, filho de um modesto empreiteiro que conseguira contratos para obras de restauração nos Lugares Santos de Meca e Medina e conquistara a confiança da família real saudita. Quando morreu, em 1968, o pai bin Laden deixou 11 mil milhões de dólares aos seus 54 filhos, nascidos de mais de 20 mães. Osama frequentou a Management and Economics School da Universidade Rei Abdul-Aziz de Jeddah, mas assistiu também aos cursos de Estudos Islâmicos de Mohamed Qutb e de Abdullah Azzam, um Irmão Muçulmano da Palestina” (PINTO, 2015:115).

“Ambos influenciaram profundamente o jovem bin Laden, muito religioso, casado e com dois filhos. Aos 23 anos, em 1980, Osama dedicou-se a ajudar a resistência afegã contra os soviéticos. Para tal, criou em Peshawar, no Paquistão, uma guest-house chamada Sigill Al-Qaeda (Registo da Base) ou só Al-Qaeda, «A Base». Graças à sua experiência empresarial e aos seus recursos financeiros, foi muito importante na logística dos movimentos resistentes, mas também participou em combates” (PINTO, 2015:115).

Apesar de não ter tido um papel central na guerra contra os soviéticos, Osama ganhou muita experiência e, sobretudo, sentido de estratégia. Nas bases recuadas, os guerrilheiros colaboravam nos combates contra os soviéticos, mas quase que em segunda linha, ao lado dos senhores da guerra afegãos. O facto é que os mais de 100 000 soldados soviéticos não foram capazes de controlar, ou sequer reduzir, a rebelião. O que além de atingir a reputação de invencibilidade da URSS e o seu prestígio, podia aproximar perigosamente a «guerra santa» e a revolta islamista das populações islâmicas da Ásia Central Soviética. Por isso, os generais soviéticos e o novo Secretário-Geral do Partido, Gorbachev, consideraram a retirada do Afeganistão” (PINTO, 2015:115-116).

“De resto, na Europa Oriental, multiplicavam-se os actos de contestação aos regimes comunistas. As reformas de Gorbachev tinham acabado com a solidariedade política da URSS para com os comunistas europeus do Pacto de Varsóvia, que as tropas de Moscovo já não defendiam dos inimigos. Contra o estabelecido pela doutrina Brejnev, por Ialta e pela prática do Pacto de Varsóvia, estes países podiam agora escolher a sua própria via para o socialismo. E podendo escolher uma, rejeitaram-nas a todas” (PINTO, 2015:116).

“Assim, depois de 15 000 mortos e mais de 50 000 ferido, com 100 aviões e 300 helicópteros derrubados, a URSS decidiu dar por finda a sua intervenção no Afeganistão. No dia 15 de Fevereiro, os soviéticos retiravam–se. Era o seu Vietname, a sua guerra perdida, a sua primeira derrota desde a Segunda Guerra Mundial” (PINTO, 2015:116).

Nesses anos 80 o Médio Oriente e o mundo islâmico foram atravessados por conflitos internos prolongados, mas também conheceram conflitos transfronteiriços, como as guerras israelitas-árabes, com confrontos geralmente próximos, intensos e rápidos, graças ao tipo de armamento utilizado – aviões, carros de combate, forças móveis. Entre 1980 e 1988, deu-se uma longa guerra de atrição entre o Iraque e o Irão, que além de ser uma das mais sangrentas dos tempos modernos veio expor amizades e inimizades que a Realpolitik traçava a traço firme e duro, iludindo afinidades ideológicas ou ideais compartilhados” (PINTO, 2015:116).

O ataque de Saddam Hussein surpreendeu os iranianos, a braços com as sequelas da crise dos reféns, com a hostilidade do Ocidente e da URSS e com as Forças Armadas em confusão pós-revolucionária. Mesmo assim, os ayatollahs conseguiram reorganizar–se, recuperar grande parte dos quadros médios do exército do Xá e, em dois anos, expulsaram os invasores e passaram à ofensiva. Foi então que os Estados Unidos, a França e a União Soviética vieram apoiar Bagdad, considerando o Irão xiita e religioso o inimigo principal” (PINTO, 2015:116-117).

Foram afundados alguns petroleiros na região e a guerra causou perturbação no mercado petrolífero, já que os principais inimigos eram dois grandes produtores que procuravam atingir os recursos um do outro. Era também uma guerra entre dois regimes opostos: um, talvez o mais laico da região, e o outro, o mais religioso. Guerra que acabaria por exaustão de parte a parte depois da morte do ayatollah Khomeini” (PINTO, 2015:117).

*Médio Oriente – Região do planeta localizada predominantemente no continente asiático e um país da África. Os países que fazem parte do Oriente Médio são: Arábia Saudita, Bahrein, Chipre, Egipto, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Irão, Iraque, Israel, Jordânia, Kuwait, Estado da Palestina, Líbano, Omã, Qatar, Síria e Turquia.

Bibliografia

PINTO. Nogueira, Jaime. (2015). O Islão e o Ocidente. A Grande Discórdia. D. Quixote. Alfragide.

“O regresso às raízes”

Publicado por: Milu  :  Categoria: "O regresso às raízes", ISLÃO

“Apesar de tudo eu ainda acredito na bondade humana”

Anne Frank

Este post, intitulado “O regresso às raízes”, também título de um capítulo do livro de onde foram retirados os excertos abaixo transcritos, consiste numa pálida descrição das tensões geradas no que diz respeito à questão do mundo muçulmano e das suas problemáticas relações com Ocidente. Nos anos 70, o nacionalismo e socialismo árabe viram-se desacreditados pela derrota frente a Israel na guerra de 1967, além do fracasso económico e da corrupção dos governos. Foi este sentimento de humilhação e de desonra que abriu as portas para uma ideologia revolucionária que se espalharia pelo mundo islâmico. Os líderes deste novo movimento argumentavam que o Islão tomara o caminho errado, quando adoptara leis e costumes dos infiéis. Portanto, era preciso implantar regimes que seguissem uma interpretação extrema da lei islâmica.

“A característica mais importante desta nova era foi o afastamento progressivo em termos de hegemonia e de identificação ideológica, dos movimentos, partidos e líderes nacionalistas, seculares e revolucionários, vindos do exército e da burocracia estatal. Os movimentos que agora ascendiam inspiravam-se na identidade religiosa e tendiam para a radicalização, para o fundamentalismo, entendido como rigorismo meta-histórico e literalmente coerente na interpretação dos textos sagrados – do Corão e dos Hadith. Estes movimentos, se bem que não sincronizados nem necessariamente paralelos, formaram uma vaga de fundo que ia ser a matriz, não só de alguns Estados ou poderes nos Estados, mas também de formações activistas clandestinas que passaram a ocupar a linha da frente no combate contra cristãos, judeus e pagãos e, sobretudo, contra aqueles que, no mundo muçulmano, consideram cúmplices dos «ímpios». (…). Eugene Rogan dava conta desta mudança:

Considerando a proeminência actual do Islão na vida pública por todo o mundo árabe, é fácil esquecer quão secularizado estava o Médio Oriente em 1981. Por toda a parte, com exclusão dos Estados mais conservadores do Golfo, as modas ocidentais eram preferidas às vestimentas tradicionais. Muitas pessoas bebiam álcool abertamente, sem se importarem com a proibição islâmica. Homens e mulheres conviviam à vontade em lugares públicos e nos locais de trabalho, na medida em que cada vez mais mulheres acediam à educação superior e à vida profissional

As ideias e valores ditos «fundamentalistas» ou «integristas» tiveram, neste tempo do Islão, duas origens: uma foi a tradição wahabita, profundamente aliada e ligada , desde o século XVIII, à Casa de Saud. Os wahabitas* defendem como dogma o poder infinito de Deus, a predestinação, a obediência cega aos chefes da comunidade e ao poder legal (mesmo que este seja imoral ou ímpio) e rejeitam toda e qualquer interferência da razão humana na interpretação e consideração da fé. Convém notar que este purismo representa, para alguns estudiosos, uma ruptura com o Islão clássico e com as suas escolas teológico-jurídicas, que sempre tinham integrado as heranças culturais persas, greco-romanas e bizantinas. Era também uma ruptura com os costumes urbanos e com as hierarquias sociais complexas das grandes civilizações mesopotâmicas” (PINTO, 2015: 104-106).

O wahabismo nasceu no isolamento, no meio do deserto da Arábia, fruto da reflexão crispada e literal dos textos sagrados da Sunna e dos Hadith, cuja letra não era discutida, nem interpretada, nem alterada, mas pura e simplesmente cumprida. A outra fonte do islamismo integrista, essa renovada modernamente, eram os Irmãos Muçulmanos, um movimento fundado por Hassan al-Banna em 1928 e continuado pelo seu discípulo Sayyid Qutb” (PINTO, 2015:106).

“Qutb passara pelos Estados Unidos, cujo materialismo e sede de concorrência considerava odiosos, e enfrentara, com os seus companheiros, os governos laicos e autoritários do nasserismo; com eles fora perseguido, encarcerado e torturado e vira muitos dos seus irmãos condenados à morte. O próprio Qutb acabaria por ser também enforcado em 1966, seguindo o destino dos seu mestre Hassan al-Banna, assassinado em 1949. (…). Os Irmãos suscitaram a desconfiança e a repressão dos regimes laicos progressistas e militares do tipo nasserista e também dos nacionalistas do Baath sírio e iraquiano. O antagonismo entre estas orientações – as religiosas contra as seculares – marcam uma das grandes fracturas ideológicas do mundo árabe e da História do moderno Médio Oriente. Além do Egipto, outro crucial exemplo vinha da Síria” (PINTO, 2015:106-107).

“A Síria pós-Segunda Guerra Mundial era um Estado independente, cuja população, em termos de orientação religiosa, era constituída por 90% de muçulmanos e 10% de cristãos. Dos muçulmanos, cerca de 57% eram sunitas e 10% pertenciam a um ramo xiita, os alouitas. Esta minoria alouita dominava o Partido Baath e as Forças Armadas. A partir de 1970 e depois da sangrenta luta nas cúpulas político-militares, o poder estava nas mãos de Hafez al-Assad, o chefe de Estado-Maior da Força Aérea, que ganhara a liderança do país com um golpe militar, a 16 de Novembro de 1970” (PINTO, 2015:107).

(…)

“Foram dois dias de horror, os que se seguiram à explosão da bomba que matara Bashir. Cerca de 1000 a 2000 pessoas foram executadas, com requintes de ferocidade” (PINTO, 2015:110).

(…). Em 1982, 1983 e nos anos seguintes, vão multiplicar-se estes atentados suicidas, marcando um novo estilo que irá também caracterizar um novo modelo de terror internacional. Os seus perpetradores no Líbano pertenciam à comunidade xiita e eram apoiados ou mandatados pelo Irão e pela Síria. Entre eles, Imad Mughniyeh, um jovem religioso próximo dos iranianos e ligado aos atentados de 1983 contra a Força Internacional Franco-Americana em Beirute. O Hezbollah, «Partido de Deus», de que Mughniyeh era um dos fundadores, teve origem entre os estudantes de teologia de Balbeck, no Líbano. Surgiu a seguir à invasão israelita, inspirou-se no Irão de Khomeini e o seu secretário-geral foi Hassan Nasrallah” (PINTO, 2015:110-111).

“Mas nesses anos 80, também as mudanças de direcção nas super-potênciasEstados Unidos e União Soviética – iam influenciar profundamente a situação no mundo islâmico e no Médio Oriente. A revolução iraniana, logo de início, diaboliza os Estados Unidos, acusados pelos novos governantes de Teerão de serem, entre muitas outras coisas, os grandes protectores e aliados do Xá. A América era o «novo Satã» e, em represália, a sua embaixada em Teerão era ocupada e os diplomatas tomados como reféns. Ao mesmo tempo, os grupos religiosos xiitas começam a envolver-se , encorajados e apoiados pelo Irão, em ataques a pessoas e interesses norte-americanos e ocidentais, especialmente em sequestros, a fim de afastarem do Médio Oriente os estrangeiros indesejáveis” (PINTO, 2015:111).

“Para a opinião americana, a crise dos reféns e a caótica operação de resgate Desert One eram uma prova de debilidade da liderança de Jimmy Carter e dos democratas. Também por isso, em Novembro de 1980, a escolha dos eleitores recaía num presidente republicano e nacional-conservador, Ronald Reagan. Reagan vai lançar-se numa política de reafirmação do poder dos Estados Unidos. À frente da CIA, com a experiência do OSS, onde se ocupara da guerra económica contra a Alemanha hitleriana e da coordenação das redes da resistência nos territórios ocupados pelo Reich, Casey tinha uma agenda revolucionária: queria lançar uma ofensiva contra a União Soviética, que Reagan apelidava de «Império do Mal». Para combater esse Império do Mal, Wasshington, o «Império do Bem», executou vários projectos, operações e acções. Desde a Iniciativa de Defesa Estratégica, vulgo Guerra das Estrelas, até ao encorajamento, abastecimento e apoio das resistências armadas nas áreas de expansão soviética, na Ásia, na África e na América Central” (PINTO, 2015:111-112).

“Além destas iniciativas operacionais, Casey vai entender-se com os sauditas para, através da arbitragem nos mercados petrolíferos, provocarem uma baixa do preço do crude, de modo a agravar a situação económica da União Soviética, muito dependente das vendas de petróleo e gás ao exterior. Estas políticas da nova administração norte-americana tiveram particular importância no Médio Oriente e no mundo islâmico. O apoio aos mujahedin afegãos, decidido ainda na administração Carter, mas muito reforçado por Casey, foi uma delas – e ia ter resultados inesperados” (PINTO, 2015:112).

“Os soviéticos estavam a braços com uma sublevação em alta escala no Afeganistão, desde a invasão de 1979. Os «soldados de Deus», como lhes chamou Robert Kagan, não lhes davam quartel. Foi uma guerra que, por algum tempo, os media se esforçaram por ignorar: não era admissível que os progressistas, os comunistas soviéticos, ajudassem ali um governo isolado e impopular a impor um programa político e social que pretendia fazer a Reforma Agrária, a secularização, a ocidentalização forçada dos costumes, que o povo rejeitava. A brutalidade da repressão era incomensurável: enquanto os mujahedin eram impiedosos com os combatentes mas poupavam os civis, os soviéticos introduziam o terror sistemático, massacrando as populações das aldeias, queimando vivas mulheres e crianças dentro de mesquitas, violando raparigas e bombardeando tudo. Não faltaram os My Lai** no Afeganistão, mas poucos no Ocidente ouviam falar deles. As histórias que desmistificavam os ventos da História não eram populares” (PINTO, 2015:112-113).

“A partir dos anos 80 as coisas começaram a mudar, graças a Casey, ao seu entendimento com os sauditas e a Charles Wilson, uma personagem depois recordada num best-seller de George Crile e numa fita de Mike Nichols. Charles Wilson era um democrata texano que se apaixonara pela causa dos afegãos e viajara várias vezes ao Paquistão, onde conheceu o Presidente, o general Zila. Os paquistaneses, através da Inter-Services Intelligense (ISI) ajudavam os afegãos, embora conduzissem também a sua própria política de selecção, privilegiando alguns entre os vários grupos de guerrilha” (PINTO, 2015:113).

*Islamismo – Os termos Wahabismo, Salafismo, Jihadismo constituem algumas das correntes que povoam o universo islamista. Têm em comum o facto de todas apelarem ao regresso da pureza do Islão inicial.

**May Lai – é o nome da aldeia vietnamita onde em 16 de Março de 1968 centenas de civis sul-vietnamitas, na maioria mulheres e crianças, foram executados por soldados do exército dos Estados Unidos no maior massacre de civis cometido por tropas americanas durante a Guerra do Vietname.

Bibliografia

PINTO. Nogueira, Jaime. (2015). O Islão e o Ocidente. A Grande Discórdia. D. Quixote. Alfragide.