Por uma questão de fruta

Publicado por: Milu  :  Categoria: FLAGRANTES DA VIDA, Por uma questão...

“A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original.”

ALBERT EINSTEIN

Tal como tenho vindo a narrar, algumas vezes houve em que me sujeitei a duras provações, quando ajudava nas tarefas domésticas ou fazendo recados para um casal meu vizinho, esperando que depois dos trabalhos feitos, me deixassem ir para a pequena sala, para que pudesse ver os meus heróis – meus e de toda a criançada – que naquela época pululavam nos écrans da televisão. Quando eu não lograva aparecer, e esta senhora de mim precisasse para lhe fazer um determinado recado, ela mesma tratava de me chamar, utilizando uma espécie de isco, “o convite”, expressão então muito utilizada para designar a recompensa ou pagamento por um favor prestado, que para mim, tanto podia ser uma moeda de 20 centavos ou até mesmo uma moeda de 50 centavos, mas neste último caso só em ocasiões verdadeiramente excepcionais, raríssimas mesmo.

Mas também podia estar com a mosca e dar-me uma porcaria qualquer, que logo à saída da sua casa eu atirava para dentro de um oportuno silvado, que ali vingava agarrado a um dos muros do imenso jardim da moradia. Num belo dia, depois de lhe ter feito um recado, deu-me um saco de maçãs já um tanto tocadas, pegando numa faca explicou-me como deveria fazer quando fosse para casa e quisesse comer as maçãs, e lá andava a espetar a ponta da faca cortando em redor de uma auréola castanha de apodrecida, aproveitando-se assim pouco mais de metade da maçã. Bem, já estão a ver o destino que dei às apodrecidas maçãs. Isso mesmo! Foram direitas que nem um fuso, para o emaranhado das silvas!

Noutro dia qualquer, após ter-lhe feito mais um recado, espetou-me precipitadamente um melão nas mãos e de rompante fechou-me na cara a porta da entrada da sua casa, gorando-me assim, as minhas intenções de por lá me demorar a ver televisão. Surpreendida com aquela reacção que não lhe era habitual, ali me quedei uns instantes a tentar perceber o que estaria por detrás de semelhante destempero. Senti-me como que enxotada e não gostei disso. Entretanto havia percebido que o melão chocalhava por dentro, como se estivesse cheio de líquido. Desiludida por me ver ali sozinha e rejeitada, assim como assim, perdida por um, perdida por mil, ali mesmo em frente à porta da ingrata senhora, abri as mãos e deixei cair o melão, que voando em queda livre se foi escaqueirar no cimento derramando o liquefeito interior, como se, de um ovo partido se tratasse. Sem mais delongas, voltei costas, triste e com o rabito entre as pernas encetei o caminho de casa. Mas já ia arrependida! Em passos miúdos, fui caminhando cabisbaixa e embrenhada em pensamentos tenebrosos, que me toldavam a minha natural alegria de criança, temendo pelas consequências da acção que havia acabado de cometer. Receava que a dita senhora decidisse contar à minha mãe aquele meu ousado acto, que naqueles tempos podia ser considerado uma grave falta de respeito por um adulto, logo, a clamar por uma forte reprimenda. Amargurada, fui-me preparando para levar um par, ou mais, de lambadas bem repuxadas. Para meu infinito contentamento nada disso aconteceu, já que os meus funestos prognósticos não se confirmaram.

Passados uns tempos, a senhora, muito sorridente e com uma voz de mel que aprendi a detestar-lhe, por a pressentir falsa, visto que não combinava com as acções que praticava, veio até mim, para me pedir que lhe fizesse um recado. Acedi de bom grado, até porque o meu ressentimento havia-se dissipado, demais a mais, estava ansiosa para matar as dolorosas saudades dos meus heróis televisivos, que tanto me encantavam.

Mas, um dia houve, em que esta senhora exagerou na incúria! Entregou-me um malote com umas quantas garrafas vazias de laranjada,  de gasosa e de cerveja, para que as fosse trocar pelas respectivas garrafas cheias, num estabelecimento misto, mercearia e taberna, situado ali num bairro próximo. Não se lembrou, ou não quis saber, que uma vez o malote carregado com as garrafas cheias seria demasiado pesado para as minhas forças. Foi com bastante sacrifício e força de vontade que, aos poucos, e parando diversas vezes para descansar, consegui percorrer aquele que me pareceu um longínquo percurso. Cheguei cansada, mas ao mesmo tempo feliz, por ter sido capaz de desempenhar tarefa tão árdua. No fundo, estava imensamente satisfeita porque esperava que o meu esforço fosse grandemente reconhecido pela senhora, que a meu ver, me ofertaria com uma boa recompensa. Mas, desgraçadamente, não foi isso que aconteceu…

No exacto momento em que cheguei, vinda de fazer o recado, chegou também uma menina da minha idade, filha de um casal inquilino desta senhora, que ali bem perto tinha um prédio de quatro apartamentos, os quais se encontravam alugados a famílias pretensamente distintas e bem na vida. E foi nestes instantes que pude assistir sem pagar bilhete a um dos espectáculos mais deprimentes de toda a minha vida: A senhora, toda ela eram mesuras e vénias, com vozinhas de menina foi perguntando à miúda como ia o papá e a mamã e outras lamechices com as quais pretendia fazer-se passar pelo que não era, isto é, educada, fina e requintada. Quando a miúda manifestou a intenção de se ir embora, aquela senhora achou por bem que da sua casa não iria sair de mãos a abanar, pelo que lhe ofertou um viçoso, belo e garboso cacho de uvas cujos bagos de tão cheios pareciam ameaçar rebentar. Virando-se para mim, aquela malfada mulher, naquele seu jeito odioso de imitar a voz infantil, disse-me “toma o teu convite”, ao mesmo tempo que esticava o braço em cuja mão segurava um triste e miserável cacho de uvas que pendiam apagadas e sem viço, de tão mijonas!  Era então esta  a minha  recompensa, que me dava pelo meu supremo esforço e boa vontade de carregar com o maldito malote! A outra menina, que não tinha  feito a ponta dum corno, afinal, tinha nas mãos  aquilo que devia ser meu! Olhei para o meu esbandalhado cacho de uvas e senti-me a criatura mais infeliz do mundo. Vi a outra menina a olhar perturbada, porque também ela havia percebido a monstruosidade desta acção. Mas também vi outra coisa que muito me magoou!

Vi que ela parecia uma boneca, toda  enfeitada por laçarotes e de vestido aos folhos em cor-de-rosa, enquanto eu, para ali andava de qualquer maneira e feitio, vestida às três pancadas, com uns frangalhos quaisquer de cor escura, por serem menos sujadeiros, mas sujos, estavam de certeza, os sapatos cambados e sem graça, deteriorados pelas minhas brincadeiras e corridas pelos campos. No mais fundo do meu íntimo senti alguma revolta por ser assim, desajeitada e sem graça, e, também, por não ter uma família  rica e requintada como aquela menina, para também eu poder chamar os meus  queridos pais de papá e mamã, em vez de, simplesmente, pai ou mãe, como só os pobres faziam.

Mas a vida não se cansa de nos dar lições, e uma dessas lições diz-nos que nem tudo o que parece é! Certa vez, a família desta menina, que me parecia uma boneca de porcelana, mudou-se para outra localidade, mas atrás de si deixou o rasto de uma matilha de cães que ladravam furiosamente.  Assim também os meus pais podiam fazer vida de ricos! E eu virava uma boneca!

40 Comentarios to “Por uma questão de fruta”

  1. Vicktor Diz:

    Querida Miluzinha

    Que bonita estória de vida que aqui partilhaste com todos nós, escrita de uma forma tão bonita que nos prende na sua leitura até ao fim.

    Um Beijinho.

  2. Zé do Cão Diz:

    Não te conheço pessoalmente. Mas o facto de me deixares tratar-te por tu, de escreveres coisas lindas e cheias de sentimento, fazem de ti a menina mais linda do Mundo.
    Adora os teus escritos…
    Só uma pitadinha de uma coisa gira.
    Tenho dois moços, duas estampas de homens. Ambos na flor da idade. 29/27 anos. O mais novo, estava sempre pronto para me fazer recados. Até que um dia, para meu espanto,(com 5 anos) quando lhe pedi para me alcançar qualquer coisa, saiu-se com esta.

    “Isto é trabalho infantil e qualquer dia vou queixar-me de ti”
    Pelo menos avisou-me…
    Agarrei-me a ele e lambuzei-o de beijos.
    Bj.

  3. António de Almeida Diz:

    As aparências iludem…

  4. Milu Diz:

    Olá Vicktor.

    Ultimamente, sempre que pairo por aqui, embrenhada nestas minhas histórias de vida, chego a perguntar-me como teria sido melhor para mim: Se ter vivido todas estas vivências, ainda que naqueles momentos elas me magoassem, ou se, pelo contrário,ter sido poupada e agora sentir-me vazia, completamente oca de referências e sentimentos, que se desenvolvem naquelas tenras idades. Tenho para mim de que existem coisas pelas quais temos de passar, ou elas passarem por nós, para que possamos ser uns seres um pouco mais completos. O que não quer dizer que faço a apologia do sofrimento, como faz a religião cristã, principalmente. Aliás, estas minhas experiências de criança nem sequer são situações de sofrimento, são mais como que umas exposições da natureza do ser humano, que às vezes nem sempre sabemos aproveitar como lições de vida.
    Um beijinho.

  5. Milu Diz:

    Olá Zé

    És tão cristalino e afável, que me seria extremamente difícil não usarmos entre nós o tratamento por “tu”. Cultivas de boa vontade o tratamento informal entre as pessoas com que te vais cruzando, ainda que virtuais. Também assim sou, mas normalmente aguardo que os outros me dêem abertura para tal, ao menos uma nesgazinha, mas contigo não foi preciso, porque te esbanjas por todos os poros, de tão genuíno e espontâneo!

    Comovi-me com o que contaste dos teus filhos e, quando lambuzaste o pequenito, depois de lhe teres ouvido a tirada com que te divertiu. O meu filho nunca me fez recados, vive para o computador. Quando sai da cama nem lava os olhos, imediatamente vai direito ao computador, de onde já ninguém o arranca. Aquilo é o mundo dele. No entanto sempre que lê por aqui os meus escritos ri-se e diz-me que não sabe nada de mim. Fica admirado por eu ter um mundo muito meu, além daquele que é de nós dois. Parece que vive alienado do facto de que eu antes de o ter já tinha tido toda uma vida, logo, não pode saber tanto de mim, como pensa que deveria saber.

    Quanto a mim, sempre gostei de fazer recados e também à minha mãe. Aos sábados ela costumava ditar-me uma lista de compras, que eu mesma ia fazer à mercearia do costume. Fazia-o com bastante gosto e não me importava nem um pouco de carregar a pesada seira, afinal, por entre todas aquelas compras tornava-se-me mais fácil comprar, sem a minha mãe me ter autorizado, um pacote de bolachas, visto que aquela parcela ficava dissimulada por entre todas as outras das mercearias, nem o dono da loja desconfiava, porque ele já sabia o que a casa gastava! Se ele me desse “ancas” muitas gulodices teria eu comprado, e com isso contribuído para o aumento desmesurado da conta que a minha mãe lá tinha em aberto e que pagava com todo o rigor logo no final do mês, quando recebia o salário.

    Depois tinha de ir comer as bolachas sozinha, escondida debaixo de uma frondosa figeira, que crescia ao deus dará, lá num dos campos nos quais gostava de brincar, correndo e saltando sem nunca me cansar.
    Um beijinho.

  6. Milu Diz:

    Olá A. Almeida!

    Oh! Se iludem… Principalmente quando muito fazemos para isso! E como somos todos tão fracos, nesse aspecto!…

  7. congeminações Diz:

    À medida que te vou conhecendo através destes episódios que vais partilhando connosco cresce o meu orgulho de te ter como amiga virtual. Defeitos terás como toda a gente, mas denotas uma sinceridade que não é muito habitual nos dias de hoje. De resto e infelizmente nesta sociedade podre em que vivemos grande parte das pessoas vivem das aparências tal qual os pais da tal menina que recebeu de oferta o invejável cacho de uvas e que quando seus progenitores se mudaram deixaram uma série de dívidas porque viviam de aparências, realidade que hoje quase se torna uma vulgaridade não só dos grandes centros urbanos mas também em localidades de menor dimensão. Um abraço
    Raul

  8. zé do cão Diz:

    Com que então também tens um “nino” e a gostar disto, quem não gosta!!..
    Pois o meu “nino”, além de Psicólogo, também é Eng informático, com mestrado e tudo, parte na próxima 4ª feira, à aventura de investigação numa Universidade dos “cenouras”. (Inglaterra), depois de ter estado 6 meses em Oulu na Finlândia. Faltam dois dias para partir e já estou com saudades dele. Não resisti de dizer isto…
    Vivemos para eles, não é?

    beijocas

  9. lilás Diz:

    Mais uma das tuas lindas histórias, que me encantam e me trazem aqui sempre com vontade de ler mais. Obrigada pelas tuas partilhas e que orgulhosa fico por te saber também “levada da breca”.
    Beijinhos

  10. flordeliz Diz:

    Tens um poder fantástico de cativar e nos prender ao que contas. Apetecia-me pedir licença, entrar e ajudar a aliviar a carga das laranjadas e afins. Por momentos tive esperança que te tivesses deliciado retirando uma das garrafas. Ou ainda, que fizesses como depois da colheita das uvas, pisasses as “mijonas” bem na frente da malvada e ingrata da mulher.
    Parece que a aparência nem sempre serve para tudo. Pelo menos “os cães” não largam o osso mesmo quando as bonecas estão bem vestidas. 😉
    Tinha uma vizinha que também abusava dos “pedidos”. A mim nunca me ofereceu nada. Mas era carinhosa e uma simpatia de senhora e como me deixava pegar nas crianças que tinha a seu cargo (era ama) eu já me dava por satisfeita.
    Mas quando eu ouvia —(inha) já sabia que era para lhe ir ao pão ou à mercearia. Só não gostava de fazer uma coisa: descascar o feijão que ela deitava demolho para a sopa dos bebés. A gente apertava a casca e o grão saltava para todos os lados menos para a vasilha. E depois…aquilo não tinha fim! 🙂

  11. José Pinto Diz:

    Olá Milu
    Lá foi o melão! Gostei dessa.
    Quem, como eu, tem seguido com imensa curiosidade este relato do seu passado com aquela condessa, já estava cá com um gasganete… sempre à espera que a Milu lhe pregasse uma das suas!
    Achei bem moralista o fim da história daqueles inquilinos que se pavoneavam com um estatuto social meramente aparente. Afinal, sumiram-se dali sem honra nem glória. No meio disto tudo, a boneca de porcelana também foi uma vítima. Que futuro para ela, com tais formadores da sua personalidade?

    Grandes textos, Milu!
    Um abraço

  12. CybeRider Diz:

    Milu, que descrição deliciosa. Recordo em consequência muitas coisas dessa altura, mas acabo sempre no denominador comum do relacionamento que tinha com os outros miúdos da rua. De facto acabo por não ter muito a recordar da tirania dos adultos, talvez por ter acabado a maior parte daqueles dias à “rédea solta”, e por algum factor sorte que me terá livrado de embaraços. Sem comparação qualitativa tenho de acabar por me gratificar, por um lado, dos dias em que acabávamos ao soco e à pedrada, mas tenho de lamentá-lo por outro: como posso relatar tais brutezas?

  13. Milu Diz:

    Olá Raul

    Fiquei comovida quando disseste no teu comentário, que sentias orgulho em me teres como amiga virtual. Gostei muito disso, porque esse sentimento é muito raro! Apesar de, no nosso dia-a-dia, lidarmos com muitas pessoas, umas pelas inerências da vida, porque tem de ser, e outras, também, porque gostamos delas, na certeza porém, nem sempre de todas elas nos é dado sentir orgulho. Porque sentir orgulho por alguém é a mesma coisa que sentir admiração por esse alguém, por isso, ao ler o que me disseste me senti assim, emocionada.
    De facto, apesar de todos os nossos progressos, seja na melhoria de vida e bem-estar, seja na educação e informação, a verdade, é que cada vez mais se impõe o faz-de-conta, chega a parecer uma contradição. Afinal, cada vez mais vivemos num mundo de mentira! Parece que quem não mente, não se governa!
    Um grande abraço.

  14. Milu Diz:

    Olá Zé.

    Fico contente por ti! Pelo teu filho ter sido, porventura, tudo aquilo que tanto desejaste que ele fosse, ou ainda mais. Não posso dizer o mesmo que tu, porque o meu filho nem sequer gosta de estudar. Eu bem o incentivo, digo-lhe até que é um crime não cuidar de aproveitar todas as boas oportunidades, que actualmente tem ao seu dispor. Mas ele quer lá saber disso, ou do que digo!? No fundo, ele tem um sonho, mas penso que lhe falta empenho e força no carácter para ter iniciativas que melhor contribuam para a concretização desse sonho. Não basta sonhar para que as coisas aconteçam, é preciso, também, saber dar uns empurrões, e é neste ponto que, quanto a mim e na minha maneira de ver, ele falha grandemente!

    Diz ele, que gostava de ir para os EUA trabalhar num Data center, porque gosta de ser administrador de sistemas, mas para isso, melhor fora que estudasse mais um pouco, porque o conhecimento que tem necessita de ser certificado, precisa de um diploma, portanto! Mas ele não se cansa de barafustar, convencido, que basta-lhe saber que sabe! O tempo que opere, que por mim estou cansada, mas tenho muita esperança, porque já vi muitas coisas acontecerem, para o bem e para o mal! Vamos andando, é só o que me resta dizer!
    Um beijinho.

  15. Milu Diz:

    Olá Lilás!

    Oh! Sim! Eu também sabia fazer cá das minhas. Afinal, bons professores, (as manhas e vícios de alguns adultos que conhecia), não me faltavam! Mas dessas histórias não tenho tanta vontade de contar, até porque só para mim elas terão significado, porque há situações em que os nossos sentimentos se exaltam, criando momentos únicos. Mas as minhas traquinices foram sempre espontâneas! 😀
    Um beijinho

  16. Milu Diz:

    Olá Flordeliz!

    Com essa de eu poder ter-me atirado a uma das laranjadas fizeste-me lembrar uma outra situação que também hei-de escrever. Podia-o fazer agora, mas, então, passaria um tanto despercebida, por ser escrita na caixa dos comentários. Prefiro fazer um post, porque quando conto estas minhas histórias, sinto-me como se estivesse a lançar um grito, o grito, que naqueles tempos não pude lançar, porque arriscava-me a que fosse abafado por algum bofetão, para deixar de ser atrevida e respondona, que era assim que nos chamavam quando éramos mais ariscas, e muitas vezes injustamente.

    Falaste que sempre te sentias recompensada por teres feito um recado quando essa senhora, sendo ama, te deixava pegar nas crianças. Como te entendo! Para mim isso teria sido uma recompensa caída dos céus! E mais ainda se fossem bebés! Adoro bebés. É nesses momentos, em que pego num bebé e para ele olho, que sinto, que Deus tem de existir!
    A minha próxima história com esta senhora, também tem como cenário a culinária. É um bocado triste… Mas eu levava tudo aquilo numa boa, afinal, já estava habituada a todos os destemperos.
    Um beijinho.

  17. flordeliz Diz:

    Não me parece que a senhora te tenha deixado boas recordações, embora agora as contes com graça.
    Tinha a minha mãe (tem ainda acho eu!) um irmão que trabalhava na Alemanha com a esposa. Os filhos, esses, andavam cá na escola e viviam com um casal (nem sei se eram quatro se cinco miúdos) a quem os meus tios pagavam para que os cuidassem (não sei se mandava dinheiro que chegasse…) mas é assim que reza a história.
    Passaram o pão que o diabo amassou os catraios. Fome e pancada dizem que era um fartote.
    Um dia um deles o mais velho de nome Augusto virou-se para o velhote (o homem que deles cuidava) e disse: quando eu crescer juro que me vou vingar e também lhe vou bater.
    O tempo passou, eles cresceram e acabaram todos por ir parar junto dos pais na Alemanha.
    Conta-se que no primeiro ano que regressou de férias a Portugal, o Augusto foi visitar o velhote e lhe deu um enxerto de porrada.
    Claro que os miúdos não “batiam” bem da cabeça, foram criados sem mimos e sem cuidados. Mas isto só para dizer que há coisas que marcam para sempre as crianças, pela negativa ou pela positiva.
    Neste caso a promessa era parva mas parece que foi cumprida para mal dos pecados do homem.

  18. Milu Diz:

    Olá José Pinto.

    Naqueles tempos as crianças eram umas criaturas cheias de expedientes, no fundo, imperava o sentimento do “desenrasca”, por isso mesmo também eu ia arranjando formas de mitigar o sentimento de afronta que esta mulher me fazia sentir, para assim melhor me adaptar às circunstâncias do meio. A adaptação, mais não é do que um dos principais recursos para melhor sobreviver, uma lei da vida, portanto. Se via fazer mal, normal seria que também à minha conta fizesse algum. Havia em mim uma capacidade de discernimento invulgar para a época e para o lugar onde estava inserida, o que me causou alguns dissabores, diga-se a verdade, havia até quem me considerasse matreira. Antes fosse! O que se passava é que eu tinha um pensamento genuíno, não conspurcado por ideias feitas, por conseguinte, via as coisas da forma como elas devem de ser vistas, isto é, como elas são: se via que era branco, branco era, se via que era preto, é porque preto era, de nada valeria tentarem-me convencer do contrário. Por isto mesmo eu via a injustiça e o descalabro, embora nada fizesse contra isso. Tinha liberdade para pensar e julgar, mas não a tinha para agir. Via e calava, e só assim me furtava a levar uns açoites. As crianças não se queriam espertas, queriam-se submissas! Mas eu vingava-me! Oh, se vingava. Se tantas vezes ouvi proferir o provérbio “Para velhaco, velhaco e meio”, ao mesmo tempo que via cabeças adultas a acenarem de assentimento, então, porque não deveria eu mesma aplicar essa sabedoria, quando disso fosse o caso? O meu amigo José Pinto, poderá verificar isso mesmo num post que publiquei há uns tempos atrás, com o título de “Com um prato de queijos nas mãos”. Poderá não achar graça, ou achar uma grande maldade, mas, nesse caso, desde já o advirto: A consciência não me pesa!
    Mais: De cada vez que me lembro daquilo que fiz, sinto um imenso carinho por aquela criança! A criança que um dia fui.

    Quanto à boneca de porcelana, nunca mais soube dela. Talvez tenha seguido o exemplo dos pais, porque se algo tenho aprendido na vida é que os nossos actos educam mais os filhos do que as nossas palavras. Eles aprendem facilmente a fazer, ou a ser, aquilo que nos vêem fazer, principalmente aquilo que nós até nem queríamos que aprendessem. O mal aprende-se sempre mais rápido e facilmente do que o bem. Há pessoas que vivem bem, ainda que submersos por dívidas, nem outra vida desejam ter. Dever aos outros dá-lhes pica. Mas eu fui criada com outros moldes, fui educada na pobreza mas também na honradez. Acima de tudo não dever nada a ninguém, era este o lema lá de casa, embora eu mesma nem sempre concordasse, pois se me faltavam com as coisas, como por exemplo, a televisão! 😀
    Um abraço.

  19. Milu Diz:

    Olá CybeRider.

    Fiquei contente quando classificou o meu texto de delicioso, a verdade, é que sempre que escrevo faço-o com essa preocupação. No fundo foi esta a minha formação, não tanto apreendida quando estudei, mas mais em casa, quando lia na cama, pela noite fora, durante as minhas férias escolares, embora costumasse ler um pouco todos os dias. Adorava ler aqueles livros, que ora me faziam chorar, ora um pouco mais adiante já me faziam rir! Durante alguns anos, os livros foram os meus mais verdadeiros e fiéis amigos. E ensinaram-me muito, embora reconheça que ao longo da minha vida nem sempre tenha posto em prática a lições que me deram.

    Eu e os meus dois irmãos fomos uns meninos de rua, não com o sentido que normalmente implica, que é o abandono, nada disso, tinha mais a ver com a posse de liberdade, na medida, em que estávamos sós durante o dia. Havia até, aqueles que disso tinham alguma inveja, porque esses, podiam não ter os pais em casa durante o dia, mas tinham uma tia velha, uma avó, enfim, alguém que lhe cortava as vazas. Como seria de esperar sempre estive a par do que pode ser a violência infantil.
    O meu irmão mais velho nesse aspecto era terrível. Partiu cabeças, deu mordidelas nas costas de colegas, era por onde os apanhasse. Até a mim me partiu a cabeça, atirou-me uma pedra ao avistar-me lá num campo qualquer, não era para me acertar, mas antes para se divertir com o meu susto, o certo é que acertou e fez-me um bom lanho no cocuruto da cabeça. Um dia levou uma pedrada num olho que lhe afectou o nervo óptico, que mais tarde, o livrou da tropa, não se nota nada, mas parece que vê menos. Para o zangar dei-lhe em chamar o Cáolho, porque ele se chama Carlos. Naquele tempo os irmãos costumavam alcunhar-se uns aos outros. Mas com a fisga era um autêntico terror, desde matar pássaros, pois tinha uma pontaria muito precisa, ou até, a partir lâmpadas de casas abandonadas e sem ser, que a minha mãe depois tinha de pagar. Ainda me recordo de ver a minha mãe de cara voltada para o azul do céu, de mãos postas ao alto e a clamar indignada que no mundo não deveriam haver filhos piores do que os dela. Aqui se podia ver o quão pequenino era o mundo da minha querida mãe!…
    Anos mais tarde, muitos, ela teve uma conversa comigo em que revelou toda uma amargura de não ter estado à altura dos acontecimentos para melhor ter acompanhado os filhos na sua infância. Contou-me então, que estava muito arrependida, por não ter sabido dar graças a Deus por ter tido uns filhos irrequietos, é certo, mas saudáveis! Ao diabo se eram ladinos, porque o que mais importava era o facto de esbanjarmos saúde. Mal seria se tivesse tido um filho muito bem comportadinho, porque preso a uma cadeira de rodas, ou amarrado a um colete de forças. Com isto, quis dizer-lhe CybeRider, que as suas histórias de menino podem ser bem mais ternurentas de inocência do que realmente julga. Por muito mauzinhos que pudessem ter sido, você e os seus amiguinhos de então, jamais a vossa violência chegaria aos calcanhares da violência perpetrada por crianças das quais nos chegam notícias da Inglaterra, por exemplo! Essa sim, é de arrepiar.

  20. Milu Diz:

    Minha querida Flordeliz.

    Sim. É verdade que estas recordações não podem ser boas, mas agora, porque à distância, até me divirto com elas, quando as conto a vós, para se rirem comigo, além de que também reconheço que possam causar alguma indignação. A forma como aquela senhora me tratava não era digna. Tão cedo ainda, eu pude viver toda a podridão que há em nós, se não formos educados por um código de valores alicerçado no respeito pelos outros, principalmente. Também te digo uma coisa, não te pareça mal, mas não sou de ferro, nem pretendo ser um manual dos bons costumes. Quando soube da morte desta senhora, senti a mesma coisa que sentiria se pisasse um caracol. Não senti nem pena, nem ódio! Não senti nada, e o nada, é o nada! Morreu em casa, sozinha, enquanto migava couves, sentada num sofá. Só no dia seguinte, ou no outro ainda, já não sei precisar, a vizinhança, decidiu chamar os bombeiros por estranharem a ausência da tal senhora nos lugares do costume, como por exemplo na padaria e por não responder aos chamamentos. Depois da porta arrombada lá foram dar com aquelas vistas. A televisão estava ligada, mas só eram visíveis uns chuviscos, como se também ela tivesse decidido despedir-se renegando a sua missão. Aquela televisão, que não seria a mesma, de quando eu me demorava lá na sua casa para poder ver as bonecadas, mas ainda assim serve para simbolismo, que tanto me acompanhou na meninice, afinal, também serviu para a acompanhar na morte!
    Gaita, Flordeliz, este trecho que terminei de escrever ficou triste, tétrico, diria! Mas há coisas, que a gente tem de dizer, ou então, atafulham-se-nos na garganta, o que é muito custoso de aguentar.
    Um grande beijinho.

  21. Mário Rodrigues Diz:

    Olá Milu

    Mais uma vez, transcreves a ternura e a irreverência de uma criança, que foste, e em parte ainda és!

    Independentemente das dívidas, presumo, que eles deixaram para trás, eles também deixaram para trás os ensinamentos que a filha bonequinha teria direito, mas possivelmente não teve.

    Já relataste várias histórias passadas com esses teus vizinhos “extraordinários”, e lembro-me que também na minha vida, existiram e existem pessoas, que ainda não sei por que razão lhes dou guarida no meu coração!

    Um beijo Milu

  22. António Diz:

    Olá Milu

    Histórias de vida de espantar e de admirar os (poucos) que foram bafejados com a sorte de terem uma vida de criança (há uns anitos bons atrás, particularmente) com dinheiro para gastar, nem que fosse para comprar uns rebuçados de vez em quando!

    Que recordações do tempo das uvas, das vindimas e dos lagares onde se pisavam, durante horas a fio, para que em cada família da aldeia não faltasse a pinguita para o ano inteiro!

    Um beijinho
    António

  23. Milu Diz:

    Olá Mário Rodrigues!

    Tens razão. Sinto que ainda há em mim muito daquela criança. Não imaginas Mário, quantas recordações aquelas gentes, que de alguma forma acompanharam a minha meninice, me deixaram inculcadas na alma, que deve ser daí que elas me vêm, já que tanto as sinto. A boneca de porcelana tinha uma irmã e as duas tinham imensos e lindos brinquedos dos quais eu gostaria de ter tido nem que fossem umas reles cópias. Ele eram chorões, (bonecos carecas), vestidos com pijamas às riscas, um em cor-de-rosa e branco e outro em azul e branco. Ele eram conjuntinhos de chávenas e pires, e até, trens em alumínio com as asas em vermelho, tinham tudo, tudo! E eu brincava por ali, um pouco afastada delas, com uns cacos quaisquer em barro, a fazer de conta que eram tachos de barro, no fundo, a louça dos pobres! Um dia convenci o meu pai a comprar-me uma boneca. Foi uma dura luta, porque o meu pai não era de forma alguma um mão largas, a dita boneca era grande e toda em plástico mas brinquei muito com ela e fazia-lhe roupinhas, as pessoas que me viam assim entusiasmada já me prediziam o futuro como costureira. Como é fácil deitarmos-nos a adivinhar!
    Mais tarde, umas pessoas próximas da minha família enviaram-me dos EUA uma boneca lindíssima, mais bonita do que todas aquelas que havia visto até aí! Mas senti que não dava para brincar. Como poderia despi-la daquele magnífico vestido que envergava para em seu lugar vestir-lhe os toscos vestidos que lhe fazia? Sentia que não combinava. Arrumei a boneca linda em cima de uma cómoda e continuei a brincar com a antiga.
    Um beijinho

  24. Milu Diz:

    Olá António.

    Em criança só raramente me era dado dinheiro, tive de o ganhar se o queria ter, e ainda assim muito pouco. No entanto tive umas pessoas chegadas à família que em datas especiais me enviavam alguns dólares dos EUA, mas desse dinheiro quem tomavava conta era a minha mãe, que me ia dando aos poucochinhos, para o fazer durar, situação que me irritava, pois se era meu, bem o gastando descansada ficava. Mas naqueles tempos a criança nunca tinha razão, além de mais, gastar aquele dinheiro em gulodices e todo de uma vez era considerado um mau precedente! 😀
    Um beijo.

  25. mfc Diz:

    Quem não se sente não é filha de boa gente… e nada melhor que os miúdos para perceberem bem estas injustiças provocadas por comportamentos de adultos que já se tornaram triviais para eles!

    E por fim um agradecimento.
    Fizeste-me recuperar uma expressão que tinha perdido: “uva mijona”!!
    Um beijo grande para ti.

  26. Milu Diz:

    Olá mfc!

    Claro! As coisas são como são! Os miúdos sentem porquê? Porque os adultos, cuidando que de nada as crianças percebem, nem se dão ao trabalho de disfarçar a infâmia das suas acções. É assim que o adulto mal formado se trai, quando menospreza e desconsidera o julgamento dos que pensa serem inferiores, neste caso, uma criança, que muitos pensam que não sabe ver, nem perceber.

    Também gosto da expressão da “uva mijona” e para tanto ela se presta! 😀

    Um beijo.

  27. opolidor Diz:

    Olá Milu

    a vida tem de tudo, nela se caminha e se aprende…ou não.
    beijo

  28. Milu Diz:

    Olá Martelo!

    Às vezes não se aprende tanto quanto se devia, e com isto não estou a querer dizer que seja por burrice, mas antes por se ser fiel a princípios fundamentais. Infelizmente, ser esperto é o que está a dar!
    Um beijo.

  29. lilás Diz:

    Olá
    Vim dar uma voltinha por aqui e desejar-te boa semana.
    Bjs

  30. Milu Diz:

    Olá Lilás!

    Muito obrigada e uma óptima semana também para ti.
    Um beijo grande.

  31. flordeliz Diz:

    Pois é Milú, pois é….
    Quando a saudade aperta, passo por aqui, nem que seja para dizer: Olá! Espero que estejas bem e feliz.
    E deixo 🙂

  32. Milu Diz:

    Olá Flordeliz!
    Fiquei sensibilizada pelas tuas palavras, pois parece que te habituastes a vires aqui ler as minhas histórias e as revelações que elas contêm, mas a minha vida não anda a atravessar um bom momento… Vou ter de dar tempo ao tempo até conseguir sair deste buraco negro em que me encontro. Desejo-te o melhor do mundo! Prometo que retornarei mal vislumbre uma nesguinha de luz na minha vida.
    Fica bem e um beijo grande.

  33. flordeliz Diz:

    Adorei ver-te no meu canteiro.
    Espero que seja prenúncio de que estás de volta e bem-disposta. Mas se a força ou engenho te faltou para terminar a tarefa (tapar o buraco negro) estamos aqui para mandar umas (pazadas) e acabar de vez com a empreitada 🙂
    Brincadeiras e patetices à parte desejo um restinho de Domingo bom.
    E… mesmo sem café nem bolinhos foi bom passar por aqui.
    Tens razão! Eu gosto de ler e já sinto saudades das tuas “novelas” da vida real.
    Um beijo

  34. lilás Diz:

    Olá Milu
    Onde andam as tuas histórias? o baú está muito fechado! estás bem amiga?
    Bjs

  35. Milu Diz:

    Oh Flordeliz, fui-me abaixo e por isso fiquei como dizer… Imprópria para consumo. Quando me sinto assim, fragilizada, não sou bem aquela pessoa que gosto de ser, talvez por isso me faça mais reservada até tudo se diluir no tempo e tornar a ser uma pessoa inteira. Mas já estou melhor. Voltarei brevemente, penso!
    Um beijinho.

  36. Milu Diz:

    Olá lilás

    Não tenho andado bem, não, mas não estou doente, é muito mais a minha alma que me dói. Mas já recuperei um bocadinho. Brevemente cá virei contar mais umas das minhas. Obrigada pela tua atenção.
    Um beijinho.

  37. lilás Diz:

    OLá Miluzinha com estás? espero que um pouco mais animadita, tens feito falta por aqui, volta.
    Beijinho grande

  38. oliver pickwick Diz:

    Outra história melancólica, mas de profundo significado. Aliás, esta vizinha é a tal dos penicos, não?
    Melhoras para a sua alma!
    Um beijo!

  39. Milu Diz:

    Olá Lilás.
    Muito obrigada por te lembrares de mim e teres deixado aqui estas palavras tão simpáticas e encorajadoras. Vou fazer todos os possíveis para voltar a ser eu. Prometo!
    Um beijão!

  40. Milu Diz:

    Olá Oliver!

    É sim. E a saga ainda está para durar! Este casal deu-me que contar!
    Obrigada Oliver, a alma, ou lá o que quer que seja que sinto dentro de mim, está um pouquinho mais leve.
    Um beijinho.

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