Desencantos da minha infância

Publicado por: Milu  :  Categoria: Desencantos da minha ..., FLAGRANTES DA VIDA

Há quem passe por um bosque e só veja lenha para a fogueira.

LEON TOLSTÓI

Em seguimento ao post anterior, no qual relatei uma lamentável situação bem reveladora do quanto o comportamento de um adulto pode ser indecoroso em relação às crianças, e tanto mais indigno quanto mais indefesas as crianças se lhes afigurarem, eis-me aqui, pois, para lhes dar a conhecer mais alguns destes casos, mas agora relatados na primeira pessoa, o mesmo é dizer que se passaram comigo.

Tinha de ser, pois claro!

Foi num tempo em que era ainda muito menina. Lembro-me que frequentava a escola primária e que durante as férias grandes,  ou ainda, esporadicamente em outras ocasiões, foram muitas as vezes em que me acolhi na casa de um casal de meia-idade, meus vizinhos, num arremedo de fuga ao desamparo e vazio de gente que era o meu triste lar, já que os meus pais se ausentavam durante todo o santo dia, mergulhados na faina do seu trabalho, arrebanhando com suor e sacrifício os parcos proventos essenciais à sobrevivência da família.

Não é que eu gostasse destes vizinhos para minha companhia, nunca perto deles me senti particularmente bem, mas, foi o melhor que se pôde arranjar naqueles tempos de penúria e de bisonhice mental. Ao menos lá, na casa deles, pude sentir o calor humano que chegava até mim através da televisão, na qual me foi possível ver algumas das bonecadas e filmes da época. Desgraçadamente, nem tudo para mim foram rosas naquela casa! Porque nada lá me foi dado! O direito a permanecer na pequena saleta, sentada defronte da televisão, conquistava-o eu, à custa de abnegadas prestações de serviços solicitados pela dona da casa, alguns bem custosos, diga-se em bom abono da verdade. No fundo, entre nós havia-se estabelecido uma simbiose perfeita. Primeiro ajudava-a nos afazeres domésticos e também saía à rua para lhe fazer alguns recados, entretanto, era chegada a altura em que era dispensada para, finalmente, me sentar defronte da televisão. E ali ficava durante horas esquecidas, absorvida pelo êxtase que a interminável sucessão de imagens em mim provocava! Só tornava a acordar para o mundo, quando já noite adiantada, a minha mãe me ia buscar, de vergasta disfarçada por debaixo de um dos braços, disposta a desferir-me umas boas bordoadas, como castigo por não me achar em casa quando ela, cansada, havia chegado do trabalho. Em tempos foi assim! Por tudo e por nada levava-se pancada, era para cedo torcer o pepino.

Uma das tarefas que normalmente fazia para esta senhora era arear as pratas da casa e toda uma cambulhada de berliques e berloques em metal que por lá infestavam, espalhados por cima dos móveis. Também costumava varrer-lhe os imensos terraços  em redor da casa, que no Outono se encontravam constantemente cobertos por folhas caídas das árvores, coisa que gostava imenso de fazer, já que andava por ali ao sol. Até aqui ainda a coisa ia tal e tal. Mas quando me chamava para a ajudar a fazer a cama, um angustiante frio de aço subia por mim até à ponta dos cabelos, que se me eriçavam encrespados. Depois de, uma de cada lado acabarmos de fazer a cama, era chegado o momento de eu deitar mão aos dois penicos, que se encontravam guardados nas mesinhas de cabeceira, para os ir despejar, não na casa de banho que para este casal era um museu a preservar, mas antes, para um buraco no quintal, que se destinava a reunir todos os tipos de dejectos para mais tarde fertilizar as sementeiras. Porque havia de ser eu e não ela, a carregar tão odiosos caldeiros? Nos quais, para minha infelicidade, de tudo havia! Quando digo de tudo, é mesmo de tudo aquilo que pode evadir-se do corpo humano, e, para melhor coroar uma das tão profícuas taças vai de o marido lhe despejar, para acrescento da mistela, um cinzeiro a abarrotar de beatas, que normalmente tinha em cima da mesa-de-cabeceira, já que fumava no quarto durante a noite, ou antes de adormecer, sei lá, sei apenas, que era sempre um cinzeiro completamente cheio.

Apesar da inexorável passagem do tempo ainda  me consigo imaginar naqueles tormentosos momentos em que acartava para a rua um penico de cada vez, não fosse o diabo tecê-las, e para minha infinita desgraça, escaparem-se-me das mãos e derramar os demónios. Tanto quanto o meu bracito podia, afastava de mim e do meu irrequieto olhar os malvados e asquerosos penicos e, naqueles infectos instantes, sentia nascer dentro de mim um profundo sentimento de desprezo por aquela mulher. Não fosse o temor de levar um arraial de porrada da minha mãe, como castigo pelo meu atrevimento, e um dia ainda teria dado um fim diferente àquelas penicadas.

Por agora fico-me por aqui, mas há muito que dizer acerca das minhas aventuras e desventuras com este casal meu vizinho… Prometo que não vão ser histórias de penicos, mas ainda assim, susceptíveis de enojar quem as ler, de tão deploráveis actos perpetrados logo numa criança …

27 Comentarios to “Desencantos da minha infância”

  1. congeminações Diz:

    Sem dúvida que não tiveste uma infância fácil a avaliar por estes episódios que nos vamos dando conta, razão porque a estima e consideração crescem em mim, pelo facto de partilhares com quem te visita neste teu espaço algo que faz parte da tua intimidade e de que não vês razão nenhuma para o revelar. Efectivamente os teus vizinhos só pelo facto de te proporcionarem a visualização de alguns programas de televisão que te interessavam, cobravam por isso um preço alto a avaliar pelo que nos contas, prova de que essa gente pouco prestava na medida em que reservavam para uma criança a tarefa de despejar bacios por vezes com dejectos. Ora se possuíam WC e não lhe davam uso, prova que não primavam pela higiene uma vez que um penico com trampa deveria inundar o quarto de mau cheiro. A própria urina já seria motivo para isso quanto mais esta misturada com dejectos. Faço ideia o cheiro que existiria no quarto antes da remoção dos penicos. Pois bem cá ficaremos então à espera de mais uns episódios para sobre eles nos pronunciar-mos. Continuação dum bom fim-de-semana. Um abraço
    Raul

  2. Mário Rodrigues Diz:

    Oh! Querida Milu

    Realmente! Meu Deus! Com essa história veio-me à lembrança duas coisas. Na casa das minhas tias-avós, em plena Serra do Açor, existia um cubículo, que como porta tinha um pano, e que tinha um buraco redondo no chão. Esse buraco, dava directamente para a corte dos porcos. Se bem que enquanto as nossas necessidades fazíamos, víamos o pobres animais a olharem para nós, ou pelo menos para a parte que eles podiam ver, pelo menos, era raro por aqueles lados o uso dos penicos, com os quais, também nunca simpatizei; mesmo nos tempos em que se tinha de ir para o meio do mato, fosse à hora que fosse.
    A segunda, quanto a mim, sempre me foi muito estranha. Na Lisboa antiga, em pleno Bairro Alto, onde o meu avô materno vivia, existia uma, apelidada de “pia de despejos”, onde realmente se despejava tudo, mesmo tudo; inclusive servia de sanita. O mais estranho, é que a tal pia estava numa parede onde de um lado tinha o lava loiças e do outro um fogão…Pois certo. A pia estava ao meio…Imagina uma diarreia em qualquer dos elementos do agregado, durante a confecção dos repastos…

    Realmente, ainda há muito pouco tempo, os conceitos de higiene…

    P.S.- Vais-me desculpar, mas vou ter de postar isto no meu recanto.

    Mil beijos Milu

    Mário Rodrigues

  3. flordeliz Diz:

    “Chiça penico” cheirou-me mal só de imaginar!
    Ele há cada uma…
    Confesso que preferia milhentas vergastadas a carregar o penico de outro que não o meu.
    Muito menos carregar o “dito” com dejectos e afins do vizinho ou vizinha.
    Sabia a minha mãe que eu fugia como o diabo da cruz de fazer esse “lindo serviço”.
    Sabia ela também que esse tipo de ordem era sempre esquecida.
    Portanto, acabou por acreditar que o melhor seria despejar ela mesma e acabar o “basqueiro”.
    Mudando de assunto a ver se o cheiro se afasta do meu nariz, uma vez mais parabéns, consegues transportar-nos para a época e acompanhar-te em cada tarefa.
    As ilustrações também são fantásticas.
    Fiquei curiosa e aguardo “cenas dos próximos capítulos”.

  4. Zé do Cão Diz:

    Milu.
    Como já passaram tantos anos, abstenho-me de comentar a tua triste sina.
    Pensei sim… Em 2 coisas, algo coligadas às penicadas duma época ainda mais antiga.

    A nossa casa na Aldeia era num primeiro andar, (a outra era numa das quintas)foi a primeira a ter esgotos, tinha duas entradas, uma a principal, cujo acesso, com escada muito íngreme era comum a outra habitação,onde morava uma família com lanços de parentesco., mas ainda sem aquele luxo.(?)
    Além dos penicos,( no norte, potinho) um de cada quarto, havia ainda uma “tigela da casa” feita de barro enorme, onde os “cujos” em vazados e depois seria só a tigelada a ser despejada.
    A Elvira, (que mais tarde foi também minha comadre, dado que fui padrinho de uma sua menina
    a quem pus o nome de Julia, em homenagem à minha progenitora), por volta das 11 da manhã, arregaça as mangas da sua roupa, pega nas duas asas, e inicia a descida do 1º andar, para ir a uma quinta próxima, despejar em sitio certo, pois nu futuro a horta seria regada com fertilizante ecológico.
    Era pesada a “obra”, entorpeça no 1º degrau e nunca cheguei a saber quem chegou primeiro naquela corrida louca, se ela, se a Tijela, ou o conteúdo.

    Vá lá, teve sorte, ficou apenas magoada… Mas apanhou o maior banho da sua vida e o perfume “NALY”, ficou vários dias a empestar o local.
    — — — —
    Na escola primária, a professora ensinava a matéria sobre os astros. E perguntou ao Miguel, tal como eu, acabado de fazer sete anos, se sabia o que o luar.
    Como uma mola ele levantou (era um pouco cioso) e respondeu. Sei sim senhor Professora, a minha mãe quando à noite vai vazar o penico, diz sempre assim. Ai…Que lindo luar…
    Claro que só o Miguel não achou numa graça, à gargalhada que rebentou na aula

    Beijocas, grandes… grandes…

  5. Milu Diz:

    Olá Raul

    Por incrível que pareça não consigo ver a minha infância assim tão infeliz quanto te possa parecer, e, porventura, a todos os que me lêem. Acontece que também brinquei muito e com toda a liberdade, tanta, que corri sérios riscos que os meus pais nem sequer imaginavam! Quis o acaso que apesar de todas as situações e brincadeiras perigosas, delas tivesse saído sempre airosamente, porque oportunidades para um final infeliz tive-as e proporcionei-as aos montões!

    Todavia, há que dizer o seguinte: Se estas vivências que aqui dou conta, me ficaram escritas na memória foi porque elas me tocaram profundamente, porque se não, tê-las-ia simplesmente esquecido. Eu sentia a injustiça porque sabia quanto a conduta dos adultos estava errada, pois se eu lia livros, como por exemplo “Os Cinco” e “Os Sete” de Enid Blyton, onde intuía que as crianças eram tratadas com estima e consideração, por conseguinte, de uma forma bem diferente daquela com que me tratavam, que bem o sentia na pele e na alma!

    Mas não deixas de ter razão, teria sido bem melhor nunca ter tido estas experiências. Teria sido bem melhor, ainda, não me ter apercebido de quanto um ser humano pode ser injusto, cruel e falso como judas. Tivesse eu tido a liberdade de agir de acordo com o tratamento que me davam e agora as histórias seriam outras, mas naquele tempo, criança que fizesse frente a um adulto, era imediatamente considerada digna de dar entrada numa casa de correcção, mas antes disso, não se livrava de umas tareias bem graúdas.
    Um abraço Raul.

  6. Milu Diz:

    Olá Mário!

    Olha tive de me rir! 😀

    Não há dúvida de que cada um de nós transporta um manancial de vivências que vale a pena recordar, quanto mais não seja, para podermos estabelecer um paralelo de comparação e assim podermos-nos dar por felizes com as condições de vida e de higiene de que hoje dispomos. Por isso digo imensas vezes às pessoas que vivem a vida em constantes lamentos, que o que lhes faz falta é um pouco de sarna, para se entreterem a coçar, ao menos queixavam-se de alguma coisa mas desta feita com razão.

    Essa da pia de despejos que também faz de sanita já conhecia um exemplo. Foi em Lisboa numas águas furtadas de um prédio antigo na Baixa. Numa vez que fui a Lisboa aproveitei para visitar umas pessoas que outrora haviam vivido na mesma localidade onde então eu tinha a minha morada. Quando fiz saber que precisava de ir à casa de banho apontaram-me na cozinha um canto rodeado por um cortinado igual aos que se usam para resguardar as banheiras! Fiquei sem jeito, e mais ainda tendo em conta aquilo que precisava de fazer! Arrumei uma desculpa e lá desci uns danados de uns intermináveis lanços de escadas para sair à rua e entrar na casa de banho de uma pastelaria ali próxima! 😀
    Um beijinho!

  7. Milu Diz:

    Olá Flordeliz!

    Já não sei o que pior terá sido, se o cheiro se a visão, mas ambas as coisas me doeram!

    Dizes que preferias levar umas vergastadas e ainda bem que o dizes, porque significa que não sabes o que isso é! E não fui nesse sentido das crianças mais sacrificadas, porque nunca me bateram com um cinto, tal como eu vi um pai bater num colega meu. Só a visão do homem a libertar o cinto das presilhas do cós das calças que trajava, foi o suficiente para me pôr as pernas a tremer e a engolir em seco. E havia os pais que costumavam bater nos filhos com um pedaço de mangueira, daquelas de regar o quintal! E pensavam eles que estavam a proceder muito bem, que assim é que era educar! Que mentalidades tão pequeninas!

    Tens razão Flordeliz, uma das minhas intenções ao narrar aqui as minhas experiências é mesmo uma tentativa da minha parte de representar os malfadados costumes daquela época, que não me deixou saudades!
    Um beijinho

  8. Milu Diz:

    Olá Zé!

    O que me ri com a história da tigelada, até eu que cheguei a ter alguma tarimba nesta andanças, afinal, duvido que aguentasse acartar tanta merdunça, ou talvez sim, tudo dependeria da compensação, por vezes os fins a atingir justificam os meios.

    Pois esse era o meu grande medo: Tropeçar e despejar por mim abaixo as diabólicas penicadas, por isso preferia repetir aquele momento que me era extremamente desagradável, resoluta agarrava-me a um penico de cada vez e com mil cuidados, não fosse o diabo pregar-me alguma partida!

    Porque se, para meu infortúnio, um dos penicos fosse directo ao chão, tenho a certeza absoluta de que era eu quem tudo teria de limpar, ainda que de tal fugisse, agarrar-me-iam por uma orelha arrastando-me até ao local do delito. Naqueles tempos dificilmente uma criança levaria a melhor.

    Um beijinho.

  9. José Pinto Diz:

    Olá Milu

    Esta história daria um best seller, se vertida em livro. Também, um belo argumento para um filme. Ao ler o texto, ficamos angustiados num “crescendo” de imagens reais, cruéis e arrepiantes.

    Quando chegamos àquelas penicadas, ficamos asfixiados. Sentimos uma grande revolta, mas também ficamos enjoados com o cheiro. O realismo que emprega na descrição chega a ter humor. Aí é que está o seu mérito. Que bem que escreve!

    A dona do bacio tinha aquilo a que o povo chama de riqueza porca. Gente respeitada, mas ridícula. O mais dramático é que não passou, ainda assim, tanto tempo! Quantos traumas!

    Caricato é lembrarmo-nos que um penico também se chamava “doutor”! Fica esta, para nosso conforto!

    Continue a deliciar-nos com estas descrições fabulosas.
    Um abraço.

  10. congeminações Diz:

    Milú fui mal interpretado por ter sido por ti entendido na alusão infância, nada fácil, como traduzindo um infância infeliz. De modo algum assim vou entendendo à medida que nos vai contando alguns episódios. A minha expressão do “nada fácil” foi porque defacto a tarefa com que o casal de vizinhos te brindavam no tocante ao despejo dos bacios era duma violência intolerável do meu ponto de vista.
    Mas tirando isso acredito que tenhas sido uma criança feliz porque te divertis-te como é normal, sem qualquer tipo de constrangimentos.
    Era importante para mim este esclarecimento
    porque não interpretei a tua infância como tendo sido infeliz. Um abraço

  11. Milu Diz:

    Olá Raul

    fizeste bem Raul, quando pretendeste melhor esclarecer a tua opinião sobre a minha infância. É verdade que entendi que tivesses pretendido dizer que os meus verdes anos não tivessem sido muito felizes. No entanto, não me admirei que tivesses pensado assim, e, tal como tu, porventura, muitas das pessoas que me lêem, porque de certo modo, algumas vezes, demais até, fui desconsiderada, para não dizer, psicologicamente maltratada pelos adultos. Mas o que me safou foi o facto de ter tido toda a liberdade possível para me desforrar nas minhas brincadeiras,que, bem vistas as coisas, funcionaram como um providencial contraponto.

    Digo-te mais Raul perante uma outra história que irei contar, esta dos penicos nem parecerá nada!
    Um abraço.

  12. Milu Diz:

    Olá José Pinto!

    Você acertou em cheio quando disse que a dona do bacio era dona de uma riqueza porca! Oh, se era! Vai ver quanto, quando aqui escarrapachar duas coisinhas que ela me fez, penso que essas minhas revelações são verdadeiramente surpreendentes, já que foram atitudes que nem ao diabo lembrariam, e mais é diabo!

    Na verdade atrasei-me a postar esta minha narrativa pela simples razão de que comecei mal, isto é, quando principiei a escrever dediquei-me fervorosa a descrever pormenorizadamente todo o contexto no qual convivi com este casal. Pretendia, também, exprimir tudo aquilo que me perpassava a alma enquanto fazia o supremo sacrifício de carregar aquelas encomendas do inferno, reprimindo com todo o custo o ímpeto de atirar com tudo aquilo contra uma parede. Restava-me a consolação de saber que depois poderia ver televisão. De repente, quando dou por mim, tinha um texto deveras extenso, o que me fez desistir! Só uns poucos iriam ler aquele texto, embora esses poucos sejam,seguramente, aqueles para quem especialmente escrevo.

    Um abraço.

  13. António de Almeida Diz:

    Nem sei o que diga, talvez que não teve uma infância fácil…

  14. Milu Diz:

    Olá António Almeida!

    Vista por um certo prisma posso dizer que não foi a melhor. Não guardo dos adultos uma recordação gratificante, tendo em conta a minha perspectiva de então, que era uma criança. Ainda se eu não sentisse todo o drama, mas acontece que conseguia perceber mais do que seria conveniente. Mas, noutros aspectos a minha infância foi muito livre, logo, muito compensadora! 😀

  15. oliver pickwick Diz:

    Imagino que foram momentos difíceis, especialmente na hora de transportar os penicos. Mas se não havia outras alternativas. O melhor é que sobreviveu e, por certo, aprendeu muito dessa dura experiência, especificamente em relação às crianças.
    Agora, aqui entre nós, no último dia que passou por lá, deveria fazer dois pequenos furos, disfarçados, em cada um dos famigerados bacios. 🙂
    Um beijo!

  16. Milu Diz:

    Olá Oliver!

    Todos os momentos difíceis que recordo da minha infância foram-no, porque me causaram uma infinita perplexidade, havia ali algo que não conseguia entender, mas, por outro lado, conseguia intuir perfeitamente que o procedimento das pessoas mais velhas, estava completamente errado. Então, se constantemente a minha mãe me ensinava a ter respeito pelos mais velhos, como poderia tê-lo nestas condições, se os exemplos que me davam eram tão vis e miseráveis! A seu tempo contarei, também situações onde me foi possível sentir admiração por alguém em particular. Tenho pena, muita pena, mas essas ocasiões foram raras!
    Um beijinho.

  17. lilás Diz:

    Lindas histórias de infãncia que nos contas Milú, muitos jovens de hoje deviam ter conhecimento destes pequenos relatos, talvez lhes fizesse bem refletir um pouco…
    Tens a particularidade de dar sempre um ar de graça aos teus relatos, grande Milú!
    Bjs

  18. lino Diz:

    É só para dizer que tenho passado por cá todos os dias. Gostei muito da tua dissertação lá na minha tasca.
    Beijinhos

  19. CybeRider Diz:

    Olá Milu!
    Mais uma vez um texto magnífico, que nos transporta a outros tempos, em que outros valores eram as certezas que entretanto invalidámos. No entanto, eram também esses valores que nos faziam enfrentar esses ordálios e ultrapassá-los comprovando assim o bom carácter com que a educação transmitida a pau nos ia enformando. E assim se forma carácter, há uma razão para a profundidade de análise que nos delicia em cada visita a este espaço. Seria redutor avaliar a qualidade de vida de toda uma infância por estes desvios, eram comuns, e recordá-los fortalece-nos ainda, como fortalecia então.

  20. Milu Diz:

    Olá Lilás.

    Penso que actualmente ainda existe gente adulta suficientemente capaz de levar por diante acções desta natureza, mas, se a criança, sobre quem perpetuarem estes actos disso fizer alarde, é um sarilho! Hoje somos mais sensíveis às necessidades e bem-estar dos mais pequenos. Pelo contrário, se naquele tempo eu me queixassem a alguém, ainda me diriam que era assim mesmo, para aprender o que é a vida, como se, para sermos gente a sério, seja imprescindível vivermos todo um calvário de maus tratos e humilhações!
    Um beijinho.

  21. Milu Diz:

    Olá Lino!
    Por vezes assomam-me certos pensamentos. Nem sempre o consigo, mas tento pensar livremente sem me deixar influenciar por ideias pré concebidas, até porque se estas estivessem certas, já era tempo de termos descoberto os mistérios da vida que tanto nos intrigam. A verdade, muitas vezes, está bem à vista, tão clara que nem a vislumbramos. O que sei é que o ser humano está destinado a carregar as suas eternas angústias, uns numas coisas, outros noutras, até os mais ricos sofrem terríveis medos, o medo de algo acontecer que faça com que fiquem pobres, por exemplo! Porque, afinal, só podem perder os que alguma coisa têm, e, quanto mais se tem, mais custa perder!
    Porque será que não me apoquenta esse medo? 😀
    Um beijinho.

  22. Milu Diz:

    Olá CybeRider!

    Não fossem os malfadados penicos e aquelas tardes passadas na casa da minha vizinha teriam sido bem mais agradáveis. É preciso não esquecer que acabava por ter uma oportunidade que muitas crianças ainda não tinham, isto é, podia ver televisão à vontade, porque uma vez os fretes feitos, este casal esquecia-se de mim, que ali ficava silenciosa a um canto daquela minúscula sala, com os olhos fitos quase sem pestanejar, naquele maravilhoso écran, que me mostrava um mundo encantado que ficava para lá do meu, à distância que a minha imaginação permitia então conceber. Por vezes até se esqueciam, ou nem sequer se lembravam que já não comia nada há horas. Mas, também não deixa de ser verdade que nem eu mesma sentia fome, os olhos davam-me alimento suficiente. Quando, finalmente, a minha mãe me ia buscar, então sim, lembrava-me do estômago, que de tão mal tratado, não se cansava de protestar! 😀

  23. Pascoalita Diz:

    ahahahahah ahahahahahah ahahahhah o que me rio cada vez que aqui venho eheheh

    Bem sei que tenho de vir mais vezes. Que óptimas histórias, menina.

    Bom fim de semana

    Jinhos

  24. Milu Diz:

    Olá Pascoalita!

    Eu cá sou assim!… Estou a brincar!

    Adorei que tivesses gostado e, principalmente, que tivesses rido, porque, uma coisa é certa: Eu divirto-me a contar estas histórias, afinal, já lá vai tanto tempo! Porque me lembrarei eu destas e não de outras? Porque tudo isto, me confundia terrivelmente… É ou não verdade, que os bons exemplos às crianças devem de ser dados pelos adultos? Então, porque não eram? Então, ensinavam-me uma coisa e depois faziam outra? Era só isto que conseguia pensar! Lia muito e mesmo sem disso me aperceber eu bebia as ideias, e logo, com aquele cérebro tão fresquinho e arrebitada que eu era!…
    Uma boa semana para ti.
    Um beijinho.

  25. Turmalina Diz:

    Milu querida…é deplorável…as pessoas não possuem um senso muito bom mesmo, não é? Tudo tem, ou deveria, ter limites. Obrigada pelos “comentários” e sugestões lá no blog :o)
    Bjos

  26. Milu Diz:

    Olá Turmalina!
    Tudo o que escrevi no seu blog, não serão bem sugestões, até porque em determinadas situações inesperadas e algo insólitas nem bem sabemos que atitudes havemos de tomar. O despropositado desarmam-nos, ficamos como que aparvalhados devido à estupidez de algumas gentes. No fundo, aquilo que eu disse, reflecte a minha maneira de ser, que reajo rapidamente, devido ao meu instinto de defesa um tanto exacerbado, aliás, quem ler as minhas histórias de infância facilmente saberá porquê. Sou um pouco do género: “Quem vai à guerra dá e leva”. A fraqueza de espírito por parte dos adultos das histórias que aqui narro continua a existir nestes tempos, só que com outro aparato. Há mais cuidado no disfarce, mas o podre, esse, continua lá…
    Um beijinho.

  27. Antonio Diz:

    Entrei por mero acaso, e vim encontrar lembranças do meu passado, no meu caso fazia certas tarefas em casa de um casal, eles em troca davam algumas coisas à minha mãe, hoje fala-se tanto em trabalho infantil, com 10 anos tinha que tirar todo o estrume do curral das vacas, lavar o dos porcos, cavar terra, cortar sebes, uma panóplia de trabalhos todos eles leves para um petiz de 10 anos, se calhar a mais leve de toda era mesmo a de despejar os ditos penicos,

    Bjs!

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