“O Consolo da Filosofia”

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Para fechar com chave de ouro este ciclo de posts que tenho vindo a publicar, com base no livro “O Consolo da Filosofia” de Alain De Botton, publico hoje um artigo que encontrei na Internet, da autoria de Paulo Nogueira. De leitura obrigatória, para quem gosta de “crescer por dentro”. Dá um bocado de trabalho  a ler, porque é um texto algo extenso, mas são as coisas que dão trabalho (aprender) que valem a pena…

 

Para que serve a Filosofia na vida prática

 

A filosofia existe para que as pessoas possam viver melhor. Sofrer menos. Lidar melhor com as adversidades. Enfrentar serenamente o perpétuo vai-e-vem de elevações e quedas, para citar uma grande frase de um filósofo da Antiguidade. A missão essencial da filosofia é tornar viável a busca da felicidade.
Todos os grandes pensadores sublinharam esse ponto. A filosofia que não é útil na vida prática pode ser jogada no lixo. Alguém definiu os filósofos como os amigos eternos da humanidade. Nas noites frias e escuras que enfrentamos no correr dos longos dias, eles podem iluminar e aquecer. A filosofia apoia e consola.

Um aristocrata romano chamado Boécio (480-524) era rico, influente, poderoso. Era dono de uma inteligência colossal: traduziu para o latim toda a obra de Aristóteles e Platão. Tudo ia bem. Até o dia em que foi acusado de traição pelo imperador e condenado à morte. Foi torturado. Recebeu a marca dos condenados à morte de então: a letra grega Theta queimada na carne.

Boécio recorreu à filosofia, em que era mestre, para enfrentar o suplício. Entre a sentença e a morte, escreveu em condições precárias um livro que se tornaria um clássico da literatura ocidental: A Consolação da Filosofia. Tudo de que ele dispunha, para escrevê-lo, eram pequenas tábuas e estiletes. Isso lhe foi passado, para dentro da cela, por amigos. “A felicidade pode entrar em toda parte se suportarmos tudo sem queixas”, escreveu ele.

A filosofia consola, mostrou em situação extrema Boécio. E ensina. E inspira.

Sim, os filósofos são os eternos amigos da humanidade. Considere Demócrito, pensador grego do século 5 a.C. Ele escreveu um livro chamado Sobre o Prazer. Primeira frase do livro: “Ocupe-se de pouco para ser feliz”. Gênio. Gênio total. A palavra grega para tranquilidade da alma é euthymia.

A recomendação básica de Demócrito, sob diferentes enunciados, é encontrada em muitos outros filósofos. Sobrecarregar a agenda equivale a sobrecarregar o espírito, e traz inevitavelmente angústia. Ninguém que tenha muitas tarefas pode ser feliz.
Um sábio da Antiguidade não abria nenhuma correspondência depois das quatro horas da tarde. Era uma forma de não encontrar mais nenhum motivo de inquietação no resto do dia, que ele dedicava a recuperar a calma que perdera ao entregar-se ao seu trabalho. Olhemos para nós, e nos veremos com frequência abrindo mensagens no computador alta noite, e não raro nos perturbando por seu conteúdo. O único resultado disso é uma noite mal dormida.
Fazemos muitas coisas desnecessárias. Coloque num papel as atividades de um dia. Depois veja o que realmente era preciso fazer e o que não era. A lista das inutilidades suplanta quase sempre a das ações imperiosas. O imperador filósofo romano Marco Aurélio, do começo da Era Cristã, louvou a frase de Demócrito em suas clássicas Meditações. Acrescentou que devemos evitar não apenas os gestos inúteis, mas também os pensamentos desnecessários.

Marco Aurélio recomendava o formidável exercício de conduzir a mente, quando agitada, para pensamentos aquietadores. Isso conseguido, controlamos a mente, esse cavalo selvagem, em vez de sermos controlados por ela.

Séneca escreveu sobre o assunto com imensa graça e espírito. Séneca usou as expressões “agitação estéril” e “preguiça agitada” ao tratar dos atos que nos trazem apenas desassossego. “É preciso livrar-se da agitação desregrada, à qual se entrega a maioria dos homens”, escreveu Séneca. “Eles vagam ao acaso, mendigando ocupações. Suas saídas absurdas e inúteis lembram as idas e vindas das formigas ao longo das árvores, quando elas sobem até o alto do tronco e tornam a descer até embaixo, para nada. Quantas pessoas levam uma existência semelhante, que se chamaria com justiça de preguiça agitada?”

Agimos como formigas quase sempre, subindo e descendo sem razão o tronco das árvores, e pagamos um preço alto por isso: ansiedade, aflição, fadiga física e mental. Nossa agenda costuma estar repleta. É uma forma de fugir de nós mesmos, como escreveu sublimemente um poeta romano. Eliminar ao menos algumas das tantas tarefas inúteis que nos impomos a cada dia é vital para a euthymia da qual falavam os sábios gregos.
Outro ponto essencial recomendado pelos filósofos para a vida feliz é aceitar os tropeços. É o principal ensinamento do filósofo Zenão e seus discípulos. Nascido em 333 a.C. na ilha de Chipre, filho de pais ricos, Zenão fundou em Atenas uma escola de filosofia que dominou o mundo culto por séculos e cujos fundamentos influenciaram a doutrina cristã: o estoicismo.

Tão forte é a filosofia estóica que “estóico” virou sinonimo de bravura na adversidade. Segundo o mais admirado dicionário de inglês, o Oxford, estóico é quem se porta com serenidade diante do revés ou do triunfo. Nem vibra na vitória e nem se deprime na derrota.

Zenão perdeu todo o seu património num naufrágio. Seu comentário ao receber a informação: “O destino queria que eu filosofasse mais desembaraçadamente”. O nome da escola deriva da palavra grega “stoa”, pórtico. Zenão, alto, magro, o pescoço ligeiramente inclinado, pregava suas idéias num pórtico erguido pelos atenienses para celebrar a vitória na guerra sobre os persas.
Esse pórtico era colorido com imagens de gregos derrotando os bárbaros. Na Atenas de então, era comum discutir filosofia em locais públicos, mas a escolha do pórtico por Zenão parece carregada de simbolismo: o triunfo da sabedoria sobre a brutalidade.

O estoicismo defendia uma vida de acordo com a natureza. Simplicidade no vestuário, na comida, nas palavras, no estilo de vida. E a aceitação de tudo que possa ocorrer de ruim. Agastar-se contra as circunstâncias apenas piora o estado de espírito da pessoa: essa a lógica da aceitação, ou resignação, que viria a ser um dos pilares do cristianismo.
O lema estóico: abstenha-se e aceite. O apreço pela vida de acordo com a natureza Zenão a aprendeu com seu mestre em filosofia, Crates. Crates era da escola cínica. Os cínicos defendiam a simplicidade tanto quanto os estóicos, e não é difícil entender por que a posteridade ignorante lhes atribuiu um sentido pejorativo: é que eles eram extraordinariamente irreverentes. O mais notável filósofo cínico, Diógenes, certa vez se masturbou em público. Explicou aos que o interpelavam: “Gostaria de saciar minha fome esfregando o estômago”.

Não sobrou livro nenhum de Zenão. Atribuem-se a ele frases, das quais uma das melhores diz: “A natureza nos deu dois ouvidos e apenas uma boca para que ouvíssemos mais e falássemos menos”. Zenão se matou aos 72 anos.
Para os estóicos, o suicídio – sem lamurias, sem queixas – era uma retirada digna e honrosa quando a pessoa já não encontrasse razões para viver. Sabe-se de sua morte pelo biógrafo Diógenes Laércio, autor de Vida dos Filósofos. Zenão tropeçou e se machucou, segundo Diógenes Laércio. Em seguida citou um verso de um autor grego chamado Timóteo: “Eis-me aqui: por que me chamas?”

Nascido escravo e só liberto depois de adulto, Epitecto foi uma das vozes mais influentes da filosofia da Antiguidade. Ele viveu nos primórdios da Era Cristã, de 40 a 125. Não escreveu um único livro. Seu pensamento é conhecido graças a um discípulo, o historiador Arriamo.
Arriamo teve o cuidado de anotar as ideias de seu mestre, e depois transformá-las em dois livros, Entretenimentos e Manual. Seu tamanho intelectual é tal que o imperador filósofo Marco Aurélio escreveu que um dos acontecimentos capitais de sua vida foi ter tido acesso às obras de Epitecto.

Para ele, o passo básico da vida feliz é aceitar as coisas como elas são. Revoltar-se contra os fatos não altera os fatos, e ainda traz uma dose de tormento desnecessária. “Não se deve pedir que os acontecimentos ocorram como você quer, mas deve-se querê-los como ocorrem: assim sua vida será feliz”, disse Epitecto. (Séculos depois, o pensador francês Descartes escreveu uma frase que é como um tributo à escola de Epitecto: “É mais fácil mudar seus desejos do que mudar a ordem do mundo”.)

Não adianta se agastar contra as circunstâncias: elas não se importam. Isso se vê nas pequenas coisas da vida. Você está no meio de um congestionamento? Exasperar-se não vai dissolver os carros à sua frente. Caiu uma chuva na hora em que você ia jogar tênis com seu amigo? Amaldiçoar as nuvens não vai secar o piso. Que tal uma seção de cinema em vez do tênis?
Outro ensinamento seu crucial é que só devemos nos ocupar efetivamente daquilo que está sob nosso controle. Você cruza uma manhã com seu chefe no elevador e ele é efusivo. Você ganha o dia. Você o encontra de novo e ele é frio. Você fica arrasado. Daquela vez ele estava bem-humorado, daí o cumprimento caloroso, agora não. O estado de espírito de seu chefe não está sob seu controle. Você não deve nem se entusiasmar com tapas amáveis que ele dê em suas costas e nem se deprimir com um gesto de frieza. Você não pode entregar aos outros o comando de seu estado de espírito.

“Não é aquele que lhe diz injúrias quem ultraja você, mas sim a opinião que você tem dele”, disse Epitecto. Se você ignora quem o insulta, você lhe tira o poder de chateá-lo, seja no trânsito, na arquibancada de um estádio de futebol ou numa reunião corporativa.
Não são exatamente os fatos que moldam nosso estado de espírito, pregou Epitecto, mas sim a maneira como os encaramos. Um dos desafios perenes da humanidade, e as palavras de Epitecto são uma lembrança eterna disso, é evitar que nossa opinião sobre as coisas seja tão ruim como costuma ser. A mente humana parece sempre optar pela infelicidade.

Outra lição essencial dos filósofos é não se inquietar com o futuro. O sábio vive apenas o dia de hoje. Não planeja nada. Não se atormenta com o que pode acontecer amanhã. É, numa palavra, um imprevidente. Eis um conceito comum a quase todas as escolas filosóficas: o descaso pelo dia seguinte. Mesmo em situações extremas. Um filósofo da Antiguidade, ao ver o pânico das pessoas com as quais estava num navio que chacoalhava sob uma tempestade, apontou para um porco impassível. E disse: “Não é possível que aquele animal seja mais sábio que todos nós”.

O futuro é fonte de inquietação permanente para a humanidade. Tememos perder o emprego. Tememos não ter dinheiro para pagar as contas. Tememos ficar doentes. Tememos morrer. O medo do dia de amanhã impede que se desfrute o dia de hoje. “A imprevidência é uma das maiores marcas da sabedoria”, escreveu Epicuro. Nascido em Atenas em 341 AC, Epicuro, como os filósofos cínicos, foi uma vítima da posteridade ignorante. Pregava e praticava a simplicidade, e no entanto seu nome ficou vinculado à busca frívola do prazer.

Somos tanto mais serenos quanto menos pensamos no futuro. Vivemos sob o império dos planos, quer na vida pessoal, quer na vida profissional, e isso traz muito mais desassossego que realizações. O mundo neurótico em que arrastamos nossas pernas trêmulas de receios múltiplos deriva, em grande parte, do foco obsessivo no futuro. Há um sofrimento por antecipação cuja única função é tornar a vida mais áspera do que já é.
Epicuro, numa sentença frequentemente citada, disse que nunca é tarde demais e nem cedo demais para filosofar. Para refletir sobre a arte de viver bem, ele queria dizer. Para buscar a tranqüilidade da alma, sem a qual mesmo tendo tudo nada temos a não ser medo. Também nunca é tarde demais e nem cedo demais para lutar contra a presença descomunal e apavorante do futuro em nossa vida.

O homem sábio cuida do dia de hoje. E basta.

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O autor: Paulo Nogueira

O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo. Clique aqui

 

 

Nietzsche e o Cristianismo

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Friedrich Nietzsche nasceu na aldeia de Röcken, perto de Leipzig, na Saxónia. O pai, Carl Ludwig Nietzsche, era pastor. Por sua vez, a mãe, era devota e também filha de um pastor. Contudo, o amor filial não impediu Nietzsche de fazer sérias reservas à consolação que o seu pai, e o cristianismo em geral, oferecia aos sofredores:

“Faço contra a Igreja Cristã a acusação mais terrível que jamais lhe foi dirigida por um perseguidor. Para mim, ela é a forma mais radical de corrupção imaginável… nada escapou à sua depravação… Considero o cristianismo a grande maldição, a grande depravação intrínseca… Não era má ideia usar luvas para ler o Novo Testamento. O contacto com tanta sujidade quase nos obriga a fazê-lo… Tudo nele é cobardia, tudo é dissimulação e fechar os olhos às nossas próprias ações… Será ainda preciso acrescentar que em todo o Novo Testamento só existe uma figura que somos obrigados a respeitar? Pilatos, o grande governador romano. Muito simplesmente: É indecente ser-se cristão hoje.”

Como é que o Novo Testamento nos dá consolo para as nossas dificuldades? 

Sugerindo:

Que muitas das nossas dificuldades não são dificuldades, mas sim virtudes.

Exemplo:

“Se a timidez nos preocupa, o Novo Testamento responde:

Felizes os mansos, porque possuirão a terra. (Mateus 5,5)

Se nos aflige o facto de não termos amigos, o Novo Testamento sugere:

Felizes sereis, quando os homens vos odiarem, quando vos expulsarem, vos insultarem e rejeitarem o vosso nome […] a recompensa será grande no Céu. (Lucas, 6,22-3)

Aos que se sentem explorados no emprego, aconselha o Novo Testamento:

Escravos, obedecei em tudo aos senhores terrenos […] sabendo que é do Senhor que recebereis a herança como recompensa. O Senhor, a quem servis, é Cristo. (Carta a São Paulo aos Colossenses 3,22-4)

Se a falta de dinheiro nos preocupa, diz-nos o Novo Testamento:

É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. (Marcos 10,25)

Para Nietzsche os  dois grandes narcóticos europeus são o álcool (pelo qual nutria uma relação de desprezo) e o Cristianismo.

O Cristianismo, segundo Nietzsche, emergira das mentes de tímidos escravos do Império Romano que não tinham estômago para subir ao cume das montanhas, não conseguiam subir alto, e, portanto, haviam construído para si próprios uma filosofia em que os sopés eram maravilhosos.

Os cristãos teriam gostado de gozar os verdadeiros ingredientes da realização (posição social, sexo, superioridade intelectual, criatividade) mas não tinham coragem para suportar as dificuldades que esses bens acarretavam. Por conseguinte, inventaram um credo hipócrita enchendo de condenações o que eles desejavam, mas eram fracos demais para o alcançar e louvavam o que eles nem por sombras ambicionavam mas estava ao seu alcance.

Assim, a falta de combatividade passou a ser «bondade», a pobreza «humildade», a submissão «obediência» e, de acordo com Nietzsche, a «incapacidade de se vingarem» tornou-se «capacidade de perdoar».

Deste modo, todos nos tornamos cristãos quando professamos a indiferença pelo que secretamente desejamos mas não possuímos; quando afirmamos alegremente que não precisamos de amor, nem de posição social, dinheiro ou sucesso, criatividade, saúde, as nossas bocas  contorcem-se de amargura; e fazemos guerras silenciosas àquilo a que publicamente renunciámos, disparando tiros das janelas ou escondidos nas árvores.

Como devemos então proceder de acordo com a filosofia de Nietzsche?

Continuando a acreditar no que desejamos – mesmo quando não o temos, e talvez nunca o cheguemos a ter. Ou melhor – resistindo à tentação de denegrir e considerar maus certos bens por eles se terem revelado difíceis de obter.

Nietzsche não foi feliz no amor. No final da sua vida, mergulhado na solidão, obscuridade, pobreza e falta de saúde nunca, porém, manifestou o comportamento de que tanto acusou os cristãos; não culpou a amizade, a riqueza ou o bem estar. O Padre Galiani e Goethe continuavam a ser os seus heróis. Continuou a acreditar que «para o problema masculino da auto-rejeição a melhor cura é ser-se amado por uma mulher inteligente». Apesar de doente, a ideia de uma vida ativa ainda o atraía:

«De manhã cedo, ao romper do dia, com toda a frescura e em grande forma, ler um livro – só por vicío!”

Bibliografia

BOTTON, Alain. (2001). O Consolo da Filosofia. Círculo de Leitores. Camarate.

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Nietzsche – Apologia da Dificuldade

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A arte de conviver com a tristeza

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Friedrich Nietzsche foi até certa altura um admirador de Schopenhauer que defendia que o homem prudente não procura o prazer, mas evitar a dor. Deste modo, a fim de evitar os problemas e a ansiedade, que é normal sentirmos quando buscamos o contentamento, o melhor a fazer é reconhecer a impossibilidade de o alcançar:

“Ter como objetivo não aquilo que é aprazível e agradável, mas evitar, na medida do possível, os seus inúmeros males… Os mais felizes são aqueles que atravessam a vida sem uma dor muito grande quer física, quer mental.”

Schopenhauer

Contudo, Nietzsche veio mais tarde a mudar de opinião, quando se apercebeu de que as dificuldades de todo o género seriam bem recebidas por aqueles que buscam a realização.

Ao contrário de Schopenhauer, para quem a realização consistia numa ilusão, defendendo que os sábios deviam evitar a dor em vez de procurar o prazer, e viver sossegados «num pequeno quarto com lareira», Nietzsche considerava agora, que a realização deveria ser conseguida não evitando a dor, mas reconhecendo o seu papel como um passo natural e inevitável no caminho para a conquista de coisas boas. Por outras palavras, a realização seria o prémio para quem muito se esforçou, para quem fez por o merecer, para quem não se poupou.

Para Nietzsche, os mais satisfatórios dos projetos humanos pareciam inseparáveis de um considerável grau de tormento, estando as fontes das nossas maiores alegrias estranhamente próximas ou ligadas às fontes das nossas maiores tristezas. Ninguém é capaz de produzir uma obra de arte notável sem experiência… nem de alcançar uma posição social de um dia para o outro… nem de ser um amante excecional logo à primeira tentativa. Entre o fracasso inicial e o êxito subsequente, entre o que desejamos ser e o que de momento somos, deve haver dor, ansiedade, inveja e humilhação. Nietzsche pretendeu corrigir a ideia de que a realização virá por si, ou não chegará a vir, uma vez que esta ideia poderá levar-nos a desistir prematuramente dos desafios, que poderiam  ser cumpridos se nos tivéssemos preparado para a selvajaria muito legitimamente exigida por quase tudo o que tem valor.

Exemplo:

Os Ensaios de Montaigne não brotaram da mente de Montaigne na sua forma acabada! Devíamos olhar para os registos das colossais lutas autoriais por detrás da obra prima final! Para a imensidão de notas e revisões que os Ensaios exigiram! Já com Stendhal foram precisas décadas para que as obras primas emergissem.  Mas, se a maioria das obras literárias é menos brilhante do que O Vermelho e o Negro de Stendhal, não é por faltar génio aos seus autores, mas antes por estes não possuírem uma noção correta da quantidade de dor necessária.

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Eis, segundo Nietzsche, como escrever um romance:

“A receita para se ser um bom romancista… é fácil de dar, mas levá-la a cabo pressupõe qualidades que estamos habituados a ignorar quando dizemos: «Não tenho talento suficiente». Basta escrever mais ou menos uma centena de rascunhos de romances, que não precisam de ir além das duas páginas, mas têm de ser tão perfeitos que não haja neles nem uma palavra a mais; devemos tomar nota de episódios do dia a dia até sabermos dar-lhe uma forma mais rica e eficaz; devemos reunir e descrever incansavelmente tipos humanos e personagens; acima de tudo devemos relacionar umas coisas com as outras e ouvir as histórias dos outros, de olhos e ouvidos atentos ao efeito que produzem nos presentes, e devemos viajar como um pintor de paisagens ou figurinista… devemos, finalmente, refletir sobre os motivos por detrás das ações humanas, não desdenhar qualquer indício que nos informe acerca deles e colecionar esse tipo de coisas noite e dia. Devemos fazer este exercício multifacetado durante uns dez anos; o que depois for criado na oficina… será suficientemente bom para sair para o mundo.”

Nietzsche

Assim, a filosofia de Nietzsche resumia-se a uma curiosa mistura de fé extrema no potencial humano (a realização está ao alcance de todos nós, tal como escrever um bom romance) e dureza extrema (porque talvez precisemos de uma década de infelicidade para o primeiro livro).

Nietzsche era um homem das montanhas, é difícil ler algumas páginas sem encontrar alguma referência alpina:

Ecce Homo: Aquele que souber respirar a atmosfera das minhas obras perceberá que se trata de uma atmosfera de altitude, uma atmosfera agreste. É preciso ser-se feito para ela, de outra maneira o mais certo é apanhar-se uma constipação. O gelo está próximo, a solidão é terrível – mas como tudo parece tão pacífico àquela luz! Como se respira bem! Como nos sentimos abaixo de nós! A filosofia, como a partir daí a entendi e experimentei, é um viver voluntário entre o gelo e as montanhas. “

“Para a Genealogia da Moral: Seria necessário um espírito diferente daquele que é provável encontrarmos nesta época [para compreender a minha filosofia]… teríamos de estar aclimatados ao ar mais rarefeito das altitudes, às ruas no inverno, ao gelo, e às montanhas em todos os sentidos.”

“Humano, demasiado Humano: Às montanhas de verdade nunca se sobe em vão: ou se consegue chegar mais alto hoje, ou se exercita a força a fim de chegar mais alto amanhã.”

“Considerações Extemporâneas: Subir à puramente gélida atmosfera alpina mais alto do que qualquer filósofo antes de nós, chegar ao ponto em que a neblina e a obscuridade cessam e a constituição fundamental das coisas fala com uma voz dura e ríspida mas inevitavelmente compreensível!”

Nietzsche

Mas para atingirmos a moral da filosofia montanhesa de Nietzsche não é fácil trepar três mil quatrocentos e cinquenta e um metros acima do mar. É preciso no mínimo cinco horas, seguir por caminhos estreitos, negociar uma forma de contornar penedos e atravessar pinhais cerrados, ficar sem fôlego por causa do ar rarefeito, sobrepor peças de roupa para combater o vento e abrir caminho entre neves eternas.

Dizia que “só os pensamentos que nos invadem enquanto caminhamos têm algum valor“, estabeleceu uma analogia com o facto de os elementos positivos da vida humana dependerem dos negativos, a felicidade das dificuldades.

Todas as vidas são difíceis; o que faz com que algumas delas sejam também felizes é a maneira como encaram a dor:

A ansiedade pode precipitar o pânico, ou um exame rigoroso do que está errado.

O sentimento de injustiça tanto pode levar ao crime como a uma obra inovadora de teoria económica.

A inveja pode levar quer ao rancor, quer à decisão de competir com o rival e a consequente produção de uma obra prima.

Como explicara Montaigne no capítulo final dos Ensaios:

«a arte de viver está em saber tornar úteis as adversidades».

 

Bibliografia

 

BOTTON, Alain. (2001). O Consolo da Filosofia. Círculo de Leitores. Camarate.

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