A morte do selvagem de moca

Publicado por: Milu  :  Categoria: A morte do selvagem..., SOCIEDADE

 

“A divisão por sexos é uma divisão fundamental que lesou as sociedades a um ponto  insuspeitado. Apenas se fez a sociologia dos homens, e não a sociologia das mulheres ou dos dois sexos.”

Marcel Mauss in d’Eaubonne (1977:7)

Vem este post com o propósito de contribuir para reposição da verdade na História das Mulheres e, de alguma forma, contribuir também para reparar esta colossal injustiça que foi o branqueamento  da verdade histórica, ademais  perpetrada ao longo de milénios. Porque manter a mulher na ignorância do seu passado histórico é um grave crime contra a humanidade no seu todo.

E que verdade é esta que aqui me apresto a defender? Pois bem, desde sempre, que me lembro de ouvir dizer, e de ler um pouco por todo o lado, que nos primórdios da humanidade, os homens eram caçadores, uma actividade que exigia força, agilidade, bravura, etc, enquanto as mulheres se dedicavam à sua condição natural de mães e a actividades “menos exigentes” – a recoleção de frutos e raízes.

Esta narrativa, que não passa da mais pura mentira, tem sido bem acolhida porque ela se insere numa realidade por nós reconhecida. Os cuidados para com a família continuam, apesar de tudo, a ser considerados mais dados às mulheres, assim como as actividades menores… Esta patranha colossal só foi possível manter-se até aos nossos dias, porque o que a maioria de nós habitualmente faz, inconscientemente,  é a transposição da realidade actual para o passado.

d’Eaubonne (1977) diz e muito bem que “Nada mais prejudicial para a investigação histórica do que projectar no passado mais recuado estruturas mentais ou sociais da época em que se vive, com o pretexto de que são as de contemporâneos subdesenvolvidos em que se mantiveram as formas de vida dos antepassados. (…). No entanto, esta mania persiste em muitos autores, mais historiadores do que antropólogos, para sermos verdadeiros. Na seriíssima colecção «D’un monde à l’autre» (Plon), ainda em 1963, saído da pena de um Professor da Universidade de Cambridge, bibliotecário-chefe em Queen´s College a propósito do alto paleolítico podia ler-se o seguinte:

«As mulheres, numa sociedade assim dedicada à caça, deviam ocupar-se de outra maneira. Viviam na caverna, cultivando algumas ervas comestíveis, alguns legumes, rebuscando alguns frutos, nozes ou raízes… A sua actividade não estava organizada nem regulada como a dos homens no decurso da sua expedição… Esta diferença irritava os homens, ontem como hoje, contra a falta de pontualidade das mulheres… Podemos afirmar que no tempo das cavernas o homem era o combatente, a mulher a protectora da prole e a esposa» (d’Eaubonne (1977:29-30).

“Aqui está o perigo de substituir a observação antropológica pelo romance histórico. Nada, absolutamente nada, prova o bom fundamento duma tal hipótese, a não ser a necessidade – tão largamente partilhada – de projectar em todo o passado como alguns o fazem no futuro, a repetição obrigatória de uma situação existente e tranquilizadora, por exemplo a perenidade, «o natural» do patriarcado como facto original. Pelo contrário, não faltam argumentos para invalidar esta tese reconfortante. Antes de tudo, as ossadas pré-históricas mais completas, assim como as silhuetas murais humanas assinaladas a esta luz, não nos mostram nenhuma diferença marcante de estatura ou de força física entre os dois sexos, e mais de um investigador reconhece que, verosimilmente, foi a divisão das tarefas segundo o sexo que conduziu, embora lentamente, a esta diferença hoje observada por toda a parte” (d’Eaubonne (1977:29-30-31).

Ora, como foi possível arrastar a mentira sobre as mulheres ao longo de tanto tempo? Interrogamos-nos perplexos… Mas a resposta até que nem é difícil… Acontece que a vasta maioria das pessoas não sabe elaborar raciocínios… Pensar bem é ser capaz de elaborar raciocínios e estabelecer correlações e esta competência é  um saber que se aprende. Só uns poucos o conseguem fazer autonomamente… Como as escolas não ensinam a pensar bem, a ter um pensamento divergente, resulta que a vasta maioria das pessoas é incapaz de se atrever a pôr em causa as  «pequenas» mentiras quanto mais as mentiras universais, por mais deslavadas que estas se apresentem.  E, o passado histórico das mulheres, que nos é ensinado desde que nascemos, é uma dessas mentiras deslavadas.

Senão vejamos: como podemos nós aceitar que as mulheres nos primórdios da humanidade ficavam nas cavernas a  cuidar dos filhos e se apenas se entregavam às actividades de recoleção de frutos e plantas, se ainda não há muitos anos, as crianças eram criadas um pouco ao «deus dará»? Basta fazer um pequeno exercício de recuar no tempo para nos lembrarmos que não tivemos as mordomias que hoje as crianças têm. Os nossos pais ainda tiveram menos. Os nossos avós idem. Muitas crianças dos tempos de antanho não chegaram a ir à escola nem uma vez! Desde pequeninos que trabalhavam para ajudar a família, nem que fosse apenas a cuidar dos irmãos. E só não ficavam completamente sozinhos porque havia sempre uma tia velha, a avó, etc, que ia olhando pelas crianças, mas muito longe dos cuidados que hoje são a norma. Recuemos cerca de dois séculos e o cenário é este: «A família não tinha uma função afectiva tal como a concebemos hoje, e tinha uma concepção de criança muito diferente da que hoje temos. A infância reduzia-se ao período de maior fragilidade, enquanto a criança não se bastasse a si própria, mas mal começasse a desenvolver-se fisicamente, logo se misturava com os adultos, partilhando os seus trabalhos e divertimentos” (Ariès, 1988:10) in (Silva, 2008).

Perante estas imagens da criança considerada como um adulto em miniatura, tente-se então recuar aos tempos do Paleolítico e o que vos assoma à mente?? Todos os cenários são possíveis menos os das mães ficarem «em casa».

Posto isto, cabe agora fazer a pergunta: O que faziam os nossos antepassados na luta pela sobrevivência?

E vêm agora os factos: Os homens eram caçadores. Quanto às mulheres, por muito que a verdade doa, estas eram também caçadoras. Todos tinham de dar o corpo ao manifesto. Em «casa» ficariam os inválidos e as crianças. Uma mulher ainda que grávida, não é propriamente uma pessoa inválida. Muito menos naqueles tempos… No livro de Maria Lamas, denominado «As Mulheres do meu País» conta-se que as mulheres do Norte iam trabalhar para os campos, partiam de madrugada  ao nascer do sol grávidas. Ao pôr do sol, no regresso a casa, já não vinham sozinhas… traziam aninhado nos braços esforçados do duro trabalho o filho que lhes tinha nascido por lá… Mas há mais! Foram as mulheres e não os homens que inventaram a agricultura. Foram elas que começaram de enxada nas mãos. Mais tarde, é que os homens se apropriaram  do fruto da genialidade das mulheres.

Só agora percebo, na perfeição, as consequências do uso do termo o Homem quando utilizado para designar a Humanidade!! É que ajuda a formar uma ideia perniciosa no espírito até dos mais perspicazes…

A partir de agora vou dar voz a quem sabe, a quem estudou o tema profundamente, e por isso tem muito para dizer. O livro de onde retirei os excertos que se seguem é da autoria de Françoise d’Eauborne (1977) intitulado « As mulheres antes do patriarcado».

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“A Sociedade actual […]assenta numa gigantesca fraude que timidamente começa a ser denunciada. Esta fraude esconde-se por detrás de todos os problemas políticos, religiosos, sociais, económicos e culturais que lhe servem de álibi; trata-se estritamente da relação entre homem e a mulher.” Jean Markale (La femme celte, introdução) in d’Eaubonne (1977:6).

“O erro de Bachofen foi ter confundido as sociedades matrilineares (sistema de filiação e de organização social em que somente a ascendência materna é levada em linha de conta), com o matriarcado (tipo de organização social em que a autoridade é exercida pelas mulheres), erro que pesa ainda consideravelmente na concepção histórica da evolução humana. Permaneceu-se amarrado a uma oposição simples e dualista: ou patriarcado, ou matriarcado. O homem teria sido sempre chefe de família, senhor da ou das mulheres, com todas as estruturas secundárias que este eixo familiar e social implica, ou teria existido antes esta forma de comunidade humana ou cultura centrada na mulher e na sua fecundidade. Neste caso, a mulher teria então reinado incontestavelmente, divinizada com o nome de Grande Mãe, possuidora da terra e dos homens, até ao aparecimento do patriarcado” (d’Eaubonne (1977:7).

“Porque razão estas duas formas extremas de relação entre os sexos haveriam de esgotar toda a imaginação humana? Como é possível que à luz dos trabalhos de Margaret Mead, para não citar outros, não se tenha procurado descobrir no nosso passado formas intermediárias que a observação dos indígenas do Pacífico demonstram poder existir? E na antiguidade – a época mais conhecida e mais estudada – não existem provas abundantes de que as culturas humanas, mesmo quando passaram para uma direcção masculina, se podem dificilmente chamar «integralmente patriarcais» e são antes transições entre o patriarcado propriamente dito – o dos tempos modernos – e outra coisa?

Por nossa parte, temos hoje como certo que este patriarcado que é o esquema universal da sociedade planetária – com algumas excepções de permeio, as subculturas analisadas por M. Mead e H. Schelsky, por exemplo – se fundamenta em duas descobertas essenciais da antiguidade: a sucessão da agricultura masculina à feminina, sucessão de certo modo recente, e mais tarde ainda o conhecimento perturbador (que alguns povos como os Trobriandeses não adquiriram ainda) do processo de fecundação e da parte que o pai nele desempenha – o que quer dizer que é de data relativamente tardia” (d’Eaubonne (1977:8).

“A lei patriarcal apaga a da Mãe, com a ajuda das mesmas metáforas agrícolas: por toda a parte no Ocidente, a partir da época helénica, no Médio-Oriente com o código mosaico, a mesma argumentação será retomada até à escritura do Corão, o mais novo dos livros sagrados; de Apolo a Maomé será reafirmado que a Grande Mãe, o antigo princípio da Vida que, como símbolo duplo do Seio, e do Túmulo, originava uma adoração e um terror sagrados, mas não é mais do que um simples húmus que se lavra, o sulco que se semeia, o campo que se possui e calca com o pé” (d’Eaubonne (1977:8-9).

“Esta degradação da antiga soberana só começa com a descoberta da paternidade. Antes dessa certeza biológica, até a posse das técnicas agrícolas, depois da terra, não ocasionou a queda total do poder e da sacralização do sexo feminino” (d’Eaubonne (1977:9).

“É interessante lembrar aqui como é recente o total conhecimento científico da procriação na ciência ocidental. Depois da antiga crença na total responsabilidade do macho, o problema será revisto, sujeito a polémicas, e permanecerá por longo tempo numa grande incerteza. (…). A condição universalmente subordinada do sexo feminino estava muito arreigada numa tradição secular apoiada ao mesmo tempo nas religiões e nos sistemas de moral, e simultaneamente no desenvolvimento das técnicas de produção provindas da idade do bronze, depois da indústria, para que estas doutas e tardias discussões pudessem tornar a pôr em questão o lugar da mulher na sociedade, ainda que chamada «civilizada». A opressão do sexo feminino era muitíssimo necessária a este sistema. No entanto, pode pensar-se que, se a ciência oficial reconheceu em 1906 a participação dos dois sexos na procriação, tal aquisição corresponde a uma época em que, com grandes personalidades femininas de primeiro plano, a agitação nascente das sufragistas, e também o ímpeto revolucionário, desponta no horizonte cultural uma possibilidade: a da igualdade dos sexos” (d’Eaubonne (1977:9).

“A descoberta da agricultura pelas mulheres é de tão grande importância para a evolução histórica que temos o direito de nos surpreender ao vermos a investigação antropológica ignorar a sua dimensão ((d’Eaubonne (1977:11).

Como é que até agora ninguém viu ainda as consequências que traria uma simples mudança de formulação em conformidade com a verdade histórica, e que poria no feminino o que continua escrito no masculino por esses etnólogos, antropólogos, historiadores, que reconhecem e escrevem que a agricultura foi uma descoberta das mulheres, permaneceu muito tempo um trabalho exclusivo de mulheres, fundou talvez mesmo um poder feminino (tanto mais que o culto da Grande Deusa, ligado à fecundidade e à renovação vegetal, é anterior à descoberta da agricultura), e depois redigem calmamente frases que não surpreendem ninguém, como: «Os agricultores subiram até à bacia do Elba…». «Os camponeses europeus começaram então a controlar os cereais espontâneos…»? Se lêssemos nestas mesmas frases, escolhidas ao acaso entre milhares de outras, «agricultoras» e «camponesas» não é verdade que a orientação da história humana tomaria uma dimensão completamente diferente?” (d’Eaubonne (1977:12).

“O que parece simples pormenor é por vezes o essencial. Valery dizia: «O que temos de mais profundo é a nossa pele». A gramática e a linguística são a pele do pensamento, a epiderme da consciência. Os autores que utilizam o masculino, tratando-se de uma descoberta feminina, conformam-se, logo que se passa à relação de historicidade, com a regra gramatical do sujeito colectivo no masculino: 300 000 mulheres e um rapazinho concordam no masculino plural dizia Alphonse Allais. Mas a interiorização desta regra convencional aproxima-se da fraude” (d’Eaubonne (1977:12-13).

No estado actual da nossa cultura, é impossível ler: «as agricultoras subiram até à bacia do Elba». Ou «as camponesas europeias começaram a controlar os cereais espontâneos» (…)” (d’Eaubonne (1977:13).

“Mas o que aconteceria se investigadores tentassem, hoje, desenvolver as consequências de um facto cultural que ninguém contesta, procurar as formas do que não foi em nada uma simples prática pronta e serenamente utilizada pelos homens, o único patronato da História a despojar sem violência uma categoria humana do fruto do seu trabalho? De algum audacioso se debruçasse as etapas desta luta de classes pré-existentes às classes? Se, à luz deste facto adquirido – e logo esquecido -, alguém se pusesse a desvendar outras trevas: o «mito» do amazonato, por exemplo (…) (d’Eaubonne (1977:13).

“ O «mito» do amazonato pode ter sido destruído enquanto mito pelas descobertas brasileiras em 1973 de Von Puttmaker que provou a realidade histórica no seu relatório à Academia de Berlim; ou por Yves Véquaud, que expôs em Junho de 1975 no «Petit Palais» as obras de arte de um matriarcado existente desde há 3500 anos no norte do Nepal, na região de Mitila. Onde está a autocrítica dos universitários, fiéis adeptos desta afirmação peremptória: «O mundo sempre pertenceu ao homem, e o patriarcado aparece a partir da saída das idades tenebrosas da caverna?» (d’Eaubonne (1977:14).

“Com efeito, o homem descobre que é ele e não qualquer divindade que fecunda a mulher, à semelhança do macho do seu gado que fecunda a fêmea; e atribui a si próprio imediatamente o papel primordial, o de semeador de grão num terreno inerte” (d’Eaubonne (1977:27).

“As mais recentes descobertas arqueológicas trouxeram uma revelação perturbadora: a exumação, na Anatólia, de um primeiro conjunto de aldeias de cultura feminina, datando de 7000 a 6500 anos antes da nossa era; confirmação de um texto já velho de Malraux, em Noyers de l’Altenburg:«Quanto mais remexemos no nosso passado, menos encontramos o selvagem de moca; para além destas trevas, já havia reis, cidades». Dizemos mais: rainhas. Esta espécie de cidade, talvez a primeira de todas, revela uma arte figurativa, frescos, uma agricultura, uma administração já forte, e fixamos sobretudo uma magnífica representação esculpida da Deusa-Mãe entre dois leões. Tais eram os antigos habitantes do território que o Indo-Europeu fundador do Império hitita devia invadir, cinco mil anos mais tarde” (d’Eaubonne (1977:38).

“Virginia Woolf, no seu notável ensaio «Une chambre à soi», sugere que a história da resistência masculina à emancipação das mulheres é talvez mais interessante ainda do que a própria emancipação. Nesta história nunca escrita entraria certamente a da eufemização dos textos, até da sua falsificação. Tudo o que diz respeito a proezas femininas de tipo «viril», individuais ou colectivas, é imediatamente oculto pela transmissão escrita, ou adulterado, ou ainda francamente disfarçado. Haveria um longo estudo a consagrar a estas pequenas fraudes dos tradutores ou historiadores que se sentiram assim «ameaçados« na sua virilidade” (d’Eaubonne (1977:70).

“Impressionado pela universalidade dos tabus antifemininos que dizem respeito às menstruações, à gravidez, ao parto, ao período posterior, à menopausa e às simples relações conjugais, pensou numa segregação sexual que teria surgido com a necessidade de desembaraçar a vida tribal de um perpétuo problema e dos ritos de conjuração e de exorcismo incessantemente acumulados como no mundo do delírio. (…).

Nota de rodapé: «Citemos rapidamente alguns entre centenas de outro: na ilha de Kiwai, o marido de uma mulher grávida não pode ir nem à caça, nem à pesca, nem à guerra; nos Tami (Nova Guiné), ela espantaria o peixe; na Costa Rica, desde a sua primeira gravidez, julga-se que a mulher envenena a vizinhança, e como represálias depõem-se corpos em decomposição à sua porta; em numerosas culturas, é tão impura que até o marido deve ser evitado; se assiste ao parto morrerá (Ernest Crawley, The Mystic Rose). Após o parto, a Judia fica tão manchada que deve purificar-se no Templo, e a Esquimó é posta longe do campo, sem fogo nem alimento, muitas vezes destinada à morte; a Indiana é intocável por 60 dias, a Africana da tribo Nadi durante seis meses. Muitas vezes, a mulher é punida por ser mulher, na Nova Irlanda, a púbere é fechada por cinco anos; nos Ot-Danon, em Bornéu, aplica-se a prisão preventiva: a rapariguinha de oito anos é antecipadamente fechada, durante muitos anos; os Índios de Hudson e os Polinésios e os Judeus de Talmud crêem que o homem pode morrer só por ter visto uma mulher em estado de fluxo menstrual; para o Corão, quem olha para o interior da vagina fica cego” (d’Eaubonne (1977:71-72).

A multiplicidade de exemplos desta ordem, espalhados pelo mundo inteiro, demonstra a verdade expressa por S. de Beauvoir (Le deuxième Sexe) quando fala do «verdadeiro horror» que o homem sente pela mulher. Mas este horror – que, evidentemente, não exclui de modo nenhum atracção e fascinação – é historicamente datado; aparece durante o nomadismo e as grandes caçadas, e depois de ter sido reprimido e oculto no período agrário (com esta válvula de segurança: a identificação da grande Deusa da Vida com a Rainha dos Infernos e da Morte), reaparece com toda a segurança, com o patriarcado, para se prolongar até aos nossos dias” (d’Eaubonne (1977:72).

 

Biografia

D’EAUBONNE, Françoise. (1977). As Mulheres antes do Patriarcado. Editorial Vega. Lisboa.

 

Castidade, Silêncio e Obediência

Publicado por: Milu  :  Categoria: Castidade,..., FEMINISMO

 

“É difícil libertar os tolos das amarras que eles veneram”

Voltaire

 

Tal como já disse anteriormente noutros posts, já faz tempo que decidi dedicar-me aos Estudos sobre a Mulher. Interessava-me saber, para perceber, se a mulher é assim tal como a conhecemos, ou se foi moldada e, neste caso, moldada de acordo com vontades que lhe eram alheias.  Em boa hora o decidi fazer. Agora já estou na posse de informação que me permite encaixar muitos factos, e afirmar com certeza de que a mulher, a mulher que eu sou, a mulher que todas são além de mim, foi forjada de uma forma incisiva e sistemática pelo sistema patriarcal, que é a mesma coisa que dizer, por uma ordem que regula e organiza a sociedade. Ou seja, quando nascemos, a nossa matriz original, única, que nasce connosco, vai sendo progressivamente substituída por uma matriz construída de acordo com interesses estabelecidos, através de uma educação que à boa maneira da linguagem portuguesa se diz “com rédea curta”. Consequentemente, já não chegaremos a ser aquilo que poderíamos ter sido. É claro que o homem também é submetido ao mesmo processo, ao homem também é exigido que se porte de acordo com um padrão no qual a trave mestra é o conceito da  virilidade. Daí a frase “um homem nunca chora” porque chorar é coisa de mulher, de piegas, de fracos. Contudo, com a mulher foi bem mais grave: foi durante séculos mantida na ignorância – porque o ignorante,  aquele que não sabe, não percebe, também não alcança… Para que tal se tornasse possível, a mulher foi remetida para a domesticidade e, ao mesmo tempo, dificultado o seu acesso aos estudos.

Castidade, silêncio e obediência – eram estes os pilares da educação da mulher. Embora muito tenha sido conquistado, a  mulher continua a não ter voz. E obedece demais..

Ah! Mas a História ainda é o melhor Juiz, leia-se portanto:

 

Conceitos (definição).

 

Sociedade Patriarcal

A sociedade patriarcal é uma forma de submissão (subordinação) das mulheres de acordo com os papéis desempenhados por elas, bem como aqueles desempenhados pelos homens na reprodução da espécie. Em consequência, tem-se a dominação masculina sobre o feminino.

 Dominação masculina
“A dominação masculina está tão arreigada em nosso inconsciente que não a percebemos mais, tão de acordo com nossas expectativas que até nos sentimos mal em questioná-la. Mais do que nunca, é indispensável destruir as evidências e explorar as estruturas simbólicas do inconsciente androcêntrico que sobrevive nos homens e nas mulheres. Quais são os mecanismos e as instituições que realizam o trabalho de reprodução do eterno masculino? É possível neutralizá-los para liberar as forças de transformação que eles conseguem obstruir?” (Bourdieu).

Sempre vi na dominação masculina, e na maneira pela qual ela é imposta e suportada, o exemplo por excelência desta submissão paradoxal, efeito do que chamo de violência simbólica, violência doce, insensível, invisível para suas vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias simbólicas da comunicação e do conhecimento ou, mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento” (Bourdieu).

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“A Mulher do Renascimento”

 

Como eram educadas as mulheres?

 

“Tanto as mulheres como os homens pobres não recebiam qualquer educação formal, embora muitos homens e algumas mulheres fossem treinados em certos ofícios. Porém, as mulheres das classes médias e alta eram iniciadas numa cultura feminina específica, pela qual eram ensinadas a desempenhar as tarefas do lar, seguindo um programa que acentuava a costura e a fiação, o silêncio e a obediência. A leitura era útil, mas deveria ser limitada a bons livros: obras de devoção e os títulos mais são os de Dante, Petrarca e Boccaccio. Era duplo objectivo da educação para estas mulheres: primeiro, guiar a jovem no sentido de desenvolver os traços de carácter mais adequados ao casamento patriarcal; segundo, treiná-la naquelas funções mais úteis para a economia doméstica” (King, 1994: 172).

“As cidades onde a educação das mulheres for negligenciada, avisou o humanista Juan Luis vives, aludindo a Aristóteles; Xenofonte e Platão, «estão privadas da maior porção de felicidade»… As jovens deveriam ser ensinadas a ler, para que, livres da ignorância pudessem aproximar-se dos autores mais sérios da sua civilização: os Evangelhos, os Actos dos Apóstolos e as epístolas do Novo Testamento, bem como os livros históricos e moralistas do Antigo Testamento; os santos Cipriano, Jerónimo, Agostinho, Ambrósio, João Crisóstomo, Hilário e Gregório; também Boécio, Fulgêncio, Tertuliano e até Platão, Cícero e Séneca. (…). Este ousado humanista, que durante a sua carreira desafiaria o monopólio escolástico da educação universitária e provaria a responsabilidade do estado laico na assistência aos pobres, abre assim a porta à educação séria das mulheres”  (King, 1994: 172).

“Ao mesmo tempo, Vives parece fechar a porta que abrira. Embora a mulher devesse aprender a ler a nível elevado, o âmbito e o propósito da educação a atingir por esse meio são severamente limitados. Insinua o que Jean Jacques Rousseau declararia, com concisão característica, quase três séculos mais tarde , no início da era moderna: «Deve aprender muitas coisas , mas apenas aquelas que lhe for útil saber.»”  (King, 1994: 172).

(…) E as tarefas domésticas não devem ser negligenciadas: a jovem deveria aprender «juntamente com as letras, a fiar tanto a lã como o linho, duas artes que a famosa idade de ouro e a época da inocência ensinaram à posteridade, muito úteis na economia doméstica…»”  (King, 1994: 173).

Assim, a educação prevista por Vives para a jovem do Renascimento não cultivaria a sua mente, mas encorajaria a sua obediência aos deveres e virtudes familiares. Os homens devem fazer muitas coisas no mundo e, assim, devem ser amplamente educados; mas à mulher apenas se pede alguma educação. (…). Torna a questão explícita: deve ser introduzida nos estudos literários, mas apenas em alguns: «os seus estudos deveriam ser aqueles que moldam a moral e a virtude; os estudos da sabedoria que ensinam a melhor e mais santa forma de vida. Recomendo que não se preocupe com a retórica; uma mulher não precisa dela; o que uma mulher precisa é probidade e prudência; não é impróprio uma mulher estar calada; o que é horrível e abominável é ser caprichosa e portar-se mal… Quando aprender a ler, colocai nas suas mãos os livros que melhoram a moral, e quando aprender a escrever, não lhes deis versos baixos…, mas um dito sério ou uma pequena passagem, sábia e sagrada, tirada das sagradas Epístolas ou dos escritos dos filósofos, que quando copiados repetidamente aderem mais à mente». A ignorância de tais preceitos é, como sempre tem sido, a ruína das mulheres: «a maioria dos vícios das mulheres nesta nossa época e em épocas anteriores… é produto da ignorância, pois nunca lêem nem ouvem aqueles ditos e conselhos excelentes dos Santos Padres sobre a castidade, a obediência, o silêncio, os adornos e tesouros das mulheres” (King, 1994: 174).

“Se os tesouros das mulheres são a castidade, o silêncio e a obediência, a castidade é o mais importante de todos: é a preocupação particular da mulher; armada com a sua virtude, está suficientemente instruída” (King, 1994: 174).

“Passados dois séculos e meio, o criador do liberalismo económico europeu, Adam Smith, admirava ainda este aspecto da educação feminina: é-lhes ensinado o que lhes é útil saber, «e nada mais lhes é ensinado». Cada elemento da sua educação tem um propósito claro: «ou para aumentar a atracção natural das suas pessoas, ou para formar as suas mentes na reserva, na modéstia, na castidade e na economia; para as tornar, ao mesmo tempo, aptas a serem donas de casa e comportarem-se convenientemente nessa situação».” (King, 1994: 174).

“Em todos os cenários da educação feminina – na própria casa da jovem ou noutra, na escola ou no convento, estes eram os comportamentos necessários e suficientes da educação feminina: conselhos de castidade, silêncio e obediência, e a aquisição de conhecimentos sobre as artes têxteis e outros ligados à economia doméstica. (…). A habilidade das mulheres nestas tarefas equipara-se a um quase monopólio do comércio associado à produção de tecidos e à manufactura de vestuário, como se viu, até que a estrutura das corporações, largamente masculinas, se intrometeu nessa área durante os séculos do Renascimento” ( King, 1994: 175).

A aprendizagem da costura e da fiação desempenhava assim um papel relevante na educação das raparigas. No início do século XIV, Francesco de Barberino elogiou tais actividades em desfavor da leitura: as filhas de mercadores têm que aprender muitas tarefas caseiras e não se devem preocupar com a leitura: as filhas da classe trabalhadora deveriam saber coser e fiar, cozinhar e cuidar dos outros membros da casa. Uma geração mais tarde, Paolo de Certaldo incentivou os chefes de família a vigiarem atentamente as mulheres nas suas casas, assegurando-se de que estivessem sempre ocupadas em qualquer trabalho, para evitarem o ócio – perigoso para todos, mas especialmente para as mulheres. «e não parecerá tola e não se dirá que saiu da floresta; e não sereis amaldiçoado por a ter criado assim»” ( King, 1994: 175).

 

“«Vosso pai, que era um filósofo natural, não era de opinião que as mulheres piorassem ao educar-se. Pelo contrário, como sabeis, teve grande prazer ao ver vosso interesse para aprender.»; «Vossa mãe, porém, que tinha as habituais ideias femininas sobre o assunto, queria que passásseis o vosso tempo fiando, como as outras mulheres, e impediu-vos de fazer mais progressos e de penetrar mais profundamente na ciência e estudo durante a vossa infância.» “Pizan 1975, 875 (2.36) in ( King, 1994: 193).

 

Bibliografia

King, L. Margaret. (1994). A Mulher do Renascimento. Editorial Presença. Lisboa.

 

 

 

 

As “Indesejadas”

Publicado por: Milu  :  Categoria: As "Indesejadas", FEMINISMO

 

“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.”

 Rosa Luxemburgo

Mais um pouco de História, desta feita sobre as mulheres do Renascimento, um movimento cultural, económico e político que surgiu na Itália do século XIV, consolidado no século XV e que se estendeu até o século XVI por toda a Europa. O Renascimento teve origem na Itália devido ao florescimento de cidades como Veneza, Génova, Florença, Roma, entre outras. Estas cidades,  enriquecidas com o desenvolvimento do comércio no Mediterrâneo, deram origem a uma rica burguesia mercantil que, no seu processo de afirmação social se dedicou às artes, juntamente com alguns príncipes e papas.

Ora, o verdadeiro objectivo deste post é, mais um vez , demonstrar através da leitura dos excertos aqui transcritos, retirados do livro “A Mulher do Renascimento”,  do terrível infortúnio que era ter nascido mulher: a eterna culpada.

Antes de prosseguir, não posso deixar de apontar um pormenor: há algum tempo, numa conversa, fiquei a saber que há quem não goste do que escrevo ou do que publico ultimamente neste meu espaço.

Dizem-me que estou sempre a enaltecer a mulher…

Mas eu entendo que o que estou a fazer é tão só a estudar a História das Mulheres, numa continuada procura do fundamento das assimetrias de valor entre homens e mulheres. Na verdade, o que me move nesta minha saga é a curiosidade e, consequentemente, o prazer da descoberta, o entendimento. Gosto de perceber porque é que determinadas coisas são de uma maneira, quando até poderiam ser de outra, bem diferente…

Exemplo:

Leia-se este pequeno trecho imediatamente a seguir e reflicta-se…

Pois que, reflectir, é mais uma  das palavras de ordem deste blog.

No citado trecho está plasmada a forma como pensamos… que os meninos ou rapazes são fortes, grandes e têm força. E que as meninas ou raparigas são bonitinhas, queridas e têm coisas bonitinhas. É assim mesmo que fazemos! Por muito que nos custe aceitar temos a cabeça cheia de preconcebidos,  de ideias socialmente construídas, tão firmemente arreigadas que nem conseguimos ver mais além.

“Um mesmo bebé era vestido ora de azul ora de cor de rosa e mostrada a pessoas adultas. Nunca foi dito o sexo da criança. Mas quem a via presumia que era rapaz ou rapariga pela cor da roupa que trazia vestida. Quando vestido de azul, o bebé fazia os adultos dizerem coisas como «Que choro tão forte que ele tem!». «Como me aperta o dedo com força!», «Que grande rapaz que ele é!». Quando vestida de rosa, a criança fazia com que as pessoas que a viam dissessem: «Que bonitinha!», «Que querida!», «Que olhos tão bonitos que ela tem!». Sem nos darmos conta, acabamos por fazer distinções entre os sexos até no modo como tocamos nas crianças, na forma como as acariciamos. É inconsciente, mas não deixa de ficar gravado para sempre.

Lígia Amâncio (2001) in Marques(2004)

 

“A maioria das mulheres do Renascimento foi mãe. A maternidade definiu as suas vidas e ocupou a maior parte dos seus anos. A partir dos vinte e cinco anos na maioria dos grupos sociais, a partir da adolescência nos círculos mais elevados, experimentaram um ciclo de parto e aleitamento e novamente parto. As mulheres pobres davam à luz cada 24 a 30 meses. Os intervalos entre os nascimentos eram regulados pelo período de lactação, que impedia mais gestações com alguma eficácia. Quando a criança era desmamada, uma gestação nova podia tomar lugar. As mulheres ricas tinham ainda mais filhos que as pobres. Como as mulheres ricas não cuidavam das suas próprias crianças, em breve concebiam outra vez depois de cada nascimento” (King, 1994: 14).

“Uma fertilidade elevada era do interesse da família abastada, cuja capacidade para prevalecer «contra as poderosas forças da morte» requeria pelo menos um herdeiro masculino sobrevivente. Como no caso da inglesa Lady Verney, ainda no século XVII, a capacidade da esposa para dar à luz herdeiros era «a sua única contribuição indispensável» para a família” (King, 1994: 14).

“A necessidade de preservar a família e conservar a riqueza levava assim as mulheres de classes dominantes a serem férteis. (…) Isabel de Aragão, esposa do rei Filipe III e mãe  de Filipe IV, «o Justo» deu à luz em 1268, 1269 e 1270; neste último ano morreu, grávida de seis meses. Henriqueta Maria, rainha do rei  Carlos I de Inglaterra, esteve grávida quase sem interrupção de 1628 a 1639. (…) A florentina Antonia Masi, que morreu em 1459 com 57 anos, tinha dado à luz 36 filhos, nove varões sobreviveram-lhe” (King, 1994: 15).

“Dar à luz é ao mesmo tempo o privilégio e o fardo da mulher” (King, 1994: 15).

“Só 20 a 50% dos europeus ocidentais podiam esperar sobreviver à infância” (King, 1994: 18).

“Onde ocorriam nascimentos ilegítimos, os regulamentos feudais cobravam impostos às mulheres  consideradas culpadas, e as cidades aprisionavam ou baniam as mulheres condenadas por fornicação. Estas eram penalidades suficientemente severas para punir a mãe, mas não tão pesadas, talvez, como a real responsabilidade de uma criança indesejada, que era apenas sua” (King, 1994: 20).

“O infanticídio era a maior causa, depois da feitiçaria, para a execução das mulheres do Renascimento, e muitas bruxas eram acusadas também de infanticídio. O peso da acusação do infanticídio recaía sobre a mãe solteira, que da morte do filho era considerada culpada, enquanto a vítima mais provável da fúria contra as bruxas era ao mesmo tempo mulher e velha. «A lei e a consciência da Europa… canalizaram a sua força sobre mulheres idosas e mães solteiras»” (King, 1994: 21).

“A acusação de mulheres nestes casos marca, portanto, perversamente o início da emergência das mulheres como criminosas e como indivíduos legalmente responsáveis” (King, 1994: 21).

“Na Metz do século XV, a acusada de infanticídio era queimada num poste onde se pregava a mão culpada, enquanto à volta do pescoço se lhe dependurava uma tábua com a imagem da criança assassinada” (King, 1994: 21-22).

“As mulheres, com muito poucas excepções, eram catalogadas em termos das suas relações com o ideal feminino de virgindade e o pesadelo da sexualidade” (King, 1994: 34).

“As filhas, que constituíam aproximadamente metade dos bebés nascidos das mães do Renascimento, entravam no mundo indesejadas. Dante referiu o terror que assaltava o pai quando do parto resultava uma rapariga”  (King, 1994: 35).

“«Crianças do sexo masculino são geradas de uma semente mais quente e seca e as do sexo feminino de uma mais fria e húmida; pois há muito menos força no frio do que no calor e, igualmente, na humidade do que na secura; e é essa a causa porque demora mais tempo para uma rapariga se formar no ventre do que um rapaz.» Preguiçosas mesmo «in utero» as raparigas eram geralmente consideradas produto de concepções «inferiores». A percepção da sua inferioridade era acompanhada de deficiências nos primeiros cuidados. Não eram saudadas nem noticiadas” (King, 1994: 36).

“Desde que nascia, a perspectiva do dote ameaçava a mulher: ela representava perda potencial mais do que ganho potencial. O dote dado pela família da noiva à do noivo, só ultrapassando a oferta matrimonial do noivo no século XII, aumentou consideravelmente durante os séculos seguintes e atingiu o máximo no Renascimento. Nessa época de florescimento cultural único, o contrato matrimonial atingiu o seu extremo de monopolaridade: a família da noiva entregava filha e dote, dinheiro e enxoval; a família do marido assumia uma responsabilidade limitada pela manutenção da esposa e viúva” (King, 1994: 37).

“As mulheres sem família, seduzidas ou violadas, tinham que se defender sem ajuda. Vulneráveis, tais mulheres pertenciam sobretudo às classes sociais mais baixas e estavam culturalmente mal preparadas para apresentar formalmente as suas queixas. Uma compensação ordenada pelo tribunal (ou doada por um benfeitor) poderia sustentá-las na condição de solteiras e sem possibilidade de contrair matrimónio ou até ultrapassar o facto da «sverginità» e permitir-lhes o casamento. Estas variações de norma, onde a fornicação era seguida pelo matrimónio ou, pelo menos, por uma compensação pela honra perdida, não disfarçam o facto de o casamento ser mais eficiente e proveitosamente negociado para uma mulher cuja castidade estava intacta, pois a castidade tinha valor monetário numa transacção matrimonial” (King, 1994: 42).

Desde o nascimento, portanto, as filhas representavam um duplo fardo para as famílias: preservação da castidade e provisão do dote” (King, 1994: 42).

“Era-lhes requerido que abdicassem, com efeito, em termos contemporâneos, de dois «direitos»: o direito à propriedade paterna além do limite do dote e o direito de escolha sexual livre. Os pais escolhiam os maridos para as filhas e negociavam os acordos de bens sem a sua participação” (King, 1994: 43).

“A asserção e talvez mesmo a reafirmação do controlo masculino das mulheres no casamento, durante o Renascimento, é um facto indiscutível, por muito difícil que seja conciliá-lo com outras impressões de uma época que descobriu, pela primeira vez, o significado da liberdade. A mesma época que elevou o matrimónio a um estado sagrado – pelo edictos de Trento no Catolicismo, pelo cultivo do sentimento familiar no Protestantismo – fortaleceu, paradoxalmente, a autoridade do marido sobre a esposa e exigiu a sua mais profunda submissão ((King, 1994: 49).

“O reformador de Estrasburgo Martinho Bucer explicou que o marido era para a mulher o que o pastor era para as ovelhas, enquanto o italiano Orazio Lombardelli ofereceu outras comparações à sua jovem noiva: tal como «a cabeça adorna o corpo, o príncipe a cidade, a pedra o anel, assim o marido adorna a esposa e ela deve não só obedecer quando ele comanda mas também quando ele não o faz (King, 1994: 50).

“No Renascimento, o tema da misoginia, longe de diminuir, floresceu com a intensidade que em tudo caracterizava a época. Numa torrente de livros, poemas e panfletos demasiado vasta para aqui ser enumerada, os autores do sexo masculino atacaram o feminino e a instituição do casamento. De facto os que se pronunciavam eram quase sempre homens, que encaravam as mulheres «como objectos ao mesmo tempo desprezíveis, aterradores e tentadores». Os ataques às mulheres eram apoiados pelo sistema da cultura erudita: filosófica, jurídica, teológica, médica, assentando na autoridade das Escrituras, dos Padres, de Aristóteles, Galeno e Tomás de Aquino”  (King, 1994: 58).

“A sua própria presença era maligna e todas as coisas contaminadas pelo contacto com o seu corpo, se menstruada ou grávida, eram perigosas para os homens, como ensinavam os filósofos naturais a partir do sórdido «De secretis mulierum»do século XIII” (King, 1994: 58).

“O vigor do ataque antifeminista é uma lembrança clara de que a mutualidade de marido e mulher não era um ideal universalmente aceite, mas sim um ideal em contradição com os outros, durante os séculos do Renascimento, quando o lugar da mulher na família parece não ter ganho, mas antes perdido, terreno. O poder moral exercido pelos homens sobre as mulheres era acompanhado de poder real, como temos visto: legal, social, sexual, físico. Estes, por seu lado, ligam-se ao seu poder sobre os bens da mulher. Este poder foi cuidadosamente preservado nos séculos do Renascimento e, na verdade, expandiu-se em detrimento do estatuto da mulher. O paradoxo de as mulheres possuírem bens (promessa de independência) e, ao mesmo tempo, não os poderem controlar (negação da mesma) é fundamental para a compreensão da posição das mulheres” (King, 1994: 58-59).

“As viúvas eram numerosas durante o Renascimento porque as mulheres casavam jovens com homens maduros, sobrevivendo-lhes. Algumas beneficiavam economicamente por morte do marido ou conseguiam levar os rendimentos do dote paterno ou do primeiro casamento, para um segundo. Quando não era conveniente, de acordo com a estratégia familiar, voltarem a casar, as viúvas recolhiam-se na invisibilidade e sujeição dos seus lares conjugais ou de origem. Perdiam o estatuto de esposa e, frequentemente, a autoridade de mãe. Fora desses nichos, em que usufruíam de protecção e respeito, a sua condição moral e económica deteriorava-se muitas vezes gravemente. (…). Nem o casamento nem a viuvez tinham sido instituídos para as beneficiar. Em Florença, era grande o grupo das mulheres solteiras idosas e pobres. As mulheres que já não tinham idade para  ter filhos tinham, na maioria dos grupos etários, maiores probabilidades de se tornarem pobres do que os homens e menores probabilidades de se tornarem ricas” (King, 1994: 71).

“Na Florença do século XVI, quase metade das mulheres de algumas famílias elevadas residia em conventos e, numa família nobre veneziana do século XVII, uma em cada três filhas era persuadida a «monacar» em vez de «maritar». As mulheres de inferior posição social viviam em conventos, como criadas e trabalhadoras. Mas as próprias freiras eram recrutadas quase exclusivamente nas linhagens ricas e respeitadas. De facto, eram estes grupos os que possuíam bens a transmitir, que precisavam de ser defendidos contra a terrível fertilidade das filhas excedentárias. E eram estes os que melhor podiam reclamar o privilégio de um asilo, humano e útil, para as raparigas a remover do ciclo de reprodução e para aquelas cuja fertilidade tinha terminado: as mães «desoladas» – significado de «relicta» viúva, em latim” (King, 1994: 92).

Na Itália do Renascimento, a maioria das mulheres que viviam dentro dos muros do convento era aristocrata e uma fracção significativa das mulheres das classes elevadas (embora apenas uma pequena fracção de todas as mulheres) vivia em clausura. Em Veneza, especialmente, o convento constitui a solução para o pai com mais filhas do que dotes” (King, 1994: 93).

“Se algumas freiras, no fim da Idade Média, apreciaram lautas refeições, beneficiaram de serviço doméstico, conversaram alegremente com visitantes estranhos, tocaram alaúde e bordaram graciosamente, mantiveram os seus amantes abertamente e deram à luz secretamente, tudo isto se explica, certamente, porque nunca tinham transposto os muros  do convento em busca do espiritual. Tinham ali dado entrada porque não podiam ou não queriam casar e não podiam ser deixadas em liberdade. Assim, a história do monaquismo feminino é, pelo menos em parte, a história do aprisionamento da mulher” (King, 1994: 95-96).

 Bibliografia

KING, L. Margaret. (1994). A Mulher do Renascimento. Editorial Presença. Lisboa.

MARQUES. Alice. (2004). Mulheres de Papel. Livros Horizonte. Lisboa.