Mentes estreitas

Publicado por: Milu  :  Categoria: Mentes estreitas, SOCIEDADE

 

“Tudo aquilo que não podemos incluir dentro da moldura estreita de nossa compreensão, nós rejeitamos.”

Henry Miller

  1. “Vou disparar relâmpagos quentes para dentro de ti, incandescer os teus ovários. O teu Sylvester já está com ciúmes? Sente algo, é? Sente os vestígios da minha piça grande? Afastei um pouco as margens. Passei os refegos a ferro. Depois de mim, podes foder garanhões, touros, carneiros, patos, são-bernardos. Podes enfiar sapos, morcegos, lagartos no recto. Podes cagar arquejos, se quiseres, ou dedilhar uma cítara pelo umbigo. Estou a foder-te, Tania, para que fiques fodida de vez.”
  2. “e a tua tia sabes de que tem cara de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu” ou “fazem amor pelo cu porque não têm racha, enfiam coisas no cu percebes… maricas é meter coisas no cu… nem querem saber de terem uma pila.”

“Nem tudo o que parece é”. Foi este adágio popular que me ocorreu, conforme fui seguindo as postagens e comentários feitos no Facebook a propósito do Pano Nacional de Leitura.

Ambos estes excertos, que eventualmente terão sido chocantes para algumas pessoas, foram retirados de obras de autores diferentes. O segundo excerto foi retirado da obra “O nosso reino” da autoria de Valter Hugo Mãe e consta  do Plano Nacional de Leitura, que foi recomendado para alunos do 7º, 8º e 9º ano.

Caíu “o carmo e a trindade” no burgo, porque ai os ouvidos virgens das criancinhas. Criancinhas já com idades, seguramente, entre os 12 e 15 anos, com todo o acesso à rede da Internet, onde poderão ver e ler de tudo, caso a sua liberdade não esteja travada, mas se estiver,  podem  ver e ler através do telemóvel de algum colega, quanto mais não seja.

O que aconteceu foi  que este excerto de Valter Hugo Mãe foi retirado de um contexto onde tinha uma determinada significância. Lido no livro, em fluxo, tem um certo cabimento, lido assim, fora de um contexto, assume o aspecto de uma brutalidade gratuita. Fica-se com a impressão de que o livro é pouco recomendável e o seu autor também não deverá ser grande coisa, porque quem escreve deste jeito não tem nada de mais interessante para dizer.

Esta mesma impressão terá sido causada aos leitores (as) que leram o primeiro excerto neste post. No entanto, o excerto apresentado foi retirado do livro “Trópico de Câncer” da autoria de Henry Miller. Um autor que dispensa apresentações.

Ler Miller é mergulhar no que é a vida.

A vida não é nenhuma ladainha. Tem  momentos de beleza, se tem, mas também tem momentos em que é bruta e porca. Neste livro, “Trópico de Câncer“, podemos ver, por exemplo, o que é a vida de alguém sem dinheiro a viver numa grande cidade. O que é deambular por sítios baratos. Como pensa, e o que pensa,  um homem esganado com fome. Podemos ver o que é a verdade. Aquela verdade que todos vêem mas que ninguém quer ver.

Curioso foi verificar que os mais acintosos na crítica a esta escolha para o Plano Nacional de Leitura, que desdenharam o livro em causa e seu autor, sem conhecer nem um, nem outro, quando confrontados com o facto de haver obras célebres, com conteúdo sexual explícito, de autores notabilizados, tiveram o desplante de considerar que essas obras, sim, são literatura!   É por isto, por esta forma de pensar, que em Portugal se homenageiam  os mortos, já que enquanto vivos estão mais a jeito para serem abatidos.

Também me apercebi que houve pais, quando lhes foi dito que crianças desta idade já não são assim tão pueris, que já não terão nem os olhos nem os ouvidos assim tão virgens, que foram capazes de afirmar a pés juntos, que sabem tudo o que os filhos fazem.

Recomendo-lhes eu que tenham mais tento. Que se reportem ao tempo em que foram crianças. Foram assim, tão panhonhas? É que ter uma educação com regras e bons princípios, não implica que se tenha de ser um, ou uma, panhonha. Pelo contrário: uma criança bem saudável é aquela que arde em curiosidade e parte para a descoberta.

Ao contrário de muita gente,  considero até que este excerto de Valter Hugo Mãe, assim, brutal, e mesmo desprendido de contexto, pode contribuir para  educar os adolescentes.  Para lhes mostrar o que é a misoginia. Para lhes mostrar como é que o homem foi ensinado a pensar a mulher. Para tal, basta fazer um cruzamento entre a leitura destes excertos, obscenos e brutais, com excertos de obras sobre a História das Mulheres. Como farei neste post, por exemplo.

A misoginia é a repulsa, desprezo ou ódio contra as mulheres. Esta forma de aversão mórbida e patológica ao sexo feminino está directamente relacionada com a violência que é praticada contra a mulher. A misoginia é a principal responsável por grande parte dos assassinatos de mulheres, também conhecido por feminicídio. Configura-se através de agressões físicas e psicológicas, mutilações, abusos sexuais, torturas, perseguições, entre outras violências relacionadas directa ou indirectamente com o género feminino.

O menosprezo pelas mulheres está de tal forma interiorizado, naturalizado, que muitas das mulheres nem reparam, nem dão por ele. Mas esse menosprezo, essa desconsideração, está presente nos nossos dias revestido das mais diversas roupagens.

Vejamos o que nos conta a obra Mulheres Portuguesas, para perceber o desprezo com que se tratava a mulher. O que era a vida das mulheres. O  ambiente em que viviam. O jugo a que eram submetidas. E os resquícios que ainda resistem nos nossos dias.

Os excertos que se seguem, cuja leitura recomendo vivamente, foram retirados da obra “Mulheres Portuguesas” da autoria de Irene Flunser Pimentel e Helena Pereira de Melo. Consultar a bibliografia no final do post.

“A mulher no Código Penal de 1886”

Ou seja, a mulher sob a batuta da lei

“A punição do crime de infanticídio (causar intencionalmente a morte de uma criança no acto do seu nascimento ou nos oito dias subsequentes) é menor se tiver sido «cometido pela mãe para ocultar a sua desonra, ou pelos avós maternos para ocultar a desonra da mãe». O crime do aborto, quer tenha sido ou não consentido pela mulher grávida, é em regra severamente punido (com pena de prisão até oito anos), podendo, no entanto, a pena ser muito atenuada se a mulher tiver cometido o crime «para ocultar a sua desonra»” (Pimentel & Melo, 2015: 113).

“A honra da mulher, que se não for respeitada leva à desonra de toda a família, em particular do marido, é o bem jurídico fundamental protegido por todas as normas penais em matéria de crimes sexuais. Como salienta Lopes Praça:

«A mulher que perde a sua honra fica para sempre maculada. O mundo não conhece reabilitação para esta falta. Para a desonra passar em julgado na opinião pública é desnecessária a evidência. A verosimilhança faz a prova plena. Perdesse, muito embora, a mulher a sua honra em virtude de violências nada importa; a sua mancha subsistiria, e o véu da vergonha nunca se lhe levantaria das faces (…) Para tornar a desgraça da mulher mais profunda, a sua queda, como a da nossa mãe Eva, é solidária e comunicativa para pais, maridos, e filhos, para a família toda»” (Pimentel & Melo, 2015: 113).

“Para, por exemplo, ocultar a desonra da filha que tenha engravidado a mãe pode fazer crer que a criança que nascer é sua filha e não sua neta (…)” (Pimentel & Melo, 2015: 113).

(…).

“O Código regula também, com pormenor, o crime de adultério, estabelecendo, como referimos, um regime muito diferente consoante o criminoso seja o marido ou a mulher. A prática do crime de adultério pela mulher é, como referimos, severamente punida pelo legislador penal: com pena de prisão de dois a oito anos ou, em alternativa, com degredo temporário. Pelo contrário, a prática do mesmo crime pelo marido só é punido no caso extremo de este ter »manceba teúda e manteúda na casa conjugal» e, mesmo assim, como também dissemos, com uma pena incomparavelmente mais leve (Pimentel & Melo, 2015: 114).

(…).

“Aludindo à diferente penalização do crime de adultério, Ana de Castro Osório Salienta:

«(…) a mulher casada podia sofrer todas as afrontas, todos os vexames, duma poligamia mal disfarçada, que não tinha o direito de se queixar, como se para ela a consciência e a justiça não existissem! (…) a mulher casada não tinha o direito de pôr os olhos fora da sua própria casa, devendo antes fechá-los com submissão e paciência, como a favorita legítima do senhor, a quem tudo era permitido  sem desdouro. Para ela toda as responsabilidades; para ele todas as vantagens e regalias» (Pimentel & Melo, 2015: 114).

“Mais uma vez, o bem jurídico protegido por estas normas é o da honra, sobretudo a do marido, ofendida pelo comportamento sexual da mulher quando esta estabelece uma relação extraconjugal. O comportamento do marido, quando agride a mulher ou o amante, é considerado socialmente quase aceitável – como escreve Lopes Praça:

«A queda da mulher não só a enlameia aos olhos de quantos a conhecem, mas dissolve todo o amor que alentava a família. O amor paternal, fraterno, conjugal e filial transforma-se em ódio insanável, em desprezo irremediável. O pai tem matado a filha, o irmão a irmã, o marido a mulher, o filho a mãe. E a opinião pública olha todos estes crimes com indulgência. Os criminosos dizem aos tribunais: “Sentia em mim a imperiosa necessidade de desafrontar a minha honra.” E os tribunais atenuam a pena, ou os absolvem.» (Pimentel & Melo, 2015: 114).

“O Código pune igualmente, no capítulo intitulado «Dos crimes contra a honestidade», outros crimes sexuais praticados fora do casamento: o estupro, a violação e o rapto. Estes crimes são delineados tendo em atenção vários factores: se a mulher solteira é ou não virgem (e, logo, «honesta» ou «desonesta»), a sua idade e a violência com que são cometidos” (Pimentel & Melo, 2015: 115).

(…).

“No caso de violação, o legislador não distingue entre mulher «virgem» ou «não virgem» nem maior ou menor de dezoito anos. Porém, na aplicação da lei pelos tribunais, estes factores serão tidos em conta, enquanto preconceitos dominantes na sociedade portuguesa de finais do século XIX, para a determinação da pena aplicável no caso concreto. Como salienta Lopes Praça a propósito da prática judicial em matéria de crimes sexuais, à data:

«Até mesmos os funcionários encarregados do cumprimento da lei, eivados dos preconceitos públicos, facilitam a impunidade dos sedutores (…)»” (Pimentel & Melo, 2015: 115).

(…).

«Perdoa-se ao mancebo a imoralidade e os extravios da juventude; na mulher punem-se essas irregularidades como crimes irreparáveis. Daí o pesar sobre as meninas uma desconfiança de ferro. A mulher não só deve ser imaculada, mas tratar-se de modo que até o contrário nos pareça impossível. Com que razão os princípios de moralidade, à luz dos quais são julgadas as meninas, hão-de ser relaxados na sua aplicação ao procedimento masculino? (…)»” (Lopes Praça, 190) in (Pimentel & Melo, 2015: 116).

“Afigura-se-lhe deste modo indispensável que «os legisladores se pronunciassem severa e abertamente em favor do desafrontamento das mulheres tão severamente punidas pelo seu crime, e contra o sedutor, que a opinião pública proterva e desmoralizada, em lugar de punir exalta, aplaude e até inveja» (Lopes Praça, 190) in (Pimentel & Melo, 2015: 117).

Sinopse

Valter Hugo Mãe em “o nosso reino”:

“Delicadíssima história de uma criança em torno da ansiedade por uma resposta de Deus. Retrato de um Portugal recôndito ao tempo da Revolução dos Cravos que nos conta como em lugares pequenos as ideias maiores são relativamente intemporais e o que acontece ignora largamente o tempo exacto do mundo.
O belo livro de estreia de valter hugo mãe é uma fulgurante prova de imaginação e beleza. Entre a profunda ternura e a difícil aprendizagem da vida, cada dia é um esforço para que se prove a existência do milagre de se ser alguém.”

CRÍTICAS DE IMPRENSA

“Há uma nova presença importante na ficção portuguesa contemporânea. Falo de valter hugo mãe, que surge agora, numa escrita mágica, suave-cruel, entre paraíso e inferno, com o seu romance o nosso reino.”

Urbano Tavares Rodrigues

“A narração do autor é quase que um sussurrar de lembranças, o resgatar de um tempo vivido entre o temor e a confiança nos valores divinos. Mas esse falar deixa às vezes de ser sussurro (…) quando a linguagem se torna menos mansa e lógica, para então enfurecer-se, tornar-se deliberadamente incongruente e torna-se alquimia verbal.”

Ferreira Gullar, Prefácio

“Ou muito me engano (…) ou o romance o nosso reino, de valter hugo mãe, é uma das maravilhas, deste final de ano. (…) É uma fenda no céu. Uma ventania.

Francisco José Viegas

Bibliografia

MÃE, H. Valter.(2016). o nosso reino. Porto Editora.

MILLER, Henry. (2008). Trópico de Câncer. Editorial Presença. Barcarena. pp. 10.11.

PIMENTEL, F. Irene. MELO, P. Helena. (2015). Mulheres Portuguesas. Clubedoautor, S.A. Lisboa

A reviravolta que tarda

Publicado por: Milu  :  Categoria: A reviravolta que tarda, SOCIEDADE

“O caminho mais rápido para mudar a sociedade é o de mobilizar as mulheres do mundo.”

 

Charles Malik

Vem este post a propósito de uma notícia que circulou esta semana no Facebook, que pode ser lida aqui, sobre o acórdão de um colectivo de juízes do tribunal de Évora, que considerou que apertar o pescoço, neste caso um homem apertar o pescoço a uma mulher,  não constitui  um acto de violência doméstica. Esta decisão judicial provocou vastas reacções de repúdio e, o caso não é para menos, é uma decisão no mínimo estranha, uma vez que ela vai contra o espírito da lei, expressa no art. 152º da Lei nº 59/2007 de 04/09/2007, que de um modo sucinto apresenta a seguinte redacção:

Foi claro que, para este colectivo de juízes, uma apertadela do pescoço, desde que não chegue ao estrangulamento,  é coisa sem importância. Não houve homicídio, portanto, o homem, coitado, não merece castigo e mais importante ainda: ficou a saber que pode continuar a apertar o pescoço à senhora.  É só um apertãozito, não é crime, portanto nada lhe acontecerá.

Um dia destes fui a uma conferência na qual foi apresentado um estudo sobre a violência doméstica, que revelou que, grande parte das queixas de violência doméstica do homem sobre a mulher são reincidências. Ou seja, os elevados números de queixas apresentados no estudo não significam novos casos de violência doméstica, mas sim reincidências.

Os agressores, quando condenados, são alvo de penas mínimas, que  constam muitas vezes apenas da obrigatoriedade de frequentar um programa de recuperação que visa reeducar o agressor. Esta é uma nova forma de lidar com as situações de violência doméstica, recomendada pelas organizações internacionais, para que se intervenha junto do agressor prestando-lhe  ajuda. Entende-se que agir assim  é proteger diversas futuras vítimas, não só a vítima em si, mas também a  família da vítima e a família do agressor, o próprio agressor e a sociedade como um todo. Contudo, já tem acontecido que as penas aplicadas nem sequer contemplam o tempo necessário para frequentar estes programas até ao fim, o que dá a perceber que os juízes não conhecem suficientemente esses programas.

Mau sintoma!

Ou seja, condena-se um individuo a uma pena de um ano, quando o programa é de dezoito meses. E assim se incute no agressor a sensação de impunidade.

No entanto, apesar desta incúria, somos um país com a leis mais avançadas no que respeita à violência doméstica. Então como conceber este estado de coisas? Como encarar este desfasamento entre a lei e o que realmente se pratica?

Não é de todo difícil responder a estas questões, pois tudo  isto radica em razões históricas. São reminiscências de um passado, que custa a apagar. É o estatuto inferior da mulher, que faz com que se naturalize muitos actos de abuso praticados sobre ela.

No Capítulo V, do livro “As origens do sufragismo português”, da autoria de João Esteves, especializado na área da História das Mulheres da 1ª República,  podemos ler o seguinte:

“Despojadas de direitos, as mulheres eram ainda descriminadas nas leis que regiam a vida em sociedade. Fartas de serem sistematicamente inferiorizadas, pretendiam «apenas» ser encaradas como iguais aos homens e, por isso, a luta pela modificação do Código Civil (…)” (Esteves, 1998: 79).

“Assinada por Ailema, existiu nas páginas do jornal «A Semeadora» uma secção que se propunha examinar a legislação que afectava a mulher portuguesa, a começar pelo Código Civil, que mostrava «bem claramente, que a mulher é um triste farrapo nas mãos dos legisladores» tornando-a «escrava» e dando-lhe «honras de inepta, nos seus artigos onde constantemente a tutela». O julgamento severo das suas disposições era forçoso já que, tal como todos os outros que tinham sofrido a influência do Código Napoleónico de 1804, não reconhecia ao sexo feminino quaisquer direitos” (Esteves, 1998: 79-80).

“A principal crítica assentava no facto de transformar, legalmente, a mulher num ser inferior e submisso, denunciando-se o artigo que entregava a administração dos bens do casal ao marido” (Esteves, 1998: 80).

“Também Fontana da Silveira, na sua rubrica «Carteira de um Feminista», se insurgiu contra o absurdo da mulher poder viver do trabalho, instruir as crianças do país, ser elogiada pelo sacrifício em prol da pátria e da família e depois recusava-se-lhe o direito de servir de testemunha no reconhecimento de uma assinatura” (Esteves, 1998: 80).

No livro “Mulheres Portuguesas” da autoria de Irene Flunser Pimentel e Helena Pereira de Melo podemos ler:

“O Direito português, à semelhança da generalidade dos seus congéneres europeus, controlou as mulheres em geral de uma forma indirecta, submetendo-as à autoridade de um homem. Primeiro, o pai; depois, o marido” (Pimentel & Melo, 2015: 14).

Ora, foi tempo demais a fazer da mulher um capacho. E mais opressiva se torna esta realidade, quando sabemos que as mudanças são sempre muito lentas. A não ser que as mulheres decidam acordar de uma vez por todas! Na citada conferência a que assisti, a autora do estudo, que durante toda  a apresentação deixou transparecer a sua indignação, legítima (ela bem sabe as conclusões que a sua investigação lhe permitiu retirar desta triste realidade), reafirmou a urgência de continuar a combater  a desigualdade de género.

Mas, antes de prosseguirmos,  analisemos o que é afinal o conceito de género e como se geram as desigualdades de género:

O que a sociologia afinal nos diz é isto:

  1. Ambos os sexos são capazes de qualquer função;
  2. É perfeitamente perceptível que não é a natureza, mas a sociedade que impõe à mulher e ao homem certos comportamentos e normas distintas;
  3. O ser humano nasce sexualmente neutro em atribuições e o meio social em que vive determina os papéis masculinos ou femininos, instituindo assim o género, isto é, hierarquias socialmente constituídas;
  4. Tradicionalmente, os homens foram conduzidos à condição de provedor da família, ao sustento da casa;
  5. Às mulheres foi destinado o papel de ficar junto dos filhos,  sendo considerado uma condição da natureza do sexo;
  6. Estas ideias são meras construções sociais, que pretendem  justificar o domínio do homem sobre a mulher. Assim, a mulher, ingenuamente, acredita que seu lugar mais importante é o lar, que nasceu para ser mãe, que deve sacrificar-se até ao fim pelos filhos e ser fiel ao marido.
  7. De tudo isto, resultou uma sociedade organizada através da constituição de papeis sociais. Um papel social bem definido e atribuído ao homem. Um papel social bem definido e atribuído à mulher. O papel da mulher implica a dependência económica, que por sua vez acarreta dependências de outras ordens, contribuindo para fazer da mulher um ser inferior, que não tem outra alternativa que não seja a submissão. A lei ajudava grandemente a compor o ramalhete.

Mas uma pergunta se impõe, urgentemente!

Quando as pessoas, mesmos aquelas que estão qualificadas para trabalharem esta causa, referem que a luta contra a desigualdade de género não deve conhecer tréguas,

estarão conscientes do que consiste uma verdadeira luta contra a desigualdade de género?

Até onde é necessário chegar para que se possam obter resultados verdadeiramente efectivos, na prática e não só em teoria?

Muito sinceramente acho que não estão verdadeiramente conscientes de que combater a desigualdade de género implica rupturas, é virar esta organização da sociedade de pernas para o ar, se assim pode ser dito. Para atestar esta minha afirmação basta ler a história do feminismo português, mais precisamente a História das Mulheres da 1ª República, entre os anos de 1911 e 1918, para verificar que esta luta já se fazia, praticamente nos mesmos moldes de agora, mas com aquelas mulheres de há um século! Já se lutava contra o facto de ao  homem quase tudo ser permitido  e à mulher quase tudo estar proibido.

Interrogo-me frequentemente de  qual a forma, ou quais as formas, de inverter esta situação.

Se a mulher é vítima de uma desigualdade de género porque acolhe o papel que lhe foi destinado, então porque o acolhe?

Cabe agora citar dois exemplos apresentados por Bourdieu, uma referência na Antropologia e na Sociologia, com a sua análise de como os indivíduos incorporam a estrutura social, legitimando-a e reproduzindo-a:

“(…) a tradicional matança do porco, em que os homens, depois de darem a morte ao animal – acto breve, (medianamente) perigoso, público e espectacular (…), passam a tarde a jogar às cartas, enquanto as mulheres empreendem os actos pouco espectaculares de preparar e guardar as carnes obtidas” (cf. Bourdieu, 1998: 36-37) in (Santos, 2002: 125).

“Por outro lado, tentando mostrar como o homem «viril» e a mulher «feminina» são uma construção e um «artefacto» sociais, em seguida naturalizados, refere o testemunho de um homem que entretanto mudara de sexo e, portanto, se tornara uma mulher.

Neste caso, as expectativas que socialmente pesam sobre o comportamento das mulheres foram-se impondo como devendo ser interiorizadas como padrões a assumir, mesmo que estivessem em discordância com as capacidades da pessoa em causa.

Assim, afirmava, «Quanto mais era tratada como uma mulher, mais me tornava mulher», ou seja, quanto mais baixas eram as expectativas que tinham sobre si, pelo facto de ser (agora) mulher, mais o seu comportamento e as suas capacidades se enquadravam dentro desse modelo. Por exemplo; se lhe diziam que, por ser mulher, era «natural» ter pouco jeito para, ao nível da condução de um automóvel, fazer marcha atrás, ou, a outros níveis, para abrir garrafas ou carregar uma mala considerada pesada, mais ela se sentia incapaz de efectuar essas tarefas com eficácia. Tratava-se, diz Bourdieu, de uma incapacidade ou impotência aprendidas.

Portanto, não era por ser mulher que essas tarefas lhe eram particularmente difíceis de efectuar, mas porque o mundo em que se inseria, de domínio masculino, já tinha determinado há muito quais os comportamento a esperar, ou a desencorajar, de acordo com o género em causa, desencadeando os mecanismos necessários para que as pessoas, ao nível do pensamento e da acção, respeitassem os padrões supostamente «normais»” (Santos, 2002: 125) .

 

Posto isto, só me resta dizer que tudo o que diz respeito à mulher ainda é considerado inferior, e tudo o que diz respeito ao homem é, por sua vez, tido como superior. Por isso mesmo, e ainda não há muito tempo, quando uma mulher tinha uma actividade profissional que se enquadrava nos cânones masculinos, fazia questão de se vestir com exagerada sobriedade, à imagem do homem, com conjuntos de  calça e casaco, ou saia e casaco. Tudo isto para ser tomada a sério. Contudo, esta atitude só servia para dar mais afirmação ao masculino e para inferiorizar as mulheres, que usam rendas e adornos vários, que são considerados futilidades. Mas, se querem que as mulheres não gostem «dessas futilidades» façam o favor de não as enfeitar desde o berço, com rendas, folhos, bordados e berloques.

A título de conclusão sugiro, eu que sou ninguém, por isso mesmo livre de constrangimentos, que a única maneira  das mulheres combaterem a desigualdade de género de forma efectiva é virarem mesmo tudo de pernas para o ar, é não obedecer ao padrão imposto, é  incarnarem um papel diferente daquele que lhes é atribuído à nascença, desde o berço. É fazer diferente daquilo que é esperado que façam. É contrariar o figurino pré determinado.

Não é fácil, mais uma vez cito Bourdieu e a sua teoria, que considero certa, que a mulher vê o mundo com olhos masculinos. Vê o mundo como foi ensinada a vê-lo. É ainda um enigma de como a mulher seria sem os constrangimentos impostos.

Cabe aos pais de agora educarem de forma igual os seus filhos  seja menino ou menina. Acabem com a cor rosa para as meninas e azul para os meninos. Há muitas mais cores. Ofereçam aos filhos os mesmos brinquedos, não façam a clássica distinção entre as bonecas para as meninas e carros para os meninos. Incutam no espírito das meninas, futuras mulheres, que a segurança do seu futuro passa pela independência económica, que se conquista com uma profissão, portanto, que invistam em si, não nos outros.

As mudanças terão de se operar a partir da casa de cada um de nós . Eu já estou a fazer a minha parte.

Bibliografia

ESTEVES, João. (1998). As origens do sufragismo português. Editorial Bizâncio. Lisboa.

PIMENTEL, F. Irene. MELO, P. Helena. (2015). Mulheres Portuguesas. Clube do Autor, S. A. . Lisboa.

Fardos Femininos

Publicado por: Milu  :  Categoria: Fardos Femininos, FEMINISMO

“A verdade te libertará. Mas primeiro ela vai te enfurecer.”

Gloria Steinem

Agora, que um novo ano se inicia,   este blog vai continuar a imprimir o seu cunho e faz saber que persiste na  saga de desconstrução da ordem social estabelecida, com mais um post, desta feita com Nietzsche, num momento de tréguas na sua misoginia, que nos revela o quão pesado tem sido o fardo que é nascer mulher.

“Apeteceu-me gritar”, foi o que disse Simone de Beauvoir, tal foi a sua indignação, perante a  descoberta das opiniões misóginas que alguns conceituados autores antigos mostraram ter sobre a mulher, numa altura da sua vida em que viveu mergulhada nas bibliotecas, nas suas pesquisas  em busca de material para escrever o livro  o “Segundo Sexo”. No livro no qual  li isto mesmo, que relata a vida de Simone, não estava nenhuma nota de quem seriam esses autores exactamente, mas eu sei que são muitos, alguns deles bem antigos e que estudamos no Ensino Secundário e Superior. No entanto, num livro da autoria de Benoîte Groult, intitulado «Assim seja (Ela)», podemos encontrar alguns exemplos, dos quais registo aqui apenas dois, que considero suficientes para avaliar sobre a indignação que terá acometido Simone. Eis um pequeno excerto retirado da obra acima citada, que contém estas pérolas:

«Devemos alimentá-las bem e vesti-las bem», respondia em eco o delicado poeta Byron, «mas não as meter na sociedade. E não devem ler senão livros de piedade e de cozinha.» É também isto que recomendava Baudelaire, grande amador de mulheres, como a maior parte dos misóginos. Chegou mesmo a admirar-se que lhes fosse permitida a entrada nas igrejas. Cada coisa no seu lugar: «o das mulheres era na cozinha ou no bordel» (Groult, 1976: 36).

Já Nietzsche teve a distinta lata de atirar às urtigas o rigor científico, quando pretendeu classificar todas as mulheres de acordo com a impressão que lhe foi conferida pela própria mãe, tal como demonstra nesta sua declaração, transferindo deste modo a responsabilidade para a mulher de todas as desventuras de que ela mesma possa sofrer. Assim, se uma mulher é maltratada pelo seu marido, a culpa é da mãe dele. A mulher como a grande culpada de todos os males da humanidade, pelos vistos! Ouçam-no:

“Herança materna: Todo o homem traz em si uma imagem da mulher que lhe vem da mãe: é ela que o determina [???]a respeitar as mulheres em geral, a desprezá-las, ou a não sentir por elas senão indiferença” in (Santos, 2002: 150).

É ela, a mãe, que o determina. A desculpabilização do homem, se bem analisadas as coisas. Ele não tem culpa, ele é o que a mãe fez dele. Que grande “lata”!

Prestemos agora atenção ao que nos diz Groult e esforcemo-nos por interiorizar esta sua mensagem. É importante, imperioso, que a incorporemos na nossa forma de pensar:

“Toda esta tragicomédia da superioridade do macho na espécie humana, que se encontra no mais alto expoente nas sociedades muçulmanas, sejam quais forem as vantagens marginais que os homens daí possam retirar, terá apenas conduzido a um único resultado: anular o potencial humano de metade da população e privar cada país de cinquenta por cento das suas forças vivas” (Groult, 1976: 19).

“É preciso curarmo-nos de ser mulheres. Não de ter nascido mulheres, mas de ter sido educadas como mulheres num universo de homens, de ter vivido cada etapa e cada acto da nossa vida de olhos postos nos homens e conforme os critérios dos homens. E não é continuando a ler os livros dos homens, a ouvir o que eles dizem em nosso nome ou para nosso bem durante tantos séculos que poderemos curar-nos” (Groult, 1976:  20).

Vejamos então a trégua de Nietzsche na sua misoginia, nestes excertos retirados da obra “Alteridades Feridas”, um Ensaio de Filosofia, da autoria de Laura Ferreira dos Santos, doutorada em Filosofia da Educação, pela Universidade do Minho.

Para compreender o espírito de Nietzsche neste excerto é imprescindível remetermo-nos ao tempo em que as mulheres eram educadas sob uma forte repressão sexual, e que não está tão longe assim, que condenava o sexo antes do casamento, a convivência despreocupada com o sexo oposto, etc.

“Quanto ao segundo comentário que prometera fazer quanto às observações de Nietzsche sobre as mulheres, tem que ver com as (poucas) partes da obra de Nietzsche em que ele reconhece as condições sociais extremamente pesadas que pesam sobre as mulheres. Por exemplo, no ponto 71 da «Gaia Ciência» sobre «A castidade das mulheres», segue um raciocínio neste aspecto muito parecido com o de Freud, quando este fala do modo como a mulher experiencia o casamento, ela que sempre fora educada para a castidade e para a assexualidade, e que de repente tem de aprender a sobreviver num território que lhe era tão estranho” (Santos, 2002: 150).

“Nietzsche afirma que as mulheres pertencentes às classes sociais mais elevadas e cultas sentem no casamento uma contradição enorme entre o amor e o pudor, atendendo ao facto de terem sido mantidas na ignorância «in eroticis». Nessa altura – e o mais provável é Nietzsche estar aqui a referir-se à primeira relação sexual – há nelas um choque enorme entre sentimentos contraditórios, provocados sobretudo pelo facto de o homem, espécie de deus, lhes parecer afinal tão perto da besta animal. E Nietzsche considera este choque tão grande que é nele que vai alicerçar o que designa de extremo cepticismo da mulher” (Santos, 2002: 150-151).

Mas ainda mais explícito sobre estas condições sociais pesadas em que vivem as mulheres é o ponto 68 da «Gaia Ciência», intitulado “Vontade e docilidade, que merece ser citado na sua íntegra:

Um jovem foi levado a um homem sábio a quem disseram: «Vê! Aqui está um que se deixa corromper pelas mulheres!» O sábio abanou a cabeça e sorriu:

«São os homens que corrompem as mulheres. E todas as faltas cometidas pelas mulheres devem ser expiadas e redimidas pelos homens; porque é o homem que cria para si a imagem da mulher e a mulher formada segundo essa imagem.»

«Tu és demasiado tolerante para com as mulheres», disse um dos circunstantes.

«Tu não as conheces.»

O homem sábio respondeu: «A natureza do homem é a vontade, a da mulher é a docilidade. É esta, na verdade, a lei dos sexos, uma lei dura para as mulheres! Todos os seres humanos são inocentes relativamente à sua existência, mas as mulheres são-no duplamente. Quem poderia ter por elas suficiente unção e caridade?»

«Qual unção, qual caridade!», exclamou outro dos presentes. «O que é preciso é educar melhor as mulheres!»

«O que é preciso é educar melhor os homens», disse o sábio e fez sinal ao jovem para que o seguisse, mas o jovem não o seguiu (Santos, 2002: 151).

(…) “talvez possamos dizer pelo menos que Nietzsche, na sua postura sobre a mulher, parece ter-se visto confrontado com três linhas de inspiração: por um lado, o sexismo da sua sociedade e da tradição filosófica ocidental; por outro, o seu «fatum» espiritual, em que as más relações com a mãe e a irmã devem ter pesado demasiadamente em desfavor das mulheres; finalmente, quando conseguia libertar-se um pouco do seu «fatum» e tradição, o reconhecimento de que sobre as mulheres pesava de um modo excessivo a autoridade de uma sociedade patriarcal que não podia senão ser considerada injusta em relação a elas. No entanto, porque esta última linha de inspiração foi a que pesou menos na sua vida, a sua obra debate-se mais com a acusação de misoginia, pois é esse tipo de textos que se encontra mais presente no seu pensamento, não obstante o dito de Nietzsche de que, afinal, os próprios misóginos se odeiam a si mesmos, como escreve no livro IV de «Aurora»:

Inimigos das mulheres. «A mulher é nossa inimiga» – pela voz daquele que, como homem, fala assim aos homens, exprime-se o instinto indomado que não apenas se odeia a si mesmo, mas também odeia os seus meios” (Santos, 2002: 153).

Vá lá, que lhe fugiu a boca para a verdade! “Os misóginos odeiam-se a si mesmos”…

Bibliografia

GROULT, Benoîte. (1976). Assim seja (Ela). Bertrand. Amadora.

SANTOS, F. Laura. (2002). Alteridades Feridas. Ensaio Filosofia. Angelus Novus. Coimbra.