Castidade, Silêncio e Obediência

Publicado por: Milu  :  Categoria: Castidade,..., FEMINISMO

 

“É difícil libertar os tolos das amarras que eles veneram”

Voltaire

 

Tal como já disse anteriormente noutros posts, já faz tempo que decidi dedicar-me aos Estudos sobre a Mulher. Interessava-me saber, para perceber, se a mulher é assim tal como a conhecemos, ou se foi moldada e, neste caso, moldada de acordo com vontades que lhe eram alheias.  Em boa hora o decidi fazer. Agora já estou na posse de informação que me permite encaixar muitos factos, e afirmar com certeza de que a mulher, a mulher que eu sou, a mulher que todas são além de mim, foi forjada de uma forma incisiva e sistemática pelo sistema patriarcal, que é a mesma coisa que dizer, por uma ordem que regula e organiza a sociedade. Ou seja, quando nascemos, a nossa matriz original, única, que nasce connosco, vai sendo progressivamente substituída por uma matriz construída de acordo com interesses estabelecidos, através de uma educação que à boa maneira da linguagem portuguesa se diz “com rédea curta”. Consequentemente, já não chegaremos a ser aquilo que poderíamos ter sido. É claro que o homem também é submetido ao mesmo processo, ao homem também é exigido que se porte de acordo com um padrão no qual a trave mestra é o conceito da  virilidade. Daí a frase “um homem nunca chora” porque chorar é coisa de mulher, de piegas, de fracos. Contudo, com a mulher foi bem mais grave: foi durante séculos mantida na ignorância – porque o ignorante,  aquele que não sabe, não percebe, também não alcança… Para que tal se tornasse possível, a mulher foi remetida para a domesticidade e, ao mesmo tempo, dificultado o seu acesso aos estudos.

Castidade, silêncio e obediência – eram estes os pilares da educação da mulher. Embora muito tenha sido conquistado, a  mulher continua a não ter voz. E obedece demais..

Ah! Mas a História ainda é o melhor Juiz, leia-se portanto:

 

Conceitos (definição).

 

Sociedade Patriarcal

A sociedade patriarcal é uma forma de submissão (subordinação) das mulheres de acordo com os papéis desempenhados por elas, bem como aqueles desempenhados pelos homens na reprodução da espécie. Em consequência, tem-se a dominação masculina sobre o feminino.

 Dominação masculina
“A dominação masculina está tão arreigada em nosso inconsciente que não a percebemos mais, tão de acordo com nossas expectativas que até nos sentimos mal em questioná-la. Mais do que nunca, é indispensável destruir as evidências e explorar as estruturas simbólicas do inconsciente androcêntrico que sobrevive nos homens e nas mulheres. Quais são os mecanismos e as instituições que realizam o trabalho de reprodução do eterno masculino? É possível neutralizá-los para liberar as forças de transformação que eles conseguem obstruir?” (Bourdieu).

Sempre vi na dominação masculina, e na maneira pela qual ela é imposta e suportada, o exemplo por excelência desta submissão paradoxal, efeito do que chamo de violência simbólica, violência doce, insensível, invisível para suas vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias simbólicas da comunicação e do conhecimento ou, mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento” (Bourdieu).

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“A Mulher do Renascimento”

 

Como eram educadas as mulheres?

 

“Tanto as mulheres como os homens pobres não recebiam qualquer educação formal, embora muitos homens e algumas mulheres fossem treinados em certos ofícios. Porém, as mulheres das classes médias e alta eram iniciadas numa cultura feminina específica, pela qual eram ensinadas a desempenhar as tarefas do lar, seguindo um programa que acentuava a costura e a fiação, o silêncio e a obediência. A leitura era útil, mas deveria ser limitada a bons livros: obras de devoção e os títulos mais são os de Dante, Petrarca e Boccaccio. Era duplo objectivo da educação para estas mulheres: primeiro, guiar a jovem no sentido de desenvolver os traços de carácter mais adequados ao casamento patriarcal; segundo, treiná-la naquelas funções mais úteis para a economia doméstica” (King, 1994: 172).

“As cidades onde a educação das mulheres for negligenciada, avisou o humanista Juan Luis vives, aludindo a Aristóteles; Xenofonte e Platão, «estão privadas da maior porção de felicidade»… As jovens deveriam ser ensinadas a ler, para que, livres da ignorância pudessem aproximar-se dos autores mais sérios da sua civilização: os Evangelhos, os Actos dos Apóstolos e as epístolas do Novo Testamento, bem como os livros históricos e moralistas do Antigo Testamento; os santos Cipriano, Jerónimo, Agostinho, Ambrósio, João Crisóstomo, Hilário e Gregório; também Boécio, Fulgêncio, Tertuliano e até Platão, Cícero e Séneca. (…). Este ousado humanista, que durante a sua carreira desafiaria o monopólio escolástico da educação universitária e provaria a responsabilidade do estado laico na assistência aos pobres, abre assim a porta à educação séria das mulheres”  (King, 1994: 172).

“Ao mesmo tempo, Vives parece fechar a porta que abrira. Embora a mulher devesse aprender a ler a nível elevado, o âmbito e o propósito da educação a atingir por esse meio são severamente limitados. Insinua o que Jean Jacques Rousseau declararia, com concisão característica, quase três séculos mais tarde , no início da era moderna: «Deve aprender muitas coisas , mas apenas aquelas que lhe for útil saber.»”  (King, 1994: 172).

(…) E as tarefas domésticas não devem ser negligenciadas: a jovem deveria aprender «juntamente com as letras, a fiar tanto a lã como o linho, duas artes que a famosa idade de ouro e a época da inocência ensinaram à posteridade, muito úteis na economia doméstica…»”  (King, 1994: 173).

Assim, a educação prevista por Vives para a jovem do Renascimento não cultivaria a sua mente, mas encorajaria a sua obediência aos deveres e virtudes familiares. Os homens devem fazer muitas coisas no mundo e, assim, devem ser amplamente educados; mas à mulher apenas se pede alguma educação. (…). Torna a questão explícita: deve ser introduzida nos estudos literários, mas apenas em alguns: «os seus estudos deveriam ser aqueles que moldam a moral e a virtude; os estudos da sabedoria que ensinam a melhor e mais santa forma de vida. Recomendo que não se preocupe com a retórica; uma mulher não precisa dela; o que uma mulher precisa é probidade e prudência; não é impróprio uma mulher estar calada; o que é horrível e abominável é ser caprichosa e portar-se mal… Quando aprender a ler, colocai nas suas mãos os livros que melhoram a moral, e quando aprender a escrever, não lhes deis versos baixos…, mas um dito sério ou uma pequena passagem, sábia e sagrada, tirada das sagradas Epístolas ou dos escritos dos filósofos, que quando copiados repetidamente aderem mais à mente». A ignorância de tais preceitos é, como sempre tem sido, a ruína das mulheres: «a maioria dos vícios das mulheres nesta nossa época e em épocas anteriores… é produto da ignorância, pois nunca lêem nem ouvem aqueles ditos e conselhos excelentes dos Santos Padres sobre a castidade, a obediência, o silêncio, os adornos e tesouros das mulheres” (King, 1994: 174).

“Se os tesouros das mulheres são a castidade, o silêncio e a obediência, a castidade é o mais importante de todos: é a preocupação particular da mulher; armada com a sua virtude, está suficientemente instruída” (King, 1994: 174).

“Passados dois séculos e meio, o criador do liberalismo económico europeu, Adam Smith, admirava ainda este aspecto da educação feminina: é-lhes ensinado o que lhes é útil saber, «e nada mais lhes é ensinado». Cada elemento da sua educação tem um propósito claro: «ou para aumentar a atracção natural das suas pessoas, ou para formar as suas mentes na reserva, na modéstia, na castidade e na economia; para as tornar, ao mesmo tempo, aptas a serem donas de casa e comportarem-se convenientemente nessa situação».” (King, 1994: 174).

“Em todos os cenários da educação feminina – na própria casa da jovem ou noutra, na escola ou no convento, estes eram os comportamentos necessários e suficientes da educação feminina: conselhos de castidade, silêncio e obediência, e a aquisição de conhecimentos sobre as artes têxteis e outros ligados à economia doméstica. (…). A habilidade das mulheres nestas tarefas equipara-se a um quase monopólio do comércio associado à produção de tecidos e à manufactura de vestuário, como se viu, até que a estrutura das corporações, largamente masculinas, se intrometeu nessa área durante os séculos do Renascimento” ( King, 1994: 175).

A aprendizagem da costura e da fiação desempenhava assim um papel relevante na educação das raparigas. No início do século XIV, Francesco de Barberino elogiou tais actividades em desfavor da leitura: as filhas de mercadores têm que aprender muitas tarefas caseiras e não se devem preocupar com a leitura: as filhas da classe trabalhadora deveriam saber coser e fiar, cozinhar e cuidar dos outros membros da casa. Uma geração mais tarde, Paolo de Certaldo incentivou os chefes de família a vigiarem atentamente as mulheres nas suas casas, assegurando-se de que estivessem sempre ocupadas em qualquer trabalho, para evitarem o ócio – perigoso para todos, mas especialmente para as mulheres. «e não parecerá tola e não se dirá que saiu da floresta; e não sereis amaldiçoado por a ter criado assim»” ( King, 1994: 175).

 

“«Vosso pai, que era um filósofo natural, não era de opinião que as mulheres piorassem ao educar-se. Pelo contrário, como sabeis, teve grande prazer ao ver vosso interesse para aprender.»; «Vossa mãe, porém, que tinha as habituais ideias femininas sobre o assunto, queria que passásseis o vosso tempo fiando, como as outras mulheres, e impediu-vos de fazer mais progressos e de penetrar mais profundamente na ciência e estudo durante a vossa infância.» “Pizan 1975, 875 (2.36) in ( King, 1994: 193).

 

Bibliografia

King, L. Margaret. (1994). A Mulher do Renascimento. Editorial Presença. Lisboa.

 

 

 

 

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