E Delas se fez História

Publicado por: Milu  :  Categoria: E Delas se fez História, FEMINISMO

“Se entre os dois sexos, por efeito de diversa educação, não há uma perfeita igualdade, no sentido rigoroso da palavra, há, todavia, uma absoluta equivalência, e onde existe equivalência não pode encontrar-se inferioridade”.

(Regina Tavares da Silva, 1982:34).

Este meu post constitui uma breve abordagem de como nasceu o feminismo em Portugal, e tem como fim primordial, esclarecer os mais curiosos e curiosas sobre este movimento “a favor da emancipação da mulher portuguesa, entendido exactamente como tomada de consciência do valor da pessoa, como definição do seu papel na sociedade, e como contestação e revisão de preconceitos e limitações até aí impostos à mulher” (Silva, 1982:7).

Considero que nunca será demais falar da luta deste “punhado” de  mulheres que nos alvores  do século XX, empreenderam uma laboriosa luta contra o estatuto inferior da mulher, que então vigorava.

Tenho lido com alguma frequência, que nos últimos tempos o estatuto das mulheres mudou tanto, que será praticamente impossível retroceder. Aliás, Silva (1982:35) postulou essa mesma ideia quando disse que ““Com a concordância dos homens ou com a sua recusa, as feministas sentem e dizem que o processo é irreversível e o regresso ao passado impossível”. Contudo, não comungo dessa certeza. Tenho visto acontecer tantas coisas que ainda não há muito tempo pareciam impossíveis…  o mais seguro será mesmo promover a informação das jovens de agora, uma vez que tudo o que não custa a ganhar, também não custa a perder, logo, faz-se pertinente  avisá-las  para que se mantenham em alerta, pois que a roda tanto anda, como desanda… E ainda há quem gostasse de a ver a andar para trás…

O movimento feminista em Portugal começou a ganhar corpo nas primeiras décadas do século XX, quando umas poucas mulheres, oriundas da burguesia, o que faz dele um movimento elitista, começaram a pôr em causa os conceitos relativos ao papel da mulher na sociedade. De acordo com Regina Tavares da Silva (1982:7) “Com certo vigor a dado passo, o movimento feminista em Portugal é, no entanto, sempre um movimento moderado, nunca declaradamente subversivo nem violento, mais atento à satisfação das suas reivindicações pela força da persuasão, do direito e da educação do que pela força dos gritos e das manifestações”.

Foram as mulheres deste movimento feminista que “começaram a fazer ouvir a sua voz, chamando a atenção para a situação das mulheres, situação de inferioridade, quer legal, quer social, quer ainda cultural, e para a necessidade de a alterar, nomeadamente através de um processo de educação e de valorização a empreender urgentemente. Todas insistem neste aspecto, radicais e conservadoras, feministas confessas e não feministas declaradas” (Silva, 1982:8).

É importante referir que nem todas estas mulheres tinham os mesmos ideais sobre o papel da mulher na sociedade. Algumas achavam que a política não era para mulheres, ou que o lugar delas era mesmo a cuidar da família. Contudo, todas defendiam que a mulher deveria ser instruída, para melhor saber educar os seus filhos, quanto mais não fosse.

Cuidar da casa, do marido e dos filhos sim, mas sendo uma mulher sobretudo instruída, com bons conhecimentos de puericultura,  e livre de superstições ou  preconceitos de qualquer ordem. No que diz respeito às superstições, e tendo em conta que este tipo de crenças grassa em consonância com a  ignorância, chegou até a ser criado o Grupo das Treze, que reunia frequentemente, como para demonstrar às mulheres que não havia motivos para temer qualquer situação onde o número treze estivesse envolvido.

Do pequeno grupo de mulheres que se dedicaram à causa das mulheres  fez parte Alice Pestana, uma das percursoras radicais; M.ª Amália Vaz de Carvalho, a grande escritora, é uma não feminista profundamente preocupada com a educação das mulheres; Carolina Michaëlis de Vasconcellos, a eminente sábia, é também uma feminista consciente da carência e pobreza cultural das mulheres; Ana de Castro Osório é talvez a teórica mais notável do feminismo e uma das militantes mais empenhadas; Adelaide Cabete é uma das dirigentes mais impulsionadoras e prestigiadas da corrente feminista e das suas várias expressões” (Silva, 1982:8).

Mas afinal o que é o Feminismo, este termo que desde sempre tem sido conotado negativamente, ao ponto de algumas mulheres sentirem necessidade de dizerem que não são feministas, quando até são?

Antes de mais é imperioso esclarecer que o feminismo, o verdadeiro feminismo não pretende tomar o lugar do homem, muito menos imitá-lo nos seus padrões. Quando a mulher começou a fumar não foi certamente para imitar o homem porque os homens fumam, mas sim porque se fumar dá prazer, relaxa, enfim, porque é que a mulher, feita do mesmo barro, não poderia fumar também? A questão implícita no Feminismo é uma questão de igualdade, logo uma questão de direitos.

“Ana de Castro Osório, uma feminista radical e militante, numa obra que é talvez o primeiro livro declaradamente feminista desta época exprime o sentimento de vergonha e de ridículo que muitos, os homens e as próprias mulheres, sentem a este propósito:

«Feminismo: É ainda em Portugal uma palavra de que os homens se riem ou se indignam, consoante o temperamento, e de que a maioria das próprias mulheres coram, coitadas, como de falta grave cometida por algumas colegas, mas de que elas não são responsáveis, louvado Deus!…»” (Silva, 1982:13).

Então o que vem a ser o Feminismo nas palavras de uma percursora?

“O Feminismo é mais alguma coisa de grande e sublime, é a dignificação da mulher, é a consequência de uma evolução e por isso precisamos de vencer alguns prejuízos que entolham o nosso caminho. Àqueles timoratos que perguntam aonde irá o Feminismo parar responder-lhe-hemos: o Feminismo terminará onde acabam todas as ideias de Progresso, toda a esperança generosa, terminará aonde acabam todas as aspirações justas» (Adelaide Cabete, in Discurso de Abertura do I Congresso Feminista e de Educação).

Para compreender o incómodo que o termo Feminismo provocava em muitas mentes, e ainda hoje provoca, atentemos nesta história:

“Virginia de Castro e Almeida, na Introdução da sua obra «A Mulher», exprime em termos da sua própria evolução individual o conceito de feminismo que a anima. Educada numa atmosfera tradicional, como ela própria diz, com a «boa educação vulgar de todas as mulheres da minha classe, do meu tempo e da minha terra» (1), condicionada por preconceitos e tradições relativos à imagem e ao papel da mulher na sociedade, naturalmente que o feminismo lhe apareceu «sob um aspecto desprezível, cómico, disparatado, absurdo, por vezes monstruoso. Essa nobre concepção dos verdadeiros deveres e direitos das mulheres, não encontrava um echo indulgente na minha consciência. E depois… depois tive uma grande mestra, a Vida; essa mestra rude e prodigiosa cujos ensinamentos práticos nunca falham. Foi assim que o feminismo, que primeiro me aparecera sob a forma grotesca e vaga de uma utopia talvez perigosa, a pouco e pouco se transformou aos meus olhos numa grande e generosa ideia de redenção, que avança gravemente com a serenidade majestosa de todas as forças invencíveis destinadas a mudar a face do mundo»” (Silva, 1982:14-15).

“Transformação, mudança, redenção aparecem aqui como novos conceitos dinâmicos e complementares dos anteriormente expressos – a verdade,  a justiça, o progresso, a esperança – numa perspectiva idealista do objectivo último a atingir em todo este processo” (Silva, 1982:15).

“Elevação, libertação, nobilitação, dignificação, reabilitação – conceitos idealistas que se repetem e que vão enriquecendo um conteúdo de feminismo que se quer transformador e que se revela cheio de sonhos e de utopias” (Silva, 1982:15).

“na voz de Elina Guimarães: «… ser verdadeiramente mulher não é como para muitos ocupar-se apenas de frivolidades, de bagatelas ou então não ter no mundo senão a preocupação da rotina doméstica. Repudiamos tanto a boneca fútil como a serva embrutecida. Para nós a verdadeira mulher é aquela moralmente forte, intelectualmente culta, que dentro da sua esfera, qualquer que seja ela, cumpre conscientemente a sua missão social»” (Silva, 1982:18).

“À recusa do passado segue-se a promessa do futuro; à recusa da mulher oprimida, a proposta da verdadeira mulher; à missão limitada do passado, uma nova missão; ao destino marcado desde o berço, a escolha do próprio destino; à relação opressora, a relação de igualdade” (Silva, 1982:18).

“Em primeiro lugar, o estatuto da mulher está marcado desde o berço; a criança que nasce, se é do sexo feminino, tem logo à sua frente um caminho traçado e um estilo de vida imposto; por isso é saudada de modo diferente, e por isso se educa segundo padrões próprios e bem determinados” (Silva, 1982:18).

Quais eram, afinal, as reivindicações do movimento feminista português?

  • “O direito de voto como manifestação privilegiada da participação cívica e política;
  • A independência económica e consequente autonomia psicológica e afectiva da Mulher;
  • A educação das mulheres – tónica dominante do Feminismo Português” (Silva, 1982:23).

“A independência económica é um dos motes da propaganda feminista. A generalidade das defensoras do feminismo, que sobre este aspecto se debruçaram, encara-a como facto de libertação e garantia de emancipação efectiva. Em seu entender, a mulher não dependente economicamente quebrou uma das cadeias da grande corrente opressora que a envolve e a limita. Independente pelo seu trabalho, a mulher poderá tomar as suas próprias decisões, traçar o seu futuro, sonhar novas ambições, projectar-se num espaço mais vasto (Silva, 1982:27).

“A emancipação dada pelo trabalho e consequente independência económica tem ainda uma outra dimensão que, se bem que em termos menos definidos, é constantemente aflorada e está subjacente a todo este processo. É a dimensão da autonomia pessoal e da independência psicológica da mulher que se basta a si própria financeiramente. Essa mulher, porque pode decidir do seu futuro, sem pressões de ordem económica, pode também decidir dele em termos de afectividade, de gosto pessoal, de vocação própria. Porque não está condicionada a ver no casamento o seu único futuro socialmente aceite e o seu único meio de subsistência, essa mulher é necessariamente mais livre, pode saber o que quer e realizar aquela autonomia e independência psicológicas e afectivas, a que as feministas aspiram.

É ainda Ana de Castro Osório que exprime:

…«desenvolver livremente as qualidades afectivas na mulher – é deixar-lhe o pleno direito da escolha, o direito sagrado de amar ou não amar, de casar ou ficar solteira, sem que isso represente uma vergonha ou, pelo menos, um ridículo.»

Em resumo, os conceitos de independência económica facultada pelo trabalho da mulher e de autonomia psicológica e afectiva daí resultantes constituem elementos definidores do feminismo português, tal como ele é expresso pelas suas teóricas e defensoras” (Silva, 1982.29).

Sobre a educação das mulheres

“(…) o tema instrução – educação das mulheres é um tema constante e uma preocupação reiteradamente expressa pelas feministas portuguesas. Enquanto que em outros aspectos, incluindo os anteriormente referidos – sufrágio e independência económica – pode haver uma certa especialização no tratamento dos temas – escritoras que se preocupam preferencialmente com um deles e sobre ele insistem – neste, a insistência é praticamente unânime, como é unânime o reconhecimento dos males da situação das mulheres no aspecto educativo.

O estatuto de ignorância das mulheres é a base reconhecida e confessa de todos os males. Pior que a ausência de direitos cívicos ou políticos, pior do que a dependência económica, é a ignorância total da mulher, a total inércia intelectual e a total dependência que daí resulta. A par do analfabetismo literal das classes inferiores e, por vezes, não apenas destas, refere-se o analfabetismo cultural e intelectual das classes superiores, resultado de uma educação errada e deformadora que, desde a infância, é ministrada à mulher” (Silva, 1982.29).

“A educação-veículo para a manutenção de estereótipos, de papéis e imagens tradicionais para a mulher, a educação-moldagem a um ideal é agora substituída pela educação-veículo de transmissão de novos papéis e novas imagens e meio de libertação desse falso ideal” (Silva, 1982.33).

Em 1921, Aurora de Castro e Gouveia refere o tema menos comum de que é a própria educação que cria a diferença de aptidões e, em última análise, a discriminação:

“«Se homens e mulheres são irmãos, descendentes dos mesmos pais, se os progenitores varões transmitem as suas qualidades e as suas taras tanto aos filhos de um sexo como aos do outro, como é que o homem e a mulher podiam ter natureza e aptidão diversas? O que, de facto, acontece é que a diversa educação ministrada aos dois sexos, faz adquirir a cada um deles qualidades diferentes das do outro» (Silva, 1982.34).

“Com a concordância dos homens ou com a sua recusa, as feministas sentem e dizem que o processo é irreversível e o regresso ao passado impossível, que os tempos mudaram e uma nova consciência de si mesma pode fazer da mulher uma nova pessoa” (Silva, 1982.35).

 

Bibliografia

SILVA, T. Regina. (1982). Feminismo em Portugal na voz de mulheres escritoras do início do séc. XX. Presidência do Conselho de Ministros. Edição da Comissão da Condição Feminina. Cadernos Condição Feminina. Lisboa.

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