Umas para as outras

Publicado por: Milu  :  Categoria: PARA PENSAR, Umas para as outras

 

 “Nada na vida deve ser temido, somente compreendido. Agora é hora de compreender mais, para temer menos.”

Marie Curie

“A solidariedade constitui o conjunto de qualidades de cidadania que torna possível o triunfo da justiça. Amelia Valcárcel assinala que não se trata de empatia, nem de compaixão, nem de benevolência, nem sequer de apoio indiscriminado:

– é uma virtude igualitária, uma virtude política moderna que implica simetria e não hierarquia. 

Ser solidária significa formar comunidade, e por isso, liga-se à justiça. Exige a junção de meios simétricos para alcançar objectivos comuns que não se atingiriam individualmente. Só a simetria real garante a democracia, sem ela não há igualdade. Victoria Camps afirma que, embora possamos sustentar ideias diferentes e, até, opostas, é possível sermos, simultaneamente, solidárias. O que torna a sociedade mais injusta é a falta de cooperação.

Existe consenso quanto ao facto de a solidariedade ser uma prioridade, instrumental e política, para que as mulheres do século XXI consigam influir nas decisões dos círculos do poder. Ao mesmo tempo, pretendemos que esta ética se torne extensiva a toda a sociedade. 

A solidariedade procura juntar o que homens e mulheres entesouraram. Visa refazer identidades. (…). A solidariedade, sublinha Elena Simón, é a garantia primeira e última da sobrevivência pacífica e justa à face da Terra, pois envolve também, uma relação equilibrada, harmoniosa e justa entre os seres humanos, homens e mulheres, com os recursos da natureza e os elementos que a cultura põe ao nosso alcance. Para Elena Simón, a solidariedade activa deve fundir as componentes do cuidado com as da justiça; a intimidade e a assistência com a auto-realização e a individualidade. Trata-se de um pacto intragénero que exige um novo conceito de fraternidade solidária entre mulheres, baseado na cumplicidade e no reconhecimento da autoridade.

A solidariedade impõe-nos alguns deveres colectivos, entre eles o fixarmos objectivos comuns, ampliarmos o conceito de cidadania, resgatarmos os saberes das mulheres, impulsionarmos lideranças para a mudança: a mobilização com sentido político, em última análise.

Assinala Amelia Valcárcel – minha amiga e mestra – que a prática da solidariedade pode exigir um pacto de silêncio, qualquer coisa do género: «eu, pessoa do sexo feminino, estou disposta a não criticar nenhuma acção ou decisão tomada por outra pessoa do mesmo sexo, a não ser que extravase de certos limites que um ser humano não deve ultrapassar.» Não se trata de um compromisso de apoio indiscriminado, mas apenas de não criticar; as acções públicas de uma mulher tenderiam a ser julgadas como acções femininas e, perante isso, há que acrescentar, matiza Valcárcel, que não se utilizará como explicação para a conduta de uma mulher precisamente o facto de ser mulher, excepto em casos valorativos.

A solidariedade acima de antipatias e de algumas distâncias políticas não significa que tenhamos de achar que todas as mulheres são simpáticas, nem que tudo o que fazem nos pareça correcto. Comporta, sim, a renúncia à vingança: deve-se ser solidária mesmo com aquela que é insolidária, embora sem cair nas armadilhas que se estendem quando se admite uma continuidade genérica sem fissuras, que não existe. Ainda segundo a autora, a solidariedade não pode ser levada ao limite de aceitarmos ideologias que favorecem a sujeição das mulheres. O que se propõe é uma solidariedade inteligente e crítica a partir de uma consciência feminista. Daí passaríamos à solidariedade afirmativa, solidariedade com as mulheres que trabalham no interesse das mulheres. A solidariedade a que nos referimos envolve, em suma, a prática de dar e receber ajuda entre as mulheres e a favor das mulheres.

Na opinião de Clara Coria, quando se fala de solidariedade convém distingui-la do altruísmo, tão familiar às mulheres, e do ideal materno. O chamado altruísmo feminino é um método sofisticado de naturalizar serviços – e servilismos – exercidos por mulheres, que acabam por contribuir automaticamente para a sua perpetuação. Uma consequência directa desta espécie de altruísmo é a compulsão, que tantas mulheres sentem, para tomar conta das necessidades alheias e agir como mães complacentes e solícitas, nomeadamente de filhos que se valem por si ou, em casos extremos, de toda a gente (mal nos descuidamos estamos a fazer de mães). A feminização do altruísmo, continua Clara Coria, é um dos mecanismos mais eficientes para geral culpas e tecer redes à volta das mulheres, como se nos identificássemos todas com Pandora, sobre quem pesa a responsabilidade do bem estar ou da desgraça da humanidade, conforme vimos ao abordar a misoginia, receosas de nos sentirmos desnaturadas ao dizermos «não».

A ética da reciprocidade traça a linha divisória entre altruísmo e solidariedade. O altruísmo exige renúncia, entrega incondicional e subordinação dos interesses próprios aos alheios. Pelo contrário, negociar consiste em pôr condições, em legitimar os desejos pessoais, em defender as conveniências próprias: a negociação é incompatível com o altruísmo. Como, para muitas mulheres, a medida do amor é dada pelo grau de altruísmo demonstrado, a negociação provoca uma ferida profunda na imagem idealizada do amor altruísta (mas negociar não é vender a alma ao diabo). A solidariedade, conclui Clara Coria, não consiste em ceder espaços e renunciar a aspirações legítimas, mas em repartir equitativamente tanto os inconvenientes como as vantagens, diminuindo marginações e privilégios.

A sororidade estabelece-se em paralelo à fraternidade – irmandade masculina e patriarcal, consciente ou inconsciente, herança histórica e tradicional: é um valor forjado a partir de uma situação discriminatória e, por conseguinte, não admitido nem reconhecido. Por se tratar de uma resposta à discriminação, constitui-se em redes defensivas: lobis de mulheres, organizações, experiências económicas femininas, etc.

E também falamos de sororidade (como princípio, arma contra a misoginia). Já se sabe que não se trata de as mulheres se conceberem como uma identidade amorfa, não se trata de misticismo, antes de uma consciência comum, no dizer de Luisa Posada, consciência que as mulheres foram tecendo sobre a necessidade de se «irmanarem» com outras mulheres. Isto confere ao termo «sororidade» um eco positivo, também historicamente detectável (entre mulheres que se concederam e concedem, «livre e mutuamente»,  a categoria de «indivíduas»*, que se vão colocando ao lado da outra e não do outro, do irmão), com vista a questionar e alterar a situação de relegamento traçada pelo domínio patriarcal… Ao longo da História, houve mulheres que transpuseram o limiar da pura consciência da sua marginalização, transformando a sororidade em acções intelectuais e políticas de recusa e denúncia da ideologia dos pactos patriarcais.

A sororidade é um conceito ético e estético nascido da necessidade de inaugurar uma cultura de pactos implícitos e explícitos entre mulheres. Contém conotações de concórdia e conformidade. A ética da sororidade tem por fundamento a ética do desenvolvimento colectivo a partir do individual. Melhorar a vida das mulheres é um objectivo alcançável, não uma utopia remota, diz-nos Marcela Ladarde. Trata-se de conseguir avanços de género, das mulheres em conjunto, e da mulher como indivíduo.

O sincretismo de género é a base da sororidade, a consciência de que não somos idênticas, afirma Marcela Lagarde. Através da sororidade potenciámo-nos a nós mesmas, interrogamo-nos sobre a maneira de nos dotarmos de poder simbólico, desenvolvemos a consciência da semelhança. A sororidade significa refundar uma cultura comum com base na paridade. Recusar o essencialismo: as mulheres não são boas nem más em termos absolutos. Exige também a aliança política entre mulheres, que nos apoiemos para encontrar novos caminhos, para encontrar as nossas chaves específicas. E, noutro plano, outorgar humanidade: não fazer às outras o que não queremos para nós.

A sororidade surge do reconhecimento das desigualdades, a partir das mulheres reais; é uma tendência do feminismo do século XX que tende a remover as estruturas em que se baseia a rivalidade, sem idealizações frustrantes, substituindo a culpa pela responsabilidade, tentando descobrir as chaves da dependência, a fim de viver relações assentes na autonomia, no «eu mesma». Autonomia significa ter recursos próprios, juízos próprios, ideias e valores próprios. Para que cada uma esteja a favor de si, precisa de possuir ou de procurar condições para viver, conforme lembra Marcela Lagarde.

A sororidade, segundo Lagarde, é uma solidariedade com limites; por ser solidariedade, implica generosidade e não dádiva, implica o reconhecimento da paridade, sem dependência; significa reciprocidade, ou seja: tenho algo para dar e posso receber algo. Cada mulher tem direito – e eu também – a ser ela própria, e a mesmidade constrói-se dentro de limites. Porque a sororidade não pressupõe incondicionalidade, não se trata de repetir a fantasia materna da incondicionalidade da abnegação, do sacrifício.

Tratar-se-ia, também, de aprender a ouvir, de respeitar, partilhar, buscar proximidade, cordialidade, equilíbrio, sintonia.

(…)

A sororidade é uma alternativa complexa que nos coloca em melhores condições para enfrentar conflitos entre mulheres. Permite reconhecermo-nos como pares, semelhantes, dignas de respeito e consideração. Sem respostas dogmáticas, desenvolver os poderes vitais para viver bem e desfrutar a vida. Termino recorrendo de novo a palavras de Marcela Lagarde:

As mulheres necessitam de meios para enfrentar situações hostis e transformar as relações negativas entre si (como temos vindo a repetir ao longo do livro, entre nós não se verificam apenas situações positivas, mas também situações de conflito e, por vezes, as tensões exprimem-se com agressividade). Precisamos de contribuir para criar bases e ambientes propícios a relações de apoio e de solidariedade. Isto arrasta o desenvolvimento de formas benéficas de cooperação entre mulheres comprometidas com o avanço pessoal e colectivo de género. É uma experiência contemporânea, continua Marcela Lagarde, fruto da identificação positiva de género e da comunhão de interesses e necessidades entre mulheres. É, também, o resultado da associação real de dezenas de milhar de mulheres no mundo inteiro, interessadas na construção de metas comuns, e do gosto de conhecer mulheres admiráveis e partilhar experiências criativas entre nós.”

Nota: No livro está escrito o termo »indivíduas» e não indivíduos.

 

Bibliografia

 

ALBORCH, Carmen. (2004). Mulheres Contra Mulheres. Rivalidades e Cumplicidades. Editorial Presença. Barcarena. pp. 212-217.

Um comentario to “Umas para as outras”

  1. Alfredo Dias Poeta Diz:

    Olá bom dia amiga. Acabo de ler este seu trabalho. Acho excelente esta abordagem à vida das mulheres e seus relacionamentos. Para um trabalho destes implica ler muita filosofia nessa área. Parabéns

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