“Quem não tem o que fazer, faz colheres…”

Publicado por: Milu  :  Categoria: "Quem não tem o que fazer, faz colheres...", SOCIEDADE

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“Podemos afirmar com toda a segurança que o conhecimento que os homens podem adquirir sobre as mulheres, do que elas são, sem falar do que elas poderiam ser, é deploravelmente limitado e superficial, e continuará a sê-lo enquanto as mulheres não disserem o que têm a dizer.”

John Stuart Mill

“Quem não tem o que fazer, faz colheres…”. Foi esta expressão que me ocorreu quando, um dia destes, deparei com uma publicação no Facebook, que poderá ser lida aqui, que, confesso, comecei por ler com  bonomia e condescendência.

Posso adiantar, para quem não se quer dar ao trabalho de a ir ler, que a referida publicação consiste numa notícia, constante no Jornal de Notícias, acerca de um movimento nascido na Itália, com o nome de Purex, que defende que “os jovens devem manter-se castos até ao matrimónio”.

Este movimento, encabeçado por um casal italiano, cujas idades se situam na faixa etária dos trinta anos, postula que, antes do casamento, só deverá haver beijos, abraços e apertos de mão, também nada de masturbação, ou seja, virgindade à prova de bala.

A ideia para a criação deste movimento, ter-lhes-á ocorrido, após uma tomada de consciência, de que deveriam prosseguir outro caminho depois de uma fase onde lhes abundou o “sexo, drogas e rock’n’roll”.

Contudo, existe um registo nesta notícia que logo me fez saltar da cadeira!

Agitei-me quando li a declaração deste casal, que dá conta que, depois  de ter sido colocado um vídeo a explicar a sua ideologia na internet, terá sido convidado por muitos pastores evangélicos, e até por padres católicos, a participar em sessões de esclarecimento sobre sexualidade.

E li mais! Li que os criadores do Purex disseram ter tido uma vida de “sexo, drogas e rock’n’roll” até conhecerem “a luz divina” (!) e perceberem que o caminho deveria ser o da pureza.

Padres??? “Luz divina”?? “caminho da pureza”?

Foi a partir deste ponto que se acabou a minha   bonomia e condescendência. Porque, se por um lado,  não faz mal termos ideias e querermos difundi-las, por outro lado, os padres e a Igreja não devem de ser para aqui chamados! Afinal, com que autoridade um padre pretende dar lições de sexualidade? É algum “expert no métier”??? Melhor que fiquem bem caladinhos, na escuridão dos recantos, que a idade das Trevas já lá vai!

E, por falar em castidade, virgindade, pureza, conceitos muito difundidos pela Igreja, não resisto a deixar aqui um excerto de um livro, daqueles que não são recomendados aos estudantes, porque não convém ensinar certas coisas às pessoas…

Quem tiver curiosidade de prosseguir a leitura deste post, compreenderá porque fico cheia de urticária quando o tema é virgindade, pureza, e qualquer coisa que me cheire a Igreja. É que a História ensinou-me o que à sua sombra foi feito às mulheres, às pobres das mulheres, diria antes.

E,  ao ler o texto que se segue, como não poderia deixar de ser, mais uma vez me assomou ao espírito a célebre expressão que habitualmente é atribuída a Albert Einsten:

“Existem apenas duas coisas infinitas: O Universo e a estupidez humana. E não tenho tanta certeza quanto ao Universo.”

O meu título para este excerto, que eu gosto imenso de criar títulos, é o seguinte:

Patranhas Divinais

 

“E as mulheres, presas na teia de aranha dos lares, das leis e dos tabos, muitas vezes esgotadas durante os melhores anos da sua vida por uma fecundidade que foi nestas sociedades uma condição de sobrevivência, acabaram por viver o seu destino como uma maldição, sujidade e dor. Como pôde operar-se esta velhacaria?, perguntarão.

Pois bem. Era só começar… pelo princípio. Tendo eles próprios tomado a precaução de escreverem a Génese, os Evangelhos, o Antigo e o Novo Testamento, os fundadores (todos machos) da nossa religião judaico-cristã puderam remontar a indignidade da mulher à primeira mulher” (pp. 124-125).

Para se desembaraçarem na mesma altura deste aborrecido poder criador da mulher, tiveram a coragem, contrariamente aos dados evidentes da experiência, de fazer nascer Eva de uma costela de Adão. Tendo-se feito assim da mulher um «ser ocasional e acidental» (São Tomás de Aquino), só restava humilhar intelectualmente essa criatura, que manifestava por vezes incongruentes veleidades de se assemelhar ao seu senhor. Não podendo decentemente reeditar o caso de Eva e fazer nascer Jesus de uma costela de São José, acabados os tempos mitológicos, arranjou-se maneira de a mãe de Deus ser um modelo impossível para todas as outras mulheres, uma espécie de censura viva. Fez-se dela um monstro fisiológico, a única que pôde dizer que estava grávida do Espírito Santo, e por isso santificada. Escapando ao destino feminino, renegada na carne – os teólogos não cessaram de estabelecer (!) que depois do nascimento de Cristo «a Virgem mantinha-se fechada»*** -, pôde só então resgatar o defeito de ter nascido mulher. Mas para todas as outras ficava a nódoa, o pecado, a concepção maculada” (p. 125).

“Era o golpe inesperado. «Pela primeira vez na história da humanidade, a mãe ajoelha diante do filho e reconhece livremente a sua inferioridade. É a suprema vitória masculina que se consuma no culto de Maria” (Simone de Beauvoir). P. 125)

Nota de Rodapé: ***”O que se conseguiu no Concílio de Éfeso (século VI), na Igreja oriental e no Concílio de Latrão no Ocidente e permitiu afirmar que Jesus não tinha transitado pela inaceitável vagina. Concebido por obra do Espírito Santo, da mesma maneira havia nascido (p. 125).

“Jesus possuía um sexo de homem e não se exclui que o tenha usado. Isso em nada muda a sua divindade. Mas o sexo de Maria, votado às obras celestes, teve de renunciar à sua função sob as instruções de um anjo que julgou inoportuno fazer-lhe conhecer os prazeres do amor” (…). P. 126.

“Esta maldição religiosa não se deve de resto a Jesus, que atenuou a dureza da lei hebraica. Devemo-la ao nevrótico misógino que foi São Paulo e às fobias não menos obsessivas de um Santo Agostinho ou de um Tertuliano, de quem não devemos esquecer a odiosa apóstrofe muito conhecida: «Mulher, tu és a porta do Diabo… Por tua causa o Filho de Deus teve de morrer. Devias andar sempre vestida de luto e farrapos»”. Pior que todas estas condenações, a Igreja excluiu as mulheres de toda a função religiosa, ostracismo que, séculos mais tarde, dificilmente se atenua. Os lugares de culto estão abertos às mulheres menstruadas, os concílios abrem-se a algumas piedosas subalternas admitidas como ouvintes, mas sem direito à palavra; sabe-se, todavia, que só em 1970 um coro feminino foi autorizado a cantar pela primeira vez em São Pedro de Roma” (p. 126).

“Esta entrada no índex que teve a sua origem em tão altas referências encorajou a sociedade inteira a perpetuar um estado de submissão feminina que tão bem serviu os chefes de família, os directores de empresa, os privilegiados e os homens em geral. Este gado manso, trabalhador, procriador e cujas reivindicações se restringiam à gritaria de algumas megeras, contribuiu para o equilíbrio e a prosperidade do conjunto. O essencial era que as mulheres se mantivessem no seu lugar, este famoso lugar fixado antecipadamente pelos regulamentos, como os lugares reservados aos mutilados no metropolitano” (pp. 126-127).

“Toda a gente trabalhou nisto com zelo, inclusivamente sábios que fizeram dizer à ciência coisas difíceis de acreditar. Um naturalista como Linné pôde, há apenas dois séculos, escrever no topo da sua História Natural: «Não farei aqui a descrição histórica dos órgãos femininos porque são abomináveis» ” (p. 127).

(…)

“Para cúmulo do azar, a Igreja agravou ainda os riscos do parto por intermédio de uma lei de ferro: impôs que se considerasse a mulher grávida apenas como depositária de uma nova vida, o que era mais importante do que ser mãe. Consequentemente, em vez de esquartejar o feto, a fim de libertar a mãe, o que o privava do baptismo, exigiam que se abrisse o útero para dele extrair a criança viva. Os concílios e os sínodos lembravam sem cessar esta prescrição, ainda que fosse para a mãe uma sentença de morte, dada a incapacidade total das parteiras praticarem uma cesariana. Esperavam a agonia da mãe para a efectuarem. Nenhuma mulher sobreviveu a isto para nos contar desta tortura, este assassínio legal perpetrado com a bênção da Igreja” (p.132).

“ (…) a igreja pregou a resignação e declarou «A morte durante o parto é o tributo exigido por Deus e que as mulheres devem pagar como compensação das alegrias da maternidade»” (pp. 133-134).

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Bibliografia

GROULT, Benoîte. (1976). Assim Seja ELA. Bertrand. Amadora. pp. 124-134.