Burgess

Publicado por: Milu  :  Categoria: Burgess, SOCIOLOGIA DA FAMÍLIA

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“Casa é uma construção de cimento e tijolos. Lar é uma construção de valores e princípios.”

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Da instituição ao companheirismo: a proposta de Burgess

Até aos anos 60 do século XX é em torno da ideia do surgimento da família moderna e da centralidade do casamento neste novo contexto, que as principais teorias e análises se desenvolvem. Burgess vem propor a ideia de transformação da família «instituição» em família «companheirismo». A transformação dever-se- ia, essencialmente, à passagem da produção agrícola e artesanal para a produção industrial, bem como à mobilidade geográfica e a crescente urbanização que a acompanhavam. A caracterizar o modelo “companheirismo”, e por oposição à lógica da instituição, temos uma família que é fundada pelo casamento decidido pela livre escolha dos cônjuges, que instala a democracia como princípio de funcionamento e que tem como finalidades o bem-estar pessoal do casal e dos filhos.
Deste modo, é o novo casal e, portanto, o casamento na verdadeira acepção da palavra, que funda a família e não, como na lógica institucional, a família através de casamentos por conveniência, que impõe aos mais novos o casamento. Como afirma Burgess, no modelo institucional as preocupações patrimoniais e económicas estão acima de todas as outras. Com o assalariamento, possível também para um número mais significativo de pessoas através da industrialização, tende a difundir-se o «companheirismo» como nova forma de encarar a família e o casamento.
Cada vez mais a família é valorizada no quadro da vida individual, como fonte de gratificação e bem-estar afectivo e não tanto como prestadora de serviços ou como unidade de produção de bens económicos.

Burgess apresenta a vida familiar e a vida pública como esferas autónomas, dicotomizáveis, por serem governadas por lógicas diferentes – de um lado a lógica da protecção, do afecto e da intimidade, do outro a da competição, do interesse e do lucro.

Críticas:

O facto de Burgess não ter tido devidamente em conta o conjunto de trocas e de relações internas à vida familiar, que não passam necessariamente apenas pela lógica dos afectos. Cita-se como exemplo, o enorme volume de serviços prestados, portanto, trabalho prestado, na esfera familiar – os cuidados com os filhos, as tarefas domésticas, etc. Além disso, a dicotomização entre vida familiar e vida pública está associada a uma perspectiva que considera a distribuição de papéis diferenciados e complementares entre mulher e homem como “natural” e “universal”.
Surge assim, a questão das diferenças de sexo, aqui completamente obscurecida pela visão “naturalizada” da distribuição dos papéis de acordo com as diferenças biológicas. A tendência para encarar a vida familiar e o casamento como empreendimentos abstractos desligados de outras dimensões da vida social, governados apenas por lógicas sentimentais e interpessoais, por oposição às dimensões consideradas agressivas e difíceis das outras relações sociais, alimentou ainda, por sua vez, e por demasiado tempo, a ideia de família como casulo protector. Mas o certo é que a realidade não é bem assim, uma vez que persiste a a possibilidade de factores externos interferirem no funcionamento interno da família. Apesar de serem governadas pelo companheirismo, sentimento e afecto, as famílias podem ser também palco de conflitos, tensões, desentendimentos, problemas.
Burgess considera, com efeito, que a família tem um papel central na manutenção da ordem social, exactamente porque a considera como factor compensatório e equilibrador dos constrangimentos e dificuldades a que os indivíduos estão sujeitos nas outras esferas da vida social.

Promove-se assim a ideia da centralidade da família como factor protector do indivíduo – numa sociedade e numa época onde são inexistentes ou incipientes os sistemas do Estado.
Ainda assim, a valorização do sentimento, dos afectos, não se traduziu, forçosamente, na estabilidade da família.

Bem vistas as coisas, a estabilidade económica não garante a estabilidade afectiva e familiar, uma vez que também pode contribuir, para o aumento da ruptura conjugal. Na verdade, estabilidade económica, menor desemprego, e sobretudo o surgimento, nos finais dos anos 50, de maiores oportunidades de emprego para as mulheres dos chamados sectores administrativos e de serviços, colocou também a questão da menor dependência feminina face ao casamento. Assim o casamento deixa de ser uma necessidade económica. Os empregos estão hoje ao alcance não só das mulheres solteiras ou divorciadas como também das mulheres casadas. Ora, exactamente a estabilidade económica e o maior acesso aos recursos por parte das mulheres casadas, em conjugação com a maior importância atribuída aos sentimentos, foram factores decisivos no aprofundamento do processo, já nessa altura em curso, de transformação das famílias. Com esta nova visão verifica-se que as pessoas casam por amor e divorciam-se também por causa do amor, ou seja, quando ele falta, quando ele terminou.

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