“Sou um homem e nada do que é humano me é estranho”

Publicado por: Milu  :  Categoria: PARA PENSAR, Sou um homem...

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Imagem retirada daqui

 

 

“É difícil resistir à tentação de citar autores que exprimem as nossas próprias ideias, mas com uma clareza e uma exatidão psicológica que não está ao nosso alcance. Conhecem-nos melhor do que nós próprios. O que em nós é tímido e confuso, neles é exposto de forma sucinta e elegante, e os nossos sublinhados a lápis, as anotações à margem e as frases tomadas de empréstimo mostram que aqui e ali encontrámos um pedaço de nós próprios, uma ou duas frases construídas com a mesma substância de que os nossos espíritos são feitos – uma congruência ainda mais impressionante quando a obra foi escrita na época das túnicas e dos sacrifícios animais. Convidamos essas palavras a comparecer nos nossos livros para celebrar o facto de elas nos terem recordado quem somos.”

 

COMO DEVEM SER AS PESSOAS INTELIGENTES:

É vulgar partirmos do princípio de que estamos perante um livro altamente inteligente quando não o entendemos. As ideias profundas não podem, ao fim e ao cabo, ser expostas numa linguagem infantil. (…). Não há, insinuava Montaigne, qualquer motivo legítimo para os livros de humanidades serem difíceis ou enfadonhos; a sabedoria não exige uma sintaxe ou um vocabulário especializados, nem o público beneficia em ser aborrecido. Usado como critério, o aborrecimento pode tornar-se um indicador precioso do mérito de um  livro. (…). Perante qualquer obra difícil temos de escolher entre acusar o autor de ineficácia por não ser claro, ou a nós de estupidez por não estarmos a perceber nada. Montaigne encorajava-nos a culpar o autor.”

A dificuldade é uma moeda que os eruditos fazem aparecer por artes mágicas para não revelarem a futilidade dos seus estudos e que a estupidez humana aceita de bom grado como forma de pagamento.”

Michel de Montaigne

 

O QUE AS PESSOAS INTELIGENTES DEVEM SABER:

 

“Devem conhecer os factos (…). O que importa num livro é que ele seja proveitoso e útil à vida; transmitir com exatidão o que Platão escreveu ou Epicuro queria dizer tem menos valor do que descobrir se o que eles disseram é interessante e pode ajudar-nos nas nossas horas de ansiedade e solidão. Os humanistas não são obrigados a uma precisão quase científica, mas sim à promoção da felicidade e da saúde.”

“Escrevo em minha casa, no campo, onde não há ninguém para me ajudar ou corrigir e onde normalmente não convivo com ninguém que saiba rezar o padre-nosso em latim, quanto mais falar francês corretamente.”

Michel de Montaigne

 

ONDE DEVEM AS PESSOAS INTELIGENTES IR BUSCAR IDEIAS:

“A pessoas mais inteligentes do que elas. Devem constantemente citar e comentar as grandes eminências que ocupam os ramos mais elevados da árvore da sabedoria. (…). Montaigne deve muito a essa ideia. Há nos “Ensaios” frequentes comentários e centenas de citações de autores que, na opinião de Montaigne, tinham exposto determinadas ideias com uma precisão e uma inteligência que ele nunca conseguiria igualar. Citou Platão cento e vinte e oito vezes, Lucrécio cento e quarenta e nove e Séneca cento e trinta.”

“Às vezes consigo que outros digam aquilo que eu próprio não consigo explicar igualmente bem, por vezes devido à pobreza da minha linguagem, outras devido à pobreza do meu intelecto… [e] outras… para refrear o atrevimento dos críticos que anseiam atacar qualquer espécie de texto escrito por autores ainda vivos… Tenho de esconder as minhas fraquezas debaixo das grandes autoridades.” 

Michel de Montaigne

Excerto retirado de Alain De Botton in “O Consolo da Filosofia

Michel Eyquem de Montaigne foi um político, filósofo, pedagogista, escritor e cético francês, considerado como o inventor do ensaio pessoal. Nas suas obras e, mais especificamente nos seus “Ensaios”, analisou as instituições, as opiniões e os costumes, debruçando-se sobre os dogmas da sua época e tomando a generalidade da humanidade como objecto de estudo. É considerado um céptico e humanista.

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