Ai aguenta, aguenta

Publicado por: Milu  :  Categoria: Ai aguenta, aguenta, FLAGRANTES DA VIDA

 

 

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Apetece-me dizer que “não basta ser rico para ser bem educado”. Nunca como agora se ouviu tanta parvoíce proferida pelas pessoas mais insuspeitas.

Aqui deixo um excerto de um livro de George Orwell, um dos escritores mais influentes do século XX, que ilustra bem o que é ficar pobre inesperadamente.

“É bastante curioso, o primeiro contacto que travamos com a pobreza. Pensámos sempre muito, para começar, acerca da pobreza – foi ela que tememos durante toda a vida, aquilo que sabíamos que nos iria acontecer mais tarde ou mais cedo; mas quando acontece é completamente diferente, na sua configuração absolutamente prosaica. Pensámos que ia ser muito simples; mas é extraordinariamente complicado. Pensámos que ia ser terrível; é apenas sórdido e aborrecido. É a extraordinária baixeza da miséria o que se descobre de início; os expedientes que implica, a mesquinhez intrincada, o poupar dos cotos de vela.

Começa-se por descobrir, por exemplo, o secretismo a que a miséria nos força. (…) O primeiro resultado desta atitude é enredarmo-nos numa teia cerrada de mentiras, que não bastam, no entanto, para compor as aparências que a todo o custo queríamos salvar. Deixamos de mandar a roupa para lavar, e quando nos cruzamos com a lavadeira na rua e ela nos pergunta o que se passou, balbuciamos uma vaga desculpa,  cujo único resultado é convencer a lavadeira de que a trocámos por outra, valendo-nos da sua parte um ódio mortal. O homem da tabacaria está sempre a perguntar-nos porque é que passamos a fumar menos nos últimos tempos. Chegam cartas a que gostaríamos de responder, mas não podemos, porque os selos saem muito caros, para as nossas posses. E depois há o problema das refeições – e esse é o pior de todos. Todos os dias, à hora das refeições, saímos ostensivamente, como se fôssemos para o restaurante, e passamos uma hora sem nada para fazer nos jardins do Luxemburgo, a ver os pombos que por lá poisam. Depois, voltamos com os bolsos cheios de comida escondida. Comida composta, sobretudo, de pão e margarina, ou pão e vinho (…). A roupa de dentro vai ficando suja, o sabão e as lâminas de barbear vão escasseando. O cabelo começa a precisar de um corte, e tentamos fazê-lo por conta própria, só que o resultado é tão assustador que acabamos por ter de ir ao barbeiro, gastando o equivalente ao preço da alimentação de um dia inteiro. Passamos o tempo a mentir, e as mentiras são dispendiosas. (…). Pequenos acidentes imprevisíveis podem deixar-nos sem comer a todo o momento. Gastámos, por exemplo, os últimos oitenta cêntimos em meio litro de leite,  e estamos a aquecê-lo numa lâmpada de álcool. Enquanto o fazemos, um percevejo aparece-nos no braço, e nós tentamos afastá-lo com um piparote dos dedos. Mas, eis senão quando, o piparote lança o bicho para dentro do leite a ferver, que tem que ser deitado fora, deixando-nos a sós com  a nossa fome.

(…) Depois, andamos em deambulação numa zona respeitável da cidade e vemos, avançando na nossa direcção, um amigo próspero. Para o evitarmos, escondemo-nos dentro do primeiro café da rua, teremos que fazer qualquer despesa, e é assim que gastamos os últimos cinquenta cêntimos numa chávena de café sem leite, onde uma mosca acaba de se afogar agora mesmo. Estes acidentes acontecem às centenas. Fazem parte do processo de viver sem dinheiro.

Descobrimos também o que é ter fome. Sem outra coisa na barriga, para além de pão e margarina, saímos e vemos as montras das lojas. Por toda a parte, toda a espécie de comida se exibe, como se fosse um insulto à nossa fome, numa profusão escandalosa: porcos assados inteiros, cestas cheias de tranças de pão acabadas de sair do forno, montanhas de manteiga fresca, rosários de enchidos, quilos e quilos de batatas, pilhas enormes de queijo Gruyère. Ao vermos aquilo, enchemo-nos de pena de nós próprios. (…). Descobrimos assim que um homem que durante uma semana inteira só comeu pão e margarina deixou, entretanto, de ser um homem: está reduzido a um ventre dotado de alguns órgãos acessórios.

(…). No entanto, as coisas não chegaram a uma quarta parte das desgraças que eu previa. Porque, à medida que nos aproximamos da miséria, descobrimos uma coisa que alivia um tanto o peso das outras. Descobrem-se aborrecimentos e mesquinhas complicações sem fim e o começo do que significa ter fome, mas descobre-se também o traço redentor da verdadeira pobreza: esta, de facto, aniquila o futuro. Dentro de certos limites, é realmente verdade que, quanto menos dinheiro se tem, menos uma pessoa se preocupa. Quando tudo o que temos no  mundo são cem francos, somos presas potenciais dos pânicos mais desesperados. Quando temos apenas três francos,tudo se torna bastante indiferente; com três francos, uma pessoa come qualquer coisa  para aguentar até ao dia seguinte e não pode pensar em passar além disso. Ficamos aborrecidos, mas não assustados. Pensamos vagamente: “dentro de um dia ou dois, sou capaz de rebentar de fome – é uma chatice não é?” E depois o espírito entrega-se a outros problemas. Uma dieta de pão e margarina segrega, de algum modo, o próprio analgésico que a alivia.

E há outro sentimento que é de grande auxílio na miséria. Julgo que todos os que alguma vez passaram deveras mal o terão experimentado. É  uma sensação de alívio, quase de prazer, perante a ideia de que se chegou de facto ao fundo do charco. Tínhamos pensado muitas vezes que acabaríamos nas urtigas – pois bem, as urtigas ali estão, nós no meio delas, e não é coisa, afinal, que não possamos aguentar. É uma grande preocupação que nos sai de cima” (Orwell, 1985: 18-22).

ORWELL, George. (1985). Na Penúria em Paris e em Londres. Edições Antígona. Lisboa.

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A mosca morta

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Ler este livro perturbou-me!… Os Amantes da Liberdade de Claudine Monteil foi o livro que comecei a ler no último fim-de-semana e acabei de ler esta madrugada de terça-feira de Carnaval. Li-o, portanto, em quatro dias. Este livro faz-nos o relato em traços largos do que foi a vida  de Jean-Paul Sartre e de Simone de Beauvoir, incluindo a descrição do ambiente das suas mortes e respectivos enterros. É aqui que reside o busílis da minha perturbação, porque se de início, os acontecimentos descritos puseram em evidência os seus extraordinários talentos e vocação para o trabalho, que os levou à notabilidade, por outro lado, quase no fim do livro somos levados a assistir ao declínio e à degradação destes dois ícones da liberdade. O fim do livro é mesmo deprimente. De de tal forma me entristeceu que acabei por me deixar afectar por um episódio, que só foi possível devido ao estado emocional em que me encontrava por influência do final do livro. Ou então, é a pieguice da velhice. O que aconteceu foi o seguinte:
Estava eu a ler o relato pungente de um dos enterros, quando se levantou, vinda não sei de onde, uma mosca preta e enorme, que esvoaçava feita uma doida, pelo meu quarto fora, batendo-se contra as paredes com um vigor tal que até me impressionou. Ora, uma coisa destas a altas horas da noite, fez com que me sentisse assolada de maus presságios. Pensei de mim para mim: Será que esta enlutada mosca, me quer dizer alguma coisa? Fiquei logo preocupada com o puto, que andava não sei por onde, vestido de noiva,  a festejar o Carnaval. Tal como sempre faço, quando por algum motivo fique inquieta, aliás, basta-me ouvir a sirene de uma ambulância, que funciona como marcador somático desde o acidente que envolveu o meu pai, peguei no telemóvel e enviei uma mensagem: Está tudo bem? Ele que sabe deste meu problema não demorou a responder-me, como faz habitualmente:  “Ya“. Só isto e apenas isto.  Mas este “Ya” é tudo para mim, tem o condão de me sossegar… Entretanto, apaguei a luz do meu quarto e abri a porta  que dá para o corredor do qual acendi a luz, numa tentativa de fazer com que a mosca saísse do quarto atraída pela luz. Quando me pareceu que já tinha passado tempo suficiente mergulhei novamente na cama a ler o livro. E a mosca tornou a fazer a sua infernal aparição, parecia uma avioneta em voos picados pelo quarto fora. Instantaneamente, quando eu já rangia os dentes de raiva desapareceu do mapa, só a tornei a ver hoje de manhã, que é como quem diz, lá pelo meio-dia quando acordei, que hoje foi dia de preguiçar. Estava ela muito sossegadinha, plantada na parede a esfregar vigorosamente as patas dianteiras, e eu, que ainda não me tinha esquecido do incómodo que me havia causado durante a lúgubre noite, deixei-me levar por instintos assassinos. Vingativa, fui buscar um pano encharcado, e com toda a força de que fui capaz dei-lhe com ele. Toma que é para aprenderes!  Depois, esfreguei as mãos satisfeita e fui lavar  a parede.
Depois desta narrativa criativa, inspirada no carnaval da vida, vou escrever sobre as impressões que colhi na leitura deste livro. Não serão, com toda a certeza, os aspectos mais importantes nele contidos, que isso deixo para os experts no métier, o que me interessa mesmo referir deste livro são apenas alguns aspectos que achei curiosos. Só isso. Contudo, por uma questão de não misturar estilos, fá-lo-ei num outro post que ficará na categoria livros. Quem estiver interessado em ler poderá aceder no separador Livros, ou a partir do link que se segue.

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Socorro! Estou a ser roubada!…

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Hoje, ao abrir a caixa do correio, levei aquilo a que se pode chamar um valente murro no estômago. Tinha uma carta das finanças! A dita carta notifica-me sobre a actualização do Valor Patrimonial Tributário do meu apartamento.
Tendo em conta, que em tempos fui informada, que se não fosse detentora de um património que excedesse um determinado valor, e se, também, não auferisse de rendimentos mais de que uma certa quantia, poderia requerer a isenção do pagamento deste imposto, assim que terminasse  a isenção que resultou da compra do apartamento e da qual gozei durante um prazo de dez anos. Como esse prazo terminou no ano transacto, em 2011, tive logo o cuidado de no início deste ano, em Janeiro, deslocar-me ao departamento das finanças locais para dar despacho ao assunto. Calculem o meu espanto, quando me disseram que isso já tinha acabado, que a isenção do IMi agora só é possível para quem comprar casa em 2012. Incrédula indaguei se não tinha sido criada uma lei qualquer especialmente destinada a salvaguardar situações especiais, como por exemplo, quando a pessoa não aufere um rendimento suficiente, porque não basta a boa vontade, é preciso ter com que pagar. De onde não há, não se pode tirar, esta é uma verdade insofismável! Que não, que isso tinha acabado. Agora é assim: paga e não bufes…
Como podem calcular o meu espírito ficou de rastos, mas imaginem como eu fiquei quando vi agora que o apartamento foi avaliado em 48.300,00 euros. Isto é, em 1998, ano em que foi inscrito foi avaliado em 22.194,51 euros. Em 2002 foi actualizado para 27.038, 07 euros. Hoje, recebo a notificação do novo valor  48.300,00 euros. Dois pontos a destacar disto tudo: Primeiro – Aumento brutal e colossal do Valor Patrimonial Tributável. Segundo – Fim de isenção por baixos rendimentos. Resultado, tudo foi preparado para sacar o mais que se puder.
A pergunta que se impõe, perante este estado de coisas é a seguinte:
O que fazer?
Aguardam-se sugestões! Mas não vale essa de assaltar um banco ou uma ourivesaria. O meu humor está a começar a ficar negro… 😛

 

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