
Decididamente não estou disposta a que me queiram comer as papas na cabeça!
Há uns anos atrás atirei-me de cabeça! Sem qualquer rede para me amparar, numa possível e desgraçada queda, decidi-me pela compra de um apartamento! Por enquanto ainda não me arrependi! É a minha casa e a do meu filho! Quando optei pela compra deste apartamento e não outro, tive em conta determinados parâmetros, que em conjunto, vieram determinar a minha escolha. Um deles foi o valor da prestação do condomínio. Assim que dela tive conhecimento fiquei surpreendida e bastante agradada! Apenas 11,34 euros! Não temos elevador, o prédio tem a altura máxima correspondente ao 2º andar e é constituído por doze fracções. Tudo, ou quase tudo acautelei. Procurei não ceder a impulsos e tomar decisões irreflectidas, confesso que receei estar a dar um passo maior que as minhas pernas!
Inicialmente, aquando da constituição do condomínio, este foi gerido pelos condóminos, as prestações do condomínio eram pagas em quotas iguais entre todos, independentemente das permilagens.
Na altura em que fiz a compra, tinha o prédio três anos de existência, já não era assim, estava a ser gerido por uma empresa especializada no sector, o que o levou à falência, note-se, e as quotas, por sua vez, eram pagas, de acordo com as diferentes permilagens dos apartamentos. Ora a falência do condomínio era de esperar! Com prestações tão diminutas e a pagar a uma empresa os serviços de gestão, o que queria esta gente, afinal? Entretanto, procurei ter uma posição discreta, até porque não conseguia evitar de me sentir uma recém-chegada, logo uma carta fora do baralho, além de que, depois de ter assistido a uma primeira reunião dos condóminos na dita empresa e perante o que observei, senti-me desincentivada para repetir a minha presença! Sabia bem qual era o mal de que padecia o nosso condomínio! Oh! Se sabia! Era falta de dinheiro e de vontade de aumentar as quotas! Ninguém estava disposto a abrir os cordões à bolsa! Isso é que era uma verdade! Pensei, portanto, que a minha comparência em nada viria alterar ou decidir sobre fosse o que fosse, por isso não quis saber de futuras reuniões! Eram uma perda de tempo! Que aumentassem as quotas e pronto!

Porém as coisas não seguiram o rumo que eu esperava! Houve duas reuniões, em nenhuma estive presente. A primeira foi na empresa, à qual decidiram retirar a gestão do condomínio, ainda assim já com saldo negativo, pelo que foi decidido que a gestão passaria a ficar por conta dos condóminos. Até aqui tudo bem! Na segunda procedeu-se, principalmente, à eleição do administrador e a mais qualquer coisa – ouvi, dispersos pelo ar, uns zunzuns de que teria havido uma sugestão, no sentido de alterar a forma de pagamento das prestações do condomínio! Por vontade de todos, iriam, novamente, ser pagas por quotas iguais! Ouvi e calei! Optei por esperar, para ver em como paravam as modas! Nova reunião foi marcada, para a qual fui notificada da minha indispensável presença, pois iria ser necessário assinar a acta, onde pelos vistos, já se encontrava lavrada a alteração à forma do pagamento do condomínio assim como a presunção de que o acordo era unânime!
A reunião realizou-se no apartamento de um dos condóminos, que tomou à sua conta as rédeas dos acontecimentos, importa aqui dizer que nem sequer era o administrador, talvez por este não ter tido a coragem de encabeçar a tramóia, que contra mim tinham urdido!
Assim que ouvi falar em assinar, dei um passo em frente! Alto e em bom som proferi:
- Eu não estou de acordo! Não assino coisa nenhuma! Continuarei a pagar a minha prestação do condomínio em função da permilagem do meu apartamento e nem mais um chavo!
Caiu o Carmo e a Trindade! Foi o fim do mundo em cuecas! E, logo ali o fraco verniz com que algumas destas personagens pretendiam abrilhantar as suas aparências, estalou em fissuras impossíveis de reparar! Tudo foi dito! Cada um a rivalizar com os outros na estupidez! Um deles, um pobre de espírito que ainda tem a veleidade de pensar que me impressiona ou que dele tenho medo, desatou a disparar impropérios reveladores de graves desinteligências, incompatíveis com a raça humana, assim cuspiu o insano – já que eu queria rigor, então, o valor das prestações deveria, também, depender do número de pessoas que viviam em cada um dos apartamentos, nessa altura éramos quatro na minha casa, além de mim e do meu filho, um meu irmão e um sobrinho encontravam-se temporariamente connosco. Prosseguiu ainda no seu delírio, zurrando, que deveria ser tido em consideração também o piso, quem usasse mais lances de escadas mais sujava, mais haveria para limpar, logo também, deveria pagar mais! Este pobre animalejo nem reparou que com estas aleivosias, perfeitamente descabidas além de ilegais, mais não estava a fazer do que a prejudicar os compadres! Já nem filhos podiam ter, os coitaditos, para não aumentar o agregado familiar, quanto às escadas idem, no meu piso, o 2º andar, vivem outras três famílias!
O dono da casa e chefe da quadrilha, onde a reunião decorria achou por bem dar um ar da sua graça e com isso demonstrou que a sua morada ideal devia ser uma caverna e na era dos australopitecos, num tempo em que o cérebro humano ainda não havia atingido o desenvolvimento na sua plenitude! Da boca para fora atirou os opróbrios que lhe convinham! Mostrando-se aborrecido, queixou-se das vezes em que tendo visitas em casa, estas não tiveram lugar onde estacionar o carro, aludindo assim ao facto de o meu carro estar quase sempre na rua, em vez de arrumado na garagem, estorvando por isso os ilustres visitantes! Onde é que isto já se viu? Tamanha barbaridade vinda de uma pessoa convencida de que é um senhor, não esperava eu! Isto tudo porque, este arcaico espécime humano queria que, aqui a miúda, passasse a pagar uma prestação de 15,00 euros, no lugar dos 11,34 euros, enquanto, ele, o chico-esperto, deixava de pagar 18,00 euros, para pagar tanto como eu, ou seja, 15,00 euros! Lá lhe ia parar à mafiosa carteira o meu dinheirinho, que tanto suor, sangue e lágrimas me custa a ganhar! Mil vezes a morte!

Ninguém teve a dignidade, a presença de espírito e a decência de observar que com esta minha atitude eu estava tão-só a exercer a cidadania, defendendo os meus plenos direitos! Nem um só arrepiou caminho, que era o que deveriam ter feito! Uma vez atirado o barro à parede e este não pegou, só lhes restava ter paciência!
Submissos e obedientes, feitos uns carneirinhos, seguindo o exemplo uns dos outros dispuseram-se contra mim e, por conseguinte, contra às disposições impostas pela lei, nas quais eu escorava a minha defesa! É preciso ser burro!
E se vos disser que existem outros dois condóminos cujos apartamentos tem a mesma permilagem do meu! Não acredito que a aparente benevolência, que mostraram ter ao concordar com o aumento da sua quota, tenha sido devida a um pretenso carácter próprio dos otários! Estou mais inclinada a pensar que pretendiam manter o espírito de boa vizinhança, ou, na pior das hipóteses devida a uma imensa cobardia! Mas o dinheiro era deles! Que a ele chegassem um fósforo, se o entendessem!
Perante a minha atitude aguerrida, defensiva, esclarecida e, por isso destemida, cuidei que lhes tinha servido de lição e que, porventura, não mais teriam a fraqueza de espírito e a pouca vergonha de intentar qualquer arremedo menos lúcido contra os meus direitos, perfeitamente salvaguardados pela lei! A prudência e o bom senso assim o recomendavam! Mas não! E não é que me enganei! Mais uma vez vou ter de lhes ensinar à má fila com quantos paus se faz uma canoa! Burros inveterados!
Embora houvesse duas elas metidas nesta intentona, delas não falarei, pelo menos por agora, acresce o facto de não terem tido uma participação activa. Ainda chegaram a soprar, mas foi um assobio muito débil, pois se nem me lembro do que disseram! O fraco ataque não terá sido devido à solidariedade feminina! Que essa esteve sempre ausente! Foi antes a surpresa, que as paralisou! Provavelmente esperavam que me intimidasse, por estar isolada! Estão habituadas a obedecer aos homens! Primeiro ao pai, depois ao marido!
Mas eu não tenho medo, não preciso de comprar um cão!
Não percam o próximo folhetim!




