É urgente evoluir

Publicado por: Milu  :  Categoria: É urgente evoluir, SERVIÇO SOCIAL

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“Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.”

Karl Marx

Apontamentos retirados durante a leitura do livro  de Helena Mouro, intitulado “Modernização do Serviço Social – Da Sociedade Industrial à Sociedade de Risco.” Estas minhas notas incidem sobre o capítulo 3, que constitui uma abordagem ao Serviço Social na contemporaneidade, ou, melhor dizendo, o que foi e no que se tornou, tendo em linha de conta as transformações na sociedade, os desafios e as implicações da Globalização.

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Capítulo 3 – Contemporaneidade e Serviço Social: desafios da Globalização

“Em termos pragmáticos a modernização do Serviço Social revela-se através de:

– A desconstrução e a reconstrução da sua concepção de problema social que se substancia no facto de ter deixado de estar limitado aos problemas de ordem económica, que particularizaram a sua intervenção até à 2ª Guerra Mundial, para alargar a sua intervenção os problemas de ordem comportamental e, posteriormente, canalizar a sua atenção para os de ordem social relacionados com as questões de cidadania e da igualdade;

– A alteração que desenvolveu na sua relação com os problemas sociais, passando de uma atitude protecionista para com aqueles que davam visibilidade aos próprios problemas, para uma atitude reguladora que exacerbou, e exacerba, a importância das reformas sociais na interação de forças múltiplas na correção das distorções sociais e, depois, para uma atitude emancipatória que corresponde a uma recuperação do individualismo moral;

– A mudança operada nas caraterísticas da sua ação profissional, o que explica não só o fato de ter deixado de agir de forma monolítica e seletiva, limitando a sua intervenção ao universo da pobreza, mas também de passar a desenvolver uma forma de agir franqueada tendo em linha de conta a correlação criada entre a desapropriação do exercício da intervenção sobre os problemas sociais, a transformação no conceito de necessidade social, o desenvolvimento da política de investimentos em termos de recursos sociais e ainda a segmentação da ação social, assim como o de ser acrescentado formas partilhadas de atuação que, traduzindo-se em parcerias ou em trabalho de rede, não interferem no entanto sobre a identidade profissional, e antes pelo contrário, reforçam-na;

– A reorganização das suas competências, que deixam de estar dominantemente dominadas ao exercício da ação social, como aconteceu durante o seu período de legitimação, alargando a sua atuação no quadro da funcionalização da política social e tornando-se elemento-chave na gestão pragmática das políticas sectoriais para, perante uma reconceptualização da intervenção ao nível dos problemas sociais e numa fase de recriação da intervenção social, reforçar as suas competências no exercício profissional da ação social, criar novas competências na área da gestão de equipamentos e direção de serviços de caráter social, assim como recriar as desenvolvidas no campo da investigação e da intervenção no terreno;

– A transformação operada nos processos de intervenção; depois de utilizar uma metodologia em que enfatizou o uso da individualização como mecanismo de atomização dos problemas sociais, que esteve duradoiramente subjacente no trabalho com grupos e comunidade, subalternizou-a em detrimento da contextualização que elogia o primado do social sobre o individual, para numa fase de requalificação da profissão se projetar no uso da investigação-ação como meio de reduzir a expressão praticista que era atribuída ao Serviço Social;

– A recriação da linguagem que, ultrapassada a sua fase intimista e paroquial, investiu numa forma mais estilizada que, sendo polimorfa, é simultaneamente mais tecnicista e respondia às necessidades de um estilo de intervenção generalista, para se tornar mais ou menos pigmentada do ponto de vista cultural e científico de acordo com a sua saliência ideológica no processo de intervenção social, a sua inculcação institucional, bem como com a relação instituída com o corpo teórico ou profissional onde se movimenta.

(…) a forma como a individualização se inscreveu na vida profissional dos assistentes sociais demonstra a capacidade dos profissionais de interferirem sobre os processos de fricção social resultantes da “lubrificação social e ideológica” do processo de industrialização. Mas, ao deixar de estar centrada no indivíduo, passou então a organizar-se em função das responsabilidades do estado e da democracia na gestão dos problemas sociais e, posteriormente, na confirmação da legitimidade social reconhecida à construção política do conceito de cidadania. Daí que o seu exercício profissional também se tenha recriado.

Ou seja, se num primeiro momento a adaptação foi adotada como forma estratégica de neutralizar a cultura de conflito herdada do período da “questão social” do século XIX, já a integração está implicada com a forma como o Serviço Social se posicionou face à gestão das desigualdades sociais e económicas; a inclusão, que se afirmou no contexto a que Giddens denomina de alta modernidade, tornou-se uma resposta profissional ao fenómeno de exclusão que sintomaticamente refletia a forma como a profissão se comportou relativamente às problemáticas da diferença e da igualdade.

No contexto da sociedade atual, a Globalização, entendida por Giddens (2002:24) enquanto uma rede de processos complexos que operam de forma contraditória ou em oposição aberta a qual tem sido influenciada pelo progresso dos sistemas de comunicação registados a partir do final da década de 60, tem sido apontada como responsável por um conjunto de mudanças geradas por fatores de ordem económica, política, tecnológica e cultural que estão na origem de:

– Uma resignificação social e cultural das desigualdades;
– Um redimensionamento político e cultural da nova questão social.

(…) a Globalização se transformou num processo social através do qual diminuíram os constrangimentos geográficos sobre os processos sociais e culturais e em que os indivíduos se consciencializaram cada vez mais dessa redução(Waters, 2002:3), a lógica da territorialidade desapareceu enquanto princípio organizativo da vida cultural e social.

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(…) no quadro dos países desenvolvidos e mesmo periféricos, a exclusão deixou de estar vinculada apenas a:

– O desemprego
– O trabalho precário e infantil
– a condição de reformado.

Para se alargar a outras questões, a saber:

– a igualdade e a paridade, onde se integra o trabalho desempenhado pelas mulheres;
– a diferença e a cidadania, onde se incluem os problemas ligados à etnicidade, à opção sexual e religiosa, bem como à deficiência;
– o desvio e a marginalização, dos quais fazem parte a toxicodependência, a violência e a criminalidade.

Já no contexto dos países pobres o problema da exclusão é um problema estrutural e endógeno que assume o devido significado quando analisado pelos países ricos, passando a ser considerado como um problema de desenvolvimento.

(…) o Serviço Social, não obstante poder reconhecer os efeitos sociais da Globalização, deve preparar-se concretamente para utilizar os conhecimentos adquiridos na área das ciências sociais como meio de valorizar um processo de engenharia social que favoreça a consolidação das racionalidades. Segundo o ponto de vista do Serviço Social latino-americano, e muito particularmente na perspetiva de Iamamoto (2002), é realçado o pressuposto de que a relação do Serviço Social com a nova questão social, gerada pela confirmação económica e tecnológica do processo de Globalização, está influenciada pelo facto do serviço social ser uma profissão assalariada e, como tal, ter de desempenhar as funções que lhe são conferidas pelas Instituições públicas e privadas, as quais refletem a forma como o Estado e a Sociedade Civil reagem aos efeitos sociais e culturais produzidos pela Globalização.

As competências do Serviço Social devem de ser enquadradas no âmbito do que se designa por trabalho imaterial que visa a promoção do bem-estar coletivo e a defesa da cidadania global que envolve a re-significação dos problemas sociais. Mas, quanto ao seu desempenho, este deve ser apreendido como uma forma ativa de colocação profissional perante a substância da pressão exercida pela Globalização na recontextualização das formas de pensar e de agir dos assistentes sociais.

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Enquanto na Sociedade Industrial o Serviço Social de Casos, o de Grupos e o de Comunidades eram considerados os métodos mais indicados e eficazes para os assistentes sociais conduzirem no terreno o exercício da intervenção, já na Sociedade de Risco o pertenariado, o trabalho em rede, a intervenção territorializada e a gestão de casos podem ser consideradas como formas de alternativas de exercer a intervenção social.

Quanto à articulação da inovação com a qualificação no Serviço Social, esta toma uma nova expressão no presente. Pode ser entendida como uma resposta ao problema da competição profissional e da resignação do seu papel profissional. Demonstra ainda a atenção prestada profissionalmente, e com mais acuidade pelas novas gerações, a:

– a recontextualização dos processos de trabalho no Serviço Social
– a existência de uma maior apetência profissional para levar à prática uma reflexão sutentada sobre o impacto das transformações culturais no quotidiano da vida social
a importância do uso das novas tecnologias na desformatação dos processos de intervenção e de relacionamento com os utilizadores dos seus serviços.

Esta profissão é eminentemente política e a reconstrução da sua identidade passa por:

– a recriação da relação de ajuda no Serviço Social (Garbarini: 2002);
– uma desonversão do “aqui” e do “agora” no Serviço social;
– Uma renovação dos seus interesses.

A construção de novos interesses que são gerados pela necessidade de compreender e descrever fenómenos de desigualdade que fogem às análises estritamente económicas dos fenómenos estigmatizantes e que servem para desfidelizar a sociedade global dos seus compromissos éticos com a cidadania global.

Em suma, a Globalização – ao produzir um agravamento das desigualdades económicas e sociais e ao desenvolver novas realidades sociais que decorrem das alterações exercidas, quer nos estilos de vida, quer das relações sociais e perante a evolução da ciência – fez com que o Serviço Social reforçasse as suas competências ao nível da ação social, qualificasse o seu desempenho sobre os comportamentos e redefinisse a sua atuação ao nível das novas problemáticas sociais que estão intimamente interligadas com a relação que o indivíduo tem com a sociedade, o ambiente social e os dispositivos institucionais de ajuda social.

A criação de redes ONG’s reforça as relações de solidariedade entre os diferentes parceiros sociais através do aumento da implicação nas ações de voluntariado que se repercutem no aumento do sentido para a vida e do reforço das capacidades de resposta das comunidades locais para a diversidade de situações que se afirmam no presente e se possam vir a desenvolver no futuro.

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(…) os profissionais vão cumprindo tarefas administrativas e burocráticas em detrimento do seu trabalho de ação e intervenção social que se torna rotineiro, pontual, imediatista e assistencialista. A este último nível assiste-se à clara oposição entre as exigências do capital e as necessidades dos utentes. Daí a importância reconhecida á necessidade dos assistentes sociais investirem na sua própria capacitação e no reforço de vínculos no âmbito de um projeto ético-político em defesa dos direitos sociais e do aprofundamento da democracia, o que implica a que a profissão se desenvolva, segundo os seguintes parâmetros:

Tentativa de superação da dicotomia utente/beneficiário pela promoção de participação ativa dos sujeitos na busca de soluções mais adequadas aos seus casos;

– uma maior atenção à promoção dos Direitos Humanos, que neste tipo de sociedades são teoricamente considerados, mas que acabam por ser subordinados aos critérios (desiguais) da distribuição da riqueza socialmente produzida;

– Uma tentativa de superar a metodologia tradicional (caso, grupo e comunidade), partindo do pressuposto de que a intervenção se deve desenvolver a vários níveis, a saber:

1- assistencial, promoção sócio-educativa, promoção sócio-terapêutica e gestão de políticas sociais;
2- interpretação das políticas sociais como espaço de expressão de diversos interesses sociais e, consequentemente, como espaço de construção de cidadanias e amplificação e execução dos direitos humanos. Entre estes salientam-se as questões de género, a exclusão social, sem esquecer as diferentes possibilidades de levar á prática o exercício profissional de auditorias sociais.

Bibliografia

MOURO, Helena. (2009). Modernização do Serviço Social – Da Sociedade Industrial à Sociedade de Risco. Almedina. Coimbra.

Eu Sou Transgressora!

Publicado por: Milu  :  Categoria: Eu Sou Transgressora!, PARA PENSAR

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“O mundo só poderá ser salvo, caso o possa ser, pelos insubmissos.”

André Gide

Apontamentos que consegui reunir na Conferência “Conceções e Práticas de Mediação Intercultural e Intervenção Social”. Ressalvo que estes apontamentos são uma muito pálida amostra dos temas discutidos na conferência. Uma das aprendizagens que trouxe na minha bagagem foi a ideia de que felizmente EU SOU TRANSGRESSORA! Ou seja, tendo para romper com o estabelecido, romper com o preconceito, romper com o dogma, romper com o slogan. Sou contra a cristalização. Eu transgrido. Sou transgressora, ou seja, mexo com as representações. A evolução faz-se através da transgressão.

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Livro que recomendo para uma boa compreensão da intervenção do professor Adalberto Dias de Carvalho “Antropologia da Exclusão ou o Exílio da Condição Humana.

Repare-se: Exclusão → exílio da condição humana!!!

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Intervenção de Adalberto Dias de Carvalho

Actualmente, e estupidamente, exige-se dos jovens um grande currículo. Mas exigir um grande currículo é uma pressão ilegítima, porque ter um currículo longo exige uma longa vida profissional e muito gosto no seu desempenho. Sem estes requisitos os currículos  são puro lixo. Estudar decorre da nossa própria vida, não deve ser só para fazer currículo. Numa recente avaliação de trabalhos identificou 5 deles como plágios.

A Noção implica falar em termos imprecisos, fluídos.

O Conceito já é uma noção em termos científicos.

O nosso erro é assentarmos o que dizemos em pressupostos que se tornam dogmas, slogans. Não devemos fazer isso – Tudo deve ser questionado! Quando os conceitos se tornam slogans eles fossilizam, tornam-se amarras. Temos de ter abertura e dinamismo. Pensar, abrir a mente. Fazer mudanças.

A pintura Dada, (dada, quer dizer nada) ou  dadaísmo  surgiu para demolir a pintura tradicional, uma vez que aquela era feita ao acaso. Contou-se que se colocou uma tela por detrás de um cavalo e encheu-se-lhe o rabo de tinta, que o animal ao espanejar livremente deixava o rastro na tela – e lá surgia a obra, uma pintura Dada.

Identificamos muito facilmente os erros ou falhas nas culturas de outros povos, mas não estamos dispostos a reconhecer os nossos.

Os grandes expoentes da cultura são normalmente uma transgressão, por isso são por vezes rejeitadas ou ignoradas.

A verdade tem carácter universalista, só assim faz sentido.

Ao estudarmos outra cultura que não a nossa nós vemos os contrastes, vemos bem as diferenças, mas existem milhares de coisas que nos escapam e que podem ser por demais significativas. Ao mesmo tempo, o nosso olhar interfere, pode ofender, pode também influenciar os comportamentos, o que por sua vez enviesa o estudo.

Deve-se evitar a cristalização da cultura. Dizer que os brancos são de determinada maneira, dizer que os pretos são daquela outra, ou que os ciganos são assim, é cristalizar, dogmatizar, rotular e impede-nos de ter uma relação satisfatória com as outras culturas. Da ideia preconcebida ao preconceito vai um instante. Do preconceito ao estereótipo é outro instante. Por exemplo: Para os franceses um português é alguém que só sabe assentar tijolos, um pedreiro.

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Nos tempos da religiosidade, o sofrimento tinha um significado, era redentor e depurador.

“Sabendo-se sofrer sofre-se menos” – Anatole France

Actualmente, nas sociedades laicas, o sofrimento não constitui um valor, por isso não é suportado.

O ser humano para ser Mediador Intercultural tem de ser sensível, culto e reflexivo.

Comentário sobre os acontecimentos em Paris, mais precisamente o caso Charlie Hebdo:

“O que aconteceu é a prova de que não temos respostas para determinadas questões e situações, senão estas coisas não estavam a acontecer. Contudo, é preciso ter presente, que as transformações e conquistas históricas sempre foram acompanhadas de violência. Às vezes são necessários banhos de sangue. Cantamos certos banhos de sangue e condenamos outros. A violência faz parte da humanidade. A violência faz parte do ser humano. A inumanidade surge no cume da humanidade”

Não há culturas puras. Somos, como europeus, uma cultura de uma profunda miscigenação.

Sobre emigrantes: “Acolher não pode ser haver uns in e outros out. Às vezes põe-se fora os que já estão dentro. Temos a tendência para defender o que nos é próprio, mas, neste que nos é próprio, também cabem  os outros.

Sobre os direitos da comunidade e os direitos individuais: “Os direitos da comunidade não vão contra os direitos individuais, pois os pertencentes a uma comunidade tem direito a exercer os seus direitos de acordo com os direitos dessa comunidade.

As culturas não são homogéneas. Nem a cultura portuguesa é homogénea, basta atentarmos nas diferenças entre os nortenhos e os alentejanos, sem desprimor para as duas partes. A alteridade do outro está na nossa cultura. Para além disso não temos necessidade de andar à procura da cultura do outro, das diferenças. Devemos é reparar nas semelhanças, e temos mais daquilo que nos aproxima, do que daquilo que nos afasta.

Representações → a maneira como olhamos para determinadas coisas e  o significado que lhe atribuímos. Exemplo: o português é um povo que bebe muito vinho tinto, por isso é folclorizado através de um garrafão de vinho.

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Folclorização das culturas acontece muito através dos eventos de gastronomia próprias de países diferentes. Mas a cultura não se resume a isto!

Folclorizamos as culturas dos outros mas não a gostamos que façam o mesmo com a nossa. E, depois, conhecemos muito pouco das culturas.

Por exemplo: Uma agência de viagens leva os turistas a visitar uma tribo no Amazonas. A pessoa fica a pensar que ficou a saber o que é uma tribo e o que é viver no Amazonas. Mas aquele lugar é apenas um pálido protótipo das verdadeiras tribos que vivem no interior do Amazonas!

Outro exemplo: O Professor Adalberto contou que um seu primo veio do Brasil visitar Portugal e que quis ir a sítios emblemáticos. Quis ir a Fátima. Quis assistir a espectáculos de danças lusitanas, como por exemplo o Vira. Quis ver aquelas saias rodadas. Quis comer leitão e também, o típico frango de Baltar. Mas com respeito ao frango houve um problema, é que já não foi possível encontrar um restaurante que tivesse na sua ementa a dita iguaria, parece que tinha caído em desuso, pelo que o professor decidiu pedir num dado restaurante que preparassem um frango frito, que acrescentassem alguma criatividade e assim se fez. O primo brasileiro ficou convencido que tinha degustado o tradicional e antigo “frango de Baltar”. De volta ao Brasil não se cansou de narrar as experiências vividas e o curioso é que chegou a dizer “Portugal está na mesma. Está tudo ma mesma”. Ou seja, quis dizer que as tradições continuavam a existir. Aquele Portugal atrasado, tradicional, continuava a existir. Mas, repare-se: não viu as auto estradas! Nem reparou que as pessoas já estavam vestidas de outra maneira.

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“O caminho mais curto de si para si é o outro”. (Fase citada pelo professor Adalberto, mas não consegui perceber de quem foi o seu autor).

Colocar o outro fora de mim é um erro, um entrave para qualquer intervenção intercultural.

Temos um medo atávico da diferença. Os limites estão assinalados para estabelecer as diferenças.

Muito importante:

“A nossa oposição às outras culturas mais não é do que estarmos a querer impor aos outros a nossa cultura”. 

Outra frase citada pelo Professor Adalberto de que não sei o seu autor e num determinado contexto: “”O etnocentrismo desapareceu porque se realizou”.

As posições do outro, que são diferentes das minhas, terão de ter algum sentido, por isso devo procurar entendê-lo, e perguntar ao outro que se explique. E ele deverá fazer o mesmo comigo.

“Não há encontro de culturas. Há encontro de pessoas portadoras de cultura.”

Ao falar com um indivíduo estou a falar com uma pessoa, devo, portanto, esquecer o que nos opõe, porque as diferenças podem interferir, impedir, uma boa relação.

As culturas transformam-se pelo contacto com as outras culturas, por isso evoluem. E essa evolução faz-se a partir das fronteiras e não do centro.

A Mediação Intercultural é a mediação que temos de fazer perante, mediante,  nós mesmos. Não andarmos à procura das diferenças. Há mais coisas que nos aproximam do que aquelas que nos diferenciam.

Intervenção de Cristina Milagre

Mediação Intercultural: Participação dos actores locais para a coesão social.

Nota: as comunidades ciganas vivem entre nós desde o século XV

Exclusão

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Inclusão

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Modelos sócio políticos face à diversidade sócio cultural

Mediação

 

 

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Mediadores nos Serviços Públicos

Objectivo:

“Afirmação do princípio da interculturalidade como um pilar de coesão social através da integração de mediadores interculturais nos serviços públicos. Construção do perfil do mediador intercultural bem como do referencial de formação me mediação intercultural.

Projecto Piloto:

Serviços Públicos          →           Territórios/Comunidades

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Objectivo Geral:

“Contribuir para a coesão social, a melhoria da qualidade de vida e a convivência cidadã intercultural, em municípios com diversidade cultural significativa, mediante uma gestão positiva e preventiva dessa mesma diversidade através da intervenção.”

Princípios da Mediação:

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Intervenção de Natividade Alves:

MISP:

“Programa de Mediação Intercultural de enfoque comunitário, promotor de interculturalidade, contando com a colaboração de serviços públicos e privados, associações locais e, sobretudo, com a participação das comunidades.”

Objectivo Geral:

“Desenvolver uma intervenção com base num modelo de trabalho assente nos princípios da interculturalidade e da mediação em territórios municipais;

Melhorar a qualidade de vida das comunidades, promover novas relações de convivência intercultural construtivas e transformadoras e contribuir para o desenvolvimento local e a coesão social.”

Outra Intervenção (falta nome do orador)

Temos instituições mal preparadas, obsoletas, os profissionais também têm os seus problemas, de forma que, quando o imigrante vai em busca de um apoio para o seu problema, o profissional tende a minorar o problema do indivíduo em vista dos seus próprios, esquecendo-se que não está mo mesmo patamar de possibilidades.

O grande problema dos profissionais da mediação é que há uma grande dificuldade em “entrar” nas instituições internas, ou seja, nas autarquias. Ao contrário, é mais fácil “entrar” nas instituições externas, nas instituições parceiras.

 Comentário de outro orador acerca dos casos práticos em mediação:

Foram feitas  referências à mediação entre as instituições e os seus benefícios. Um exemplo foi a mediação para esclarecer quais os critérios, pelos quais as instituições se guiavam para proceder à distribuição dos bens alimentares, porque havia beneficiários que achavam que os bens eram distribuídos de acordo com a vontade de quem os distribua, ou seja, de acordo com simpatias e preferências.

O resultado de uma ação de mediação:

Em dada altura no espaço para o debate, o professor Ricardo Vieira interviu para declarar que não acredita na neutralidade do mediador. Basta atentar na expressão “Intervenção Mediadora”. Ora, “Intervir é o contrário de ser neutro!” disse e muito bem o professor Ricardo Vieira.

Assim, a Intervenção Mediadora envolve Multiparcialidade. Toda a intervenção tem a mão do mediador.

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Actividade: Acolhimento de Refugiados

→ Tradução e interpretação linguística e cultural;

→ Assessorar o grupo minoritário no acesso aos serviços públicos;

→ Favorecimento da participação social;

→ Sensibilização dos serviços públicos para a diversidade cultural e para a importância do adequado acolhimento deste tipo de cidadãos;

→ Criação de um Guião de Recursos.

A Título de Conclusão

“A Mediação Intercultural é a mediação que temos de fazer perante, mediante,  nós mesmos. Não andarmos à procura das diferenças. Há mais coisas que nos aproximam do que aquelas que nos diferenciam.” 

 

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Comportamentos Adictivos

Publicado por: Milu  :  Categoria: Comportamentos Adictivos, TOXICODEPENDÊNCIA

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“Toda a forma de vício é ruim, não importa que seja droga, álcool ou idealismo.”

 

Carl Jung

 

Resumo constituído por notas retiradas durante a leitura do livro sobre toxicodependência de Isabel Hapetian, intitulado “Famílias Entender a Toxicodependência”. Recomendo a sua leitura para uma melhor compreensão sobre os flagelos da droga.

 

“Normalmente, os pais dos toxicodependentes são os últimos a saber do problema dos filhos e quando são confrontados com a realidade já estes têm alguns anos de consumo” (p. 19).

“Como se a toxicodependência, definida como fenómeno bio-psico-sócio-cultural, não fosse o fruto perverso de uma sociedade que se debate com problemas para os quais não encontra resposta – exploração desenfreada do homem pelo homem, o genocídio e o fascismo. A sociedade que tanto culpabilizámos e que, afinal, mais não é do que a soma de todos nós…” (p. 26).

“Um consumidor de drogas pára de crescer sob o ponto de vista intelectual e fica com a mentalidade que tinha quando iniciou os consumos. Isto acontece porque as drogas travam o seu amadurecimento pessoal e, às vezes toxicodependentes já com 30 ou 40 anos continuam a insistir nos comportamentos típicos da sua adolescência, ou seja, dos seus 14 ou 16 anos” (p. 51).

“São os únicos doentes que não assumem a sua doença e que acham que podem medicar-se a si próprios” (p. 56).

“As regras da vida familiar têm de ser fruto de um consenso se os pais quiserem realmente atingir um objectivo comum que será o de o toxicodependente assumir o seu problema e ter vontade de se tratar” (p. 59).

Quando o toxicodependente assume o seu problema e a responsabilidade dos seus actos, significa que está a um passo da sua recuperação. Por isso, a política do coitadinho é errada e perdoar-lhe as mentiras e os roubos é estimular nele a continuação de comportamentos irresponsáveis” (p. 60).

“Os toxicodependentes são imaturos e faz parte do seu processo terapêutico falar sobre os problemas pessoais e relacionais que deixaram por resolver e que ficaram adormecidos com o consumo das drogas” (p. 61).

“Se ter uma boa auto-estima significa gostar de si próprio, eu diria que o toxicodependente tem uma auto-estima na estaca zero” (p. 64).

“A prova mais evidente da sua dificuldade em se aceitar tal como é no seu todo ou em alguns aspectos da sua pessoa é que se auto-destrói consumindo drogas. E ele sabe-o” (p. 64).

“Por isso é tão importante elogiar a gabar os seus sucessos, ainda que pequenos. O elogio é um estímulo par a continuação do esforço, dá uma grande força e não é de modo nenhum sinónimo de moleza” (p. 65).

“A droga transforma-se no objectivo único da sua existência e as noções de bem e de mal vão-se desvanecendo. Tudo é licito fazer, desde que se arranje dinheiro para a dose” (p. 66).

“O toxicodependente desinveste na pessoa ou pessoas significativas para investir naquilo que a pessoa lhe dá. Ele procura-nos pelo que damos e não por aquilo que somos” (p. 66).

“É esta relação de paixão com a droga que os pais terão de entender em toda a sua profundidade, se pretendem ajudar os filhos a libertarem-se dessa prisão” (p. 66).

“O toxicodependente sente-se frustrado porque não consegue realizar nenhum dos seus sonhos, «agarrado» como está a um produto que é a essência da sua vida e que não lhe dá espaço nem tempo para realizar seja o que for” (p. 67).

“Para o consumidor dependente, qualquer frustração, por pequena que seja, funciona como obstáculo intransponível” (p. 67).

“Os pais podem e devem sempre negociar determinadas regras e questões com o toxicodependente desde que tenham o cuidado de verificar que aquilo que se combina é razoável e susceptível de ser cumprido. E depois, é preciso verificar se aquilo que se combinou foi cumprido ou não (p. 68).

“«Neste mundo só há duas tragédias. Uma dela é não conseguir aquilo que se quer, a outra é consegui-lo».”

Oscar Wilde

“É o tempo que dedicamos a viver plenamente que torna a vida tão importante. São as pequenas coisas do quotidiano que fazem com que a nossa vida valha a pena. Esperar que aconteçam grande coisas para ter prazer dá-nos sempre hipótese de perder a jogada da vida” (p. 76-77).

“Solidão pode definir-se como a incapacidade de «ter o outro em nós». Quando os outros não nos enchem e nos preenchem fica um vazio. Enquanto nós procuramos vencer o sentimento da solidão indo ao encontro dos outros, na vida real ou através das nossas memórias afectivas, o toxicodependente enche esse vazio com a droga. Por outras palavras, droga-se para «encher a cabeça», utilizando uma expressão frequente na sua boca.

Assumindo um comportamento reprovável que a todos desagrada, ele é, no entanto, impotente. Odeia os outros porque o odeiam a ele. Amigos não tem. Apenas os companheiros de consumo, os penduras e os dealers se aproximem dele. Não para o confortar ou acolher mas para, ainda que esteja à morte, se aproximem dele e do lucro que dá, do que eventualmente vende pelo preso irrisório de uma dose, do que é capaz de fazer e daquilo em que colabora para arranjar dinheiro. O contexto em que o toxicodependente se obriga a viver para dar satisfação aos seus consumos é como um reflexo do seu mundo interior. A sua atitude face aos outros, que o leva a servir-se deles (mentindo, manipulando e roubando), resulta num abandono sistemático da sua pessoa. Passa a ser o agressor, o facínora, aquele que convém não ver e por quem se deve passar ao lado” (p. 78).

“Há momentos em que é ainda possível romper essa barreira que se ergue entre o toxicodependente e os outros, e comunicar. Falar com ele e escutar o que nos diz é importante porque mantém de pé uma ponte e torna sempre possível a hipótese de tratamento. Comunicar não é monolugar e dar «sermões» ou «secas» (como eles dizem…) mas é, sobretudo, ouvir sem emitir juízos de valor e sem se deixar manipular” (p. 79).

“Comunicar não é:
– Policiar
– Inquirir
– Ralhar
– Dar sermões ou secas
– Controlar
– Interpretar/julgar

Comunicar é:
– Ouvir atentamente
– Observar
– Pôr-se no lugar do outro
– Exprimir os seus sentimentos com sinceridade
– Dar afetos

A raiva é o sentimento resultante da avaliação que fazemos das pessoas e dos acontecimentos. É como que uma lente pessoal através da qual as coisas passam a ter determinado sentido que não é o sentido objectivo mas o sentido que a nossa subjectividade dá a essas pessoas e acontecimentos.
A raiva que os pais sentem e que dirigem contra o filho que não se quer tratar, contra as instituições de tratamento que não dão a resposta esperada, contra os outros que não os entendem e contra si próprios porque se sentem culpados, tem eco no toxicodependente.

O mal-estar que a raiva lhe provoca não é passivo e, muitas vezes, exterioriza-se na lágrima fácil, numa grande agressividade, no insulto, no palavrão, no pontapé que se dá na porta, no murro nos queixos que se dá a alguém. O motivo da raiva pode ser inconsciente e, muitas vezes, uma parte importante da ajuda a prestar ao toxicodependente é o de levar à identificação do porquê e do objecto ou objectos dessa raiva” (p. 80-81).

“O tédio tem duas vertentes, a física e a psicológica e traduz-se na prática, por uma amotivação para fazer seja o que for, um mal-estar que não se localiza mas que atinge a pessoa, como um raio, na sua globalidade. Que pretende atingir o toxicodependente através da droga? Além do produto ou produtos que consome, haverá situações ou factos que lhe provocam bem estar? Se a droga lhe «enche a cabeça» porque permanece insatisfeito? Muito provavelmente, se não é já o prazer que ele procura, é, pelo menos, não sentir o desprazer e o tédio. Ora a procura do prazer é semelhante à procura incessante que o ser humano faz da felicidade. Quando, finalmente se atinge, ela foge-nos da mão. Muito provavelmente, enquanto procuramos exclusivamente o prazer e a felicidade, estaremos a seguir o trilho errado” (p. 82-83).

“Como diz Harold Kushner «A felicidade é uma borboleta – quanto mais a perseguires mais ela voa e se esconde». Mas pára de a perseguir, põe de lado a rede e ocupa-te com coisas mais produtivas do que a busca da tua própria felicidade, e ela virá furtivamente pousar no teu ombro” (p. 83).

“O toxicodependente não tem realmente prazer em nada do que faz. Tendo experimentado um prazer muito forte – a droga – é como se ficasse insensível a todos os outros” (p. 84).

“Como age o toxicodependente?

– Se a maioria das pessoas, face ao contexto em que vive e às pressões a que está sujeita, age antes de pensar, com mais razão o faz o toxicodependente para quem o imediatismo é regra de vida. Partindo deste pressuposto básico, é importante pensar no facto de, apesar de não ser um irresponsável e de não dever ser tratado como tal, o toxicodependente, agindo sem pensar, age muitas vezes mal. Fazer coisas impróprias ou inadequadas não significa que a pessoa seja má. É o acto que é reprovável e não a pessoa.

A partir do que atrás foi dito, poderíamos tentar sistematizar a forma de actuação do toxicodependente da seguinte maneira:

– É irreflectido
– É mentiroso. Mesmo havendo momentos em que é sincero quando promete cumprir determinadas regras, o que é facto é que raramente as cumpre.
– É manipulador. Joga com os afectos e, se puder dividir as pessoas, fá-lo sempre em proveito dos seus objectivos.
– Age com frieza – traça o seu plano e não olha a meios para atingir os fins.
– Não procura os amigos que o podem proteger dos consumos. Pelo contrário, como estes já desistiram de o acompanhar nas suas saídas à Musgueira, ao Casal Ventoso, e outros lugares afins bem como de lhe emprestar dinheiro, já «não servem».
– Rouba e vende tudo. De outra forma como poderia manter os seus consumos que, em casos mais graves, variam entre os trinta e os cinquenta contos por dia?
– Pede dinheiro emprestado. Há sempre alguém que tem pena. Para dar um tom mais verídico à sua história inventa que perdeu a carteira e tem de apanhar o comboio para… ou que ficou sem gasolina para a moto e não tem dinheiro… etc.
– Usa a casa e as coisas tal como usa o seu próprio corpo e usa os pais para atingir os seus próprios objectivos. Assim, o acto de comer, como o acto de dormir são actos mecânicos. Come porque tem de comer e dorme porque tem de dormir. «Curtir» a refeição, apreciar o momento do sono, um programa de televisão ou outra coisa qualquer não fazem sentido. A única «curtição» que conhece é a droga.
– Desleixa-se. Isto acontece sobretudo na 3ª fase dos consumos. Higiene duvidosa, calças e t-shirt a fugir para o sujo. Normalmente, a roupa boa vai desaparecendo, vendida na Feira da Ladra ou na esquina das ruas a quem tem menos escrúpulos…
– Está sempre irrequieto. Nada o entretém, nunca está tranquilo a apreciar seja o que for. É o primeiro a ir para a mesa e o primeiro a levantar-se. Essa inquietação vem-lhe de uma preocupação fundamental: – Como arranjar dinheiro para a droga!” (p. 85-86).

“(…) a dignidade do homem não está na sua resistência e na boa forma física mas no uso da razão e da liberdade de que os estupefacientes os privam” (p. 95).

“Fármacos contendo benzodiazepinas – A denominação destes fármacos na gíria dos toxicodependentes é “drunfos”. “Drunfar” é estar sob efeito destes medicamentos” (p. 96).

“Dizer que o haxixe faz os olhos ficarem raiados de vermelho, que a fala arrastada é ocasionada pelos drunfos e que o pingo do nariz acontece quando se snifa a cocaína é arriscado. Isto porque, quando estes e outros sinais evidentes de consumo de drogas se manifestam, houve já uma série de sintomas menos evidentes e que têm a ver com mudanças de comportamento, como sejam o isolamento, a mudança súbita de amigos, as conversas em segredo ao telefone, os insistentes pedidos de dinheiro, as faltas e atrasos na escola, a diminuição do rendimento escolar, o incumprimento das regras e tarefas familiares, as estadas prolongadas na casa de banho, etc.

A mudança de comportamento é realmente um sintoma muito importante. Mas como a adolescência é uma fase da vida do jovem caracterizada por grandes mudanças a nível fisiológico e psicológico há sempre o perigo de os pais confundirem certos comportamentos que são típicos do adolescente com o consumo de drogas. O que posso aconselhar aos pais é que estejam atentos, que não sejam polícias mas que, em contrapartida, não sejam anjinhos” (p. 106).

“Quando se faz uma desintoxicação ou desabituação física, o organismo volta a reagir às pequenas doses mas, progressivamente, e num ritmo cada vez mais acelerado, regressa aos grandes consumos. É por isso que muitos toxicodependentes pedem com desespero uma desintoxicação. Podem não estar interessados em parar os consumos mas apenas em gastar menos dinheiro” (p. 110).

“Há jovens que experimentam drogas e deixam. Porquê? Muito provavelmente porque se sentem bem com eles próprios, porque têm outros motivos de prazer e de gozo nas suas vidas. Mas há outros que se sentem bem com a droga; descontraídos; desinibidos, usam-na ocasionalmente, nos concertos rock, nas discotecas, nas festas dos amigos. Do uso regular à dependência é um passo. Uma vez instalado, o consumo da droga deixa de ser uma questão de escolha e passa a ser uma questão de compulsão (p. 114).

“Enfatizando 3 aspectos fundamentais:
– O sofrimento do toxicodependente privado da droga é real.
– A sua compulsão para o consumo permanente salta por cima de qualquer preconceito moral. Ele tem consciência de que mente e engana e isso só lhe agrava os sentimentos de culpa.
– As drogas dão prazer e é a procura incessante desse prazer inicial que o leva a consumir outra e outra vez” (p. 115).

“Contestação:

Um jovem que aceita tudo, que não contesta, que não contrapõe, não está a crescer de uma forma equilibrada. De facto, a sua personalidade estrutura-se justamente pela oposição ao que está estabelecido, pela crença generalizada de que, a partir de si, irá surgir um mundo novo. São os limites que lhe são impostos pela geração dos pais, bem como os seus mitos e valores, que actuam como padrões de referência e os obrigam a colocar-se no meio, a procurar o seu lugar como indivíduos dentro de uma família e de uma comunidade” (p. 124-125).

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“Dificuldades para a cura:

O que é realmente aflitivo na toxicodependência é o facto de raramente o doente assumir que é doente, não se querer tratar, desestabilizar a família e provocar problemas que já não são do foro da saúde mas que envolvem outros pelouros como sejam a polícia, os tribunais e a prisão.
A família, que fica também doente e que normalmente, acaba por se retirar da frente da batalha por se sentir esvaída, sem forças, para continuar a lutar.
A comunidade, que se sente ameaçada pelo toxicodependente (porque mente, rouba, agride e mata) e reage por vezes hostilizando-o” (p. 149).

“Enquanto as famílias não acordarem para esta realidade, os avanços serão sempre poucos. E a realidade é esta: a toxicodependência é uma doença do corpo, do espírito, da família e da sociedade em geral.
Quem a acompanha e quem a trata não podem ser só os médicos, os psicólogos e os psiquiatras, mas as famílias, os professores, os empregados dos cafés e das lojas de bilhar, o treinador do clube, os patrões, os vizinhos do bairro, a cabeleireira, em suma, todos nós. A toxicodependência diz respeito a todos, porque afecta não só o dependente como a família e os amigos, os vizinhos e a comunidade” (p. 150).

“O que se deve dizer ao dependente:

-Gostamos de ti, mas não gostamos daquilo que fazes.
– Não contes connosco, para continuares a consumir droga.
– Conta com a nossa ajuda para te tratares.” (p. 153).

“O toxicodependente só se trata se lhe forem cortadas as alternativas que alimentam a sua toxicodependência” (p. 157).

“O toxicodependente é um ser em profundo sofrimento.
É fundamental que a iniciativa do tratamento pertença ao toxicodependente” (p. 158).

“Se acham que ele está a mentir digam-lho sinceramente. Tentem no entanto, utilizar mensagens «eu». Por exemplo, em vez de lhe dizer que é um aldrabão, digam-lhe a mesma coisa mas de outra forma menos agressiva e que lhe mostre simultaneamente aquilo que estão a sentir:
– Estou muito magoado com as tuas mentiras
– Fico triste com mais essa mentira
Sinto-me desiludida com o teu comportamento”(p. 165).

“Os pais argumentam muitas vezes que mais vale dar dinheiro do que ele ir roubar. É um engano. O toxicodependente sabe ao que se arrisca se roubar. Se quer correr o risco tem de assumir as consequências” (p.166).

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“Muitas famílias atingidas pela toxicodependência já se desagregaram. A realidade diz-nos que, em muitos casos, resiste apenas a mãe que acompanha o filho toxicodependente porque o pai há muito que abandonou a casa e se ilibou das responsabilidades. O inverso também é verdadeiro embora menos frequente” (p. 168).

“Nesta temática é bom estar atento para o facto de que:
«É falsa a crença de que se alguma coisa está mal, o seu contrário deve estar bem» Paul Watzlawick” (p. 199).

“A prevenção primária das toxicodependências não será já uma resposta primária para toda esta problemática?

Primeiro terá de se chegar a um consenso sobre o que é a prevenção específica das toxicodependências. Até agora, o que se tem feito, essencialmente, é uma prevenção inespecífica. É fundamental mudar de atitude e ousar ser inovador. No nosso país, esta postura pode até ser factor de despromoção profissional. Quem ousa inovar, sujeita-se a ser reduzido ao silêncio, ou a ser transformado em motivo de chacota.

Finalmente, enquanto o tratamento dos toxicodependentes não for tomado realmente a sério no nosso país e não se fizer um esforço grande no sentido de pôr termo à indiferença geral e à desenfreada exploração a que algumas organizações sujeitam as famílias que pretendem tratar os toxicodependentes, a prevenção primária será um adorno. Até porque cada toxicodependente arrasta para a droga um número considerável de amigos e colegas. Por outro lado, os consumos, sempre crescentes, tenderão a transformá-lo em mais um traficante” (p. 201).

Tem de haver outros processos, tem de haver outras ciências e especialistas de outras áreas a intervir. Sobretudo, tem de se envolver a sociedade civil num processo que é, afinal, a consequência histórica de uma série de acontecimentos e condicionalismos que as gerações dos actuais avós e pais criaram. A toxicodependência é um fenómeno incómodo, avassalador e, até agora, sem resposta minimamente eficaz. Se reflectirmos sobre o nosso planeta, em que a pessoa vale pelo que tem e não por aquilo que é, em que a competição é condição de acesso, em que o prazer só é prazer na medida em que é total e imediato, facilmente nos apercebermos de que era inevitável que aparecesse” (p. 209).

“Apesar desta descida aos infernos que é a toxicodependência, não perca a esperança. Viver é lutar pelos nossos ideais, mas sempre com os pés bem assentes na terra” (p. 209).

Bibliografia

HAPETIAN, Isabel. (1997). Famílias Entender a Toxicodependência. Verbo. Lisboa.