“O regresso às raízes”

Publicado por: Milu  :  Categoria: "O regresso às raízes", ISLÃO

“Apesar de tudo eu ainda acredito na bondade humana”

Anne Frank

Este post, intitulado “O regresso às raízes”, também título de um capítulo do livro de onde foram retirados os excertos abaixo transcritos, consiste numa pálida descrição das tensões geradas no que diz respeito à questão do mundo muçulmano e das suas problemáticas relações com Ocidente. Nos anos 70, o nacionalismo e socialismo árabe viram-se desacreditados pela derrota frente a Israel na guerra de 1967, além do fracasso económico e da corrupção dos governos. Foi este sentimento de humilhação e de desonra que abriu as portas para uma ideologia revolucionária que se espalharia pelo mundo islâmico. Os líderes deste novo movimento argumentavam que o Islão tomara o caminho errado, quando adoptara leis e costumes dos infiéis. Portanto, era preciso implantar regimes que seguissem uma interpretação extrema da lei islâmica.

“A característica mais importante desta nova era foi o afastamento progressivo em termos de hegemonia e de identificação ideológica, dos movimentos, partidos e líderes nacionalistas, seculares e revolucionários, vindos do exército e da burocracia estatal. Os movimentos que agora ascendiam inspiravam-se na identidade religiosa e tendiam para a radicalização, para o fundamentalismo, entendido como rigorismo meta-histórico e literalmente coerente na interpretação dos textos sagrados – do Corão e dos Hadith. Estes movimentos, se bem que não sincronizados nem necessariamente paralelos, formaram uma vaga de fundo que ia ser a matriz, não só de alguns Estados ou poderes nos Estados, mas também de formações activistas clandestinas que passaram a ocupar a linha da frente no combate contra cristãos, judeus e pagãos e, sobretudo, contra aqueles que, no mundo muçulmano, consideram cúmplices dos «ímpios». (…). Eugene Rogan dava conta desta mudança:

Considerando a proeminência actual do Islão na vida pública por todo o mundo árabe, é fácil esquecer quão secularizado estava o Médio Oriente em 1981. Por toda a parte, com exclusão dos Estados mais conservadores do Golfo, as modas ocidentais eram preferidas às vestimentas tradicionais. Muitas pessoas bebiam álcool abertamente, sem se importarem com a proibição islâmica. Homens e mulheres conviviam à vontade em lugares públicos e nos locais de trabalho, na medida em que cada vez mais mulheres acediam à educação superior e à vida profissional

As ideias e valores ditos «fundamentalistas» ou «integristas» tiveram, neste tempo do Islão, duas origens: uma foi a tradição wahabita, profundamente aliada e ligada , desde o século XVIII, à Casa de Saud. Os wahabitas* defendem como dogma o poder infinito de Deus, a predestinação, a obediência cega aos chefes da comunidade e ao poder legal (mesmo que este seja imoral ou ímpio) e rejeitam toda e qualquer interferência da razão humana na interpretação e consideração da fé. Convém notar que este purismo representa, para alguns estudiosos, uma ruptura com o Islão clássico e com as suas escolas teológico-jurídicas, que sempre tinham integrado as heranças culturais persas, greco-romanas e bizantinas. Era também uma ruptura com os costumes urbanos e com as hierarquias sociais complexas das grandes civilizações mesopotâmicas” (PINTO, 2015: 104-106).

O wahabismo nasceu no isolamento, no meio do deserto da Arábia, fruto da reflexão crispada e literal dos textos sagrados da Sunna e dos Hadith, cuja letra não era discutida, nem interpretada, nem alterada, mas pura e simplesmente cumprida. A outra fonte do islamismo integrista, essa renovada modernamente, eram os Irmãos Muçulmanos, um movimento fundado por Hassan al-Banna em 1928 e continuado pelo seu discípulo Sayyid Qutb” (PINTO, 2015:106).

“Qutb passara pelos Estados Unidos, cujo materialismo e sede de concorrência considerava odiosos, e enfrentara, com os seus companheiros, os governos laicos e autoritários do nasserismo; com eles fora perseguido, encarcerado e torturado e vira muitos dos seus irmãos condenados à morte. O próprio Qutb acabaria por ser também enforcado em 1966, seguindo o destino dos seu mestre Hassan al-Banna, assassinado em 1949. (…). Os Irmãos suscitaram a desconfiança e a repressão dos regimes laicos progressistas e militares do tipo nasserista e também dos nacionalistas do Baath sírio e iraquiano. O antagonismo entre estas orientações – as religiosas contra as seculares – marcam uma das grandes fracturas ideológicas do mundo árabe e da História do moderno Médio Oriente. Além do Egipto, outro crucial exemplo vinha da Síria” (PINTO, 2015:106-107).

“A Síria pós-Segunda Guerra Mundial era um Estado independente, cuja população, em termos de orientação religiosa, era constituída por 90% de muçulmanos e 10% de cristãos. Dos muçulmanos, cerca de 57% eram sunitas e 10% pertenciam a um ramo xiita, os alouitas. Esta minoria alouita dominava o Partido Baath e as Forças Armadas. A partir de 1970 e depois da sangrenta luta nas cúpulas político-militares, o poder estava nas mãos de Hafez al-Assad, o chefe de Estado-Maior da Força Aérea, que ganhara a liderança do país com um golpe militar, a 16 de Novembro de 1970” (PINTO, 2015:107).

(…)

“Foram dois dias de horror, os que se seguiram à explosão da bomba que matara Bashir. Cerca de 1000 a 2000 pessoas foram executadas, com requintes de ferocidade” (PINTO, 2015:110).

(…). Em 1982, 1983 e nos anos seguintes, vão multiplicar-se estes atentados suicidas, marcando um novo estilo que irá também caracterizar um novo modelo de terror internacional. Os seus perpetradores no Líbano pertenciam à comunidade xiita e eram apoiados ou mandatados pelo Irão e pela Síria. Entre eles, Imad Mughniyeh, um jovem religioso próximo dos iranianos e ligado aos atentados de 1983 contra a Força Internacional Franco-Americana em Beirute. O Hezbollah, «Partido de Deus», de que Mughniyeh era um dos fundadores, teve origem entre os estudantes de teologia de Balbeck, no Líbano. Surgiu a seguir à invasão israelita, inspirou-se no Irão de Khomeini e o seu secretário-geral foi Hassan Nasrallah” (PINTO, 2015:110-111).

“Mas nesses anos 80, também as mudanças de direcção nas super-potênciasEstados Unidos e União Soviética – iam influenciar profundamente a situação no mundo islâmico e no Médio Oriente. A revolução iraniana, logo de início, diaboliza os Estados Unidos, acusados pelos novos governantes de Teerão de serem, entre muitas outras coisas, os grandes protectores e aliados do Xá. A América era o «novo Satã» e, em represália, a sua embaixada em Teerão era ocupada e os diplomatas tomados como reféns. Ao mesmo tempo, os grupos religiosos xiitas começam a envolver-se , encorajados e apoiados pelo Irão, em ataques a pessoas e interesses norte-americanos e ocidentais, especialmente em sequestros, a fim de afastarem do Médio Oriente os estrangeiros indesejáveis” (PINTO, 2015:111).

“Para a opinião americana, a crise dos reféns e a caótica operação de resgate Desert One eram uma prova de debilidade da liderança de Jimmy Carter e dos democratas. Também por isso, em Novembro de 1980, a escolha dos eleitores recaía num presidente republicano e nacional-conservador, Ronald Reagan. Reagan vai lançar-se numa política de reafirmação do poder dos Estados Unidos. À frente da CIA, com a experiência do OSS, onde se ocupara da guerra económica contra a Alemanha hitleriana e da coordenação das redes da resistência nos territórios ocupados pelo Reich, Casey tinha uma agenda revolucionária: queria lançar uma ofensiva contra a União Soviética, que Reagan apelidava de «Império do Mal». Para combater esse Império do Mal, Wasshington, o «Império do Bem», executou vários projectos, operações e acções. Desde a Iniciativa de Defesa Estratégica, vulgo Guerra das Estrelas, até ao encorajamento, abastecimento e apoio das resistências armadas nas áreas de expansão soviética, na Ásia, na África e na América Central” (PINTO, 2015:111-112).

“Além destas iniciativas operacionais, Casey vai entender-se com os sauditas para, através da arbitragem nos mercados petrolíferos, provocarem uma baixa do preço do crude, de modo a agravar a situação económica da União Soviética, muito dependente das vendas de petróleo e gás ao exterior. Estas políticas da nova administração norte-americana tiveram particular importância no Médio Oriente e no mundo islâmico. O apoio aos mujahedin afegãos, decidido ainda na administração Carter, mas muito reforçado por Casey, foi uma delas – e ia ter resultados inesperados” (PINTO, 2015:112).

“Os soviéticos estavam a braços com uma sublevação em alta escala no Afeganistão, desde a invasão de 1979. Os «soldados de Deus», como lhes chamou Robert Kagan, não lhes davam quartel. Foi uma guerra que, por algum tempo, os media se esforçaram por ignorar: não era admissível que os progressistas, os comunistas soviéticos, ajudassem ali um governo isolado e impopular a impor um programa político e social que pretendia fazer a Reforma Agrária, a secularização, a ocidentalização forçada dos costumes, que o povo rejeitava. A brutalidade da repressão era incomensurável: enquanto os mujahedin eram impiedosos com os combatentes mas poupavam os civis, os soviéticos introduziam o terror sistemático, massacrando as populações das aldeias, queimando vivas mulheres e crianças dentro de mesquitas, violando raparigas e bombardeando tudo. Não faltaram os My Lai** no Afeganistão, mas poucos no Ocidente ouviam falar deles. As histórias que desmistificavam os ventos da História não eram populares” (PINTO, 2015:112-113).

“A partir dos anos 80 as coisas começaram a mudar, graças a Casey, ao seu entendimento com os sauditas e a Charles Wilson, uma personagem depois recordada num best-seller de George Crile e numa fita de Mike Nichols. Charles Wilson era um democrata texano que se apaixonara pela causa dos afegãos e viajara várias vezes ao Paquistão, onde conheceu o Presidente, o general Zila. Os paquistaneses, através da Inter-Services Intelligense (ISI) ajudavam os afegãos, embora conduzissem também a sua própria política de selecção, privilegiando alguns entre os vários grupos de guerrilha” (PINTO, 2015:113).

*Islamismo – Os termos Wahabismo, Salafismo, Jihadismo constituem algumas das correntes que povoam o universo islamista. Têm em comum o facto de todas apelarem ao regresso da pureza do Islão inicial.

**May Lai – é o nome da aldeia vietnamita onde em 16 de Março de 1968 centenas de civis sul-vietnamitas, na maioria mulheres e crianças, foram executados por soldados do exército dos Estados Unidos no maior massacre de civis cometido por tropas americanas durante a Guerra do Vietname.

Bibliografia

PINTO. Nogueira, Jaime. (2015). O Islão e o Ocidente. A Grande Discórdia. D. Quixote. Alfragide.

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