Os farsolas épicos

Publicado por: Milu  :  Categoria: Os farsolas épicos, POLÍTICA

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“O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta.”

Maquiavel

Ao ler este curto excerto do livro “Sociedade Invisível”, o leitor aperceber-se-á da triste realidade, de como é a política actualmente. Perceberá, por conseguinte, como tem sido possível, no nosso país, certas figuras sinistras terem almejado chegar a cargos políticos. Compreenderá, também, porque apesar da sua mediocridade, da falta de empatia, da falta de credibilidade que inspiram, mesmo assim,  lá se vão  conseguindo manter ao longo do tempo na cena política.

A mim, já não me basta como justificação para este estado de coisas a teoria da “não inscrição” do filósofo José Gil, defendida na sua obra “Portugal Hoje – O Medo de Existir. A facilidade com que o ser humano se deixa manipular explica muito mais. Explica muito deste mundo!

 

“A política é o manejo da realidade em sentido persuasivo, mas isso relaciona-se cada vez menos com a objectividade. Os políticos têm de causar uma determinada impressão. Na era das comunicações, o político tem de possuir a capacidade de se encenar si próprio, tem de obter preponderância na luta pela aprovação pública. Faz parte das condições laborais do político a obrigação de ser também uma estrela de televisão. A opção pela política implica, geralmente, a disposição para aparecer na cena pública. Não se combate por assuntos objectivos ou por estratégias destinadas a resolver os problemas, mas por representar atitudes autênticas; não há que actuar nem que decidir, mas apenas que encenar uma atitude emocional, uma determinada parecença (Stephan, 1943, 43). Assim sendo, vence aquele que melhor sabe representar a credibilidade. Por isso a lógica dos meios de comunicação exige a personalização da política, a contínua vinculação de notícias mais ou menos abstractas a nomes e, se possível, a rostos. Os comportamentos e os temas só suscitam interesse quando as pessoas vêem neles assuntos pessoais. Na contenda eleitoral já não se enfrentam programas, mas rostos; sem um rosto visível, nem sequer as melhores ideias políticas se podem fazer notar.

Isto não é porque a política tenha reconhecido o valor dos meios de comunicação, a importância da sua representação, mas porque as suas próprias decisões são adoptadas segundo o que lhe ditam os meios audiovisuais, incluindo o seu valor de entretenimento. São encenados conflitos, enviadas mensagens ou apresentadas pessoas sem que isso tenha alguma relação com a lógica de uma decisão política, mas apenas no intuito de concorrer no mercado da atenção. Em política, o decisivo é cada vez mais uma encenação em que os eleitores são espectadores e os votos são quotas de aparição. As clássicas funções do Parlamento, a sua mediação e a sua função de verificação e regulação, passaram para as formas extraparlamentares da encenação mediática.

Onde há teatralização e sedução deixa de haver imposição directa; o que aparece é uma suspeita genérica de manipulação e os típicos medos de conspirações. A encenação é a mera apresentação do que já foi decidido num espaço secreto e inacessível. Ainda que seja só pelo facto de, com a dramaturgia, a complexidade das decisões desaparecer das vistas do público – neste caso, para trás das câmaras.

Ora bem: por muito certa que esteja a tese da teatralização da política, não se pode esquecer que a política, embora pareça resolver em segredo as grandes questões, já perdeu influência no curso dos acontecimentos. Com a erosão do poder estatal, a desregulação e a globalização, os políticos deixaram de ser configuradores do acontecer. Como não o querem reconhecer, institucionalizaram o teatro político em que se encenam como donos da sua casa. Encena-se a política para ocultar ou tornar mais suportável a sua perda de relevância.

Contra a tese da manipulação, a tese da irrelevância sublinha que o teatro político não é um instrumento do poder dos políticos mas sim da sua impotência.

Ao passo que os reveladores da conspiração desejam tornar visível o pano de fundo do que acontece, os que insistem na irrelevância sublinham a função de entretenimento da política. Na encenação política não há nada interessante a descobrir a não ser o que nela é encenado. Os teóricos da manipulação mantêm a pretensão ilustrada de que os segredos do poder são transparentes, ao passo que os teóricos da irrelevância acham que o único mistério que a teatralização da política esconde é que a política já não tem nenhum mistério.

O que Huizinga dizia dos jogos e dos desportos – que as coisas não são exactamente o que parecem, a coisa é outra – vale também quanto à política. Há uma dualidade insuperável entre o rito e o assunto, entre a cena e a decisão. Os processos de decisão decorrem no mundo inacessível e inobservável das comunicações informais, dos contactos, das pressões e das transacções. Tudo o mais, a parte da política que se deixa ver e ouvir, é representação.

E a representação nada de novo produz; põe em cena o que todos já sabem. Isto não deixa de ter importância, pois a encenação que decide do êxito das coisas é difícil e apresenta muitos riscos. Para este assunto da representação se têm orientado todas as críticas formuladas nos últimos decénios: o poder dos meios de comunicação ou a obsessão dos políticos por eles. Quanto menos há para decidir, quanto menos está em jogo, tanto mais se faz notar a qualidade da representação. Especialmente com a representação da política na televisão, as democracias modernas adquiriram aquele estilo político do qual as revoluções do século passado nos quiseram libertar: a obscenidade dos gabinetes ocultos e a administração secreta. Os revolucionários quiseram tornar visível o interior de Leviathan,  mas hoje parece que o nosso olhar roça de novo a superfície exterior da política. Talvez por isso estejamos condenados a julgar esteticamente acerca da politica. Não julgamos as decisões, mas a encenação.

A escolha política transformou-se numa questão de gosto.

Bibliografia

INNERARITY, Daniel. (2009). A Sociedade Invisível. Teorema. Lisboa. pp. 141-144.

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