Sociologia da Família – Casamento

Publicado por: Milu  :  Categoria: Casamento, SOCIOLOGIA DA FAMÍLIA

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O novo conceito do amor,  tal como foi explanado no post anterior, parece verificar-se nos casamentos e uniões de facto orientados para um casamento/conjugalidade do tipo associativo. Senão vejamos:

Existem três tipos de casamento e, também, os três tipos de conjugalidade, que dizem respeito a cada um deles. Assim temos:

  • Casamento Institucional – Conjugalidade Institucional;
  • Casamento Fusional – Conjugalidade Fusional (Fusão);
  • Casamento Associativo – Conjugalidade Associativa

Algumas considerações sobre o casamento:

Definição de casamento: Segundo Giddens (2004:175) o casamento é uma união sexual entre dois indivíduos adultos, reconhecida e aprovada socialmente.

Definição de conjugalidade:  A conjugalidade é a união de pessoas tanto de género diferentes (heterossexuais) como do mesmo género (homossexuais) com o objetivo de partilhar vínculos afetivos, sexuais, amorosos formando assim um casal.

A forma como as pessoas vivem o casamento depende de fatores que estão associados à sua classe social, à sua idade, etc. O casamento implica sempre uma mudança identitária nas pessoas que se casam.
A identidade é o conjunto de características que tornam o indivíduo diferente dos outros: os valores, gostos, expectativas, as formas de viver, etc. Esse conjunto de características sofre alterações quando se dá o casamento.  A identidade da mulher depende muito do seu papel no casamento, enquanto mãe e mulher. Depois do casamento, passa-se a desempenhar novos papéis que são incorporados implicando uma mudança de identidade.

A ideia de que o casamento só deve existir enquanto há amor é relativamente recente. Outrora, os casamentos eram feitos por conveniência. Para o homem não havia motivos para não contrair um casamento sem amor, ou para dissolver um casamento sem amor, já que era socialmente aceite que o homem procurasse outra mulher  para partilhar afetividade. À esposa cabia o papel de ser séria, boa dona de casa, submissa, discreta e muitos outros pergaminhos que convinham ao marido. O adultério feminino, por seu lado era mal visto e socialmente condenado.

As ideias que se têm  do casamento vão sempre mudando com a evolução dos tempos, dependendo da organização cultural em que vivem os indivíduos. No entanto, também pode acontecer que um casal tenha  conceções de casamento diferentes, apesar disso, casam-se na mesma. Mas… Há aqui um mas… É que a ideia ou conceção de casamento que irá prevalecer na vida do casal, será a ideia do homem.

A construção de três modelos de conjugalidade exprime a finalidade dos diferentes projetos familiares. Assim temos:

1. Casamento Institucional – Conjugalidade institucional

Tipo de conjugalidade em que as pessoas, mesmo antes de se casar, sempre incluíram o casamento no seu projeto de vida. O casamento é encarado como algo de inevitável. Chega uma determinada altura que as pessoas se casam, como se todas as pessoas estivessem destinadas a casar, é algo de que não se pode fugir. É uma ideia muito utilitária.

Cada pessoa tem o seu papel dentro do casal. É normal que considerem que o trabalho doméstico recaia sobre a mulher e o trabalho profissional recaia sobre o homem. É uma instituição, pois já está definido antes de as pessoas se casarem. Já se sabe à priori qual o funcionamento do casamento e do casal. Cada um sujeita-se ao papel que lhe é atribuído, não há espaço para uma renegociação. É neste tipo de casamento que há uma maior desigualdade entre os seus membros.
Tal como o casamento, que  é considerado uma etapa incontornável da vida das pessoas, a parentalidade também o é. Surge como uma etapa natural e indiscutível. Se já casou, o passo seguinte é ter filhos. Surge um centramento parental. Os papéis do casal definem-se por ser pais e mães dos seus filhos. As pessoas não se mantêm casadas por amor ou respeito um pelo outro, mas pelos filhos, e organizam toda a sua vida em torno dos filhos. Muitas vezes aguentam a violência doméstica pelos filhos. O casamento mantém-se por serem pai e mãe e não marido e mulher.
Os homens encaram o casamento como uma perda de liberdade, apesar de ser o tipo de casamento em que os homens têm menos responsabilidades. Está presente o discurso de que as mulheres os chateiam por tudo e por nada e não os deixam sair ou fazer o que querem. As mulheres ficam fechadas em casa, mas vêm este casamento como uma forma de ganhar estatuto. Deixam de ser raparigas, tornam-se mulheres, adquirem o estatuto do marido. Olham para o casamento como um ganho, apesar de ser extremamente desvantajoso para elas. Os homens encaram como uma perda, apesar de terem mais vantagens.
É mais comum este tipo de casamento entre pessoas mais velhas e de origens sociais baixas. Muitas das mulheres nem sequer têm profissão. É o tipo de conjugalidade que tem vindo a diminuir ao longo dos anos.

Fusão

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2. Casamento Fusional – Conjugalidade Fusional (de fusão)

É por definição o casamento por romantismo, vem da ideia de que duas pessoas foram feitas uma para a outra e que vão viver juntas o resto da vida, não enquanto indivíduos mas enquanto duas pessoas que se fundem uma na outra. Um é a metade do outro.
Há a noção de que só se casaram porque encontraram a pessoa ideal e só se casam se a encontrarem. O que está na origem deste casamento é o amor, que está presente em toda a vida do casal. Quase nunca se fala na pessoa individual, não há a noção de que cada um tem opiniões diferentes, de que há individualidade. É como se se tratasse de apenas uma pessoa, com os mesmos gostos e interesses. Partilham tudo. Não existe a ideia de privacidade, ou é uma ideia muito frágil. Não há segredos, não há privacidade. Todos os gostos e expectativas são partilhados. Há uma completa perda de identidade. Os filhos são encarados como um símbolo do amor do casal. Não existem barreiras de privacidade, que muitas vezes se estende também aos filhos.
A desigualdade no desempenho das lides  domésticas não é tão acentuada, como no casamento institucional, mas continua a existir, embora por motivos diferentes. As mulheres encaram como um sinal de amor o facto de realizarem as tarefas domésticas. Encaram como algo que elas fazem porque querem fazer.
Os elementos do casal muito dificilmente põem o casamento em causa. A causa mais frequente para o divórcio é a traição. Os filhos são uma extensão do casal. Resultaram daquele amor. Há uma centralidade conjugal. O que está na base deste casamento é o marido e a mulher enquanto casal.
É comum entre pessoas jovens, até aos 35 anos e pouco qualificadas, e também mais velhas (entre os 35 e 50 anos). Nesta conjugalidade a mulher pode aparentar ter uma certa autonomia, mas é só aparente, contudo é ao fazer-se dona e senhora dos espaços tradicionalmente atribuídos às mulheres, um domínio que é o seu reino, que aparenta ser autónoma, mas não o é, porque afinal, mesmo esse espaço está ao serviço do homem.

3. Casamento Associativo – Conjugalidade associativa

Centra-se na realização pessoal. As pessoas casam-se porque entendem que isso será benéfico para elas. Há alguém com quem partilham a vida. Só se casam quando consideram que o casamento será benéfico para elas. Só se casam quando entendem que isso não prejudicará o seu percurso individual. A primeira coisa que está na cabeça das pessoas é o seu próprio interesse. As pessoas optam por criar uma família porque será benéfico para elas. A partir do momento em que um elemento ganha consciência de que o casamento não é bom para si, dá-se o divórcio. Só se mantém o casamento se for uma forma de se realizar pessoalmente e se isso for benéfico para elas. É impensável a ideia de se sacrificar a identidade em nome da família. As pessoas têm muitas outras fontes de identidade. As pessoas estabelecem muito mais facilmente outras relações sociais fora da família. Têm outras atividades fora da família, longe do outro elemento do casal, encontram longe da família outras formas de realização pessoal. Está presente uma ideia de individualismo. É comum haver o discurso de “a minha felicidade primeiro; só se eu for feliz é que posso fazer os outros felizes; só o faço enquanto for feliz”. Só têm filhos se considerarem que isso as fará mais felizes. Não é uma obrigação, não há menos amor por isso, só vale a pena ter filhos se com isso o casal for mais feliz. Só têm filhos se o quiserem, porque se não forem felizes com o filho, também não serão bons pais. Há uma maior divisão das tarefas. Reconhecem que a situação ideal é uma partilha das tarefas domésticas, mas na prática pouco o fazem. Este tipo de casamento/conjugalidade acontece entre pessoas jovens, qualificadas e com habilitações de nível universitário.

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Pelo acima descrito podemos concluir que o casamento/conjugalidade do tipo associativo parece corresponder ao novo conceito do amor referido pelo médico Psicanalista FLÁVIO GIKOVATE. O post seguinte incidirá no tema dos divórcios correspondentes aos tipos de casamento/conjugalidade.

Bibliografia

Aboim, Sofia (2006). Conjugalidade, Afectos e Formas de Autonomia Individual: Perspectivas no Feminino. Análise Social Vol. XLI, 180, 801-825.

GIDDENS, Anthony. (2004). Sociologia. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian.

“SAWABONA” Novo conceito do Amor

Publicado por: Milu  :  Categoria: PARA PENSAR, SAWABONA" ...

Sawabona

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“Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o início deste milénio. As relações afectivas também estão a passar por profundas transformações revolucionando o conceito de amor.
O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.
A ideia de uma pessoa ser o remédio para a nossa felicidade, que nasceu com o Romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século.
O amor romântico parte da premissa que somos uma fracção e precisamos de encontrar a outra metade para nos sentirmos completos. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente tem atingido mais a mulher.
Ela abandona as suas características para se amalgamar ao projecto masculino. A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma ideia prática de sobreviver e pouco romântica, por sinal.
A palavra de ordem deste século é Parceria. Estamos trocando o amor de necessidades pelo amor de desejo.
Eu gosto e desejo companhia mas não preciso, o que é muito diferente.
Com o avanço da tecnologia, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas e a aprender melhor a conviver consigo próprias. Elas estão a começar a perceber que se sentem fracção mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fracção, não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma, é apenas um companheiro de viagem.
O Homem é um animal que vai mudando o mundo e depois tem de se reciclar para se adaptar ao mundo que fabricou.
Estamos entrando na época da individualidade que não tem nada a ver com o egoísmo: o egoísmo não tem energia própria, alimenta-se da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.
A nova forma de amor tem outra feição e significado: visa aproximar dois inteiros e não a unir duas metades e isto só é possível para os que conseguem trabalhar a sua individualidade.
Quanto mais um indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afectiva. A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso, pelo contrário, dá dignidade à pessoa.
As boas relações afectivas são óptimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.
Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado.
Por vezes julgamos que o outro é a nossa alma gémea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.
Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro de si mesmo, e não a partir do outro.
Desta forma, ele torna-se menos crítico e mais compreensivo às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.
O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação há aconchego, o prazer da companhia e o respeito de ser amado.
SAWABONA – É um cumprimento usado na África do Sul que significa:
– “Eu te respeito, eu te valorizo, você é importante para mim”.”

Depois da leitura atenta deste trecho da autoria de FLÁVIO GIKOVATE, médico Psicanalista, estamos em melhores condições para dizer aos outros, especialmente aos de quem se gosta: Sawabona!