“Consolo para a Impopularidade”

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“Enquanto eu respirar e me encontrar em plena posse das minhas faculdades, nunca deixarei de praticar a filosofia, de vos exortar e de ensinar a verdade a todos aqueles com quem me cruzar… E assim… meus senhores… quer me absolvam ou não, saibam que não irei alterar a minha conduta, nem que tenha de morrer uma centena de mortes.”

Sócrates

E foi assim, que [Sócrates] acabou os seus dias numa prisão ateniense, sendo a sua morte um marco decisivo na história da filosofia. Mas o filósofo não se curvou diante da impopularidade e da acusação do Estado. Não renegou as suas ideias pelo facto de outros se terem queixado. (…). A filosofia fornecera a Sócrates convicções que lhe davam uma confiança racional, e não histérica, perante a rejeição. (…) tal independência de espírito foi para mim uma revelação e um incitamento. Provava que vale a pena ir contra a tendência excessiva de adotar práticas e ideias socialmente sancionadas. Na vida e morte de Sócrates esconde-se um convite ao cepticismo inteligente. Ocultamos as nossas dúvidas e vamos atrás do rebanho porque não somos capazes de assumir o papel de arautos de verdades difíceis, até então desconhecidas. É na luta contra a submissão que o filósofo pode ajudar-nos.

Alain De Botton

Para seguir o exemplo de Sócrates devíamos encarar as críticas como atletas em treino para os Jogos Olímpicos. Suponhamos que somos atletas. O nosso treinador sugeriu um exercício para robustecer os nossos bíceps no lançamento de dardo. Exige que, equilibrados numa só perna, levantemos pesos. Uma estranha visão para os que estão de fora, que escarnecem e acham que estamos a desperdiçar as nossas hipóteses de êxito. Nos banhos, ouvimos, sem querer, um homem a explicar a outro, que estamos mais interessados a exibir os nossos belos músculos do que em ajudar a cidade a vencer os jogos. Cruel, sem dúvida, mas não há motivo para alarme se escutarmos a conversa entre Sócrates e o seu amigo Críton:

SÓCRATES – “Será que o homem que leva [o seu treino] a sério presta atenção indiscriminadamente aos elogios, críticas e opiniões de qualquer pessoa ou apenas de uma pessoa competente, o seu médico ou mestre?”

CRÍTON – “Apenas às da pessoa competente.”

SÓCRATES – “Então devia regozijar-se com os elogios do seu mestre e temer as suas críticas, mas ignorar as do público em geral.”

CRÍTON – “É óbvio.”

SÓCRATES – “Devia pautar as suas acções, os seus exercícios, a sua comida e a sua bebida pelos ensinamentos do homem que o dirige e é competente, e não pelas opiniões do restante público.”

“Não achas que por princípio não se devem respeitar todas as opiniões humanas, mas apenas algumas, outras não… respeitar as boas e não as más? E as boas são as das pessoas com discernimento, enquanto que as más são as das pessoas que o não têm… Por isso meu bom amigo, não devemos dar grande importância ao que a populaça dirá a meu respeito, mas sim ao que os peritos em questões de justiça e injustiça dirão.”

Sócrates

(…). Deve ter sido difícil de suportar, deve ter requerido o tipo de força acumulada ao longo dos anos de conversas com o povo ateniense : a força para, em certas circunstâncias, não levar a sério as opiniões dos outros. Sócrates não era caprichoso, não desprezava essas opiniões por misantropia, o que aliás entraria em contradição com a sua fé no potencial para a racionalidade existente em cada ser humano. Mas durante a maior parte da sua vida madrugara só para ir conversar com os Atenienses; sabia como funcionavam as suas mentes e que, infelizmente, muitas vezes não chegavam a funcionar, embora tivesse esperança de que um dia viessem a fazê-lo. Sabia como eles tinham a tendência para tomar posição irreflectidamente e abraçar as opiniões da maioria sem as questionar. Não era arrogância lembrar-se disso num momento de enorme oposição. Possuía a convicção de um homem racional que sabe que os seus inimigos não vão raciocinar como deve ser, mesmo que ele se abstenha de declarar que as suas ideias são invariavelmente corretas. A condenação deles matá-lo-ia; mas isso não provava necessariamente que estava errado.

Alain De Botton

 

“Sou um homem e nada do que é humano me é estranho”

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“É difícil resistir à tentação de citar autores que exprimem as nossas próprias ideias, mas com uma clareza e uma exatidão psicológica que não está ao nosso alcance. Conhecem-nos melhor do que nós próprios. O que em nós é tímido e confuso, neles é exposto de forma sucinta e elegante, e os nossos sublinhados a lápis, as anotações à margem e as frases tomadas de empréstimo mostram que aqui e ali encontrámos um pedaço de nós próprios, uma ou duas frases construídas com a mesma substância de que os nossos espíritos são feitos – uma congruência ainda mais impressionante quando a obra foi escrita na época das túnicas e dos sacrifícios animais. Convidamos essas palavras a comparecer nos nossos livros para celebrar o facto de elas nos terem recordado quem somos.”

 

COMO DEVEM SER AS PESSOAS INTELIGENTES:

É vulgar partirmos do princípio de que estamos perante um livro altamente inteligente quando não o entendemos. As ideias profundas não podem, ao fim e ao cabo, ser expostas numa linguagem infantil. (…). Não há, insinuava Montaigne, qualquer motivo legítimo para os livros de humanidades serem difíceis ou enfadonhos; a sabedoria não exige uma sintaxe ou um vocabulário especializados, nem o público beneficia em ser aborrecido. Usado como critério, o aborrecimento pode tornar-se um indicador precioso do mérito de um  livro. (…). Perante qualquer obra difícil temos de escolher entre acusar o autor de ineficácia por não ser claro, ou a nós de estupidez por não estarmos a perceber nada. Montaigne encorajava-nos a culpar o autor.”

A dificuldade é uma moeda que os eruditos fazem aparecer por artes mágicas para não revelarem a futilidade dos seus estudos e que a estupidez humana aceita de bom grado como forma de pagamento.”

Michel de Montaigne

 

O QUE AS PESSOAS INTELIGENTES DEVEM SABER:

 

“Devem conhecer os factos (…). O que importa num livro é que ele seja proveitoso e útil à vida; transmitir com exatidão o que Platão escreveu ou Epicuro queria dizer tem menos valor do que descobrir se o que eles disseram é interessante e pode ajudar-nos nas nossas horas de ansiedade e solidão. Os humanistas não são obrigados a uma precisão quase científica, mas sim à promoção da felicidade e da saúde.”

“Escrevo em minha casa, no campo, onde não há ninguém para me ajudar ou corrigir e onde normalmente não convivo com ninguém que saiba rezar o padre-nosso em latim, quanto mais falar francês corretamente.”

Michel de Montaigne

 

ONDE DEVEM AS PESSOAS INTELIGENTES IR BUSCAR IDEIAS:

“A pessoas mais inteligentes do que elas. Devem constantemente citar e comentar as grandes eminências que ocupam os ramos mais elevados da árvore da sabedoria. (…). Montaigne deve muito a essa ideia. Há nos “Ensaios” frequentes comentários e centenas de citações de autores que, na opinião de Montaigne, tinham exposto determinadas ideias com uma precisão e uma inteligência que ele nunca conseguiria igualar. Citou Platão cento e vinte e oito vezes, Lucrécio cento e quarenta e nove e Séneca cento e trinta.”

“Às vezes consigo que outros digam aquilo que eu próprio não consigo explicar igualmente bem, por vezes devido à pobreza da minha linguagem, outras devido à pobreza do meu intelecto… [e] outras… para refrear o atrevimento dos críticos que anseiam atacar qualquer espécie de texto escrito por autores ainda vivos… Tenho de esconder as minhas fraquezas debaixo das grandes autoridades.” 

Michel de Montaigne

Excerto retirado de Alain De Botton in “O Consolo da Filosofia

Michel Eyquem de Montaigne foi um político, filósofo, pedagogista, escritor e cético francês, considerado como o inventor do ensaio pessoal. Nas suas obras e, mais especificamente nos seus “Ensaios”, analisou as instituições, as opiniões e os costumes, debruçando-se sobre os dogmas da sua época e tomando a generalidade da humanidade como objecto de estudo. É considerado um céptico e humanista.