Um Companheiro INESQUECÍVEL

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Um Companheiro Inesquecível

De

Susanna Tamaro

Susanna Tamaro nasceu em 1957 em Trieste, na Itália. O seu primeiro livro “Com a Cabeça nas Nuvens” foi publicado em 1989, todavia, foi em 1994 que alcançou grande projecção internacional com a obra “Vai Aonde Te Leva o Coração”, que já vendeu 8 milhões de exemplares no total de 35 países onde foi publicado!

“Um companheiro Inesquecível” de Susanna Tamaro é mais uma obra na senda de tantas outras, que procuram realçar o profundo afecto, que a vivência comum faz despontar entre um ser humano e um qualquer animal! Anselma é uma professora reformada que vive em profunda solidão depois que viu os dois filhos sair de casa, em busca da sua própria realização e autonomia. A ausência do marido falecido não lhe causa grande pesar, algures dentro dela permanece a eterna mágoa de se sentir ludibriada ao longo de toda uma vida, em que se preteriu a si própria, inteiramente dedicada às suas obrigações profissionais e conjugais. Luisita a sua grande e melhor amiga de sempre, desde os tempos imemoráveis da escola, foi a primeira vítima. Ano após ano, com o avolumar das responsabilidades, os alunos, os filhos, o marido e a casa, Anselma progressivamente distanciou-se da amiga a quem tanto queria! Perguntava-se amiúde se teria valido a pena casar-se! Nunca mais esquecerá o dia, em que por mero acaso, soube que a deficiência acarretada pelo marido que lhe provocava aquele ligeiro coxear, não tinha sido consequência de um honroso, por assim dizer, acidente na guerra, como este lhe houvera dito, mas, tão-só, de uma queda de lambreta causada pela bebedeira! E quando fez a descoberta de que o seu marido aos sessenta anos se envolvera com uma jovem, a quem fazia queixas da mulher seca e empedernida que tinha de aturar em casa? Imersa na solidão, não lhe restava outra hipótese senão deixar-se arrastar pelos anos e pelo acaso. Os filhos, esses, o melhor que havia a fazer era não contar com eles! Costumavam telefonar-lhe para saber se estava bem, contudo, enquanto falava com o seu filho ao telefone conseguia ouvir a nora a chamar-lhe velha! Quando a visitavam, filho e nora não se coibiam de deambular pela casa, traçando projectos das obras e alterações que desejavam fazer depois de desocupada, aquando da sua morte! Num fim de tarde, igual a tantos outros já vividos, Anselma saiu à rua para se desfazer de um saco de lixo, quando estava perto do contentor julgou ouvir um pequeno restolhar, aproximou-se à cautela, fosse o que fosse, algo se mexia! Lembrou-se com receio que poderia ser uma asquerosa ratazana! Subitamente uma ideia assomou-lhe ao espírito, foi apenas um relampejo, mas imperioso! E se fosse um recém-nascido? Aproximou-se mais um tanto!…  Não! Não era uma ratazana! E muito menos um recém-nascido! Era um papagaio! Tinha encontrado um papagaio no lixo!

papagaio

Levou-o para casa, tratou-lhe o ferimento de uma asa e deu-lhe comida! Estava assim fundada  o que viria a ser uma profunda amizade! Anselma e o seu papagaio, o Luisito, nome que instintivamente lhe acudiu à mente em memória da sua melhor amiga! De um dia para o outro deu por si, sempre que entrava em casa, vinda das compras, profundamente animada, finalmente, tinha alguém que a esperava ansiosamente ! O sentimento de alegria que há muito a havia abandonado reapareceu de novo! Mas, infelizmente, neste mundo existem pessoas a quem a felicidade dos outros incomoda! Um dia encontrou na caixa do correio um envelope contendo uma mensagem que ameaçava a aproximação de negra tormenta! Ah! Mas tinham de se haver com ela! Nunca antes sentira tamanha força!

Arqueologia dos Hábitos Alimentares

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lagosta

Lagosta à Americana

Prologo

Escolha uma lagosta airosa, das melhores,
Depois deite-lhe a mão à casca com firmeza,
E se ella se puzer a estrebuchar com dôres,
É coração ao largo, arme-se de dextreza,
E em plena vida quanto a sinta resfolgar,
Zás! Retalhe sem dó o cardeal do mar!

Receita

Deite
Cada um por sua vez no azeite
Os pedaços ainda palpitantes,
Um tudo nada d’alho bem pisado
Pimenta, sal, temperos abundantes,

Vinho branco bom e tomate;

Deixe
Que isso fique apurado
E que avive ainda o escarlate
Da linda túnica do peixe

Mais ou menos para cosei-o
Uns bons trinta minutos conto,
Um pouco de cayenna e gêlo
Para rematar bem e…prompto.

Môlho de chorar por mais,
Que as volupias sensuaes
Tantas nasçam d’elle e tanto
Que façam damnar um santo.

Epilogo

Com este ideal e perfido pitéu
Capaz de dar espírito a um sandeu
Não ha belleza arisca, está provado,
Por mais forte que seja e resistente,
Que não succumba fatalmente
Em gabinete reservado

Charles de Monselet.

barraflor

Encontrei esta preciosidade de versos num livro que acabei de ler com o título “Arqueologia dos Hábitos Alimentares” do autor João Pedro Ferro.

João Pedro Lagoa Baptista Ferro nascido em Lisboa no dia 27 de Setembro de 1966 viria a falecer muito jovem, no dia 26 de Outubro de 1994, com apenas 28 anos, vítima de doença cancerosa.
Licenciado em História pela Universidade Nova de Lisboa (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas), foi responsável pela secretaria do Centro dos Estudos Históricos, onde desenvolveu trabalhos em vários volumes das ”Chancelarias Portuguesas” e das “Cortes Portuguesas”. Tiveram a sua colaboração o projecto ”Índices da Leitura Nova” e o projecto da UNESCO e do Conselho Nacional de Arquivos, “Guia das Fontes Arquivísticas para o Estudo da História das Nações”. Trabalhou na preparação dos volumes de “Guias de Fontes Portuguesas para a História da África, Ásia e América”. Foi bolseiro da Fundação Oriente, dedicou-se à recolha de fontes e na execução do capítulo sobre “Aspectos Culturais” a inserir numa “História dos Portugueses no Extremo Oriente”.
Apesar de muito jovem deixou obra feita: Cinco livros e bem mais de uma dezena de artigos além de outros sete livros prontos para impressão! A sua biblioteca, composta por 2000 livros foi doada, por sua vontade, à Biblioteca Nacional.
Foi sem qualquer dúvida o mais excelente historiador da sua geração!

Através deste livro tomamos conhecimento dos alimentos que consistiam a alimentação na época medieval, bem como a evolução na utilização de novas técnicas na confecção e introdução de novos alimentos. Nos tempos medievos, regra geral previligiava-se a quantidade em detrimento da qualidade. A confecção das refeições obedecia a técnicas rudimentares e a condimentação era desprovida de requintes. A base da alimentação era constituída pelos cereais, a carne, o peixe e o vinho. Com os descobrimentos observaram-se algumas alterações, principalmente um marcado exagero na condimentação. Um aspecto positivo foi o aumento do consumo de vegetais e frutas. A carne imperava, vaca, porco, carneiro, cordeiro e cabrito. A criação tinha grande consumo, galinhas, patos gansos, pombos, faisões, pavões, rolas e coelhos. O consumo de carne estendia-se à confecção de sobremesas como o manjar branco e outros doces feitos à base de carne de galinha! Resumindo: A carne comia-se acompanhada de mais carne! Foi a partir do Renascimento que a doçaria portuguesa conheceu a sua pujança – Os doces conventuais que têm como base os ovos e o açúcar. Na Idade Média a faca era um instrumento muito útil, com grande utilização, já os garfos eram desconhecidos sendo que a colher raramente era utilizada! Quanto a pratos, eram inexistentes, comia-se a carne e o peixe em cima de grandes rodelas de pão! No século XVIII já não era bem assim, toalhas, guardanapos, garfos, pratos e copos de vidro eram agora de uso corrente.
Descrição de uma refeição típica portuguesa feita por um sueco:

“O primeiro prato é uma sopa forte e cheia de pão, feita de carne de vaca, toucinho e linguiça, esta última quase sempre com muito alho. Depois, serve-se a carne com que se fez a sopa que, de ordinário, é excelente e que se come com mostarda e legumes. O terceiro prato compõe-se de rosbife, peru, pato ou galinha. E, por fim, a sobremesa, composta por variados frutos, que aqui existem de muitas qualidades em todas as estações.”

carne

Pelo que me foi dado ver neste livro, havia muitas iguarias, de fazer crescer água na boca! Vou deixar aqui alguns exemplos que faziam parte de uma proposta para um jantar à portuguesa, datada nos anos de 1871! Embora com tiques ainda do século XVII, esta cozinha já está, no entanto, muito próxima de como a conhecemos hoje! Ora vejamos!

“1ª Coberta

Prato de cozido que deve ser composto por carne de vaca, galinhas, carne de porco, e alguma vitela, tudo bem arranjado e ornado com hortaliça e ramos de salsa;
Terrinas de sopa, a saber: uma de pão, outra de massa ou cevadinha;
Cobertas (i.e…) com diversos guisados, como por exemplo: cabidela, frangão estufado, costeletas de vitela, vitela estufada, dita recheada, etc.
Cabeça de vitela recheada e tostada no forno, tortas de picado, ou de frangões, pombos, etc.
Tímbales de presunto, lombo de porco, rolas, patos, etc.”

Fico-me por aqui!… Com isto fiquei esfaimada! Tenho de fazer urgentemente uma visita à cozinha! O frigorífico, infelizmente, de momento, não alberga nada que se possa comparar à magnitude dos manjares aqui descritos!… Vai uma sandes de presunto! Que remédio!

Teve de ser à traição!

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radio-1

O meu auto-rádio decidiu fazer-me hoje um teste à paciência. Dirigi-me à garagem para pegar no carro e dedicar-me às compras de fim-de-semana. Verifiquei que o rádio estava ligado, embora não emitisse qualquer som!
Há três meses que lhe pressenti os primeiros sintomas de avaria. Começou por emitir um som roufenho acompanhado de diversas interferências. Julguei que alguém tivesse surripiado a antena, nesse caso seria já a segunda, parei o carro na berma da estrada para confirmar! Não! Não tinha havido roubo, a antena continuava firme no seu lugar! Passados dias a avaria agravou-se, não consegui desligar o rádio. Premi o botão off, premi mais uma vez e outra, porém, o rádio, indiferente ao meu desespero continuou a emitir uma algaraviada entrecortada por uns estranhos silvos. Quando isso aconteceu encontrava-me em plena estrada a conduzir, dirigindo-me para o meu local de trabalho. Durante todo o percurso fui repetindo tentativas para desligar o rádio, que se revelaram infrutíferas! Fiquei preocupada! Sendo assim incorria no risco de, no final do meu dia de trabalho, aquando do regresso a casa, a bateria encontrar-se descarregada! Perdida em oprimentes pensamentos embrenhei-me na condução, ao mesmo tempo que fui pensando a quem deveria pedir ajuda, uma vez chegada ao local de trabalho. De súbito, o rádio ficou mudo! Havia-se desligado por ele próprio! Desconfiada ainda lhe dei dois abanões! Assim como se desligou, poderia da mesma forma, ligar-se espontaneamente. O espectro de mim a pé, sem ter como voltar para casa, novamente me assomou à mente! Por cautela não o tornei a ligar! A melhor solução teria sido a sua substituição por um aparelho novo, ainda pensei nisso, mas, entretanto, habituei-me a passar sem ele! Isto significa que, tão cedo, não vai haver rádio!
Hoje vinguei-me!
Entrei no carro e de imediato reparei que o rádio se encontrava ligado, não emitia som e os botões não obedeciam a qualquer comando, aparentemente, apenas, as lâmpadas funcionavam, visto que se encontravam acesas. Portanto o rádio ligou-se por ele! Debalde os meus esforços para o desligar! Liguei a chave de ignição e felizmente o motor pegou! Fui fazendo as compras e dei as minhas voltas, sempre que entrei e saí do carro aproveitei para insistir em esperançadas tentativas para desligar o desgraçado, não obstante, todas em vão! Assim que cheguei a casa arrumei o carro na garagem, com receio de o rádio descarregar a bateria tomei uma decisão drástica – peguei numa chave de fendas e num martelo! Pretendia apenas dar umas porradas bem assentes no botão ON/OFF, obrigá-lo a dar sinais de vida! Porém, nem assim obedeceu! Continuou na sua casmurrice! Pois bem, passei-me! Parti as lâmpadas! À martelada!

martelo