A “Terceira Cultura”

Publicado por: Milu  :  Categoria: SOCIEDADE

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A Europa herdou uma cultura ligada ao estudo dos clássicos da literatura, da filosofia e das artes. Deste modo, ter cultura significava ter lido Horácio, Platão, conhecer a música e a pintura. Não era necessário conhecer as leis da gravidade, da química, da biologia ou da matemática. Estas áreas eram consideradas como tendo um interesse localizado, específico, mas que não poderiam constituir a leitura de alguém que está empenhado em saber qual é o sentido da vida.
Até que começou a aparecer uma terceira cultura, que de alguma forma aboliu a separação entre a cultura científica e a cultura tradicional. Assim, a terceira cultura é constituída por pensadores originais, com formação científica, que não têm medo de se aventurar pelas áreas mais especulativas da cultura e que começam a escrever livros com imensa circulação – literatura pop sciense.

 

O cientista e literato britânico Charles P. Snow, no seu livro “As Duas Culturas”, publicado em 1959, aponta a existência de duas culturas, sendo que a primeira cultura é a do mundo dos literatos e intelectuais humanistas ou clássicos. A segunda é a cultura dos cientistas e do conhecimento científico. Snow observou que, além destes dois mundos praticamente não comunicarem entre si, ainda se desprezavam mutuamente.

O livro “Terceira cultura” escrito por John Brockman, no ano de 1995,  disponível gratuitamente no site da fundação Edge,  discute o trabalho de 23 pesquisadores que foram responsáveis por ideias novas e estimulantes para o público em geral (Francisco Varela, Richard Dawkins, Daniel Dennett, Steve Jones, Roger Penrose, entre outros). De acordo com o referenciado site, a terceira cultura consiste de:

“cientistas e pensadores do mundo empírico que com seus trabalhos e com a forma de expor as ideias estão sobrepondo o intelecto tradicional ao tornar visível os significados mais profundos de nossas vidas, redefinindo quem e o que somos”.

 

O termo “terceira cultura” apareceu pela primeira vez na literatura na segunda edição do livro de Charles P. Snow (1963), “As duas culturas” , que anunciava como que um embate entre cientistas e as humanidades. O autor previa um espaço de interação entre os intelectuais tradicionais e os cientistas emergentes, criando o conceito de “terceira cultura”. Assim, Snow referiu a necessidade de uma “terceira cultura”, que seria formada por literatos ou humanistas com um bom conhecimento de ciência, e que poderiam fazer a ponte entre as duas outras culturas. O interessante é que não foi isso exactamente que aconteceu. Os autores da literatura, artes e ciências humanas continuam tão ignorantes quanto antes sobre a ciência, seu impacto e implicações.

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Portanto, como disse o escritor John Brockman, em seu livro “Terceira Cultura”, o que realmente está mudando o mundo é a ciência e a tecnologia. A imprensa não tem deixado de demonstrar que as descobertas e invenções revolucionárias, ainda para mais a um ritmo de crescimento frenéticol, feitas na área de genética e biologia molecular,  da cosmologia e da exploração espacial, da biodiversidade, da informática e da microelectrónica, da realidade virtual e da Internet, e muitas outras, dominam os olhares da humanidade. Todavia, devido à omissão dos humanistas, os aspectos éticos, sociais e económicos de todas essas novidades, da avaliação de seu impacto futuro sobre nossas vidas e sobre a sociedade, não têm merecido a necessária atenção, logo por aqueles que, justamente, estariam capacitados para debatê-los. Também devido ao seu profundo desconhecimento dos temas científicos mais avançados e de sua significação para tantos aspectos de nossas vidas.

Por outro lado, a segunda cultura, a dos cientistas, também tem uma série de deficiências. Predomina um exagerado “cientificismo”, uma crença quase religiosa nos poderes do método científico, e um acentuado reducionismo, ou seja, um entendimento do mundo que é limitado pelos próprios métodos analíticos que a ciência precisa usar para funcionar efetivamente. Os cientistas também não sentem grande pendor para se comunicarem com o grande público, com raras exceções. Esta omissão os coloca em desvantagem em relação à primeira cultura, que é feita de comunicadores por profissão e vocação. Isso é uma infelicidade, pois o papel básico de um intelectual é duplo: aprender, primeiro, comunicar em seguida. Os intelectuais são responsáveis não somente por criar o conhecimento e avaliá-lo criticamente, mas também por modelar e influenciar o pensamento das grandes massas. Pensar em público é absolutamente necessário, portanto, e o cientista e o intelectual que se omitem disso estão traindo sua própria missão.

Brockman defende a tese de que a terceira cultura existe, mas que ela é formada por cientistas que são capazes de se comunicar com grandes audiências. São pessoas da estirpe de Carl Sagan, Roger Penrose, Paul Davies, Michio Kaku, Stephen Jay Gould, Richard Dawkins, Lynn Margulies, Edward O. Wilson, Steven Pinker, Daniel C. Dennett, Oliver Sacks e Marvin Minsky.

Por outras palavras, ainda segundo  Brockman , ao invés de se esperar que os «intelectuais literários» interpretem as conquistas da ciência moderna e as questões que esta levanta, são os cientistas que têm vindo a dirigir-se directamente ao público. A terceira cultura, segundo este autor, é uma síntese das grandes ideias da ciência, é uma síntese promovida por cientistas.

A realidade é que as últimas duas ou três décadas vieram  descobrir um fenómeno novo ou, pelo menos, de uma dimensão nova: a explosão da literatura de divulgação científica, assinada por alguns dos maiores nomes da ciência contemporânea. As obras de Carl Sagan, de Stephen Jay Gould, de Roger Penrose, de António Damásio e de tantos outros vultos da ciência tornaram-se «best-sellers».

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E o interessante é que essas obras não se limitam a explicar as conquistas da ciência. Os seus autores chamam o público para o centro de debates científicos em curso. Gould debate publicamente a sua teoria da evolução e do equilíbrio pontuado, em conflito com Dawkins e com muitos outros biólogos; Wilson defende abertamente a sua teoria da sociobiologia; Penrose ataca o «programa forte» da Inteligência Artificial. Ao chamar o público para estes debates, segundo diz Brockman, a ciência tem vindo a impor-se no centro da vida cultural moderna.

Webgrafia

http://criticanarede.com/lds_3cultura.html

http://www.sabbatini.com/renato/correio/ciencia/cp990521.htm

http://bios.ligamedica.com/Blogue/terceira-cultura-nerdismo-e-biologia-sintetica.html

 

3 Comentarios to “A “Terceira Cultura””

  1. lino Diz:

    E ter não só lido, mas traduzido Horácio, Virgílio, Cícero, Platão, Esopo, Safo e Xenofonte o que é? Eu fiz isso na minha juventude, durante os 7 anos que estudei cada uma das línguas, grego e latim!
    Beijinho

  2. Milu Diz:

    Ena Lino! Grego e Latim?? Isso é areia demais para a minha camioneta!
    És um intelectual e humanista clássico 😀
    Beijinho

  3. Jose Rosa Diz:

    Miluzinha,

    Muito interessante este seu post.
    Pelos lados de cá, ao sul do equador e no meio da América do Sul, nos debatemos há anos entre as ciências ditas humanas e as ciências ditas exatas.
    Não conhecia essa idéia de terceira cultura mas achei interessante. Dos cientistas citados o Carl Sagan é para mim o melhor. O Richard Dawkins já li alguns livros dele, o melhor para mim é o DEUS – UM DELÍRIO, excelente.
    Há um trecho no seu post que eu ouso discordar pela experiência que eu tive: “…pois o papel básico de um intelectual é duplo: aprender, primeiro, comunicar em seguida. “. O ‘aprender’ e o ‘comunicar’ para mim estão interligados, assim como o aprender e o ensinar.
    Essa ‘temporalidade’ na prática (e no processo de ensino-aprendizagem) na verdade não existe. Já disse um educador (Antonio Vieira Pinto) em outras palavras que quem ensina sabe, quando não sabe, e quem aprende não sabe, quando, na verdade, sabe. Acho que isso é um pensamento socrático, não tenho certeza, mas acredito verdadeiro.
    um beijo,
    José Rosa.

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